A gente se acostuma a se acostumar

‘E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas’ (Marina Colasanti)

Tenho passado os últimos dias meio cabisbaixa. Dias, semanas, não sei bem. Acho que já transpareci isso por aqui. Pensando em coisas mais ou menos assim: “A gente se acostuma a desistir dos nossos sonhos. A gente se acostuma a viver como uma máquina. A gente se acostuma a se conter. A gente se acostuma a passar sempre pelo mesmo caminho e nem mesmo olhar ao redor. A gente se acostuma com rotinas sem sentido. A gente se acostuma a achar que não pode mais. A gente se acostuma a achar que podemos pouco. A gente se acostuma a achar que já passou da hora. A gente se acostuma a se acomodar. A gente se acostuma a se acostumar com tudo, até o que fazemos de pior ou o que deixamos de fazer de melhor.”

E eis que hoje li um texto de Marina Colasanti que vai muito além. Foi retirado do livro “Eu Sei, Mas não Devia” (Rocco, 1996, página 9). Foi escrito em 1972, mas podia ter sido escrito ontem, de tão atual (ou atemporal) que é. Deixo a íntegra para quem quiser abraçar a mesma reflexão — e que seja útil a vocês como está sendo para mim:

 

“Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer Continuar lendo

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A ‘elalização’ do mundo, em três cenas

1

Dia desses fui ao clube. Estava um céu azuuuul, sem sinal de nuvens, um sol fortíssimo, crianças brincando na piscina. Um daqueles dias deliciosos para descansar, observar as pessoas, se divertir. Tomar um picolé sem culpa, botar o papo em dia, uma cervejinha gelada para os não grávidos. Eu estava sozinha, mas com o espírito leve — nadei, comi um Fandangos de presunto, comecei a ler um livro novo, até tirei uma soneca debaixo do sol. Só tirei o celular da bolsa para o caso de o marido, de plantão, dar o telefonema costumeiro. Quando olhei ao redor, tomei um susto: todas as mesas e cadeiras estavam cheias e, em todas elas, sem exceção, as pessoas estavam olhando para seus celulares e smartphones. Sentadas, na sombra do guarda-sol, seus olhos fixos na telinha, dedos agitados deslizando sobre os teclados virtuais.

***

2

Todos os dias, dou carona a uma grande amiga até o trabalho. Quando chego na porta da casa dela, ela não costuma reparar. Está sentada, de costas pra rua, olhando sempre para baixo: para o smartphone, no colo. Olhos fixos na telinha, dedos deslizantes no teclado virtual, às vezes preciso buzinar uma segunda vez para ela “acordar” para o mundo real. Noutro dia, ela sacou o celular da bolsa, já dentro do carro, para ver o que o Waze dizia sobre o trânsito que enfrentaríamos, que parecia mais lento que de costume. Acessou o Waze, passou a informação, e continuou navegando, distraída, sem se dar conta. Fomos até o jornal com ela conectada ao meu lado, silenciosa. Outro dia fiz uma observação: “Todo dia, quando chego, você está mergulhada no celular, já reparou?” Ela rebateu: “Mas é que nessa hora estou sozinha…”.

***

3

Estamos em um show, um dos melhores shows em que já estive na vida. Madeleine Peyroux, com sua voz de Billie Holiday, no Palácio das Artes. A acústica montada por sua equipe de engenharia de som é tão perfeita que, até lá no fundão do teatro, no ponto mais distante do palco, conseguimos ouvir sua voz, baixinha, como se estivesse soprando em nosso ouvido da cadeira ao lado. Mal enxergamos a cantora e musicista, mas a escutamos melhor do que nunca. É um daqueles shows em que toda a plateia prende a respiração, não dá um pio, o escuro é absoluto, a vontade é de absorver cada acorde como se fôssemos uma esponja. Sem direito a distrações, ninguém ousa nem sequer fazer uma foto. Mas, uma fileira adiante de onde estamos sentados, uma luzinha insiste em ficar acesa o tempo todo: um Galaxy gigante, daqueles que parecem um tablet, é acionado a todo momento para troca de mensagens no WhatsApp.


 

A cada dia que passa, mais me sinto dentro do filme “Ela“, de Spike Jonze. Mas, em vez de ver uma multidão distraída com o mundo externo, 100% concentrada em seus óculos inteligentes, vejo as pessoas com as cabeças baixas, dedos vorazes, conectadas em seus smartphones (isso até os smartglasses e watches pegarem!). Sei que a internet é um mundo atraente, com milhões de coisas interessantíssimas. Mas sinto que, absortas (e dependentes) demais por esse mundo virtual, as pessoas estejam perdendo o sol, o céu azul, os passarinhos, o movimento das ruas, as músicas mais belas, os filmes no cinema e até o convívio com as outras pessoas!

ela

E não estou aqui dizendo que estou imune a essa “elalização” do mundo. Eu também me surpreendo enfurnada em um smartphone nos momentos mais impróprios. Mas tenho feito um esforço para me desconectar um pouco. Neste fim de semana, vou radicalizar: vamos para um cantinho no meio do mato, desses em que nem o telefone pega direito, muito menos a internet 3G. Sem TV no quarto. Só um mergulho na natureza, nas matas, nos passarinhos, no céu estrelado e, com sorte de o tempo colaborar, nas cachoeiras. Volto na semana que vem, muito mais relaxada, e, quem sabe, posso até compartilhar aqui no blog algumas informações sobre esse “spa antitecnologia”. Até lá 😉

Leia mais sobre as discussões tecnológicas:

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Contribuição de leitor: ‘Como parei de fumar’

Estou adorando os textos enviados pelos leitores nas últimas semanas! E fico gratificada demais por saber que o blog é lido por gente tão inteligente e que produz conteúdos de tamanha qualidade 😀

O texto de hoje foi enviado pelo jornalista de Suzano (SP) Douglas Pires, de 38 anos, editor do portal G1 e formado pela Universidade Braz Cubas (Mogi das Cruzes). Quem gostar do conto dele pode ler mais em seu blog.

Vamos ao texto dele:

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-).

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-).

“Estava diante da janela da sala com a cortina e vidros abertos para fazer a fumaça escapar. Passava das 23h quando dei uma longa tragada no cigarro de filtro branco. Pensava que no dia seguinte tudo seria diferente. Esse foi o último cigarro que fumei, no final da noite do dia 25 de janeiro de 2010. Desde então, nem mais uma tragada. São cinco anos sem a substância.

Fui um adolescente que nunca dei muita bola para esse negócio de cigarro. Meu pai fumava [ex-fumante]. Meu irmão mais novo dava umas tragadas por aí [ele ainda fuma], mas eu não ligava muito. Porém, no final dos anos 90, encasquetei que queria aprender a tragar.

Já tinha uns 18. Queria saber soltar a fumaça e passei rápido por esse exercício fácil. No começo dá até tontura. Fiquei nessa de fumar de vez em quanto por uns 6 meses. Entrei na faculdade e, antes de aprender Metodologia Científica, já era um fumante. No ano seguinte estava fumando quase um maço por dia.

Quem fuma sabe. O falso bem estar inexplicável não vem apenas do ato de tragar aquela fumaça tóxica. O cigarro é o companheiro de mentira em horas felizes, tristes e agitadas. Se espera alguém: fuma. Se a pessoa chega: fuma. Se termina um trabalho: fuma. Se vai começar um trabalho: fuma de novo. O ato de fumar se envolve na rotina do viciado. Por isso que é realmente extremamente difícil abandonar isso. Você sente a falta da droga na corrente sanguínea e também sente a falta da companhia do cigarro nas coisas que fazia com ele. [Só fumantes e ex-fumantes entenderão 100% essa passagem do texto]. E, se eu ainda fumasse, talvez daria uma pausa agora para acender um.

Não sou chato ex-fumante, daqueles que gostam de palestrar diante dos que ainda usam a substância. Quem quer fumar, fume. Falo que consegui parar com muito prazer, mas somente se houver um momento oportuno. Não ligo para o cheiro da fumaça. Ela nunca me incomodou e, mesmo depois da separação, não ligo de estar ao lado das pessoas que fumam.

Pois bem. Depois de anos ao lado do cigarro a vontade de parar começou a piscar no painel. Em 2003, cheguei a ficar seis meses sem fumar, mas acabei voltando. É que não adianta os outros quererem. Quem toma é decisão é quem fuma. No final de 2009, fiz um check up e o médico disse: “Douglas, você está ótimo, não tem nada. Vai esperar ter alguma complicação para largar o cigarro?”. Aquela frase martelou na minha cabeça de forma cadenciada durante um tempo. Como uma bate estaca da construção civil.

Parar de fumar não é como deixar de comer algo que você gosta. É diferente de não ir mais naquele bar que você ama. Não é igual desistir de um curso que sempre quis fazer. Nada disso. Abandonar o vício é deixar de consumir algo que o corpo pede de forma gritada.

Mas é possível parar de fumar. Claro que é. Depois que saí da sala do médico a ideia de parar com a droga ficou na minha cabeça. Só precisava elaborar um plano para isso. Era meados de setembro de 2009 quando comecei a me preparar e fixei uma data. Pensei comigo: fumarei até o dia 25 de janeiro do ano que vem. Depois disso, não mais. E sabia que esse dia chegaria. Depois do Natal e Ano Novo logo veio a noite do dia prometido. E lá estava: eu e ele. Fumei o último cigarro como se estivesse despedindo de alguém que não queria mais ver. [Vai embora, será melhor para mim]. Essa era a pegada.

No dia seguinte as pessoas logo perceberam que eu não mais mantinha entre os dedos aquele pequeno cilindro de papel nocivo. Os dois meses seguintes foram difíceis. Muito difícil. A abstinência dói. Mas é como atravessar uma turbulência, uma tempestade, uma noite escura… uma hora acaba. E quando passa, você sente uma satisfação imensurável.

Um ex-fumante sempre lembrará que já foi fumante, mas dá pra conviver com isso numa boa. Dá vontade as vezes, mas é algo fácil de lidar. Como se fosse vontade de comer lasanha. Se não tem, não come. Dá para viver sem lasanha.

A pior parte é que engordamos. O alimento fica mais gostoso. No entanto, muitas vezes mantemos alguns rituais da época da droga. Por exemplo, trabalho com alguns fumantes e ainda frequento o fumódromo para papear e descontrair. Eles fumam e eu como uma banana.

Depois de atravessar a dolorosa separação até parece que foi fácil. Tomo café e cerveja e nem lembro que ele existe. Mas não foi fácil. Por isso sempre digo aos mais novos e às pessoas que estão nessa de aprender a tragar, como eu fiz um dia. O caminho mais fácil para largar o cigarro é nunca fumar. Estou livre há cinco anos.”

Você também quer enviar um texto para o blog? CLIQUE AQUI e compartilhe comigo! Pode ser conto, crônica, poema, reportagem, resenha (de filme, livro, CD, show, restaurante…), artigo de opinião, divagações etc. Vou avaliar e, a menos que não tenha nada a ver com a proposta do blog, seu trabalho será publicado aqui nesta categoria dos textos enviados por leitores.

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Você tem olhado o que vê pela frente?

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Não sei se foi a temporada morando sozinha ou se sempre tive esses momentos de introspecção, mas foi com eles que aprendi a perceber que estava olhando o mundo ao redor. Porque acho que às vezes a gente se esquece. A gente se concentra em um foco e desfoca o redor dele. Ou, muitas vezes, andamos tanto no automático que nem o foco entra direito em nosso cérebro.

Vou dar um exemplo: vamos supor que você dirija, todos os dias, cerca de 15 km entre sua casa e seu trabalho. É um trajeto respeitável e você o cumpre, religiosamente, de segunda a sexta. Passando por um mesmo lugar com tanta frequência, deveríamos, no mínimo, saber descrever tudo o que se encontra pelo caminho, certo? Mas quanto desse percurso você consegue detalhar, se parar pra pensar? Quantas bancas de revista cruzam seu caminho? E quantas quaresmeiras floridas? Já reparou naquela casa linda que fica na esquina da avenida com a ruazinha íngreme?

Na verdade, você entra no carro e avisa ao seu cérebro: “Olha, você só precisa me levar praquele lugar de sempre, naquele caminho de sempre, e dirigir daquele jeito que você já sabe, passando as marchas de acordo com o barulho do motor e parando nos sinais vermelhos. Beleza?”. O cérebro concorda, começa a viagem, e você vai indo, distraída em seus pensamentos, sem olhar muito o que acontece ao redor. No máximo, tendo que se concentrar com um ou outro barbeiro que corta seu caminho.

Na hora que o sinal fecha, ainda dá tempo de espiar o carro ao lado, o casal passeando com um cachorro na calçada, a quaresmeira florida — que bonita! — do outro lado da rua. Mas a verdade é que, nessas horas, muita gente já está trocando o prazer de olhar pelo vício de checar rapidamente o celular e ver se nenhuma nova mensagem de WhatsApp pipocou nesse meio-tempo.

Mas de carro é complicado ver o mundo mesmo, pode-se alegar. É caminhando que a gente consegue ler realmente todas as plaquetas das casas, descobrir que o prédio da outra rua esconde uma escada na garagem que você nunca tinha visto antes, se maravilhar com as costelinhas assadas que o mercado do bairro vende, detectar que existe uma lojinha de coisas encantadoras naquele caminho, reparar no verde escandaloso com que pintaram aquela casa, se alegrar com a existência de um cachorro tão grande que mais parece um bezerro, preso naquele quintal, se impressionar com a forma redondíssima da copa daquela árvore, que até parece cuidada por um jardineiro da Disney.

Mas, fala a verdade: mesmo a pé você tem conseguido ver o mundo ao seu redor? Reparar nas pinturas de flores que fizeram no portão daquela casa abandonada? Se impressionar com as flores estranhas e coloridas que surgiram no meio daquele lote vago? Perceber que aquela babá cuida com muito mais carinho da menininha que seus pais impacientes? Cumprimentar os malabaristas do sinal, que trabalham ainda com mais afinco  nos domingos e feriados? Descobrir que existe um boteco novo naquela esquina, mas, puxa vida, este é bem copo-sujo? Se emocionar com as luzinhas se acendendo na favela, uma a uma, formando uma gigantesca árvore de natal contra o céu da hora mágica?

O automatismo é uma arma que nosso cérebro criou para descansar um pouquinho. Ele nos permite saber chegar em casa, respirar, colocar um pé diante do outro, desviar dos buracos e parar nas faixas de pedestre sem ter que pensar seriamente em cada um desses gestos. E assim nos deixa com tempo e segurança para pensar em outras coisas mais importantes, como a sobrevivência no mundo, uma preocupação incômoda qualquer ou a mais nova ideia para um best-seller. Mas o automatismo também pode nos desviar da absorção do mundo. Da incrível oportunidade de sugar as imagens, sons e cheiros que existem nas ruas. Das descobertas maravilhosas que fazemos com o simples gesto de olhar.

Então, deixo esta sugestão ao seu cérebro acomodado, com tendências a sempre buscar o que é mais fácil: Ô, massa cinzenta! Sacode um pouquinho essas células aí e deixa o mundo entrar! Cansa, mas vale a pena. Só assim você ainda poderá se surpreender enxergando o que nunca antes conseguiu ver. Inclusive os olhos de outra alma interessante que estiver à solta nas ruas, como você.

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Como perdi 7 kg sem perder a cabeça

Já falei várias vezes aqui no blog: sou contra pessoas bitoladas por causa de peso, sou contra excesso de magreza, sou contra pessoas que abdicam de comida de verdade para comerem grãos, igual passarinho, ou vitaminas e suplementos artificiais, sou contra o preconceito exacerbado que existe contra os gordos, sou contra forçação de barra para se encaixar em um padrão de beleza — magra, cabelo liso, unhas feitas, pernão etc. Acho que as mulheres precisam tomar ainda mais cuidado para não cair nessa armadilha moderna.

Mas acho importante a gente procurar ter uma vida saudável, praticar exercícios regularmente e cuidar para que o colesterol e as outras coisas fiquem nos níveis recomendáveis.

Havia pelo menos dois anos que eu estava numa dieta 100% livre. Por livre, entenda descontrolada, esbórnia total. Eu comia torresmo e barriga como quem toma água, me esbaldava em churrascos de sexta a domingo, comia pipoca lotada de manteiga derretida por cima, fazia panelas de brigadeiro, comia chips à vontade, essas coisas. Nunca me importei muito em ser uma beldade, então dava de ombros para qualquer tipo de restrição na dieta. Mesmo assim, sempre pratiquei caminhadas ou corridas e, de um ano pra cá, voltei a nadar com alguma frequência.

Essa longa introdução foi para que vocês entendessem melhor como funciona minha cabeça e, aos que não me conhecem pessoalmente, compreenderem melhor este post. Se você se identificou, recomendo que passe ao próximo capítulo 😉

Mudanças de comportamento

O máximo de peso que atingi na vida foi nas minhas férias deste ano, em maio: 76 kg. Depois que voltei das viagens, perdi um pouco do excesso acumulado nas aventuras e, em julho, estava com 74 kg. Foi quando uma das minhas irmãs me procurou para dizer que achava que eu estava descontrolada demais, e se eu não deveria repensar meus hábitos de alimentação. E, junto com o toque, me passou o telefone de um médico endocrinologista que é amigo dela.

Fui até ele e fiquei muito satisfeita com a forma como ele me explicou as coisas, bem didaticamente. Fiquei ainda mais satisfeita por ele ter prescrito uma dieta possível e não ter indicado nenhum remédio (detesto remédio!), e por ele ser daquele tipo de médico em extinção: atencioso, que reserva um tempo grande à consulta e procura entender o problema específico do paciente da vez.

Saí de lá meio apavorada pela perspectiva de ter de abrir mão de várias coisas que amo comer (como queijo minas à vontade), mas decidida a tentar, pelo menos nos primeiros dois meses, quando eu teria que voltar para o acompanhamento do médico. Eu queria ver os efeitos que essa decisão teria na minha saúde, inclusive nos exames de sangue e tudo o mais.

Posso dizer que as primeiras duas semanas foram muito difíceis, mas que em nenhum momento eu passei fome (pelo contrário: às vezes até comi sem fome, como vocês verão mais abaixo). Perdi, de cara, em dois meses, 4,5 kg. E, nos dois meses e meio seguintes, num ritmo mais estável e abrindo algumas concessões, outros 2,5 kg. Nesse meio-tempo, fui a festinhas de crianças, a um casamento, à praia, a aniversários, a botecos — enfim, fiz muita coisa normal, com as cervejas, queijos e doces esperados nos programas de fins de semana.

Ainda vou continuar o acompanhamento, de dois em dois meses, com este ótimo médico, mas o mais importante é que, nesses quase cinco meses, mudei meus hábitos alimentares, perdi 7 kg, voltei a um IMC recomendado (de 27 para 24), baixei meus níveis de triglicérides, e fiz tudo isso sem nenhum grande sacrifício, sem abrir mão de coisas de que gosto muuuuito e sem fazer loucuras que muita gente faz pra emagrecer. Enfim, sem perder a cabeça. Por isso, como deu certo para mim, acho que pode dar certo para outras pessoas que queiram apenas uma vida mais saudável. É para elas que preparei as 10 dicas abaixo:

1. Procure um bom médico

Estou falando um médico bom mesmo, não esses mil picaretas que existem por aí. Evite aqueles que te mandam parar de comer e substituir tudo por suplementos. Evite aqueles que te entopem de remédios. Evite aqueles que te cobram como se você estivesse no Exército. O bom médico tem que entender o que é possível para você, entender do que você não abre mão de jeito nenhum, e recomendar uma dieta que altere seus hábitos, mas não te faça morrer de fome. (Passo os contatos do meu médico por mensagem privada, mas não vou colocar aqui no post, porque não pedi essa autorização a ele). Acho importante esse acompanhamento médico, porque cada pessoa é de um jeito e o bom médico saberá dar as orientações condizentes com o seu perfil.

2. Conte a todo mundo que você está de dieta

Logo que comecei o acompanhamento médico, avisei a todos os meus colegas de trabalho, à família, ao amigos. Quanto mais as pessoas souberem que você está de dieta, mais elas vão evitar que você caia em tentações desnecessárias. Isso não significa que você não possa experimentar o delicioso bolo de churros que uma colega levou ao trabalho um dia, mas eles não vão te oferecer pão de queijo quentinho todas as tardes. Mais importante ainda é fazer o marido/namorado/companheiro compreender bem o que você quer, porque ele também passará a te acompanhar na alimentação mais saudável do almoço e fins de semana, nas caminhadas em dupla, e vai te incentivar, além de também mudar os próprios hábitos.

3. Não precisa cortar o que você mais ama

Ok, o médico falou que eu devo trocar o queijo minas padrão, que sempre amei, por um frescal. Não gosto de frescal, mas achei possível fazer, então fiz. Já a cervejinha de fim de semana e a pipoca na hora do filme, uma vez por semana, eu não ia conseguir cortar — nem tentei. E tudo bem. Se a gente tem que sacrificar o que mais dá prazer, a dieta passa a ficar insuportável e a gente desiste no meio do caminho. Se a gente mantém, cortando só o que for possível, tudo fica mais fácil e podemos preservar aquele bom hábito para sempre.

Algumas trocas que fiz em julho e que continuo fazendo até hoje, e, provavelmente, para sempre:

  • Açúcar por adoçante (não gosto de aspartame, então fiquei feliz ao descobrir o stevia, que não tem o mesmo gosto ruim);
  • Queijo minas padrão e outros deliciosos por queijo frescal (ou pelo padrão light, mas é bem mais caro, então só de vez em quando);
  • Leite integral por desnatado;
  • Suco de caixinha por suco natural;
  • Pão de sal por pão de forma integral ou 4 biscoitos de água e sal

(Vou acrescentando à medida que me lembrar de mais coisas)

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(O queijo, o pão de queijo e a cerveja foram exagero/brincadeira, mas já mostra o espírito da coisa 😀 )

4. A quantidade é o segredo da felicidade

Perguntei ao meu médico se eu tinha que abrir mão da pipoca e da farofa e ele respondeu: “De vez em quando e com moderação quase tudo pode, ok?” Esta frase foi a salvação da pátria. Foi assim que pude manter a vida normal, as idas a pizzarias e eventos, sem ficar salivando e sem desistir. Não tem problema comer brigadeiro, só não podem ser dez. Em vez de comer três fatias de pizza, como uma e meia. E assim por diante. No lugar do queijo frescal, também posso passar requeijão no pão, mas em vez de lotar o pão de creme, transbordando, ponho só uma colher de chá, suficiente pra “sujar” a superfície do pão. É gostoso do mesmo jeito, só não é exagerado. E hoje nem sinto mais falta dos excessos que eu cometia antes.

5. Por outro lado, tem que comer mais

É isso mesmo que você leu: comer mais, pelo menos em termos de frequência. Eu nunca tomava café da manhã, almoçava pra danar e depois ficava o resto do dia comendo quase nada, pelo menos de segunda a sexta. Resultado: o corpo acumulava mais gordura, para suportar a privação que eu, descontrolada, impunha e ele nas várias horas sem nada para comer. Agora acordo e tomo café, mesmo sem fome. Pão, requeijão ou queijo, café com leite. No meio da manhã, como uma banana ou três biscoitos. Almoço menos do que almoçava antes, porque estou com muito menos fome (3 colheres de arroz, 2 de feijão, 3 de batata cozida, um bife médio de carne, salada — coisas assim, que o médico saberá te recomendar em detalhes). Mas vale ressaltar que passei a comer arroz e feijão, que eu nunca comia antes. No meio da tarde, mais uma fruta ou três biscoitos. À noite, sanduíche ou jantar do estilo do almoço. Como eu disse na introdução, não senti fome com a dieta: pelo contrário, em alguns momentos, comi quando estava sem fome, para forçar o hábito. E isso foi ótimo, porque fez com que o sacrifício por não me encher de batatas fritas todos os dias fosse menor. Lembre-se: não é preciso passar fome quando se faz uma dieta alimentar saudável. No máximo, passar vontade 😉

6. Exercícios físicos são essenciais

Sei que esta é a parte mais difícil pra muita gente, mas foi a mais tranquila pra mim, porque sempre pratiquei caminhadas. Continuei na mesma toada, mas me esforçando mais para fazer pelo menos 3km por dia, mesmo naqueles dias de soooono ou quando eu estava com aquela preguiiiiça. O fato de ser diário é que era bom, mesmo que durasse só meia horinha. Repare bem: eu odeio academia, então me neguei veementemente a ir para uma delas e estou fazendo as caminhadas na rua, como sempre preferi. Isso é importante: você precisa descobrir o exercício que vai te fazer melhor, que não seja só obrigação. Que tal andar de bike? Nadar? Fazer boxe? Peteca? Dança do ventre? Judô? Musculação mesmo? Descubra qual esporte te dá mais prazer e invista!

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

7. Cuidado com fim de semana; crie rotina

Confesso que me esbaldei em todos ou praticamente todos os fins de semana de julho pra cá. Mas procurava fazer essa festa só em um dos dois dias, mantendo a rotina mais ou menos conservada no sábado ou domingo. Rotina é uma coisa muito boa para quem quer criar um hábito, seja ele bom ou ruim. No meu caso, tentei estabelecer um horário para as caminhadas e procurei me lembrar de comer no intervalo entre duas grandes refeições, mesmo sem muita fome. Não cheguei ao cúmulo de colocar despertador para comer, como já vi gente fazendo, mas me pautava pelo relógio mesmo. Tipo assim: tomei café às 6h e vou almoçar às 13h, então, lá pelas 9h30, eu tentava comer uma banana. A rotina ajuda até mesmo para as idas ao banheiro, que são um problema para muitas mulheres (e homens também, claro).

8. Cuidado com a balança

Balança é um troço meio frustrante para muitas pessoas. Você não vê resultados nela como numa planilha de contador. Nem sempre ela faz sentido. Por isso, não se descabele muito. Eu sugiro pesar no máximo uma vez por semana (máximo MESMO) e só nas sextas-feiras, quando o esforço acumulado dos dias úteis é mais visível. Se você pesa numa segunda-feira depois de um churrascão de domingo, vai achar que foi tudo em vão. E mais: se sua balança for como a minha, desista. Melhor nem pesar. A minha é tão maluca que, num dia, me dá 68 kg e, poucas horas depois, registra 65 kg. Por isso, agora só peso na balança do médico, uma vez por bimestre, e tá bom demais.

9. Tenha paciência e dê tempo ao tempo

Se você queria uma receita mirabolante para perder 7 kg em uma semana, entrou no blog errado. Sou contra tudo o que é mirabolante demais, antinatural demais, como coloquei logo no primeiro parágrafo do post. O que estamos falando aqui é de mudança de hábitos — ou seja, de algo gradual, mas permanente. E, como não quis perder a cabeça junto com a pança, esse método foi lento, na base da paciência. Perde-se muito no primeiro mês, porque era o excesso do excesso. Depois perde-se num ritmo menor no segundo mês. E assim por diante: a curva vai suavizando com o tempo, mas continua caindo (até chegar a um limite natural), como no gráfico abaixo. Como vou continuar com minha nova rotina, imagino que eu ainda chegue a uns 64 kg sem muito esforço, ao longo dos próximos meses. E, chegando nesse patamar, já acho que nem preciso de perder mais nada, estará bom demais.

peso

10. Lembre-se: não é uma dieta, é uma mudança de hábitos

Já falei isso mil vezes, mas acho que merece um capítulo à parte. Porque quando entramos num acompanhamento como esse tendemos a querer nos submeter a um esforço de pouco tempo, e depois voltar tudo a como era antes, quando a meta individual tiver sido atingida. Mas não pode ser assim. Quando saí do consultório do meu médico pela primeira vez, quase chorei de tristeza pela vida de adoçantes, queijos frescais e poucas pipocas que eu via pela frente. Pensei: vou me esforçar, ver se me sinto melhor e, depois de dois meses, paro. Mas logo no primeiro dia já percebi que não seria impossível – já se passaram quase cinco meses e já guardei muitos dos hábitos. Acho só que precisamos renovar as restrições de tempos em tempos, quando começamos a ficar muito condescendentes com nossas exceções. Dar uma relembrada nas informações passadas pelo médico, dar uma reexaminada no sangue etc. Mas não precisa haver estresse. Se você realmente mudar os hábitos, o processo será suave — e, mais importante, não haverá efeito-sanfona, como nas dietas de capa de revista.

É importante perceber que, nesse caso específico (o meu, e imagino que o de quem chegou até aqui neste post imenso), o mais importante não é perder peso. É buscar uma vida mais saudável, mas sem neuras idiotas e sem abdicar totalmente do que nos dá prazer. Não é uma mera questão estética — embora ela surja, de alguma maneira. Nos últimos seis meses, desde a volta das minhas férias, perdi 9 kg. Mas também ganhei um pique enorme para os exercícios físicos, estou dormindo igual a uma pedra à noite, estou trabalhando igual a uma doida de manhã e até este blog ficou mais produtivo. Sentindo-me mais feliz, também me sinto mais bonita. Ou vice-versa. Não é isso o que realmente importa, esse bem estar? 🙂

Arquivo pessoal / Foto de agosto de 2013, quando eu ainda estava na fase dos torresmos ;)

Arquivo pessoal / Foto de agosto de 2013, quando eu ainda estava na fase dos torresmos 😉

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Se você resolveu experimentar minhas dicas, não deixe de voltar aqui daqui a alguns meses e me contar como foi, viu? Quero coletar depoimentos bacanas para inspirar as milhares de moças que ainda recorrem a fórmulas mágicas e precisam de um empurrãozinho para encarar algo mais permanente. E se você já passou por experiência parecida, conta pra gente também, aí nos comentários 😉

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