Os flanelinhas e nossas duas opções

Tomador de conta na rua atrás do jornal onde trabalho. Foto: Gustavo Baxter / O Tempo, em março/2014

Tomador de conta na rua atrás do jornal onde trabalho. Foto: Gustavo Baxter / O Tempo, em março/2014

Normalmente eu sou uma pessoa calma, mas, se você quiser me ver fora do sério, brava mesmo, me acompanhe até o carro no dia em que um “tomador de conta” me abordar. Não vou chamá-los de flanelinhas, porque foi-se o tempo em que carregavam uma flanela qualquer que aparentasse remotamente com a prestação de um serviço.

É um dos poucos momentos em que eu fico realmente furiosa. “Vou olhar seu carro, tá?” geralmente é uma pergunta retórica, acompanhada de uma ameaça velada: “Se não me pagar por isso, seu pneu pode não estar tão cheinho quando voltar”. Eu nem respondo. Geralmente, só olho carrancuda, bem nos olhos da pessoa, e continuo no mesmo passo. Obviamente, o tomador de conta não toma conta de nada. E, quando volto do trabalho, costuma ser outro me recepcionando com um agressivo: “E o dinheiro do cafezinho?” Respondo com faíscas nos olhos: “Não!”. E ele fica puto, claro.

Mas não tanto quanto eu. Todos os dias o ritual se repete. Muitas vezes prefiro parar bem longe do jornal, no fim do quarteirão, só para não ter que passar por esses diálogos irritantes.

O tomador de conta é, no meu ponto de vista, uma pessoa que ganha a vida com base na coerção. Da mesma forma que um fiscal do poder público que seja corrupto e ameace um bar se não receber uma propina semanal. Ou um policial corrupto que aja de forma semelhante. Ou um jornalista corrupto que cobre um valor para falar bem de uma fonte. Ou qualquer outra forma de corrupto, essa praga que existe em todas as profissões. É um tipo de corrupção, por ser um tipo de extorsão, sem que nenhum serviço real seja oferecido em troca.

Aliás, esse é o ponto em que eu queria chegar. O cara que está na rua lavando os carros merece todo o meu respeito. Ele oferece um serviço e pede um dinheiro por isso. Mesmo que não esteja pagando os impostos, isso é lá com a secretaria da Fazenda. A mim, ele não me causa qualquer transtorno, vejo como um trabalhador autônomo que está ganhando a vida. Já o “tomador de conta” não faz nada além de tomar conta da rua, tomar o espaço público para si de forma desonesta. Já vi alguns segurando vagas para outras pessoas (aquelas que topam pagar para eles), o que é totalmente ilegal. Já vi váááários pedindo pagamento adiantado — de R$ 10, R$ 20, R$ 30, até R$ 100!!!!! — em dias de eventos mais concorridos. Sem seguro, sem nada que justifique você ter que pagar para aquela pessoa física, além da mais pura coerção ou falta de opção. Muitos saem do universo velado e partem pra agressão verbal explícita. “Se não pagar, vai ver…”.

E a gente tem duas opções: pagar, e alimentar esse loteamento das ruas públicas, ou não pagar, e arriscar-se por isso. Eu sempre opto pela segunda. Por mim, podem riscar o carro inteiro, de cima a baixo, mas me recuso a compactuar com esse roubo velado. (E fico torcendo para só o carro ser o alvo de uma possível vingança, não eu.) Às vezes, até, essa opção pode render uma punição de verdade. É raro, mas acontece.

E você? Como vê essa situação e como reage a ela? No seu bairro ou cidade isso também é muito comum?

Leia também:

faceblogttblogPague com PagSeguro - é rápido, grátis e seguro!

Anúncios

Você tem olhado o que vê pela frente?

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Não sei se foi a temporada morando sozinha ou se sempre tive esses momentos de introspecção, mas foi com eles que aprendi a perceber que estava olhando o mundo ao redor. Porque acho que às vezes a gente se esquece. A gente se concentra em um foco e desfoca o redor dele. Ou, muitas vezes, andamos tanto no automático que nem o foco entra direito em nosso cérebro.

Vou dar um exemplo: vamos supor que você dirija, todos os dias, cerca de 15 km entre sua casa e seu trabalho. É um trajeto respeitável e você o cumpre, religiosamente, de segunda a sexta. Passando por um mesmo lugar com tanta frequência, deveríamos, no mínimo, saber descrever tudo o que se encontra pelo caminho, certo? Mas quanto desse percurso você consegue detalhar, se parar pra pensar? Quantas bancas de revista cruzam seu caminho? E quantas quaresmeiras floridas? Já reparou naquela casa linda que fica na esquina da avenida com a ruazinha íngreme?

Na verdade, você entra no carro e avisa ao seu cérebro: “Olha, você só precisa me levar praquele lugar de sempre, naquele caminho de sempre, e dirigir daquele jeito que você já sabe, passando as marchas de acordo com o barulho do motor e parando nos sinais vermelhos. Beleza?”. O cérebro concorda, começa a viagem, e você vai indo, distraída em seus pensamentos, sem olhar muito o que acontece ao redor. No máximo, tendo que se concentrar com um ou outro barbeiro que corta seu caminho.

Na hora que o sinal fecha, ainda dá tempo de espiar o carro ao lado, o casal passeando com um cachorro na calçada, a quaresmeira florida — que bonita! — do outro lado da rua. Mas a verdade é que, nessas horas, muita gente já está trocando o prazer de olhar pelo vício de checar rapidamente o celular e ver se nenhuma nova mensagem de WhatsApp pipocou nesse meio-tempo.

Mas de carro é complicado ver o mundo mesmo, pode-se alegar. É caminhando que a gente consegue ler realmente todas as plaquetas das casas, descobrir que o prédio da outra rua esconde uma escada na garagem que você nunca tinha visto antes, se maravilhar com as costelinhas assadas que o mercado do bairro vende, detectar que existe uma lojinha de coisas encantadoras naquele caminho, reparar no verde escandaloso com que pintaram aquela casa, se alegrar com a existência de um cachorro tão grande que mais parece um bezerro, preso naquele quintal, se impressionar com a forma redondíssima da copa daquela árvore, que até parece cuidada por um jardineiro da Disney.

Mas, fala a verdade: mesmo a pé você tem conseguido ver o mundo ao seu redor? Reparar nas pinturas de flores que fizeram no portão daquela casa abandonada? Se impressionar com as flores estranhas e coloridas que surgiram no meio daquele lote vago? Perceber que aquela babá cuida com muito mais carinho da menininha que seus pais impacientes? Cumprimentar os malabaristas do sinal, que trabalham ainda com mais afinco  nos domingos e feriados? Descobrir que existe um boteco novo naquela esquina, mas, puxa vida, este é bem copo-sujo? Se emocionar com as luzinhas se acendendo na favela, uma a uma, formando uma gigantesca árvore de natal contra o céu da hora mágica?

O automatismo é uma arma que nosso cérebro criou para descansar um pouquinho. Ele nos permite saber chegar em casa, respirar, colocar um pé diante do outro, desviar dos buracos e parar nas faixas de pedestre sem ter que pensar seriamente em cada um desses gestos. E assim nos deixa com tempo e segurança para pensar em outras coisas mais importantes, como a sobrevivência no mundo, uma preocupação incômoda qualquer ou a mais nova ideia para um best-seller. Mas o automatismo também pode nos desviar da absorção do mundo. Da incrível oportunidade de sugar as imagens, sons e cheiros que existem nas ruas. Das descobertas maravilhosas que fazemos com o simples gesto de olhar.

Então, deixo esta sugestão ao seu cérebro acomodado, com tendências a sempre buscar o que é mais fácil: Ô, massa cinzenta! Sacode um pouquinho essas células aí e deixa o mundo entrar! Cansa, mas vale a pena. Só assim você ainda poderá se surpreender enxergando o que nunca antes conseguiu ver. Inclusive os olhos de outra alma interessante que estiver à solta nas ruas, como você.

Leia também:

faceblogttblog

#PorUmaComemoraçãoSemBombas

bombas

Eu adoro fogos de artifício, daqueles que enchem o céu de luzes coloridas, indispensáveis nas viradas de ano. Mas já não curto os fogos que são apenas bombas, que só fazem barulho, como se estivéssemos num campo de guerra.

Esperei meu Galo ganhar a Copa do Brasil para abordar o assunto, porque o que vou defender a seguir diz respeito a todos os times de futebol, está longe de ser exclusividade de uma torcida ou outra.

O negócio é o seguinte: é mais que normal haver alegria, festa e comemoração no dia que nosso time vence um título importante, como a Libertadores, o Brasileirão e a Copa do Brasil. Tudo bem soltarem uns foguinhos logo que o jogo termina, passarem pelas avenidas (não ruas de bairro) buzinando logo que o jogo termina, vizinhos gritarem um “Viva o Time Tal!” ou “Perdeu, Time Qual!” nas janelas logo que o jogo termina. Mas tudo tem limite — o limite do bom senso.

Ficar a noite toda soltando bombas de dez em dez minutos extrapola qualquer limite. Temos que lembrar que um terço da população de Beagá não torce para time nenhum — ou seja, está totalmente alheia ao que motiva a alegria que atleticanos e cruzeirenses viveram nesta semana. Provavelmente só querem uma boa noite de sono antes de encarar a labuta do dia seguinte.

Temos ainda cerca de 60 mil bebês com até 2 anos vivendo na capital mineira. Esses bebês ainda não sabem para que time torcem, querem apenas comer, fazer suas necessidades e dormir — querem sossego, enfim. Imagina como se sentem quando são bombardeados durante o sono? E os pais desses bebês, que precisam acordar de madrugada para acalmá-los, aos berros?

Considerando as crianças com até 4 anos, são 132 mil. Elas ainda não entendem por que diabos estão sendo acordadas com tanto estardalhaço durante a noite, por que algumas pessoas estão fazendo tanto barulho, por que alguns estão gritando de felicidade e outros, de tristeza. O que entendem é que estão com sono e querem dormir.

Existem ainda pelo menos 17 mil grávidas na cidade, que também já sofrem com várias dificuldades próprias do período de gestação, que estão mais suscetíveis ao cansaço e ao estresse, que ainda precisam trabalhar, e certamente querem sossego na hora do sono.

E a população idosa? Cerca de 300 mil pessoas que moram em Beagá têm mais de 60 anos — dessas, 137 mil têm mais de 70 e 45 mil têm mais de 80 anos. São pessoas com mais sensibilidade auditiva e, em muitos casos, com a saúde mais frágil. Também é razoável supor que eles queiram uma boa noite de sono, sem sustos durante a madrugada.

Além disso, são 275 mil cães e 55 mil gatos vivendo em Belo Horizonte. Ao ouvirem os estrondos das bombas, esses pets sofrem com perda auditiva, ansiedade, tremores, taquicardia e, em alguns casos, podem até, literalmente, morrer de medo. Imagine a dor dos donos desses bichinhos que não param de ganir e chorar durante todo o alvoroço? Já me aperta o coração ouvir o cachorro do vizinho chorando, que dirá se fosse o meu.

Minha pergunta é: é indispensável mesmo soltar fogos e bombas para comemorar uma alegria no futebol? Sem os fogos, os rivais já não se sentirão devidamente provocados pela derrota sofrida?Será que não é possível comemorar sem provocar transtornos a milhares de trabalhadores que apenas não gostam de futebol, além de bebês, crianças pequenas, pais de crianças pequenas, grávidas, idosos e donos de pets pela cidade afora? No seu círculo de amigos, quantas pessoas se encaixam em todas essas categorias? Você já conversou com elas sobre isso, para ver o que pensam?

Eu falo por mim. Adoro futebol, acompanho, torço, vibro, comemoro muito quando o Galo vence um jogo ou um campeonato. Mas me incomodo quando vejo que as bombas continuam a estourar durante toda a madrugada, porque lembro das minhas irmãs, com filhas pequenas e com cachorrinhos, reclamando do quanto são afetadas por isso. Tive o azar de estar em São Paulo, a poucos metros do Minhocão, quando o Corinthians foi campeão do Brasileiro, da Libertadores e do Mundial e posso dizer: foi um INFERNO. Por não ter nenhum interesse no time em questão, foi ainda mais insuportável para mim, e entendi melhor o ponto de vista daquele um terço que não está nem aí para futebol: a festa durou a noite inteirinha, e eu acordava tremendo, morrendo de susto, coração na boca com o som dos rojões, às 2h… 3h… 4h… 5h… 6h da madrugada. Podem me chamar de mal-humorada, mas não acho isso certo. E mais: acho desnecessário.

Por tudo isso, lanço agora uma campanha. Se concordar, embarque nela comigo, ajudando a divulgar por aí e compartilhando com seus amigos que não pararam de reclamar da barulheira dos rojões na última semana: #PorUmaComemoraçãoSemBombas. De quebra, ainda estaremos contribuindo com a tão necessária paz no futebol 😉

Leia também:

Galeria com 50 grafites em Belo Horizonte

Há exatamente 15 dias, escrevi um pouco aqui no blog sobre o grafite (ou graffiti, como preferem alguns puristas) produzido em Belo Horizonte. Para fazer o post, contei com a valiosa ajuda de pessoas mais entendidas no assunto, como os grafiteiros Davi de Melo Santos e Maria Raquel Bolinho, além das explicações de Beto Trajano. E prometi, naquele dia, que, logo que eu juntasse um número razoável de fotografias, criaria uma galeria de imagens agrupando vários dos trabalhos espalhados pelas ruas da cidade.

Pois bem, hoje, depois de uma volta pelos bairros Santa Efigênia e Serra, consegui chegar a 50 imagens. Por isso, resolvi dar o pontapé na galeria, que terá um espaço fixo no blog, na abinha vermelha aí em cima. Sempre que eu vir mais algum grafite bonito, vou fotografar (mesmo que só com o celular mesmo) e acrescentar na galeria. Sempre que receber contribuições dos leitores, farei o mesmo. E assim esta categoria será bastante dinâmica e cada vez mais completa e mais rica — como acontece com a arte de rua produzida na nossa terrinha.

Por enquanto, tenho representantes das seguintes regiões da cidade: centro-sul (Funcionários, Savassi, Serra, Mangabeiras, Morro do Papagaio), leste (Santa Efigênia, Pompeia, Santa Tereza), oeste (Barroca, Estrela Dalva) e noroeste (Santo André).

Quer visitar a galeria? Clique AQUI ou vá direto para a abinha “Grafite em BH”, acima. É possível ver em mosaicos, com as imagens pequetitas, ou clicar sobre uma delas e ver em forma de apresentação de slides, com as devidas legendas dando o nome do artista, localização da obra e outros detalhes. Bom divertimento 😉

grafite2

Bem-vindo, querido outono!

As últimas semanas estão tão enlouquecidas, que ainda nem tinha me dado conta de que minha estação do ano favorita já estava a pleno vapor. Começou a era das noites frescas e estreladas, dos dias de céu estupidadamente azul e sem nuvens, das quaresmeiras carregadíssimas — assim como várias outras árvores de flores — e, agora, da trégua nas chuvas, mas ainda sem a secura insuportável do inverno.

Bem-vindo, outono! 😀

Foto: CMC

Foto: CMC. Tirada em 7.4.2014

Leia também: