Como perdi 7 kg sem perder a cabeça

Já falei várias vezes aqui no blog: sou contra pessoas bitoladas por causa de peso, sou contra excesso de magreza, sou contra pessoas que abdicam de comida de verdade para comerem grãos, igual passarinho, ou vitaminas e suplementos artificiais, sou contra o preconceito exacerbado que existe contra os gordos, sou contra forçação de barra para se encaixar em um padrão de beleza — magra, cabelo liso, unhas feitas, pernão etc. Acho que as mulheres precisam tomar ainda mais cuidado para não cair nessa armadilha moderna.

Mas acho importante a gente procurar ter uma vida saudável, praticar exercícios regularmente e cuidar para que o colesterol e as outras coisas fiquem nos níveis recomendáveis.

Havia pelo menos dois anos que eu estava numa dieta 100% livre. Por livre, entenda descontrolada, esbórnia total. Eu comia torresmo e barriga como quem toma água, me esbaldava em churrascos de sexta a domingo, comia pipoca lotada de manteiga derretida por cima, fazia panelas de brigadeiro, comia chips à vontade, essas coisas. Nunca me importei muito em ser uma beldade, então dava de ombros para qualquer tipo de restrição na dieta. Mesmo assim, sempre pratiquei caminhadas ou corridas e, de um ano pra cá, voltei a nadar com alguma frequência.

Essa longa introdução foi para que vocês entendessem melhor como funciona minha cabeça e, aos que não me conhecem pessoalmente, compreenderem melhor este post. Se você se identificou, recomendo que passe ao próximo capítulo 😉

Mudanças de comportamento

O máximo de peso que atingi na vida foi nas minhas férias deste ano, em maio: 76 kg. Depois que voltei das viagens, perdi um pouco do excesso acumulado nas aventuras e, em julho, estava com 74 kg. Foi quando uma das minhas irmãs me procurou para dizer que achava que eu estava descontrolada demais, e se eu não deveria repensar meus hábitos de alimentação. E, junto com o toque, me passou o telefone de um médico endocrinologista que é amigo dela.

Fui até ele e fiquei muito satisfeita com a forma como ele me explicou as coisas, bem didaticamente. Fiquei ainda mais satisfeita por ele ter prescrito uma dieta possível e não ter indicado nenhum remédio (detesto remédio!), e por ele ser daquele tipo de médico em extinção: atencioso, que reserva um tempo grande à consulta e procura entender o problema específico do paciente da vez.

Saí de lá meio apavorada pela perspectiva de ter de abrir mão de várias coisas que amo comer (como queijo minas à vontade), mas decidida a tentar, pelo menos nos primeiros dois meses, quando eu teria que voltar para o acompanhamento do médico. Eu queria ver os efeitos que essa decisão teria na minha saúde, inclusive nos exames de sangue e tudo o mais.

Posso dizer que as primeiras duas semanas foram muito difíceis, mas que em nenhum momento eu passei fome (pelo contrário: às vezes até comi sem fome, como vocês verão mais abaixo). Perdi, de cara, em dois meses, 4,5 kg. E, nos dois meses e meio seguintes, num ritmo mais estável e abrindo algumas concessões, outros 2,5 kg. Nesse meio-tempo, fui a festinhas de crianças, a um casamento, à praia, a aniversários, a botecos — enfim, fiz muita coisa normal, com as cervejas, queijos e doces esperados nos programas de fins de semana.

Ainda vou continuar o acompanhamento, de dois em dois meses, com este ótimo médico, mas o mais importante é que, nesses quase cinco meses, mudei meus hábitos alimentares, perdi 7 kg, voltei a um IMC recomendado (de 27 para 24), baixei meus níveis de triglicérides, e fiz tudo isso sem nenhum grande sacrifício, sem abrir mão de coisas de que gosto muuuuito e sem fazer loucuras que muita gente faz pra emagrecer. Enfim, sem perder a cabeça. Por isso, como deu certo para mim, acho que pode dar certo para outras pessoas que queiram apenas uma vida mais saudável. É para elas que preparei as 10 dicas abaixo:

1. Procure um bom médico

Estou falando um médico bom mesmo, não esses mil picaretas que existem por aí. Evite aqueles que te mandam parar de comer e substituir tudo por suplementos. Evite aqueles que te entopem de remédios. Evite aqueles que te cobram como se você estivesse no Exército. O bom médico tem que entender o que é possível para você, entender do que você não abre mão de jeito nenhum, e recomendar uma dieta que altere seus hábitos, mas não te faça morrer de fome. (Passo os contatos do meu médico por mensagem privada, mas não vou colocar aqui no post, porque não pedi essa autorização a ele). Acho importante esse acompanhamento médico, porque cada pessoa é de um jeito e o bom médico saberá dar as orientações condizentes com o seu perfil.

2. Conte a todo mundo que você está de dieta

Logo que comecei o acompanhamento médico, avisei a todos os meus colegas de trabalho, à família, ao amigos. Quanto mais as pessoas souberem que você está de dieta, mais elas vão evitar que você caia em tentações desnecessárias. Isso não significa que você não possa experimentar o delicioso bolo de churros que uma colega levou ao trabalho um dia, mas eles não vão te oferecer pão de queijo quentinho todas as tardes. Mais importante ainda é fazer o marido/namorado/companheiro compreender bem o que você quer, porque ele também passará a te acompanhar na alimentação mais saudável do almoço e fins de semana, nas caminhadas em dupla, e vai te incentivar, além de também mudar os próprios hábitos.

3. Não precisa cortar o que você mais ama

Ok, o médico falou que eu devo trocar o queijo minas padrão, que sempre amei, por um frescal. Não gosto de frescal, mas achei possível fazer, então fiz. Já a cervejinha de fim de semana e a pipoca na hora do filme, uma vez por semana, eu não ia conseguir cortar — nem tentei. E tudo bem. Se a gente tem que sacrificar o que mais dá prazer, a dieta passa a ficar insuportável e a gente desiste no meio do caminho. Se a gente mantém, cortando só o que for possível, tudo fica mais fácil e podemos preservar aquele bom hábito para sempre.

Algumas trocas que fiz em julho e que continuo fazendo até hoje, e, provavelmente, para sempre:

  • Açúcar por adoçante (não gosto de aspartame, então fiquei feliz ao descobrir o stevia, que não tem o mesmo gosto ruim);
  • Queijo minas padrão e outros deliciosos por queijo frescal (ou pelo padrão light, mas é bem mais caro, então só de vez em quando);
  • Leite integral por desnatado;
  • Suco de caixinha por suco natural;
  • Pão de sal por pão de forma integral ou 4 biscoitos de água e sal

(Vou acrescentando à medida que me lembrar de mais coisas)

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(O queijo, o pão de queijo e a cerveja foram exagero/brincadeira, mas já mostra o espírito da coisa 😀 )

4. A quantidade é o segredo da felicidade

Perguntei ao meu médico se eu tinha que abrir mão da pipoca e da farofa e ele respondeu: “De vez em quando e com moderação quase tudo pode, ok?” Esta frase foi a salvação da pátria. Foi assim que pude manter a vida normal, as idas a pizzarias e eventos, sem ficar salivando e sem desistir. Não tem problema comer brigadeiro, só não podem ser dez. Em vez de comer três fatias de pizza, como uma e meia. E assim por diante. No lugar do queijo frescal, também posso passar requeijão no pão, mas em vez de lotar o pão de creme, transbordando, ponho só uma colher de chá, suficiente pra “sujar” a superfície do pão. É gostoso do mesmo jeito, só não é exagerado. E hoje nem sinto mais falta dos excessos que eu cometia antes.

5. Por outro lado, tem que comer mais

É isso mesmo que você leu: comer mais, pelo menos em termos de frequência. Eu nunca tomava café da manhã, almoçava pra danar e depois ficava o resto do dia comendo quase nada, pelo menos de segunda a sexta. Resultado: o corpo acumulava mais gordura, para suportar a privação que eu, descontrolada, impunha e ele nas várias horas sem nada para comer. Agora acordo e tomo café, mesmo sem fome. Pão, requeijão ou queijo, café com leite. No meio da manhã, como uma banana ou três biscoitos. Almoço menos do que almoçava antes, porque estou com muito menos fome (3 colheres de arroz, 2 de feijão, 3 de batata cozida, um bife médio de carne, salada — coisas assim, que o médico saberá te recomendar em detalhes). Mas vale ressaltar que passei a comer arroz e feijão, que eu nunca comia antes. No meio da tarde, mais uma fruta ou três biscoitos. À noite, sanduíche ou jantar do estilo do almoço. Como eu disse na introdução, não senti fome com a dieta: pelo contrário, em alguns momentos, comi quando estava sem fome, para forçar o hábito. E isso foi ótimo, porque fez com que o sacrifício por não me encher de batatas fritas todos os dias fosse menor. Lembre-se: não é preciso passar fome quando se faz uma dieta alimentar saudável. No máximo, passar vontade 😉

6. Exercícios físicos são essenciais

Sei que esta é a parte mais difícil pra muita gente, mas foi a mais tranquila pra mim, porque sempre pratiquei caminhadas. Continuei na mesma toada, mas me esforçando mais para fazer pelo menos 3km por dia, mesmo naqueles dias de soooono ou quando eu estava com aquela preguiiiiça. O fato de ser diário é que era bom, mesmo que durasse só meia horinha. Repare bem: eu odeio academia, então me neguei veementemente a ir para uma delas e estou fazendo as caminhadas na rua, como sempre preferi. Isso é importante: você precisa descobrir o exercício que vai te fazer melhor, que não seja só obrigação. Que tal andar de bike? Nadar? Fazer boxe? Peteca? Dança do ventre? Judô? Musculação mesmo? Descubra qual esporte te dá mais prazer e invista!

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

Um dos poucos registros que tenho como nadadora, aos 14 anos

7. Cuidado com fim de semana; crie rotina

Confesso que me esbaldei em todos ou praticamente todos os fins de semana de julho pra cá. Mas procurava fazer essa festa só em um dos dois dias, mantendo a rotina mais ou menos conservada no sábado ou domingo. Rotina é uma coisa muito boa para quem quer criar um hábito, seja ele bom ou ruim. No meu caso, tentei estabelecer um horário para as caminhadas e procurei me lembrar de comer no intervalo entre duas grandes refeições, mesmo sem muita fome. Não cheguei ao cúmulo de colocar despertador para comer, como já vi gente fazendo, mas me pautava pelo relógio mesmo. Tipo assim: tomei café às 6h e vou almoçar às 13h, então, lá pelas 9h30, eu tentava comer uma banana. A rotina ajuda até mesmo para as idas ao banheiro, que são um problema para muitas mulheres (e homens também, claro).

8. Cuidado com a balança

Balança é um troço meio frustrante para muitas pessoas. Você não vê resultados nela como numa planilha de contador. Nem sempre ela faz sentido. Por isso, não se descabele muito. Eu sugiro pesar no máximo uma vez por semana (máximo MESMO) e só nas sextas-feiras, quando o esforço acumulado dos dias úteis é mais visível. Se você pesa numa segunda-feira depois de um churrascão de domingo, vai achar que foi tudo em vão. E mais: se sua balança for como a minha, desista. Melhor nem pesar. A minha é tão maluca que, num dia, me dá 68 kg e, poucas horas depois, registra 65 kg. Por isso, agora só peso na balança do médico, uma vez por bimestre, e tá bom demais.

9. Tenha paciência e dê tempo ao tempo

Se você queria uma receita mirabolante para perder 7 kg em uma semana, entrou no blog errado. Sou contra tudo o que é mirabolante demais, antinatural demais, como coloquei logo no primeiro parágrafo do post. O que estamos falando aqui é de mudança de hábitos — ou seja, de algo gradual, mas permanente. E, como não quis perder a cabeça junto com a pança, esse método foi lento, na base da paciência. Perde-se muito no primeiro mês, porque era o excesso do excesso. Depois perde-se num ritmo menor no segundo mês. E assim por diante: a curva vai suavizando com o tempo, mas continua caindo (até chegar a um limite natural), como no gráfico abaixo. Como vou continuar com minha nova rotina, imagino que eu ainda chegue a uns 64 kg sem muito esforço, ao longo dos próximos meses. E, chegando nesse patamar, já acho que nem preciso de perder mais nada, estará bom demais.

peso

10. Lembre-se: não é uma dieta, é uma mudança de hábitos

Já falei isso mil vezes, mas acho que merece um capítulo à parte. Porque quando entramos num acompanhamento como esse tendemos a querer nos submeter a um esforço de pouco tempo, e depois voltar tudo a como era antes, quando a meta individual tiver sido atingida. Mas não pode ser assim. Quando saí do consultório do meu médico pela primeira vez, quase chorei de tristeza pela vida de adoçantes, queijos frescais e poucas pipocas que eu via pela frente. Pensei: vou me esforçar, ver se me sinto melhor e, depois de dois meses, paro. Mas logo no primeiro dia já percebi que não seria impossível – já se passaram quase cinco meses e já guardei muitos dos hábitos. Acho só que precisamos renovar as restrições de tempos em tempos, quando começamos a ficar muito condescendentes com nossas exceções. Dar uma relembrada nas informações passadas pelo médico, dar uma reexaminada no sangue etc. Mas não precisa haver estresse. Se você realmente mudar os hábitos, o processo será suave — e, mais importante, não haverá efeito-sanfona, como nas dietas de capa de revista.

É importante perceber que, nesse caso específico (o meu, e imagino que o de quem chegou até aqui neste post imenso), o mais importante não é perder peso. É buscar uma vida mais saudável, mas sem neuras idiotas e sem abdicar totalmente do que nos dá prazer. Não é uma mera questão estética — embora ela surja, de alguma maneira. Nos últimos seis meses, desde a volta das minhas férias, perdi 9 kg. Mas também ganhei um pique enorme para os exercícios físicos, estou dormindo igual a uma pedra à noite, estou trabalhando igual a uma doida de manhã e até este blog ficou mais produtivo. Sentindo-me mais feliz, também me sinto mais bonita. Ou vice-versa. Não é isso o que realmente importa, esse bem estar? 🙂

Arquivo pessoal / Foto de agosto de 2013, quando eu ainda estava na fase dos torresmos ;)

Arquivo pessoal / Foto de agosto de 2013, quando eu ainda estava na fase dos torresmos 😉

Dê um feedback!

Se você resolveu experimentar minhas dicas, não deixe de voltar aqui daqui a alguns meses e me contar como foi, viu? Quero coletar depoimentos bacanas para inspirar as milhares de moças que ainda recorrem a fórmulas mágicas e precisam de um empurrãozinho para encarar algo mais permanente. E se você já passou por experiência parecida, conta pra gente também, aí nos comentários 😉

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A história do primeiro médico cubano que foi sabotado por duas médicas brasileiras (mas não deu certo!)

Acompanhem comigo este caso.

A diarista Gilmara Santos foi a um posto de saúde no bairro Viveiros, em Feira de Santana (BA), para que seu filho recebesse atendimento.

Lá encontrou o médico cubano Isoel Gomez Molina.

Ele atendeu a mãe e a criança de forma atenciosa, receitou dipirona para o tratamento e explicou detalhadamente a Gilmara como ela deveria aplicar o medicamento. Nas palavras dela:

“Ele me atendeu muito bem. Ele tratou meu filho super bem, porque tem médico que nem olha na cara da mãe e nem da criança. Ele me explicou direitinho como dar o remédio, disse ainda que a quantidade de gotas é definida a partir do peso da criança. Ele prescreveu 40 gotas, mas foi apenas um erro. Ele me disse exatamente o que eu deveria fazer, que era para dar apenas 10 gotas.”

Na receita entregue a ela, dizia que deveria dar ao filho 40 gotas de dipirona — “não em dose única, mas divididas em quatro vezes, a cada seis horas, em caso de febre e dor”. Além de escrever desta forma, deixando claro que cada dosagem seria de 10 gotas, ele explicou direitinho à mãe, durante a consulta, e ela entendeu bem.

Eis que, ao ver a receita, outra médica — esta brasileira — “entendeu” que o médico havia sugerido uma dose única de 40 gotas, tirou uma foto da receita médica — que é um documento particular do paciente — e a publicou na internet, em uma rede social. Em seguida, um vereador, chamado José Carneiro (PSL), viu a foto na rede social e resolveu denunciá-la na Câmara Municipal e para a imprensa. Quando perguntado por repórteres, ao que tudo indica, mentiu, dizendo que Gilmara é que o tinha procurado para fazer a denúncia, o que ela negou veementemente.

Nas palavras de Gilmara, mais uma vez:

“Quando eu voltei, uma outra médica me atendeu. Como eu ando em mãos com todas as receitas que passam para meu filho, eu cheguei a mostrar para essa médica, que chamou outra colega. Aí elas tiraram uma foto e postaram na internet. Foi aí que o vereador ficou sabendo e tudo isso começou. Acho que isso é uma postura antiética da médica. Querem prejudicar os cubanos, porque eles atendem bem.”

Além de Gilmara, cerca de 300 moradores de Viveiros fizeram um abaixo-assinado em defesa do médico cubano e pedindo sua continuidade no posto de saúde da comunidade. Os enfermeiros do posto de saúde organizam uma festa para ele, que voltará ao trabalho hoje, porque, nas palavras de uma enfermeira “ele é um médico que chegou e que nós adotamos pelo carisma que ele tem, pela bondade que ele apresentou com a gente e pela presteza em não atender de cara feia”.

O resumo que entendi dessa história toda: o médico, que teve nome e foto expostos como um criminoso, que apareceu no telejornal como “o médico que receitou dose errada“, merece, na verdade, um prêmio, pelo excelente atendimento que vem prestando, conforme os enfermeiros, Gilmara e as outras 300 pessoas da comunidade. O vereador, que mentiu ao declarar que Gilmara havia procurado ele, não sofrerá qualquer punição. E as outras médicas, as brasileiras, que agiram de forma antiética ao divulgar em uma rede social a foto de uma receita de paciente que nem era dela, que tiveram nomes e imagens preservados, tampouco sofrerão qualquer punição, nem mesmo de seu Conselho Regional de Medicina. Eu gostaria de saber quem são elas, será que alguém pode me dizer? Não quero, jamais, correr o risco de ser atendida por alguma delas e ver minha receita médica numa página do Facebook.

Pra mim, este caso concreto do “primeiro profissional do Mais Médicos afastado”, como se noticiou com alarde — que na verdade poderia ser o “primeiro médico sabotado do Mais Médicos”, já devidamente inocentado (de cara, pela própria suposta vítima) e já devolvido a seu consultório — ilustra com perfeição tudo o que foi debatido neste blog, entre julho e agosto.

Para quem não acompanhou, aí está:

Muito obrigada por aguentar tudo isso, doutor

Muito obrigada por aguentar tudo isso, doutor Isoel. Espero que o senhor não desista, porque há muitos brasileiros precisando de seu precioso trabalho! (Foto: Silvio Tito/Prefeitura de Feira de Santana)

OBS.: Post feito com base nas seguintes reportagens da “Folha” e do G1: 01, 02, 03, 04 e 05.

Os médicos e a blogueira — o fator Cuba

Recebi o depoimento, que reproduzo abaixo, de alguém que não pode ser acusado de comunista (nesses tempos de Nova Guerra Fria que vivemos no Brasil): o ex-presidente da Federação das Indústria do Estado de Minas Gerais, Stefan Bogdan Salej.

“Quando tive uma aguda crise de saúde na visita oficial que fiz a Caracas na função de enviado especial da Eslovênia para América Latina e Caribe e Presidente do Grupo para América Latina e Caribe do Conselho da União Européia, levaram-me, em vez de para um hospital, para o Palácio Presidencial Miramar. Lá fui tratado por um médico do Presidente Chávez, um cubano.
Quando voltei para a Europa com uma verdadeira gambiarra no corpo porque não tinha nem isso e nem aquilo no ambulatório chaveta, o médico europeu disse que fui, do ponto de vista clínico, muito bem tratado. E os diplomatas cubanos em Bruxelas me colocaram imediatamente a par de todo o tratamento, felizes de que fui tratado por um conterrâneo deles.
Em dois anos que participei de reuniões da UE sobre a América Latina, e a maioria tratava de Cuba, não houve reunião de que os cubanos não soubessem em tempo real o que havia sido discutido pelos europeus. Em detalhes, o que falava quem. Nenhuma varredura conseguiu descobrir o vazamento. A diplomacia cubana era pertinaz, persistente, educada e inflexível. E apresentava o país como eterna vítima do imperialismo mundial. Mas, mais importante, era o uso com perfeição de sua posição geoestratégica e a mensagem de que a sua independência era importante para todos e em especial para a América Latina.
Os cubanos sabem o que querem e sabem quão importante para a independência deles é o bom relacionamento com o Brasil.
Depois de terem cutucado a onça com vara curta quando forçaram a condecoração de Che Guevara por Jânio Quadros e treinaram os guerrilheiros brasileiros, mudaram o disco e permitiram que uma tabacaria brasileira de origem anglo-americana se tornasse símbolo de resistência ao bloqueio americano, funcionando como brasileira na ilha. Permitiram que empreiteiros brasileiros, com generosos empréstimos, construíssem magníficas obras, e até permitiram a vinda da blogueira oposicionista ao Brasil.
A política externa cubana é coerente e tem objetivo e visão. E tem flexibilidade. Acabou a ajuda militar a Angola, forma-se um exército de dentistas, oculistas e outros médicos e manda-os para o mundo. Aliás, essa abertura, usando mão de obra qualificada para obter divisas, começou com o Marechal Tito, na década de setenta, quando a Alemanha precisou de mão de obra qualificada e a Iugoslávia mandou milhares de emigrantes. Mas não ficaram com as famílias amarradas e a absoluta maioria ficou na Alemanha.
E nesta história de vinda de médicos cubanos, é, do ponto de vista logístico, formidável um país dispor de 4.000 mil profissionais prontos, da noite para o dia, sem que seu sistema de saúde sofra qualquer alteração.”

Para mim, afora a questão do corporativismo médico, defendido pelos CRMs e sindicatos da categoria, e afora uma certa xenofobia e racismo em geral, na recepção dos médicos estrangeiros (como a “jornalista” que disse que as médicas cubanas mais pareciam empregadas domésticas e os jovens vaiando os médicos no Ceará aos gritos de “ESCRAVO! ESCRAVO!”), há, ainda, o fator Cuba.

Sim, porque os médicos cubanos estão sendo muito mais hostilizados do que os espanhóis, portugueses, argentinos e outros que já chegaram por essas paragens, atendendo à proposta (que não é de todo má) do “Mais Médicos”.

Os médicos acham um absurdo o governo criar um programa para alocar pessoas para trabalhar onde não querem (e não querem não só por ser um lugar “sem estrutura”, como alegam, mas também pelo direito, legítimo, que eles têm de quererem ficar perto da família, nos grandes centros, onde há supostamente mais conforto, embora os hospitais também estejam aos cacarecos, como em todo o sistema público e privado de saúde no Brasil). Beleza, têm todo o direito de achar e de protestar contra isso, mas o alvo não deveria ser o governo, em vez dos colegas estrangeiros?

Para mim, uma das razões para toda essa mobilização é o fato de Cuba, ainda hoje, mais de 50 anos após sua revolução, despertar paixões — de amor e de ódio –, em especial nos vizinhos latino-americanos.

Se não fosse isso, o que explicaria mobilização semelhante, mas partindo dos ditos “de esquerda”, contra uma blogueira cubana que apenas tinha vindo ao Brasil para expor, livremente, suas ideias, como espera-se que qualquer pessoa possa fazer num país democrático?

São motivos, propósitos, contextos e grupos diferentes que se mobilizaram no caso de Yoani Sánchez e agora, dos médicos cubanos. Mas os dois casos têm dois fatores em comum: a paixão pró e contra Cuba e a falta de educação, em geral, dos brasileiros, que ainda não se afeiçoaram à ideia de que uma democracia só é real quando as pessoas podem se expressar livremente, mesmo que defendendo uma posição contrária à nossa — e deveríamos lutar, se queremos uma democracia mais forte, justamente pelo direito de os outros gritarem as ideias contrárias às que defendemos.

Sobre isso, um rapaz, que não conheço, postou uma frase maravilhosa, que vai direto ao ponto, e que já foi compartilhada, até o momento em que escrevo, por mais de 73 mil pessoas no Facebook. Fecho este post com ela:

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Defesa desleal do mercado para médicos brasileiros

Charge do Lute para o jornal "Hoje em Dia" de  25.8.2013.

Charge do Lute para o jornal “Hoje em Dia” de 25.8.2013.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Os brasileiros têm assistido nos últimos dias grande batalha entre o Ministério da Saúde e os Conselhos de Medicina. O primeiro parece defender o direito à saúde, explicitado na Constituição de 1988, mesmo que esteja de olho nas eleições de 2014 como alegam os que a ele se opõem; o segundo parece mais atento, salvo melhor juízo, à reserva de mercado para meio milhão de médicos brasileiros, se tanto, num país de quase 200 milhões de habitantes.

Depois das tentativas de demonstrar que há médicos em número suficiente no Brasil, o Conselho Federal de Medicina, que nos últimos anos vinha se destacando no combate à abertura de novas escolas de medicina, parece ter-se retraído, abatido pelos números impressionantes de falta de médicos nos municípios e regiões mais pobres divulgados pelo governo. O alarido maior agora vem dos Conselhos Regionais de Medicina. No último sábado, o correspondente da Agência Folha em Minas, Paulo Peixoto, publicou na “Folha de S. Paulo” o seguinte:

“Em tom de ameaça, representantes regionais da classe médica rotularam ontem de ‘ilegal’ a atuação de profissionais cubanos no Brasil por meio do programa Mais Médicos e prometeram acionar a polícia quando eles começarem a trabalhar no país.

Presidentes de CRMs (Conselhos Regionais de Medicina) também chamaram o programa de ‘afronta’ e disseram que eventuais erros cometidos por cubanos não serão corrigidos por brasileiros”.

O ministro da Saúde, de acordo com a Agência Estado, repudiou veementemente a declaração do presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas, João Batista Gomes Soares, que aconselhou médicos brasileiros a não socorrerem erros que venham a ser cometidos por colegas cubanos no programa Mais Médicos. “Não sei em qual juramento ele se baseou para fazer essa declaração. É omissão de socorro e é afronta ao código de ética médica. Nenhum profissional pode se negar a atender ou socorrer qualquer brasileiro ou brasileira”, disse o ministro Alexandre Padilha.

E acrescentou:

“Não admitimos qualquer incitação ao preconceito ou à xenofobia. Temos de receber de braços abertos os médicos e médicas que aceitaram convite do governo brasileiro, muitos deles colocando dinheiro em segundo plano”.

No texto de Peixoto, chamou atenção essa declaração de outro presidente de CRM, o do Maranhão, Estado que tem um dos piores atendimentos de saúde do país: “Não vamos dar registro para médico estrangeiro só porque a Dilma, o Padilha e o Mercadante, a tríade do mal no Brasil, estão mandando”. [O presidente desse Conselho Regional de Medicina chama-se Abdon Murad Neto.] E esta outra, do presidente do CRM do Paraná, Alexandre Bley: “É lei [o Revalida]. Não importa se o médico veio no colo do ministro ou da Dilma. É exercício ilegal da profissão, e isso é caso de polícia”.

Será? Mas não é lei, também, a Medida Provisória que liberou tais médicos – nesse caso específico – do exame de validação de diplomas para formados em escolas de medicina estrangeiras? O Revalida, pelo que se alega, tem servido de barreira quase intransponível para que médicos estrangeiros possam trabalhar no Brasil. Não sei quanto à sua dificuldade, pois nada entendo de medicina, mas bem que gostaria de ver quantos dirigentes do CFM e dos CRMs seriam aprovados num exame desses.

O que parece claro para mim é a defesa intransigente de um mercado, à custa de uma população sofrida. Sem dúvida, é atitude legítima de entidades de classe querer valorizar a profissão, mas não à custa de um povo e de outros profissionais. E muito menos sob o pretexto de estar defendendo a saúde dos brasileiros.

Um pretexto que não colou quando quiseram derrubar os vetos da presidente Dilma Rousseff à Lei do Ato Médico aprovado pelo Congresso Nacional. A manutenção dos vetos era defendida por 13 categorias não médicas, entre elas, psicólogos e enfermeiros. Os vetos foram mantidos pela maioria dos 458 deputados e 70 senadores que participaram da votação, há seis dias. “Com os vetos, prova-se possível que a atividade dos médicos seja regulamentada, sem que isso interfira de forma perniciosa na atuação de outros profissionais que se orgulham por participar da construção diária de uma saúde multiprofissional”, comemorou o Conselho Federal de Psicologia, que congrega 235 mil profissionais. Para o presidente do Conselho Federal de Enfermagem, Osvaldo Albuquerque, “os parlamentares tomaram o remédio da lógica e da razão”.

Enquanto os Conselhos de Medicina não fizerem o mesmo, veremos esse assunto tomando o tempo de juízes. Já se tentou no Supremo Tribunal Federal a declaração de inconstitucionalidade do programa Mais Médicos. Outras ações estão previstas. A cada ação deve corresponder uma reação. Como ocorreu, há um ano, quando o Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro (Cremerj) quis proibir o trabalho de parteiras e a realização de partos, mesmo feito por médicos, fora dos hospitais.

Essa defesa da profissão de médicos – reforçada, no caso, pela defesa dos hospitais – se vingasse, poderia impedir o trabalho de uma profissão tradicional no Brasil, reconhecida pelo Ministério da Saúde e regulamentada pela lei nº 7.498/86. A proibição foi derrubada pela 2ª Vara Federal do Rio, em ação proposta pelo Conselho Regional de Enfermagem. Segundo o juiz Gustavo Arruda Macedo, as resoluções 265 e 266 do Cremerj são incompatíveis com as normas federais e inviabilizam o exercício da atividade de parteiras, “porquanto ao mesmo tempo em que proíbem a atuação de médicos em partos domiciliares, com exceção das situações de emergência, também vedam a participação das aludidas profissionais em partos hospitalares”.

As resoluções do Cremerj eram pioneiras e, certamente, seriam acompanhadas por outros Conselhos Regionais, se subsistissem.

A mim, sobram motivos pessoais para defender essa categoria visada, pois eu e a maioria dos meus 11 irmãos – inclusive o que é médico – nascemos aos cuidados de uma parteira, numa área rural do interior de Minas. Infelizmente, não sei o nome dela, ao contrário de Alair Martins, o fundador do Grupo Martins, de Uberlândia, cuja biografia foi escrita por dois professores da Fundação Dom Cabral e está sendo lançada pela Campus/Elsevier. A parteira que foi à fazenda Córrego da Gordura, onde ele nasceu em fevereiro de 1934, era conhecida como Sá Marica. Feliz com mais um parto bem-sucedido, ela teria profetizado ao pai de Alair, seu Jerônimo: “Olha, esse menino vai ter muita sorte.”

É o que queremos para todos os brasileiros, principalmente para os que tiverem a sorte de serem atendidos por médicos, qualquer que seja a sua nacionalidade.

Infográfico da "Folha de S.Paulo" muito antes do imbróglio atual.

Infográfico da “Folha de S.Paulo” muito antes do imbróglio atual.

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Mais Médicos para o Brasil – Críticas e Considerações

medicos1Eu disse que não voltaria a tratar do Programa Mais Médicos aqui no blog, mas hoje recebi um texto muito aprofundado sobre o assunto e escrito por uma pessoa muito qualificada, que, além de médico, também é professor de medicina e já atuou com gestão pública de saúde em todas as esferas de governo. Ou seja, é, até o momento, a pessoa que mais entende do que está em jogo nesse nosso debate. Seu nome é Giovano de Castro Iannotti e já citei aqui no blog outro texto que ele escreveu, quando estava atendendo voluntariamente os feridos dos confrontos com a polícia durante os protestos de junho. (O “de Castro” dele, fui descobrir depois, o coloca entre minhas muitas dezenas de primos, embora eu ainda não o conheça pessoalmente. Família grande demais dá nisso…)

O artigo que Giovano escreveu e fez a gentileza de enviar para publicação neste blog é bastante extenso, mas peço que aproveitem este domingão e o leiam até o fim, com atenção, porque traz elementos maravilhosos e, para mim, alguns até inéditos, para nossa reflexão. Ele não se limita a repetir os argumentos que estão sendo ditos a torto e a direito por jornalistas que nada entendem de saúde pública e por representantes de entidades como o Conselho Federal de Medicina. Traz informações que eu nunca tinha lido antes, mesmo depois de tanta leitura sobre o assunto, e que ele obteve tanto na academia quanto em sua grande experiência na atuação como médico, nos rincões do Brasil e também em outros países do mundo, pelo que li. Ele só se apresenta como “professor de medicina”, mas vocês podem conhecer um pouco mais de quem reuniu tantos dados e experiências AQUI e AQUI.

Bom, vamos ao artigo:

“Prólogo

        No dia 30 de março de 1999 o então Presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, assinou um decreto (3007) revogando um outro decreto, do ditador Ernesto Geisel, (80419) de 27 de setembro de 1977 que promulgava o Decreto Legislativo (DL) 66, aprovado pelo Congresso Nacional. Não houve publicidade sobre o assunto. Contudo, muito estava em jogo ali. Primeiro, uma peculiaridade jurídica do Brasil. O DL 66 aprovara uma Convenção internacional, incorporando-a ao Ordenamento jurídico brasileiro. Como pode um presidente revogar um ato votado pelo Congresso Nacional com uma canetada?
         Segundo, o acordo internacional aprovado pelo Congresso fora a “Convenção Regional Sobre o Reconhecimento de Estudos, Títulos de Diplomas de Ensino Superior na América Latina e Caribe” (Cidade do México, 19 de julho de 1974), havendo o instrumento brasileiro sido depositado junto à UNESCO.
         Um pouco confuso na aparência, mas o importante é saber que sob Fernando Henrique Cardoso e Paulo Renato, a educação brasileira passou a ser, definitivamente, um serviço, um “bem” a ser comercializado no mercado, seguindo regras de mercado. Muitas faculdades privadas foram abertas nesse período, muitas delas ligadas a políticos influentes e a grupos econômicos sem compromisso com a educação. Até multinacional há nesse meio. Quantos bilhões renderam a “canetada” de FHC? Para quem?
         Até ali, vários formados alhures retornaram ao Brasil e foram autorizados a exercer sem maiores problemas. Inclusive os que foram a Cuba.

         1. Tempo de Crises e Premissas

         Da miríade de demandas e assuntos que se misturaram nas últimas manifestações públicas ocorridas no Brasil, um dos mais complicados de se abordar, em um espaço relativamente resumido, é o da abertura para a entrada de médicos formados em universidades de outros países. Várias pessoas têm me perguntado sobre o assunto e vários alunos me escreveram pedindo que me aprofundasse um pouco no tema. Alguns poucos estudantes meus se manifestam convencidamente em favor do projeto do Governo, outros estão apreensivos e inseguros, pensando, talvez, que a profissão que os espera já não mais será a que tinham em mente quando se decidiram por ela. A maioria deles, contudo, aderiu ao discurso das entidades ligadas aos médicos e o repete. A complexidade do tema jaz na variedade de interesses institucionalizados, na jovem história da Academia no Brasil, na consciência de corporação dos médicos e na própria identidade nacional dos brasileiros.

Como se verá, o Governo decidiu drenar um abscesso. As dúvidas são duas. A primeira é se ele será um cirurgião capaz de levar a operação até o final, sem medo de tocar em todos os órgãos afetados ou se ficará na superfície, desperdiçando a chance de tratar devidamente o paciente. A outra é se o paciente tem interesse em se tratar, de ser ativo no seu processo de cura, pois ao médico cabe o papel de auxiliar.

Para analisar o problema com mais objetividade, deve-se fazer um recorte e algumas premissas devem ser aceitas. A primeira é que as pessoas precisam de médicos e a segunda é que os médicos podem contribuir mais para a saúde do que para o adoecimento dessas pessoas. Podem parecer triviais essas afirmações, mas não são. Se se quer saber o motivo, recomendo o estudo de Ivan Illich, Nemesis Medica; Barbara Starfield (professora emérita da Johns Hopkins, consultora da OMS. A Professora Starfield tem um importante livro editado no Brasil pelo Ministério da Saúde, no qual demonstra que os médicos especialistas são terríveis para os sistemas nacionais de saúde. Ela chega à conclusão de que os Estados Unidos têm a pior saúde dentre as nações do primeiro mundo. Tal fato deveria fazer pensar muitos médicos e professores brasileiros que têm os EUA como paradigma de medicina), ela tem vários estudos sobre a incidência de mortes provocadas pelos médicos; Martin Walker, Dirty Medicine; de artigos como o de Francisco Cóppola sobre o conflito de interesses que governa o meio da profissão médica hoje (Rev Med Uruguay 2007; 23: 3-6). Outros artigos mostram diminuição da mortalidade em comunidades afetadas por greves de médicos e a matança causada pela indústria das drogas e dos exames complementares. Iatrogenia é o termo que define o mal causado pelos médicos e, infelizmente, pouco estudado e até desprezado nas universidades brasileiras.

 

2. Argumentos Contrários de Todos os Tipos ao Mais Médicos para o Brasil

         Os críticos do programa dizem que o Governo Federal colocará em risco a saúde e a vida dos brasileiros, porque não controlará a qualidade da formação dos médicos que vierem para o Brasil. Dizem também que o programa é ilegal e que o problema no Brasil não é a falta de médicos, mas a falta de estrutura para atendimento. Segundo os críticos, se houvesse mais “estrutura”, os médicos existentes no Brasil se deslocariam para a periferia e para as regiões mais distantes de grandes centros urbanos.

Particularmente a possibilidade da vinda de médicos cubanos tem causado a ira de uma pequena e barulhenta parte da sociedade. Não somente médicos, neste caso. A direita parece ver nisso a ressuscitação da ameaça vermelha que parecia devidamente exorcizada por 30 anos de ditadura. O CFM foi a Cuba há alguns anos e fez uma matéria que ocupou de forma sensacionalista a capa do jornalzinho do Conselho. Nela se lia que Cuba não forma médicos, mas enfermeiros com conhecimento mais avançado (sic). A conclusão daquela matéria era que os brasileiros que se formavam em Cuba não deveriam poder exercer no Brasil, pela baixa qualidade do ensino na Ilha, ou qualquer coisa do gênero. Alguns militantes da direita têm tomado essas palavras e tentado radicalizar seus argumentos. Dizem que Cuba não exporta médicos, mas guerrilheiros. Esses comunistas viriam para cá fazer o que fizeram na Venezuela. Lá, não fosse pelas táticas de lavagem cerebral que os cubanos usaram contra o povo, Capriles teria vencido as eleições. Aqui, em desespero, o PT usaria a mesma técnica.

Entendo que estes últimos argumentos podem parecer tolos demais para merecer análise séria. Mas, entendo também que eles encerram de forma caricata a visão de parte importante da classe média de direita do Brasil. Não somente isso, eles são levados a sério por certas pessoas. Quando publiquei um comentário favorável à vinda de médicos formados em universidades de fora do Brasil debaixo de uma declaração de um aluno meu na internet, um seu conhecido escreveu terríveis palavras contra mim. Deu-me uns epítetos dos mais vulgares e terminou concluindo que eu era um “esquerdopata comunista safado” e que deveria ser “chutado pra fora da universidade, enjaulado e mandado para Cuba”. Esse é o clima na cabeça de alguns.

 

3. Um pouco de História

         A Presidente Dilma mostra coragem ao pôr a mão em dois vespeiros; o primeiro é a corporação médica, representada (indevidamente) pelo Conselho Federal de Medicina; o segundo, a universidade brasileira que só é do povo (por serem públicas, por terem autorização para funcionarem ou por receberem incentivos vários) na hora de receber recursos governamentais, mas que alija o povo de seus claustros. Todavia, por mais coragem que tenha, o programa não é algo que saiu somente da cabeça do Governo Federal. Há anos os prefeitos do País têm pressionado para que se encontre uma solução para a falta de médicos.

A presente situação começou com a criação do SUS pela Constituição de 1988. É preciso que se saiba a história do Sistema. Ele representa o que de melhor se fez no País, mesmo que ferido e sangrado pela terrível ditadura do capital e dos militares. Dos anos 1960 até 1986 foram realizaras reuniões e conferências de saúde para se discutir a criação e a forma de um sistema nacional de saúde. A VIII Conferência Nacional de Saúde (CNS) influenciou os rumos da Constituinte e conseguiu plasmar na Carta os princípios hoje universais de acesso integral à saúde e gratuidade. Isso significa que o SUS não foi o projeto de um partido político sozinho e nem de um grupo deles. O SUS é o ideal sonhado e construído por várias cabeças da chamada sociedade civil organizada. É uma conquista do povo, diante dos interesses capitalistas que dominaram a constituinte. O SUS não é administrado diretamente pelo executivo, mas através dos conselhos de saúde que são formados por 50% usuários, 25% trabalhadores, 12,5% fornecedores e 12,5% governo (ou seja, os governos têm somente 1/8 dos votos nos conselhos). As políticas e as diretrizes do Sistema são determinadas pelas conferências de saúde.

Não obstante essa conquista, o SUS não existia de fato. Vários caminhos foram tentados com escasso êxito, até que algumas  prefeituras do Nordeste, governadas por prefeitos de esquerda, decidiram importar o modelo cubano de médico da família. Paralelamente a isso, havia a experiência da colega Zilda Arns, com a pastoral da criança. Sem entrar em detalhes, o Governo Federal de então, segunda metade dos anos 90 (um governo de direita, diga-se), resolveu investir no médico de família e criou o Programa Saúde da Família (PSF), com um modelo nacionalizado e adaptado à realidade brasileira. Como não havia a possibilidade de se fazer como em Cuba, onde um médico de família e um enfermeiro têm sob seus cuidados de 200 a 500 pessoas, usou-se a ideia da pastoral da criança para a construção do PSF. No modelo brasileiro, o saúde da família é feito por uma equipe que, além de enfermeiro e médico, conta com 1 ou 2 técnicos de enfermagem e cerca de 5 agentes comunitários de saúde (ACS). Esses ACS são descendentes dos voluntário da Dr. Arns. Cada equipe no País atende de 2500 a 4000 pessoas, com várias exceções para mais e algumas poucas para menos.

Com a determinação da XII CNS de que a Atenção Primária de Saúde (APS) fosse a coluna vertebral do SUS, consolidou-se a expansão constante do Programa (APS é, em grandes traços, o atendimento realizado mais próximo da residência ou do local de trabalho das pessoas, a um custo tolerável pela sociedade, e a porta de entrada preferencial das pessoas no sistema). O Sistema é único, mas é descentralizado. Cada esfera de poder tem certas funções. Ao Governo Federal cabe o desenho de programas, fiscalização e incentivos financeiros e são as prefeituras, mormente, que prestam o serviço “na rua”. Para receber a verba do Governo Federal, um dos requisitos é ter as equipes completas. E aí começam os problemas.

4. A Realidade do “Mercado de Trabalho”

         Como médico, hoje, sei que posso trabalhar em praticamente qualquer município do Brasil. Não há desemprego para médico (o que é ótimo, oxalá fosse assim para todos). Mesmo as grandes capitais sofrem com a falta de médicos. Mas na prática o problema é ainda mais grave, se levarmos em consideração a complexidade da APS. Um dos fatores pressupostos da atenção primária é a continuidade do trabalho no tempo. Estar na comunidade e “viver” a comunidade. Fazer-se comunidade (“como um”), é uma das funções do médico de família. Mas, no Brasil, quando há médicos, a rotatividade é muito alta. Poucos esquentam a cadeira. Veem-se muitos recém-formados “dando um tempo” nos centros de saúde, enquanto estudam para entrar em um programa de especialidades. Afinal, qual profissão oferece salários entre 8 e 20 mil reais a alguém que acabou de tirar as fraldas? Do outro lado, veem-se médicos “cumprindo tabela” para a aposentadoria. Faltam médicos em geral e faltam médicos que saibam APS. As faculdades daqui privilegiam o pior tipo de medicina que existe. Aquela baseada na indústria das drogas e dos exames. Pouco se estuda e pratica sobre relacionamento médico-paciente. Aliás, medicina se resume nisso: relacionamento médico-paciente. Nada mais.

A visão pervertida de grande parte das faculdades brasileiras é que medicina de família é uma coisa menor, menos complexa. “Qualquer um faz”. Entretanto, não é assim. Trabalhar com um computador, como um ressonador ou um tomógrafo, pode parecer complexo. Mas, é simples. Depois que se aprende a técnica, é simples. Quando se está em um hospital, o trabalho é dividido. Há outros médicos, há laboratórios, há máquinas, há até helicópteros. Quando estamos em uma comunidade periférica a Arte cresce e a técnica diminui. É o médico de frente para a complexidade irrepetível da vida. Cada pessoa é uma pessoa, casa dia, um dia. Nada se repete. Esta realidade da APS é complexa demais. Como regra, os médicos formados no Brasil pedem “estrutura” para enfrentar essa realidade. O que estão pedindo é uma apostila que lhes diga qual botão apertar para entender o que veem, mas não compreendem. A vida.

5. A Tal “Estrutura”

         Há falta de estrutura? Eis uma pergunta que me tem sido feita insistentemente. A resposta é: em geral, não! Não há falta de estrutura. A realidade do SUS não é a que os meios de comunicação mostram de filas e gente meio morta se arrastando qual zumbis. Essas imagens, por forte que sejam e por mais que aconteçam aqui e acolá, em certos municípios até frequentemente, têm o propósito de afastar a classe média do Sistema e fazê-la escrava dos planos e seguradoras privados e de confirmar para os ricos que uma consulta de 600, de 1000 ou 2000 reais são justificáveis (ou para o “pobre” que uma de 40 vale a pena). Pessoalmente, nunca fui “deixado na mão” pelo SUS. Recentemente, em uma urgência familiar, fomos parar no hospital da Unimed de Belo Horizonte. A mocinha que fazia triagem nos disse: “se quiserem, podem até esperar, mas o mínimo é cinco horas”. (Curioso é que ninguém protestava e a Rede Globo e a Rádio Itatiaia não estavam lá noticiando o apocalipse). Como o caso era mesmo urgente, fomos para um hospital do SUS de Betim, quase numa favela, onde fomos muito bem atendidos.

Por outro lado, esperar não deveria ser um espanto, quando não se fala de situações de emergência. No começo do ano estive atendendo em Gibraltar, que pertence ao Reino Unido, e tive que levar um paciente ao hospital (com bastante “estrutura”). Na parede, um papel pregado com durex: “Todos serão atendidos, os pacientes em situação grave, antes. Favor esperar”. Perguntei à enfermeira e ela me disse que o tempo de espera médio era de 8 horas para casos que não fossem de risco de vida. Sem gritos, sem Globo, sem Itatiaia. Um amigo médico, sueco e morando na Suécia, precisava de exames caros de imagens. O tempo de espera, segundo ele, era de 8 meses a 1 ano. Esperas para uma consulta de APS são geralmente menores no SUS do que nos convênios. As filas para especialistas no Sistema são, em grande parte, de responsabilidade dos mal preparados médicos de família que atam no Brasil. Muitos deles são simplesmente encaminhadores. O índice de resolução de problemas de grande parte dos médicos no Brasil é inaceitável.

Como sei por onde passam os interesses dos hospitais privados brasileiros e dos médicos que trabalham neles, meu filho nasceu em uma casa de partos financiada pelo SUS. Nunca cogitei que ele nascesse numa maternidade (açougue) privada que vende cesárea, fotos, filmes e serviços de hotelaria. Quando morei em Brasília, fui operado em um hospital do SUS. Não estou dizendo que o SUS seja um sistema pronto, perfeito. Minha única intenção é dizer que o Sistema é bom ou ruim dependendo da situação e muito, do município. Mas, no geral, é bem melhor do que o sistema privado de saúde no País. Qualquer um que estiver no Brasil usa o Sistema. Mesmo sem saber ou admitir. A vigilância sanitária, por exemplo, que cuida da qualidade da lagosta dos restaurantes chiques e da potabilidade da água dos ricões e dos pobretões é um órgão do SUS.

Os problemas da APS não são, em geral, de falta de estrutura. Quando os há, e isso há aos montes, os problemas são majoritariamente de interferência política e de corrupção. Já deixei algumas prefeituras porque não admiti passar os protegidos dos prefeitos e dos vereadores na frente dos outros. Já saí porque me recusei a assinar documentos falsos para conseguir verbas federais para o município. Já mudei de centro de saúde por causa de gerente politiqueira. Já deixei a direção de um hospital porque não compactuei com médicos que roubavam o hospital; operavam desnecessariamente para ganhar dinheiro; faziam cesarianas desnecessárias e até criminosas; trocavam votos por cirurgias; houve até um que colocou no chão uma criança recém-operada e mandou a enfermeira trazer o “próximo rápido” porque ele queria ver o jogo do galo (nenhum deles é cubano, são todos bem brasileiros). A chaga é essa. A corrupção entranhada nos costumes brasileiros. Sejam políticos ou não.

6. Quem São os Médicos no Brasil?

         A situação como está é ótima para os médicos sem consciência humana. Eles podem continuar fazendo chantagem com prefeituras. Podem continuar dando dois, três plantões ao mesmo tempo. Podem continuar assinando por duas equipes PSF (cada um exige 40 horas por semana) em municípios diferentes. Mudam quando querem e pedem o que querem.

A situação como está é ruim para os prefeitos. Eles ficam à mercê dos médicos. Sentem-se impotentes. Oferecem salários que beiram o desrespeito com a população de seus municípios. Quanto mais pobre o município, maior o salário oferecido aos “doutores”. (Somente para exemplificar, como professor de horário integral, com duas especialidades e um doutorado, orientador, revisor de revistas científicas, meu salário líquido é de menos de 5000 reais. E há alunos reclamando que, assim que se formarem serão “escravos” do SUS, ganhando 10.000 reais. O dobro do professor deles e 16 vezes mais que o salário mínimo).

Mas, a situação como está, é péssima para o povo. É a massa que está sendo feita de tola no Brasil. São os milhões de trabalhadores que fornecem a mão de obra para o País andar que deveria se revoltar contra os privilégios. Sejam de quem forem esses privilégios. Não são somente dos políticos, não são somente dos juízes. Os médicos somos privilegiados no Brasil. Isso está errado. Isso tem que acabar. Médico é um profissional como o é o torneiro mecânico, o ator, o faxineiro ou mesmo o juiz e o delegado. Há que se cortar dos de cima para dar aos de baixo.

De onde vêm os médicos brasileiros? Quantos podem, em sua linha genealógica, ascender a um quilombo, uma senzala ou uma tribo indígena? Este é um País que nunca viveu uma revolução social. Quem mandava há 500 anos, ainda manda hoje. De chibata na mão. Os médicos brasileiros somos quase todos brancos, oriundos das classes médias e da alta burguesia. Só se unem em momentos como este, para salvar os anéis. Quase todos se formaram em uma universidade brasileira.

Os médicos brasileiros pertencem quase exclusivamente à classe dominante que sempre fez o que quis do Brasil. Infelizmente, poucos colegas se sacrificam por um mundo melhor. Mas são esses poucos os que me enchem de orgulho e em quem procuro me inspirar. Espero que meus alunos os descubram e sigam seus passos e subam em seus ombros para ver um futuro melhor para todos.

7. A Universidade Brasileira

         De onde vem a universidade brasileira? Da necessidade da “elite” de manter seus privilégios. Até pouco tempo, historicamente falando, a “elite” branca mandava seus filhotes para a Europa. O Brasil foi ter universidade muito tarde. Os países hispânicos as têm há mais de 400 anos. Daniel Caribé escreveu um artigo em 2007, “Universidade Nova: quem ganha com este projeto?”, com o qual acerta no alvo. Ele compara a história da universidade brasileira com a da Universidade de Córdoba, na Argentina (completou 400 anos neste ano). Lá, em 1918, os estudantes tomaram a universidade e a ocuparam (a Argentina acabara com o analfabetismo no final do século anterior). Lançaram uma pérola, dirigida aos “Homens livres da América do Sul”,  infelizmente pouco conhecida no Brasil. O Manifiesto Liminar e o movimento exigiam a estatização completa da universidade, sua gratuidade, o fim das vagas limitadas (isso mesmo!), livre acesso ao povo, liberdade para aprender e liberdade para ensinar. Esse manifesto influenciou o maio de 68 na França, curiosamente mais familiar à Pindorama. Ou seja, exigiram (e conseguiram) que a universidade voltasse a ter o espírito livre dos clérigos vagantes e da goliardia italiana, de 800 anos antes (ainda existente na Itália!). A Argentina investiu na “universidade de massas”. Quem quisesse exclusividade e perfumaria, poderia procurar as privadas. Deu certo. É o País mais erudito das Américas (em que pese a falta de duas gerações de universitários assassinadas pelo capital e pelos militares).

Destarte, a universidade brasileira nasceu pobre para ricos e assim ficou. Uma das universidades mais fechadas para o exterior que conheço. É raro ver professores estrangeiros. Alunos são vistos, mas poucos também. Isso é no mínimo estranho. As universidades que conheço pelo mundo se orgulham de serem abertas, de terem professores de todos os lados, de serem uma rosa dos ventos, um crisol. Por outro lado, no Brasil há os que se assentam em “rankings”. “-Ah, porque esta ou aquela está entre as x melhores”. Mau gosto, cafonice e falta de erudição. Papagaios de estadunidenses! Academia não se mede em “ranking”. Casa de Altos Estudos não é carro de corrida. O que faz uma academia é o sedimento de docentes, discentes e corpo administrativo. Enfim, universidade é tempo.

E esse é o problema. O Brasil não sobeja em boas universidades. Se houvesse, até se poderia escutar o queixume das entidades médicas. Mas não há. (Claro, bons profissionais e bons estudantes existem e são vários. Bons médicos se formam até em más faculdades. Não é uma faculdade que limitaria quem tem vocação. Tenho vários excelentes colegas em quem confio minha saúde. A análise que faço é institucional e não pessoal. Generalizar é sempre um problema, mas não há outro caminho, pois estamos a falar de um “gênero”).

O estudante de medicina do Brasil tipicamente acha que ganhará dinheiro ao se formar. A lógica aqui é pervertida. Quanto mais elitista uma faculdade, mais os estudantes têm esse desejo. E, no Brasil, as universidades “públicas” são mais elitistas. Assim, é comum ver as faculdades privadas dando mais atenção ao SUS do que as públicas. Uma das privadas onde dou aulas, expõe os alunos ao Sistema desde o segundo mês de aulas, até a formatura. O resultado é que esses alunos estão mais inteirados e preparados para o PSF do que os alunos que frequentaram as públicas.

Seja como for, há uma desigualdade considerável entre a realidade de vida do médico e a de seus pacientes pobres. Um dos problemas mais recorrentes quando fui gestor do SUS era a falta de diálogo entre médicos e pacientes. Eles até se falavam, mas não entendiam a língua um do outro. Falavam português, mas os significados eram muito diversos.

Não bastasse o “vestibular”, construído na medida da exclusão dos pobres e da perpetuação dos ricos, o Brasil embarcou noutra canoa furada. E, desta vez, a responsabilidade é de um ex-ministro teoricamente de esquerda. O tal ENEM é um crime de lesa-humanidade. Ele se baseia da Teoria da Resposta ao Item, TRI. Essa TRI é filha da psicometria, parente da eugenia e dos “nazismos”. Parte de falácias conceituais, como a que considera ser possível objetivar a aprendizagem e medir a psiquê. O ENEM é impossível de ser fiscalizado. Você tem que aceitar o resultado e acabou. Um concurso assim deveria ser considerado, no mínimo, ilegal. É um longo assunto.

Em suma, universidade pública tem que ser de massas. Nenhum exame prévio deveria poder excluir uma pessoa de frequentar uma escola pública.

8. A Realidade dos “Estrangeiros”

         Por motivos vários, a gritaria é maior contra os cubanos, como já foi dito, e menor contra espanhóis e portugueses. Aqui respondo a meus alunos e às pessoas que, de boa fé, aderem ao discurso da UDN. Começo pelo seguinte: li o Diário Oficial e não vi referências explícitas a nenhuma nacionalidade estrangeira. Mas, admitamos que o plano seja mesmo atrair ibéricos e cubanos.

Primeiro, os europeus. O CFM é patrocinador de um programa de doutoramento em bioética, em convênio com a Universidade do Porto. Por coincidência, sou coorientador de um aluno – brasileiro – desse programa. O próprio Conselho tem procurado uma maneira de validar automaticamente os títulos da Universidade do Porto. Assim, pegaria mal criticar os portugueses, não é mesmo? Como o sistema universitário europeu hoje é unificado em seus princípios, os espanhóis entram no mesmo saco. Além disso, há um complexo de vira-latas que não deixa os brasileiros criticarem muito a Europa. Afinal, se vem de lá, deve ser bom (e, neste caso, é mesmo). O Governo Federal está em tratativas com seu par Português para assinar um convênio de reconhecimento de títulos. Não tenho visto protestos contra isso. Será pelo doutorado do Porto?

E Cuba? Cuba é um caso sui generis. Por ter a história que tem, desperta paixões de um lado e de outro. Mas aqui interessam os fatos médicos e universitários e para que a conversa continue boa, há que se deixarem as paixões de lado. Cuba é uma Ilha muito pobre no meio do Caribe, assolada por furacões e cercada por tubarões. Faz açúcar, charuto e promove o turismo. Pode uma “coisa” dessas produzir um bom médico? Um médico que serviria para atuar na quinta potência econômica mundial? Teriam os médicos cubanos capacidade de atender bem a população brasileira? Por mais difícil que seja, acredite. A resposta é: sim. Nem por um momento cairei na armadilha de discutir Fidel Castro. Se interessa uma revolução aqui, é a revolução social. Cuba, essa paupérrima ilhota decidiu investir em duas coisas. Educação e saúde. Nessa ordem. Um dos mais pobres países do mundo acabou com o analfabetismo em dois anos. Perdeu a maioria de seus médicos (com perfil social semelhante ao dos brasileiros) para os Estados Unidos depois da revolução e decidiu formar os melhores médicos. O resultado é impressionante. Se você deixar de lado o preconceito, verá um Haiti que virou uma potência da saúde pública, da educação e dos esportes.

Os médicos e os professores universitários formados em Cuba são respeitados pelas academias mundo afora.  Também por governos não amigos. A prova? Foi-me dito na Embaixada da Espanha (uma monarquia de direita com governo de direita) que os títulos de medicina da Argentina e de Cuba eram aceitos no Reino de forma muito mais expedita que os de outros países. Disseram-me, também, que os títulos brasileiros tinham muitas dificuldades. Perguntei o motivo e me disseram: “o Brasil não aceita ninguém, ninguém aceita o Brasil”. Isso eu vivi. Outro fato: há dois anos recebi em casa dois estudantes que cursam medicina em Cuba. Um brasileiro e outra estadunidense. Consegui que frequentassem um Centro de Saúde. A médica do PSF ficou muito impressionada com o desempenho dos dois. Sobretudo a seriedade, a ética e a vontade de estudar. Perguntei numa noite de conversas à estadunidense se ela poderia voltar e exercer nos Estados Unidos. Ela me disse que sem nenhum problema. Que ela, como qualquer estudante dos EUA se submetia anualmente a um exame e que, superando esse exame, teria o registro para o exercício assegurado. Ela me disse ainda, que havia algumas dezenas de estudantes dos EUA em Cuba. Todos estudavam de graça, o que seria impossível no país dela. Perguntei o conceito do qual gozavam os médicos formados em Cuba lá no Norte. Ela me disse, sem pensar: “são considerados ótimos”.

Conheço três médicos que se formaram em Cuba. Eles não precisaram fazer o que hoje se chama Revalida, pois eles entraram na Convenção Regional citada no prólogo. Os três são profissionais de ouro. Sempre se destacam como os melhores em seus trabalhos. Um deles, depois de fazer pediatria, cardiologia pediátrica e mestrado em pedagogia, trabalhou como médico do PSF por anos. Depois se juntou aos Médicos Sem Fronteiras. Curioso. Ele já atuou em mais de 30 países e nunca fez “revalida” em nenhum deles. Mais curioso ainda: atuando em 4 continentes, nas condições mais diversas, nunca se queixou de falta de “estrutura”. Há médicos assim. Especialistas em gente. Sabem de muita coisa, mas sobretudo aprenderam relação médico-paciente, relação humana, amor pelo semelhante. Se alguém está sofrendo, ele vai lá e atende. Depois pensa em si próprio.

 

9. A Formação em Cuba

         Como é a formação em Cuba? Séria. Rigorosa. Diferente da formação clássica europeia que existe na América, por exemplo, na Argentina. Cuba, talvez por ser muito pobre, não pode ter uma universidade de massa. Mas todos têm a mesma chance de entrar na faculdade de medicina, seja filho de médico, seja filho de lixeiro. O número de vagas varia de ano pra ano, de acordo com as necessidades projetadas para o futuro.

O estudante de medicina em Cuba respira universidade 24 horas por dia. Tipicamente o estudante mora na academia. Não se preocupa com outras questões paralelas enquanto estuda. A universidade fornece alojamento, roupas, comida e até os livros. Isso mesmo, um país pobre como Cuba forma seus médicos com livros e não com apostilas ou fotocópias do caderno da colega de letra bonita que copia tudo o que o professor diz. Apesar de haver avaliação escrita, a maioria das provas é oral. As provas finais orais são com banca examinadora (como em grande parte da Europa, como na Argentina). O aluno se senta, sorteia algumas perguntas e é sabatinado pelos professores. Mas há provas praticamente todos os dias. Os alunos nunca sabem quando serão examinados durante as aulas. Têm que saber tudo o tempo todo. A formação tem, além das matérias existentes no Brasil, outras que ajudam a forjar um médico humano, como filosofia, psicologia, sociologia (como acontece na Argentina). Se algum aluno for pego trapaceando, colando, é expulso e proibido de fazer qualquer curso superior na Ilha. O curso dura seis anos e, quando formado, o médico tem que ir trabalhar onde o Estado determinar.

Há também que se dizer o que não se vê em Cuba. Não se veem estudantes publicando frases na internet do tipo “graças a deus hoje não tinha paciente no posto”. Não se veem professores ensinando seus alunos a chamarem pacientes do SUS de “jacaré”. Não se veem universidades chamando professores às falas e até os demitindo por terem reprovado alunos. Não se veem médicos assassinando pacientes para liberar leitos e faturar mais na UTI. Não se veem médicos falsificando as próprias digitais para fraudarem o trabalho. Não se veem estudantes fazendo abaixo-assinado contra professores “difíceis”. Não se veem pais de alunos indo à universidade reclamando porque o filhinho ficou com nota baixa. Não se veem professores esfaqueados por alunos que foram mal avaliados. Não se veem estudantes dando “plantões piratas” sem supervisão em hospitais e médicos que deixam seus carimbos com estudantes enquanto vão dormir. Não se veem estudantes fazendo “esquema” para que parte deles escape dos estágios obrigatórios. Não se veem médicos com duas agendas; uma para “convênios” e outra para “particulares”. Dessas “estruturas” Brasil padece.

Não satisfeitos com suas conquistas internas, Cuba criou uma tradição honrosa de mandar médicos a locais de catástrofe mundo afora. No Haiti quem primeiro chegou após o terremoto e lá permaneceu não foram os estadunidenses ou brasileiros, muito mais ricos e poderosos. Foram os cubanos. Preparados para atuarem em qualquer condição, não tiveram dificuldades para se adaptar. Hoje, além de tabaco e de açúcar, a Ilha oferece seus médicos ao mundo. Tocantins provou noventa deles. Consta que experiência foi excelente, até o CFM conseguir liminar na justiça, expulsando-os, sob a acusação de que eles estavam tirando empregos de brasileiros. Curioso, nunca soube que o CFM tenha mandado médicos “brasileiros” para lá, ou que qualquer diretor do Conselho tenha ido ocupar essas vagas. Da última vez que soube, os lugares atendidos pelos cubanos ainda estavam com as vagas abertas.

10. Dois Anos de Estágio Obrigatório e “Revalida”

         É certo o recém-formado ter que trabalhar onde o Estado mandar? Claro que sim! Medicina não é administração de empresas e nem de herança. Medicina é sacerdócio, é doação. Quem faz medicina para se locupletar ou para ter descanso, faz o curso errado. Não importa se você estuda em universidade pública ou privada, se você tem ProUni, Fies ou se paga 60, 70 mil reais por ano. Ensino e conhecimento não são propriedades. Você não “compra” seu curso ou seu diploma de medicina porque paga para frequentar a universidade. Quando escolhe aprender a Arte, você entra em uma tradição milenar, iniciática. Tradição de serviço. Se rincões amedrontam você, se pobre dá nojo, medicina não é para você. Você não acaba sua formação depois de 6 anos. Depois desse período você deveria estar pronto para começar a se formar. O que forma você é a relação com o paciente, com o mundo, com a dor, com o sofrimento. Quanto mais necessitado o paciente, mais ele forma você.

Fico muito feliz com essa ideia. Anos atrás escrevemos um projeto parecido, usando a obrigação constitucional de serviços militares ou sociais. Apresentamos o projeto ao Exército e ao Ministério da Saúde. Acharam interessante, mas ninguém queria mexer com médicos e estudantes de medicina. Parabéns, Presidente, pela coragem.

Por último, o “Revalida”. A ideia do Revalida não é necessariamente errada. Mas, está no lugar errado. O Brasil não pode se dar a esse luxo. Muitos países do mundo não têm processo de revalidação. Outros têm. Mas, no geral, os países se abrem para médicos já formados. O motivo é óbvio. Formar um médico ficou caríssimo (não tem  que ser necessariamente assim). Aceitar um pronto é muito mais barato. E, num país sem tradição universitária, nem há que se falar em Revalida. Penso que assegurar-se que a universidade de origem seja reconhecida pela ONU, que esteja no Avicenna, já está de bom tamanho.

Somente a título de exemplo, no Reino Unido 40% dos médicos (o sistema de saúde de lá é considerado o melhor do mundo) são formados fora. Facilita-se a entrada de novos médicos sempre que o sistema precise.

Para quem quer mais números, gosta de estatística descritiva e quer pensar um pouco, ei-los:

PIB em bilhões de US$ (2008) Gasto per capita com saúde em US$ (2008) Médicos /1000 habitantes (2005) Mortalidade infantil (/1000) Casos de dengue registrados (2007)
Brasil

2648,9

715

1,64

21,2 (2005)

559,954

Cuba

60,81

584

6,27

5,3 (2007)

28

EUA

14219,3

7760,5

2,25

6,9 (2005)

488

Fontes: OPS, OMS, index mundi, Trading Economics

P.S.: O CFM nunca me perguntou o que eu pensava sobre este assunto, mas, insistentemente diz falar em nome de todos os médicos e tem mandado e-mails pedindo para que eu me junte “à luta”. A lei que criou o CFM diz que ele é uma autarquia que fiscaliza o exercício ético da profissão. Ou seja, deveria estar fiscalizando e punindo os membros inscritos que cometem barbaridades contra pacientes. CFM não tem procuração para falar em nome da categoria. Esse papel, em todo caso, caberia ao sindicato dos médicos. O CFM quer sempre um mercadão com muita demanda. Hoje convoca todos os médicos e estudantes do Brasil. Há pouco tempo não queria aceitar os formados em faculdades privadas, dizendo que eram elas de baixíssima qualidade e que a saúde da população estava em risco. Como fica? São companheiros ou um ameaça os formandos em escolas privadas para o Conselho?

Em todo caso, eu já me juntei à luta, mas foi à luta pela vida, por um mundo melhor, baseado na semelhança. Semelhante cura semelhante. Não sou contra o espírito de corpo. Ele é importante em vários momentos, mas os princípios fundamentais vêm antes. Continuarei lutando, ao lado do povo. E, para o povo, o melhor neste momento é que todos apoiemos o Programa Mais Médicos para o Brasil.”

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