Você tem olhado o que vê pela frente?

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Uma flor bonita no meio de um lote vago qualquer, em Belo Horizonte. Foto: CMC

Não sei se foi a temporada morando sozinha ou se sempre tive esses momentos de introspecção, mas foi com eles que aprendi a perceber que estava olhando o mundo ao redor. Porque acho que às vezes a gente se esquece. A gente se concentra em um foco e desfoca o redor dele. Ou, muitas vezes, andamos tanto no automático que nem o foco entra direito em nosso cérebro.

Vou dar um exemplo: vamos supor que você dirija, todos os dias, cerca de 15 km entre sua casa e seu trabalho. É um trajeto respeitável e você o cumpre, religiosamente, de segunda a sexta. Passando por um mesmo lugar com tanta frequência, deveríamos, no mínimo, saber descrever tudo o que se encontra pelo caminho, certo? Mas quanto desse percurso você consegue detalhar, se parar pra pensar? Quantas bancas de revista cruzam seu caminho? E quantas quaresmeiras floridas? Já reparou naquela casa linda que fica na esquina da avenida com a ruazinha íngreme?

Na verdade, você entra no carro e avisa ao seu cérebro: “Olha, você só precisa me levar praquele lugar de sempre, naquele caminho de sempre, e dirigir daquele jeito que você já sabe, passando as marchas de acordo com o barulho do motor e parando nos sinais vermelhos. Beleza?”. O cérebro concorda, começa a viagem, e você vai indo, distraída em seus pensamentos, sem olhar muito o que acontece ao redor. No máximo, tendo que se concentrar com um ou outro barbeiro que corta seu caminho.

Na hora que o sinal fecha, ainda dá tempo de espiar o carro ao lado, o casal passeando com um cachorro na calçada, a quaresmeira florida — que bonita! — do outro lado da rua. Mas a verdade é que, nessas horas, muita gente já está trocando o prazer de olhar pelo vício de checar rapidamente o celular e ver se nenhuma nova mensagem de WhatsApp pipocou nesse meio-tempo.

Mas de carro é complicado ver o mundo mesmo, pode-se alegar. É caminhando que a gente consegue ler realmente todas as plaquetas das casas, descobrir que o prédio da outra rua esconde uma escada na garagem que você nunca tinha visto antes, se maravilhar com as costelinhas assadas que o mercado do bairro vende, detectar que existe uma lojinha de coisas encantadoras naquele caminho, reparar no verde escandaloso com que pintaram aquela casa, se alegrar com a existência de um cachorro tão grande que mais parece um bezerro, preso naquele quintal, se impressionar com a forma redondíssima da copa daquela árvore, que até parece cuidada por um jardineiro da Disney.

Mas, fala a verdade: mesmo a pé você tem conseguido ver o mundo ao seu redor? Reparar nas pinturas de flores que fizeram no portão daquela casa abandonada? Se impressionar com as flores estranhas e coloridas que surgiram no meio daquele lote vago? Perceber que aquela babá cuida com muito mais carinho da menininha que seus pais impacientes? Cumprimentar os malabaristas do sinal, que trabalham ainda com mais afinco  nos domingos e feriados? Descobrir que existe um boteco novo naquela esquina, mas, puxa vida, este é bem copo-sujo? Se emocionar com as luzinhas se acendendo na favela, uma a uma, formando uma gigantesca árvore de natal contra o céu da hora mágica?

O automatismo é uma arma que nosso cérebro criou para descansar um pouquinho. Ele nos permite saber chegar em casa, respirar, colocar um pé diante do outro, desviar dos buracos e parar nas faixas de pedestre sem ter que pensar seriamente em cada um desses gestos. E assim nos deixa com tempo e segurança para pensar em outras coisas mais importantes, como a sobrevivência no mundo, uma preocupação incômoda qualquer ou a mais nova ideia para um best-seller. Mas o automatismo também pode nos desviar da absorção do mundo. Da incrível oportunidade de sugar as imagens, sons e cheiros que existem nas ruas. Das descobertas maravilhosas que fazemos com o simples gesto de olhar.

Então, deixo esta sugestão ao seu cérebro acomodado, com tendências a sempre buscar o que é mais fácil: Ô, massa cinzenta! Sacode um pouquinho essas células aí e deixa o mundo entrar! Cansa, mas vale a pena. Só assim você ainda poderá se surpreender enxergando o que nunca antes conseguiu ver. Inclusive os olhos de outra alma interessante que estiver à solta nas ruas, como você.

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A saudável loucura de cada um de nós

Já falei por aqui sobre uma constatação que fiz há algum tempo: ninguém é normal e, indo um pouco além, todo mundo tem alguma “loucura” dentro de si. Neuroses, perfeccionismos excessivos, manias (de limpeza, de organização, de ordem), ansiedades, hipocondrias, medos excessivos, facilidade de enxergar o trágico em tudo, humores muito variáveis, depressões, tendências a vícios (trabalho, remédios, álcool, drogas, cigarros, sexo, religião, futebol, tudo pode ser potencialmente viciante), compulsões (por comida, por seriado de TV, por novela…), fanatismos (por celebridades e subcelebridades, por exemplo), sono demais, insônia demais, agressividade, mania de controle sobre tudo e todos (autoritarismo) etc. Todos esses ditos “distúrbios”, de todas as ordens, somados, considerados e distribuídos, devem existir em 99% da população. Ou seja, os que não têm nada disso são, na prática, os “anormais”. Devem sofrer outro distúrbio, ainda sem nome certo: se prendem a fantasias e ilusões muito fáceis, são distraídos demais, apáticos em excesso. Algo deve explicar esse 1%.

O negócio é que já me convenci, inclusive olhando para um por um dos que convivem comigo (e olhando para dentro de mim mesma, com a mania de manter a caixa de email sempre limpa, a casa e a mesa do trabalho sempre arrumadas e de inventar pequenos rituais para meu dia-a-dia, inclusive rituais de celebração constante. Isso pra não falar da memória que funciona como uma descarga de privada, ultra-maxi-seletiva, que às vezes me deixa de calças-curtas): ninguém é normal.

Ainda bem.

E, se ninguém é normal, pra que sofrer com nossas anormalidades? Será que minha memória-de-descarga não pode ter alguma função, não pode ser útil ou mesmo boa para algumas das atividades que exerço? Será que a mania de limpeza não pode ser boa para quem a tem? E os que sofrem com medo de tragédias imaginárias, não estarão, no fundo, mais protegidos de acidentes que os demais mortais? Os medrosos não são mais sobreviventes e, portanto, mais evoluídos? O negócio, portanto, é tentar viver bem com o mal dentro de nós, e tentar transformá-lo em virtude — ou, se isso não for possível, compensá-lo com nossas já socialmente bem-aceitas virtudes.

Dito tudo isso, só queria dizer que o que eu queria ter dito está aí nesta charge, que foi a que me inspirou a escrever este post, em minha barafunda de divagações lunáticas:

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Perguntar não ofende

Pelo contrário, ter uma atitude questionadora faz um bem danado ao nosso cérebro e ao mundo. As grandes descobertas da humanidade começaram com uma simples pergunta, algumas totalmente imbecis (tipo: “Por que esta maçã caiu?”, quis saber Newton).

O sempre genial xkcd, leitura obrigatória diária, hoje traz um punhado de dúvidas de todos os tipos — e todas estavam no Google, ou seja, já passaram pela cabeça de alguém, algum dia:

questionsxkcd

 

Algumas traduções:

  • Por que não há nenhuma base militar estrangeira nos Estados Unidos?
  • Por que sempre há uma atualização do Java?
  • Por que não existem armas de fogo em Harry Potter?
  • Por que os cachorros têm medo de fogos de artifício?
  • Por que ostras têm pérolas?
  • Por que há tantos pássaros em Ohio?
  • Por que crianças têm câncer?
  • Por que há escravos na Bíblia?
  • Por que economistas não são ricos?
  • Por que não há fantasmas de dinossauros?
  • Por que chapéus são tão caros?
  • Por que existem celebridades?
  • Por que existem deuses?
  • Por que o espaço é preto?
  • Por que roubar é errado?
  • Por que não há um rei na Inglaterra?
  • Por que os gêmeos têm impressões digitais diferentes?
  • Por que baleias pulam?
  • Por que há espelhos em cima das camas?
  • Por que não tem nenhum país na Antártica?
  • (A mais comum) Por que há formigas em meu laptop?????

Será que todas essas já foram esclarecidas pela Ciência e pelo sapientíssimo Google? 😀

Leia mais xkcd:

Ouvido

ouvido2

Enquanto o assunto mais interessante do mundo entra pelo ouvido esquerdo

o barulho da chuva invade, da janela, o ouvido direito.

E chove na minha cabeça

pingaroando nas idéias

me carregando, sem guarda-chuva,

pro mar menos denso dos pensamentos.

A chuva, esperta, penetra a cabeça,

alcança o ouvido esquerdo

e bloqueia o pesado assunto

(que empoça).

 

28.2.2010

Os 33 cúmulos

O cúmulo do BARULHO: pensamentos gritando na cabeça durante uma noite de insônia.

O cúmulo do SILÊNCIO: barulho de geladeira, eletricidade e zumbido nos ouvidos.

O cúmulo do MALA: vizinho reclamando por um barulho que você não fez.

O cúmulo da INTOLERÂNCIA: vizinho reclamando porque deixou um copo cair ou por estar andando na própria casa.

O cúmulo da TOLERÂNCIA: namorar alguém que atende ao celular durante a sessão de cinema.

O cúmulo do AMOR: o perdão.

O cúmulo da VIDA: taquicardia.

O cúmulo da MORTE: amnésia.

O cúmulo da GRAVIDADE: o envelhecimento.

O cúmulo da JUVENTUDE: a plástica.

O cúmulo da PLÁSTICA: Michael Jackson.

O cúmulo da BELEZA: a visão do bêbado.

O cúmulo do BÊBADO: este cara AQUI.

O cúmulo do APERTOshow grátis dos Rolling Stones em Copacabana, sem banheiro químico.

O cúmulo da FELICIDADE: fazer xixi depois de 7 horas segurando.

O cúmulo do SONO: dormir na mesa da balada.

O cúmulo do TRABALHO: sonhar que está trabalhando ou trabalhar dormindo. A escravidão.

O cúmulo da ESCRAVIDÃO: o vício.

O cúmulo da PREGUIÇA: pegar elevador para descer um andar.

O cúmulo do HÁBITO: o TOC.

O cúmulo da FORÇA: as formigas.

O cúmulo da FRAQUEZA: a fossa.

O cúmulo da DOR: pedra nos rins, que sai “naturalmente”.

O cúmulo da ALERGIA: casa de amiga com três gatos peludos.

O cúmulo da PEDÂNCIA: assinar email com as iniciais do nome.

O cúmulo da CHATURA: o cúmulo da simpatia.

O cúmulo do AZAResses dois caras.

O cúmulo da SORTE: conviver com alguém sempre de bom humor.

O cúmulo da : o casamento.

O cúmulo do OTIMISMO: procurar terapeuta.

O cúmulo do PESSIMISMO: procurar de cara um psiquiatra.

O cúmulo do REALISMO: pôr despertador todo dia.

Essas e outras ficaram passeando pela minha insônia desta noite, tornando a noite cada vez mais insone, até o cúmulo da EXAUSTÃO (o buraco-negro em que caímos quando não dá mais pra ficar acordado).

E vocês, querem brincar de pensar também em outros cúmulos? Coloquem aí nos comentários! O importante é serem sacadinhas engraçadas ou lógicas — ou não 😉