Contribuição de leitor: ‘Como parei de fumar’

Estou adorando os textos enviados pelos leitores nas últimas semanas! E fico gratificada demais por saber que o blog é lido por gente tão inteligente e que produz conteúdos de tamanha qualidade 😀

O texto de hoje foi enviado pelo jornalista de Suzano (SP) Douglas Pires, de 38 anos, editor do portal G1 e formado pela Universidade Braz Cubas (Mogi das Cruzes). Quem gostar do conto dele pode ler mais em seu blog.

Vamos ao texto dele:

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-).

Quadro do colombiano Fernando Botero (1932-).

“Estava diante da janela da sala com a cortina e vidros abertos para fazer a fumaça escapar. Passava das 23h quando dei uma longa tragada no cigarro de filtro branco. Pensava que no dia seguinte tudo seria diferente. Esse foi o último cigarro que fumei, no final da noite do dia 25 de janeiro de 2010. Desde então, nem mais uma tragada. São cinco anos sem a substância.

Fui um adolescente que nunca dei muita bola para esse negócio de cigarro. Meu pai fumava [ex-fumante]. Meu irmão mais novo dava umas tragadas por aí [ele ainda fuma], mas eu não ligava muito. Porém, no final dos anos 90, encasquetei que queria aprender a tragar.

Já tinha uns 18. Queria saber soltar a fumaça e passei rápido por esse exercício fácil. No começo dá até tontura. Fiquei nessa de fumar de vez em quanto por uns 6 meses. Entrei na faculdade e, antes de aprender Metodologia Científica, já era um fumante. No ano seguinte estava fumando quase um maço por dia.

Quem fuma sabe. O falso bem estar inexplicável não vem apenas do ato de tragar aquela fumaça tóxica. O cigarro é o companheiro de mentira em horas felizes, tristes e agitadas. Se espera alguém: fuma. Se a pessoa chega: fuma. Se termina um trabalho: fuma. Se vai começar um trabalho: fuma de novo. O ato de fumar se envolve na rotina do viciado. Por isso que é realmente extremamente difícil abandonar isso. Você sente a falta da droga na corrente sanguínea e também sente a falta da companhia do cigarro nas coisas que fazia com ele. [Só fumantes e ex-fumantes entenderão 100% essa passagem do texto]. E, se eu ainda fumasse, talvez daria uma pausa agora para acender um.

Não sou chato ex-fumante, daqueles que gostam de palestrar diante dos que ainda usam a substância. Quem quer fumar, fume. Falo que consegui parar com muito prazer, mas somente se houver um momento oportuno. Não ligo para o cheiro da fumaça. Ela nunca me incomodou e, mesmo depois da separação, não ligo de estar ao lado das pessoas que fumam.

Pois bem. Depois de anos ao lado do cigarro a vontade de parar começou a piscar no painel. Em 2003, cheguei a ficar seis meses sem fumar, mas acabei voltando. É que não adianta os outros quererem. Quem toma é decisão é quem fuma. No final de 2009, fiz um check up e o médico disse: “Douglas, você está ótimo, não tem nada. Vai esperar ter alguma complicação para largar o cigarro?”. Aquela frase martelou na minha cabeça de forma cadenciada durante um tempo. Como uma bate estaca da construção civil.

Parar de fumar não é como deixar de comer algo que você gosta. É diferente de não ir mais naquele bar que você ama. Não é igual desistir de um curso que sempre quis fazer. Nada disso. Abandonar o vício é deixar de consumir algo que o corpo pede de forma gritada.

Mas é possível parar de fumar. Claro que é. Depois que saí da sala do médico a ideia de parar com a droga ficou na minha cabeça. Só precisava elaborar um plano para isso. Era meados de setembro de 2009 quando comecei a me preparar e fixei uma data. Pensei comigo: fumarei até o dia 25 de janeiro do ano que vem. Depois disso, não mais. E sabia que esse dia chegaria. Depois do Natal e Ano Novo logo veio a noite do dia prometido. E lá estava: eu e ele. Fumei o último cigarro como se estivesse despedindo de alguém que não queria mais ver. [Vai embora, será melhor para mim]. Essa era a pegada.

No dia seguinte as pessoas logo perceberam que eu não mais mantinha entre os dedos aquele pequeno cilindro de papel nocivo. Os dois meses seguintes foram difíceis. Muito difícil. A abstinência dói. Mas é como atravessar uma turbulência, uma tempestade, uma noite escura… uma hora acaba. E quando passa, você sente uma satisfação imensurável.

Um ex-fumante sempre lembrará que já foi fumante, mas dá pra conviver com isso numa boa. Dá vontade as vezes, mas é algo fácil de lidar. Como se fosse vontade de comer lasanha. Se não tem, não come. Dá para viver sem lasanha.

A pior parte é que engordamos. O alimento fica mais gostoso. No entanto, muitas vezes mantemos alguns rituais da época da droga. Por exemplo, trabalho com alguns fumantes e ainda frequento o fumódromo para papear e descontrair. Eles fumam e eu como uma banana.

Depois de atravessar a dolorosa separação até parece que foi fácil. Tomo café e cerveja e nem lembro que ele existe. Mas não foi fácil. Por isso sempre digo aos mais novos e às pessoas que estão nessa de aprender a tragar, como eu fiz um dia. O caminho mais fácil para largar o cigarro é nunca fumar. Estou livre há cinco anos.”

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2 comentários sobre “Contribuição de leitor: ‘Como parei de fumar’

  1. Otimo texto….excelente depoimento. Muita gente podera se beneficiar com a sinceridade do mesmo. Como numa terapia ( ja que sou psicologa) so o desejo da proprio interessado tem o poder de fazer funcionar… Nao adianta so os outros quererem….

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