De BonitoBH para Delegata* — última versão

Acabou virando uma trilogia, porque tive que fazer esta última, atendendo a pedidos 😀

Leia a primeira versão AQUI e a segunda, AQUI.

Foto: Douglas Magno / "O Tempo" - 17.9.2013

Foto: Douglas Magno / “O Tempo” – 17.9.2013

“Oi, Flávia.

Desculpe a demora para te procurar, imagino que tenha ficado numa ansiedade tremenda. Falo isso porque eu fiquei. Desde que vi aquelas faixas espalhadas pelo meu bairro, não soube o que fazer. Minha primeira reação foi te achar uma louca, desesperada, ou alguém querendo aparecer, ficar famosa. Contei para dois amigos e eles foram totalmente contrários a que eu entrasse em contato contigo. Falaram, literalmente: “Foge desta mulher! É sarna pra se coçar, na certa.” E era o que eu estava decidido a fazer, no primeiro dia. Até me convenci de que você não devia ser gata coisa nenhuma.

Mas, no segundo dia, fui lendo cada entrevista que você deu, sempre dizendo que não estava à caça de um namorado, que não se importava com os centenas de manés que tinham te ligado desde então, que só queria uma pessoa específica, o BonitoBH — eu! Li até você lamentando a possibilidade de eu já ter te ligado e você não ter reconhecido. E vi, num dos jornais, que você resolveu divulgar sua foto. Pô, é gata mesmo, e ainda mostra ter tanta personalidade. Será que o louco não era eu, por estar deixando você escapar?

Daí, no terceiro dia, o que me bateu foi um medo. E se eu ligasse e você achasse que eu era só mais um mentiroso? Até li num blog duas versões fictícias sobre quem seria o BonitoBH: numa delas a menina imagina o cara como um nerd de 19 anos e, na outra, como um velhote casado. Olha, uma coisa eu te garanto: não menti em nenhum momento daquela nossa conversa. Tenho mesmo 34 anos, moro no Santo Antônio, sou advogado, gosto de seriados de TV, não gosto de música sertaneja etc. Ah, e sou bonito mesmo, um dia você vai ver, rs.

Fiquei com pavor de você me confundir com os outros falsos pretendentes, mas aí li você dizendo que me reconheceria pelo lugar que eu disse que ia te levar. Com uma vista linda do centro da cidade, música brego-romântica antiga e assentos parecendo bancos de ônibus, lembra? Você disse que não conhecia o Top Bar, e prometi te apresentar um lugar tão inusitado da cidade, e você amou a ideia. Aposto que esses outros caras que surgiram iam te levar, no máximo, pra um cineminha, rs.

Olha, eu entendo se estiver com raiva de mim, por ter demorado tanto a te ligar, depois de tamanha coragem em se expor. Eu próprio estou com raiva de mim e daqueles meus amigos mal-intencionados (um deles disse até que te ligou para zoar!). Mas, antes tarde do que nunca, né? Se ainda quiser me conhecer melhor, o convite pro Top Bar continua de pé.

Um beijo,

BonitoBH, o verdadeiro (telefone: XXXX-XXXX).”

* Texto de ficção, inspirado na notícia “‘Delegata’ pendura faixas por BH para encontrar homem que conheceu pela internet“, publicada nesta semana no jornal “O Tempo”.

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De BonitoBH para Delegata*

Foto: Douglas Magno / "O Tempo" - 17.9.2013

Foto: Douglas Magno / “O Tempo” – 17.9.2013

“Olá, AdvoGata!

Pelo trocadilho que fiz com seu apelido, logo no começo da nossa conversa, você já sabe que sou eu mesmo, né? O BonitoBH. Engraçado é que, em todas aquelas horas de conversa no chat, em nenhum momento nós falamos nossos nomes. Bom, melhor manter o mistério… Inclusive porque, tenho que admitir, não fui sincero com você em toda a nossa conversa.

Calma, não sou casado mesmo, isso eu te jurei, né? Belo-horizontino solteiríssimo! E é verdade que nossas séries favoritas de TV são as mesmas. Eu também adoro seriados de detetives, como “Law & Order”, deve ser coisa da nossa profissão, né? rs. Tenho a coleção inteira dos DVDs, que eu disse que te emprestaria.

(Agora você vê que sou mesmo eu, né? Fiquei com ciúmes quando li que recebeu milhões de ligações e torpedos de pessoas se fazendo passar por mim. Mas aliviado quando você disse na notícia que saberia me reconhecer.)

É, já vou fazer de cara uma confissão, antes das outras. Não fiquei sabendo da sua “caçada” por mim vendo as faixas espalhadas pelo Santo Antônio, porque não moro mais lá. Quem mora lá são meus pais, mas já saí de casa… Eu só fiquei sabendo porque li no jornal e vi a repercussão no Facebook. Eu tinha ficado triste que você não tinha me passado seu telefone, mas dei pulos de alegria quando se arrependeu e resolveu espalhar faixas à minha procura. Senti mesmo que tinha me apaixonado por você, que era a pessoa certa! Não era só mais uma dessas mulheres desesperadas para encontrar um homem, era inteligente… E aquela sua foto com decote… uau!

Bom, aí entra outra confissão a fazer. Eu não deixei de te mandar foto porque estava no laptop do escritório, sem nenhuma legal pra enviar no chat. É que, na verdade, não me acho assim tão “bonito” como dizia meu nick. Tenho um problema de acne e uso aparelho, sabe? É passageiro, já estou em tratamento de pele. Também não frequento academias, como disse só pra te agradar. Mas, olha, pretendo! Assim que eu voltar a morar em Beagá, vou me inscrever.

É, não moro em Beagá, mas é temporário. Já-já estou de volta! Bom, naquela notícia você disse que queria muito me conhecer, mesmo que eu não fosse advogado nem tivesse a idade que disse na conversa. Lembra? Então vamos ver se é verdade: eu ainda não sou advogado, mas estou chegando lá! (rs, estou nervoso) Quando eu era criança, me diagnosticaram como um “gênio” (tipo os caras de “Big Bang Theory”, que a gente adora, né?) e passei no vestibular para Harvard Law School ainda aos 16 anos de idade. Consegui cumprir o currículo mais rápido e, bem, já me formo neste ano. Advogado mesmo! E volto a viver em Beagá, lá no bairro Santo Antônio. Foi a maior mentirinha que te contei naquela conversa, mas foi só para você não fugir. Bom, chega de adiar, uma hora eu tinha que te dizer: não tenho 34, tenho 19 anos.

Mas com cabeça de muito mais velho, você viu, né? Ainda quer me conhecer??????

Espero sua resposta com ansiedade. Vou para Beagá no Natal e espero te conhecer, querida AdvoGata. Com aquele decote! Prometo que não vou te decepcionar e não conto mais nenhuma mentirinha offline.

Beijo do seu Bonito.”

* Texto de ficção, inspirado na notícia “‘Delegata’ pendura faixas por BH para encontrar homem que conheceu pela internet“, publicada ontem no jornal “O Tempo”.

Cenas do protesto com milhares de pessoas em Belo Horizonte

Fazia uma linda tarde de sol, com céu azul e jogo do Brasil inaugurando a Copa das Confederações. Aquelas pessoas poderiam estar na piscina, no buteco, ou simplesmente estiradas no sofá de casa, com uma latinha de cerveja na mão, de frente pra TV. Ah sim: também poderiam estar no Facebook.

Mas preferiram sair de casa, empunhando cartazes, faixas, bandeiras, apitos e narizes de palhaço, para protestar por uma causa que é ampla o suficiente para comportar dezenas de grupos diferentes, muitos dos quais apartidários. E, embora estivessem acompanhados de perto por policiais militares, na cavalaria, no choque, a pé, em motos e carros, tudo o que testemunhei desse protesto coletivo foi pacífico, do início ao fim.

Diz a polícia que havia 8.000 pessoas. No Facebook, 21 mil confirmaram. O fato é que havia muita gente, gente que nunca vi reunida, em tamanha quantidade e disposição, nos meus 28 anos de Beagá.  Milhares de pessoas que percorreram juntas, ao menos das 14h às 16h30 (tempo em que acompanhei), um trajeto de 3 km.

Abaixo, algumas (mais de cem!) cenas dessas duas horas e meia de protesto (que talvez tenha continuado, mas não acompanhei tudo), sem detidos, sem brigas e sem confusão em todo esse tempo.

***

Quando cheguei, às 14h, havia um pouco de gente ainda na praça da Savassi, onde tinham começado a se reunir às 13h, mas o grosso já se encaminhava para a Praça da Liberdade, fechando todo um sentido da avenida Cristóvão Colombo:

Todas as fotos: CMC. Clique sobre elas para vê-las em tamanho real.

Todas as fotos: CMC. Clique sobre elas para vê-las em tamanho real.

O trânsito ficou uma droga para os desavisados que resolveram ir até a Savassi de carro:

IMGP3062Mas não é que muito motorista, ao longo de todo o percurso, buzinou e fez joinhas em apoio aos manifestantes? Muito mesmo, foi surpreendente:

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IMGP3300Teve até motorista de ônibus (vários, aliás) sorrindo para o pessoal e concordando com seus apelos (“Motorista, trocador, quero ver se seu salário aumentou!”). Este aí fez o sinal do quanto ganha sua categoria:

IMGP3246Também teve muito apoio entre passageiros de ônibus, nos prédios, e entre outros pedestres que estavam na rua só observando a carreata:

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E, afinal, o que queria toda essa gente? Seus cartazes improvisados trazem muita coisa. São várias as mensagens, reclamações, reivindicações e contestações. Por exemplo:

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IMGP3164Além de cartazes, os manifestantes também levaram outros itens para agitar o protesto:

Nariz de palhaço...

Nariz de palhaço…

Máscaras...

Máscaras…

Apitos...

Apitos…

A Constituição de 1988.

A Constituição de 1988…

Flores...

Flores…

Panelas...

Panelas…

Instrumentos musicais...

Instrumentos musicais…

Megafone...

Megafone…

Tinta...

Tinta…

Um jipe vermelho (!)...

Um jipe vermelho (!)…

E até quadro e boina!

E até quadro e boina!

A propósito, esta não foi a única criança que vi, teve mais duas:

Esta ficou até o fim!

Esta ficou até o fim!

Esta também aguentou firme!

Esta também aguentou firme!

E tinha outros cabeças-brancas:

IMGP3197 IMGP3203E cabeças verdes…

IMGP3304E uma porção de cabeças cobertas:

IMGP3114 IMGP3118 IMGP3131 IMGP3275 IMGP3318 IMGP3337 IMGP3341 IMGP3349Aliás, tinha de tudo, minha gente:

Nacionalistas,

Nacionalistas,

punks,

punks,

rivais em campo,

rivais em campo,

rastafáris,

rastafáris,

casais de namorados,

casais de namorados,

vários casais, aliás,

vários casais, aliás,

tatuados,

tatuados…

pessoas com muletas!

até pessoas com muletas!

Também tinham muitas bandeiras, mas só de um partido político, o PSTU. As pessoas, em vários momentos, gritaram pedindo que abaixassem essa bandeira e que fossem embora, por aquele pretender ser um movimento apartidário. Também foi comum ouvir gritos de “Aqui não tem partido!” e outros criticando o Marcio Lacerda, o Aécio Neves, a Dilma Rousseff e outros políticos. Isso foi bem legal. Mas eis algumas bandeiras que apareceram por lá:

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IMGP3097Também havia várias pessoas da imprensa:

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Que estavam preocupadas em flagrar possíveis tumultos causados pela polícia, como ocorreram em São Paulo. No entanto, em Beagá, embora estivessem em todos os lugares, os policiais mantiveram uma distância saudável dos manifestantes (e vice-versa):

IMGP3057 IMGP3090 IMGP3117 IMGP3347 IMGP3366Também não presenciei nenhuma “depredação ao patrimônio público”. No máximo uns balõezinhos da Fifa estourados:

IMGP3353A única infração que presenciei foi cometida por motoristas afobados que estavam na avenida Afonso Pena e resolveram passar por cima do canteiro central para retornarem. Alguns foram multados, mas ofereço as placas para o caso de a BHTrans ainda se interessar em correr atrás de alguma multa perdida:

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Até tu, táxi!

IMGP3216 IMGP3217 IMGP3218Uma garota ficou extremamente feliz por ter se posicionado no canteiro, bloqueando a passagem de um dos carros, até que um PM se aproximasse para multá-lo. Outra que ficou feliz foi esta aí embaixo, porque deu uma flor a um guarda municipal e ainda fez o dia dele, com um abração público:

IMGP3303Por fim, encerro com algumas cenas gerais, para verem como esteve realmente cheio:

Na praça da Liberdade.

Na praça da Liberdade.

Idem.

Idem.

Praça tomada!

Praça tomada!

Descendo a Cristóvão Colombo.

Descendo a João Pinheiro.

Idem.

Idem.

Na praça Afonso Arinos.

Na praça Afonso Arinos.

Na Afonso Pena.

Na Afonso Pena.

Entre os carros.

Entre os carros.

Ainda Afonso Pena.

Ainda Afonso Pena.

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Praça Sete.

Praça Sete.

Existe amor em BH.

Existe amor em BH.

Amazonas.

Amazonas.

E o fim, em frente à praça da Estação, que estava fechada para algumas pessoas verem o jogo do Brasil e Japão.

E o fim, em frente à praça da Estação, que estava fechada para algumas pessoas verem o jogo do Brasil e Japão.

Vejam quanta gente!

Vejam quanta gente!

No meio do caminho, marcaram outro protesto para segunda-feira, às 13h, na Praça Sete. Se, por um lado, haverá muito mais pessoas trabalhando, o que deve esvaziar o movimento, por outro, o trânsito da cidade, já caótico, deve parar. Por isso, fica minha recomendação: #vádebusão ou #vádebike ou #váapé, já que #irdemetrô, em Beagá, é quase não querer chegar.

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