A ‘elalização’ do mundo, em três cenas

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Dia desses fui ao clube. Estava um céu azuuuul, sem sinal de nuvens, um sol fortíssimo, crianças brincando na piscina. Um daqueles dias deliciosos para descansar, observar as pessoas, se divertir. Tomar um picolé sem culpa, botar o papo em dia, uma cervejinha gelada para os não grávidos. Eu estava sozinha, mas com o espírito leve — nadei, comi um Fandangos de presunto, comecei a ler um livro novo, até tirei uma soneca debaixo do sol. Só tirei o celular da bolsa para o caso de o marido, de plantão, dar o telefonema costumeiro. Quando olhei ao redor, tomei um susto: todas as mesas e cadeiras estavam cheias e, em todas elas, sem exceção, as pessoas estavam olhando para seus celulares e smartphones. Sentadas, na sombra do guarda-sol, seus olhos fixos na telinha, dedos agitados deslizando sobre os teclados virtuais.

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2

Todos os dias, dou carona a uma grande amiga até o trabalho. Quando chego na porta da casa dela, ela não costuma reparar. Está sentada, de costas pra rua, olhando sempre para baixo: para o smartphone, no colo. Olhos fixos na telinha, dedos deslizantes no teclado virtual, às vezes preciso buzinar uma segunda vez para ela “acordar” para o mundo real. Noutro dia, ela sacou o celular da bolsa, já dentro do carro, para ver o que o Waze dizia sobre o trânsito que enfrentaríamos, que parecia mais lento que de costume. Acessou o Waze, passou a informação, e continuou navegando, distraída, sem se dar conta. Fomos até o jornal com ela conectada ao meu lado, silenciosa. Outro dia fiz uma observação: “Todo dia, quando chego, você está mergulhada no celular, já reparou?” Ela rebateu: “Mas é que nessa hora estou sozinha…”.

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Estamos em um show, um dos melhores shows em que já estive na vida. Madeleine Peyroux, com sua voz de Billie Holiday, no Palácio das Artes. A acústica montada por sua equipe de engenharia de som é tão perfeita que, até lá no fundão do teatro, no ponto mais distante do palco, conseguimos ouvir sua voz, baixinha, como se estivesse soprando em nosso ouvido da cadeira ao lado. Mal enxergamos a cantora e musicista, mas a escutamos melhor do que nunca. É um daqueles shows em que toda a plateia prende a respiração, não dá um pio, o escuro é absoluto, a vontade é de absorver cada acorde como se fôssemos uma esponja. Sem direito a distrações, ninguém ousa nem sequer fazer uma foto. Mas, uma fileira adiante de onde estamos sentados, uma luzinha insiste em ficar acesa o tempo todo: um Galaxy gigante, daqueles que parecem um tablet, é acionado a todo momento para troca de mensagens no WhatsApp.


 

A cada dia que passa, mais me sinto dentro do filme “Ela“, de Spike Jonze. Mas, em vez de ver uma multidão distraída com o mundo externo, 100% concentrada em seus óculos inteligentes, vejo as pessoas com as cabeças baixas, dedos vorazes, conectadas em seus smartphones (isso até os smartglasses e watches pegarem!). Sei que a internet é um mundo atraente, com milhões de coisas interessantíssimas. Mas sinto que, absortas (e dependentes) demais por esse mundo virtual, as pessoas estejam perdendo o sol, o céu azul, os passarinhos, o movimento das ruas, as músicas mais belas, os filmes no cinema e até o convívio com as outras pessoas!

ela

E não estou aqui dizendo que estou imune a essa “elalização” do mundo. Eu também me surpreendo enfurnada em um smartphone nos momentos mais impróprios. Mas tenho feito um esforço para me desconectar um pouco. Neste fim de semana, vou radicalizar: vamos para um cantinho no meio do mato, desses em que nem o telefone pega direito, muito menos a internet 3G. Sem TV no quarto. Só um mergulho na natureza, nas matas, nos passarinhos, no céu estrelado e, com sorte de o tempo colaborar, nas cachoeiras. Volto na semana que vem, muito mais relaxada, e, quem sabe, posso até compartilhar aqui no blog algumas informações sobre esse “spa antitecnologia”. Até lá 😉

Leia mais sobre as discussões tecnológicas:

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De BonitoBH para Delegata*

Foto: Douglas Magno / "O Tempo" - 17.9.2013

Foto: Douglas Magno / “O Tempo” – 17.9.2013

“Olá, AdvoGata!

Pelo trocadilho que fiz com seu apelido, logo no começo da nossa conversa, você já sabe que sou eu mesmo, né? O BonitoBH. Engraçado é que, em todas aquelas horas de conversa no chat, em nenhum momento nós falamos nossos nomes. Bom, melhor manter o mistério… Inclusive porque, tenho que admitir, não fui sincero com você em toda a nossa conversa.

Calma, não sou casado mesmo, isso eu te jurei, né? Belo-horizontino solteiríssimo! E é verdade que nossas séries favoritas de TV são as mesmas. Eu também adoro seriados de detetives, como “Law & Order”, deve ser coisa da nossa profissão, né? rs. Tenho a coleção inteira dos DVDs, que eu disse que te emprestaria.

(Agora você vê que sou mesmo eu, né? Fiquei com ciúmes quando li que recebeu milhões de ligações e torpedos de pessoas se fazendo passar por mim. Mas aliviado quando você disse na notícia que saberia me reconhecer.)

É, já vou fazer de cara uma confissão, antes das outras. Não fiquei sabendo da sua “caçada” por mim vendo as faixas espalhadas pelo Santo Antônio, porque não moro mais lá. Quem mora lá são meus pais, mas já saí de casa… Eu só fiquei sabendo porque li no jornal e vi a repercussão no Facebook. Eu tinha ficado triste que você não tinha me passado seu telefone, mas dei pulos de alegria quando se arrependeu e resolveu espalhar faixas à minha procura. Senti mesmo que tinha me apaixonado por você, que era a pessoa certa! Não era só mais uma dessas mulheres desesperadas para encontrar um homem, era inteligente… E aquela sua foto com decote… uau!

Bom, aí entra outra confissão a fazer. Eu não deixei de te mandar foto porque estava no laptop do escritório, sem nenhuma legal pra enviar no chat. É que, na verdade, não me acho assim tão “bonito” como dizia meu nick. Tenho um problema de acne e uso aparelho, sabe? É passageiro, já estou em tratamento de pele. Também não frequento academias, como disse só pra te agradar. Mas, olha, pretendo! Assim que eu voltar a morar em Beagá, vou me inscrever.

É, não moro em Beagá, mas é temporário. Já-já estou de volta! Bom, naquela notícia você disse que queria muito me conhecer, mesmo que eu não fosse advogado nem tivesse a idade que disse na conversa. Lembra? Então vamos ver se é verdade: eu ainda não sou advogado, mas estou chegando lá! (rs, estou nervoso) Quando eu era criança, me diagnosticaram como um “gênio” (tipo os caras de “Big Bang Theory”, que a gente adora, né?) e passei no vestibular para Harvard Law School ainda aos 16 anos de idade. Consegui cumprir o currículo mais rápido e, bem, já me formo neste ano. Advogado mesmo! E volto a viver em Beagá, lá no bairro Santo Antônio. Foi a maior mentirinha que te contei naquela conversa, mas foi só para você não fugir. Bom, chega de adiar, uma hora eu tinha que te dizer: não tenho 34, tenho 19 anos.

Mas com cabeça de muito mais velho, você viu, né? Ainda quer me conhecer??????

Espero sua resposta com ansiedade. Vou para Beagá no Natal e espero te conhecer, querida AdvoGata. Com aquele decote! Prometo que não vou te decepcionar e não conto mais nenhuma mentirinha offline.

Beijo do seu Bonito.”

* Texto de ficção, inspirado na notícia “‘Delegata’ pendura faixas por BH para encontrar homem que conheceu pela internet“, publicada ontem no jornal “O Tempo”.

Finalmente, surgem as reações aos viciados em smartphones

Sabem quando algo foge dos limites e a sociedade começa, finalmente, a reagir? Será que é o que está acontecendo (de novo, finalmente) com os viciados em smartphones?

Já falamos deles AQUI no blog (e, acreditem, era uma história real).

Mas vocês conhecem pessoas como eles (se é que não se juntou à trupe). São aqueles que, de repente, param de conversar na mesa do bar e, quando você vai ver, estão papeando no Facebook ou WhatsApp. Ou então aqueles que pedem um prato num restaurante legal e, antes da primeira garfada, já estão fotografando a comida e esperando ansiosamente pelas curtidas no Instagram.

Parecem não ter mais a capacidade de “curtir” nada em carne a osso, ao vivo, com toques, respingos de saliva e brilho nos olhos durante uma gargalhada feliz. Só sentem prazer com os “joinhas” dos outros, muitas vezes desconhecidos, no mundo virtual.

Cenas como esta abaixo, flagrada num dia qualquer e numa rua qualquer de Belo Horizonte, são corriqueiras:

Foto: Beto Trajano

Foto: Beto Trajano

Seriam colegas de trabalho, que substituíram a conversa pós-almoço por um tweet?

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Nos últimos dias, duas reações a essa realidade surgiram.

A primeira, um vídeo já assistido mais de 19 milhões de vezes (enquanto escrevo este post, numa manhãzinha de quarta), feito pela comediante Charlene deGuzman. Embora esteja na categoria de vídeos de comédia do Youtube, é triste, triste, porque identificamos muitas pessoas (ou nós mesmos) em várias das patéticas cenas retratadas:

A segunda, uma foto que já recebeu mais de 20 mil “curtidas” e 15 mil compartilhamentos no Facebook, sempre com comentários como “adorei!!” — prova maior de que os próprios fãs dessa prisão virtual são parte da reação em questão:

"Não temos wi-fi, CONVERSEM entre vocês"

“Não temos wi-fi, CONVERSEM entre vocês”

Não me perguntem onde fica este bar. Mas espero que inspire outros estabelecimentos das nossas cidades, ao redor do mundo. Afinal, restaurantes, bares e lanchonetes são, por princípio mesmo, um lugar de interação social.

E nós, caros leitores, vamos também reagir? Sugiro algo NESTA linha 😉