Contribuição de leitor: ‘No arco da velha cidade’

Pela primeira vez, recebi uma contribuição de um leitor conterrâneo, mineiro de Beagá. Paulo Andrade Campos é escritor, tem 25 anos de idade e já publicou um romance de forma independente (saiba mais AQUI). Se gostar do estilo do Paulo, você pode ler mais contos no blog dele.

Vamos ao texto, que achei muito divertido:

Foto histórica do viaduto

Foto histórica do viaduto

“Belo Horizonte não é mais a cidade provinciana da década de vinte, quando seus pouco mais de cinquenta mil habitantes viviam dentro dos limites da Av. do Contorno e o bonde sempre nos trilhos seguia pelas ruas ainda jovens e sonhadoras levando a rapaziada para a mítica rua da Bahia, onde discussões e bebidas se alternariam até tarde da noite.

A cidade cresceu rapidamente. Com seus dentes de concreto, ela mastigou e engoliu o passado. Belo Horizonte se tornou uma metrópole e, caso seus criadores a vissem hoje, eles com dificuldade reconheceriam o traço de suas pranchetas. As mesmas pranchetas que anos mais tarde dariam luz ao viaduto de Santa Tereza.

O viaduto ficou famoso quando Carlos Drummond de Andrade atravessou seu arco de ponta a ponta, vencendo diversas vezes a vertigem de seus 20 metros de altura. A moda pegou entre os literários e o feito foi repetido nas décadas seguintes por grandes nomes, como Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Fernando Sabino.

Foi assim que, inspirados nesse gesto mítico de elevar-se às alturas da cidade, eu e o filho do Sabino, Bernardo, haveríamos de perpetuar a tradição da escalada.

Paramos o carro ali perto e seguimos a pé até a amurada do viaduto.

— Você tem certeza que quer subir? Afinal de contas, nós bebemos um bocado.

— Eu tô tranqüilo, me respondeu, aos berros, o Bernardo.

Eu fui primeiro para mostrar como se faz. Subi e desci num fôlego só, achava melhor assim, não dava tempo de ser afetado pela altura.

— Aprendeu como faz? — gritei para provocar — Se quiser ainda dá tempo de desistir.

Bernardo, com um gesto de mão, declinou o meu conselho. Como seu pai fez anos atrás, ele postou-se diante do arco e iniciou, para minha surpresa, uma subida rápida e segura. Em poucos instantes atingiu o topo. Do alto do arco ele olhou para a cidade, cujas luzes acesas lá em baixo brilhavam aos milhões, imitando o céu acima de nossas cabeças.

— Vamos, Bernardo, desce logo, antes que uma viatura apareça — profetizei lá de baixo, pois logo as palavras saíram de minha boca e um carro da polícia despontou ainda longe no fim da avenida.

Apreensivo eu pedia para o meu amigo descer lá de cima:

— Cara,, nós vamos ser fichados, desce daí!

Mas já era tarde para os meus apelos. Bernardo havia ficado estático, a tão temida vertigem tinha paralisado as pernas do Sabino e eu, incapacitado, observei o carro da polícia se aproximar.

Da viatura saíram dois soldados. O primeiro me abordou como de costume: mãos para o alto, revista para encontrar algo ilícito, solicitação de documentos para averiguar alguma irregularidade na central etc. Enquanto isso, seu companheiro abordava o Bernardo, ainda travado nas alturas.

— Senhor, por favor, desça desse arco!

Sem resposta nem movimento, o soldado repetiu a ordem com um tom mais enfático.

— SENHOR, DESÇA DESSE ARCO AGORA!

Não sei se foi o tom de voz ou a arrogância do soldado, mas de imediato o Bernardo gritou lá de cima em resposta:

— ESTOU TENTANDO!

O soldado, então, ficou igual a mim, sem ter o que fazer. Ele que não iria subir lá para resgatar o meu amigo. “Se ficar assim, teremos que chamar os bombeiros”, comentavam entre si, mas não foi preciso. Bernardo sentou-se no alto do viaduto e, com o auxílio das mãos e dos pés, ele foi descendo devagarzinho da imensidão do arco, parecia um gato às avessas.

Em instantes ele estava comigo, lado a lado, algemado nos fundos da viatura.

— Mas que ideia foi essa dos senhores de subir naquele arco? Por que fizeram isso?

— Para rememorar a história do meu pai.

— Pois agora os senhores serão retidos por perturbarem a ordem e por colocarem a suas vidas e a dos demais em perigo.

— Por favor, soldado, nos libere, nós não fizemos nenhum mal — argumentava o Bernardo — Eu sou amigo da corporação, hoje cedo estive com o major Fonseca recolhendo depoimentos para um documentário.

— Major Fonseca? Um moreno alto? De olhos escuros?

— Não, senhor, ele é baixinho, franzino, usa óculos e tem os olhos claros.

Um silêncio se instaurou na viatura. Sem abrir o bico nós fomos conduzidos alguns quarteirões à frente, enquanto os soldados se comunicavam por rádio com seus superiores.

— Senhores, a delegacia está cheia com ocorrências mais graves — disse o primeiro soldado.

— E, para a sorte de vocês, o major Fonseca é do jeito que você descreveu — completou o outro soldado, apontando para o Bernardo.

Entre risos e promessas de bom comportamento, fomos liberados na própria rua. Bernardo, às gargalhadas, gritava aos quatro cantos que havíamos conseguido. Foi quando, me vendo estático e com o semblante carregado por nuvens espessas, ele me perguntou:

— O que aconteceu, Paulo? Nós estamos livres, cara!

— Bernardo, com medo de a polícia pegar a gente, eu me esqueci de tirar a foto — falei, já me desculpando — Que vacilo meu!

Então, sem se alterar, o Bernardo me olhou nos olhos e deu aquele seu sorriso de criança, herança do seu pai, e baixinho ele falou:

— Vamos de novo?”

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2 comentários sobre “Contribuição de leitor: ‘No arco da velha cidade’

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