A saudável loucura de cada um de nós

Já falei por aqui sobre uma constatação que fiz há algum tempo: ninguém é normal e, indo um pouco além, todo mundo tem alguma “loucura” dentro de si. Neuroses, perfeccionismos excessivos, manias (de limpeza, de organização, de ordem), ansiedades, hipocondrias, medos excessivos, facilidade de enxergar o trágico em tudo, humores muito variáveis, depressões, tendências a vícios (trabalho, remédios, álcool, drogas, cigarros, sexo, religião, futebol, tudo pode ser potencialmente viciante), compulsões (por comida, por seriado de TV, por novela…), fanatismos (por celebridades e subcelebridades, por exemplo), sono demais, insônia demais, agressividade, mania de controle sobre tudo e todos (autoritarismo) etc. Todos esses ditos “distúrbios”, de todas as ordens, somados, considerados e distribuídos, devem existir em 99% da população. Ou seja, os que não têm nada disso são, na prática, os “anormais”. Devem sofrer outro distúrbio, ainda sem nome certo: se prendem a fantasias e ilusões muito fáceis, são distraídos demais, apáticos em excesso. Algo deve explicar esse 1%.

O negócio é que já me convenci, inclusive olhando para um por um dos que convivem comigo (e olhando para dentro de mim mesma, com a mania de manter a caixa de email sempre limpa, a casa e a mesa do trabalho sempre arrumadas e de inventar pequenos rituais para meu dia-a-dia, inclusive rituais de celebração constante. Isso pra não falar da memória que funciona como uma descarga de privada, ultra-maxi-seletiva, que às vezes me deixa de calças-curtas): ninguém é normal.

Ainda bem.

E, se ninguém é normal, pra que sofrer com nossas anormalidades? Será que minha memória-de-descarga não pode ter alguma função, não pode ser útil ou mesmo boa para algumas das atividades que exerço? Será que a mania de limpeza não pode ser boa para quem a tem? E os que sofrem com medo de tragédias imaginárias, não estarão, no fundo, mais protegidos de acidentes que os demais mortais? Os medrosos não são mais sobreviventes e, portanto, mais evoluídos? O negócio, portanto, é tentar viver bem com o mal dentro de nós, e tentar transformá-lo em virtude — ou, se isso não for possível, compensá-lo com nossas já socialmente bem-aceitas virtudes.

Dito tudo isso, só queria dizer que o que eu queria ter dito está aí nesta charge, que foi a que me inspirou a escrever este post, em minha barafunda de divagações lunáticas:

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Das pressões na vida de um bancário

Já faz uma semana que o Felipão soltou sua pérola, mas eu, como ex-funcionária do Banco do Brasil, não poderia deixar de comentar.

Para quem não viu, ele disse o seguinte, no dia se sua posse como novo técnico da Seleção:

— Se o jogador entrar sem pressão nenhuma, pensando que o objetivo é jogar a Copa, não pode ser assim. Fui jogador do interior. Eu era bom. O pessoal dizia que não, mas eu era bom. E tem pressão. Eles têm que saber. Nossos jogadores sabem que seria um dos títulos mais importantes que o Brasil já conquistou. Tem que trabalhar bem esse aspecto. Se não tiver pressão, vai trabalhar no Banco do Brasil, senta no escritório e não faz nada.

A frase deu a maior polêmica entre a classe dos bancários e ele teve que pedir desculpas, inclusive apelando para elogios ao banco, que é rival direto do patrocinador da CBF, o Itaú.

Bom, desculpas aceitas, inclusive porque não sou mais bancária. Mas acho engraçado que as pessoas ainda pensem que vida de bancário é esse luxo todo, mesmo convivendo com as filas intermináveis nas agências, os telefones sempre ocupados e a certeza de que essa é a categoria profissional com mais alcoólatras do país (ou empatada com os médicos).

Talvez seja a hora de as pessoas aprenderem um pouquinho mais sobre a vida num banco.

Grávida sem almoço

Lembro de uma época em que substituí gerentes dos postos de atendimento da agência durante a hora de almoço deles e, por isso, emendei direto, das 11h, às 15h, sem possibilidade de almoçar. Não raro eu chegava atrasada em um dos postos, por causa da cobertura anterior, e a gerente, que estava grávida, estava quase passando mal de vontade de comer, sem poder deixar o lugar sozinho até minha chegada.

Quando eu atendia no “Pessoa Física”, que é onde está a maioria dos clientes, aguentava as pessoas gritando, mesmo sentadas, reclamando da demora no atendimento. Para que isso não ocorresse, eu deixava acumular as pendências para o fim do expediente, para poder liberar a fila o quanto antes. Outro hábito meu era sair correndo pela agência — sim, correndo –, escada acima e abaixo, para pegar as pastas e fazer tudo o que fosse preciso para agilizar.

Primeiro choro

Mas o “Pessoa Física” e as filas quilométricas dos caixas no quinto dia útil eram fichinha perto do atendimento dos mais ricos. Lembro de uma vez em que, às 16h30, um cliente “exclusivo” pediu para entrar, reclamou, e acabei atendendo ele fora do horário. Me arrependi: ele passou os 20 minutos em que esteve na minha frente me descascando, me xingando de todos os nomes, porque o banco isso e o banco aquilo com ele. Não me lembro do teor da conversa, mas já eram 16h30, eu tinha uma pilha de pendências para resolver naquele dia sem falta, tinha ido pra faculdade de manhã e iria para o estágio à noite e comecei a adoecer de ser tratada tão mal. Levantei correndo, pedindo desculpas a ele, e fui me esconder no banheiro, dentro da agência. Foi a primeira vez que chorei por causa de um cliente. Chorei de soluçar, por uns dez minutos seguidos, e não tinha mais coragem de voltar para lá. Encontrei uma colega e pedi que ela fosse por mim, mas ela não podia, então engoli o choro, esperei mais uns 5 minutos e fui, com a esperança de ele já ter ido embora. E ele tinha ido: mas deixou na minha mesa uma balinha e um bilhete se desculpando pelas grosserias.

Segundo choro

A segunda vez que chorei foi na época em que eu fazia renegociação de dívidas. Era um trabalho psicologicamente cansativo, porque eu tinha que ouvir todas as histórias dos dramas familiares que levaram a pessoa a dever ao banco. Ninguém gosta de ter o nome sujo e, por isso, todo mundo faz questão de se justificar. Eram muitas histórias tristes, de doenças graves com tratamentos caros, acidentes, desemprego etc. Sabe-se lá qual o percentual das verdadeiras, mas eram tristes mesmo assim. Eu tinha vontade, muitas vezes, de falar que tudo bem, a dívida estava perdoada, podia ir para casa tranquilo. Mas não podia fazer isso, então me esforçava para, ao menos, tornar a renegociação o mais leve possível, com a menor taxa de juros possível em cada caso, ou eventuais abatimentos. Mas certa vez uma cliente me descascou no telefone, me xingou de tudo que era nome, porque ela dizia que não podia pagar nem da forma que eu havia proposto. Ela ficou meia hora no telefone comigo, já eram quase 18h, meu ponto estava caindo, não havia como melhorar ainda mais para ela, e, no fim, ela disse que iria se matar. Desliguei na hora e fui para o banheiro de novo, lavar o rosto e respirar.

Escândalos e assaltos

E, além das filas e da quantidade de clientes por si só desgastante, havia as danadas das metas. E os erros. E as panes. Sistema travou, cliente emputecia pelo atraso que isso lhe acarretaria. Não quer nem saber se a culpa não é sua. Todo dia tinha gente fazendo escândalo, escândalo mesmo. O mais comum era o escândalo na porta rotatória, na hora de tirar os metais do corpo para passar. Uma vez vi uma mulher ficar tão tresloucada, que começou a tirar a roupa toda, gritando: — VIRAM SÓ? TEM ARMA AQUI? ONDE ESTÁ A ARMA? Eu queria ver alguém dar esse piti quando chegasse um ladrão de verdade.

Ah sim, e eles chegam. Já teve dois assaltos na minha agência, no período em que estive lá. Num deles, uma mulher dessas deu escândalo e acabou convencendo o guarda e entrou com a arma escondida numa bota. Noutra, colocaram uma bomba (não me lembro agora se era de verdade ou não) amarrada no corpo de um dos gerentes, que passou a noite e madrugada sendo ameaçado a troco de quase nada, porque os cofres tinham sido esvaziados no dia.

Doenças

Também já ouvi de um colega que um cliente resolveu escarrar (!!) no chão da fila do caixa, demonstrando seu desprezo pelo atendimento. Mas o cliente tem sempre razão, então não dá pra levantar a voz, reclamar ou criticar. Já trabalhei com ar condicionado quebrado por meses de verão. Já tive que fazer força-tarefa para abrir contas de trocentos funcionários que chegaram de uma vez só, vindos de um banco concorrente.  Já fiz força-tarefa para resolver processos acumulados que se empilhavam na minha mesa por causa de um problema pontual. Já vi colega com LER. Com estresse. Com depressão. Alcoólatra. Endividado.

Eu não gostava de ser bancária, mas, como já registrei por aqui, fiz de tudo para exercer meu trabalho da melhor forma possível, sempre. E fiz muitos amigos lá, que perduram até hoje. E também havia as festas, os butecos, a descontração. Mas pressões havia, e muitas, de todos os lados. De cima, de baixo, dos lados, de fora. Felipão reproduziu apenas o que muita gente pensa da vida de um bancário. Mas vai ser bancário, pra ver!

Dos milagres do levedo de cerveja

Outro dia, já faz tempo, escrevi aqui sobre mais um dos meus casos de amigdalite/faringite/rinite/gripe/whatever que me atazanam em determinadas épocas do ano.

Daí a Talita, leitora assídua do blog (:D), comentou que seu irmão havia ido a um médico japonês, adepto de soluções alternativas aos remédios de sempre, que tinha indicado tomar levedo de cerveja todos os dias, para evitar as constantes gripes. O irmão dela seguiu a recomendação e nunca mais adoeceu.

Fiquei com isso na cabeça.

Um dia, quando fazia a compra da ceia do Natal, vi, pela primeira vez, o tal levedo de cerveja sendo vendido no supermercado. Lá estava ele, em pó, meio bege, nada atraente. Comprei, mesmo assim, lembrada da sugestão. Mas nunca tive coragem de experimentar (eu já falei que tenho paladar infantil, né?). Fui adiando a experiência até esquecer o pacotinho no armário e, quando fui faxinar aquele canto, meses depois, descobri que já estava vencido.

Há mais de duas semanas, gripei de novo. Começou com uma febre alta, dor de garganta, dor no corpo, dor de cabeça… Cedi a ida ao médico quando notei que estava com sangue no catarro, mas ele receitou o velho corticoide/anti-inflamatório de sempre. Tomei pelo prazo receitado, mas a tosse persistiu, fora a garganta dolorida e as dores de cabeça que nunca fui de ter (costumo ter uma por ano e nesses últimos dias tive quase diariamente).

Até que vi a solução para os meus problemas: numa farmácia, lá estava o levedo de cerveja em cápsulas!

Comprei e tenho tomado diariamente, desde que o remédio receitado acabou. E, coincidência ou não, os efeitos da gripe começaram a passar uns três dias depois do início dessa “medicação” alternativa. Detalhe: na embalagem, escrito em letras garrafais, há um alerta dizendo que não existe comprovações científicas de que essas pílulas tenham capacidade de curar qualquer coisa.

Só depois de quase sarada é que fui finalmente consultar o médico moderno (o doutor Google) sobre o que se atribui, afinal, ao levedo de cerveja.

E eis o que descobri:

ele combate a fraqueza muscular, fadiga, estresse e a falta de concentração, fortalece o sistema imunológico, cura doenças de pele, como acne e furúnculos, diminui queda de cabelo, é indicado para quem tem diabetes, anemia ou está grávida, para quem tem atraso no crescimento, tem arteriosclerose ou artrite, ajuda contra o alcoolismo e a gula (ajuda a emagrecer), protege o sistema nervoso, é tônico geral cardíaco e circulatório, ajuda o fígado, ajuda no funcionamento do intestino, aumenta a resistência de atletas, ajuda a combater a flacidez dos tecidos associada ao envelhecimento, intervém nos processos de cicatrização, reduz o colesterol, tem trocentas vitaminas e minerais, etc etc etc…

Enfim, ele é, basicamente, deus. Muito melhor que a boa e velha Minâncora (lembram dela e seus efeitos milagrosos contra chulé, cecê, espinha, calvície, micose etc?), ultrapassa em qualquer nível as 1.001 utilidades do Bombril, dá de dez a zero na aspirina e é capaz até que dispense o Viagra. Afinal, reza a lenda (e o historiador Google) que Hipócrates, o pai da medicina, e monges medievais, já usavam o levedo para curar suas chagas.

O fato é que, sendo verdade ou não tudo isso que encontrei em fontes relativamente razoáveis do esculápio Google, nada me dizia que o troço faz qualquer mal ou tenha uma única contraindicação. Então, vou seguir tomando minha cápsula diária. Algo que resulta da produção da cerveja não podia ser ruim mesmo, né 😀