Diferenças, o exercício da empatia e os direitos humanos

As pessoas tendem a não enxergar aqueles que são muito diferentes delas. Seja fisicamente, culturalmente ou economicamente. E isso dificulta o exercício da empatia, de colocar-se no lugar do outro, que faz com que seja possível haver uma sociedade vivendo em harmonia mínima.

Tem um episódio da série “Black Mirror” que sintetiza muito do que eu disse aí em cima, de maneira muito interessante. (Se você não gosta de spoiler e não viu o episódio 5 da temporada 3, pule para o próximo parágrafo.) Os soldados do Exército recebem uma “configuração” que os faz enxergar os inimigos com rostos de “baratas”. A justificativa para se fazer essa tecnologia é que, quando vêem pessoas, os soldados têm menos coragem de atirar, e as baixas das guerras são bem menores do que interessa ao Estado. Eles até citaram uma estatística da Primeira Guerra Mundial, da qual já não me lembro mais, porque vi esse episódio há muito tempo, mas que dizia que houve pouquíssimas mortes em solo, e foi isso que levou ao desenvolvimento das bombas aéreas etc. Mas, ao olharem para o inimigo e enxergarem rostos de barata, os soldados atiravam sem pensar, com nojo e ódio, como calha ao Exército. Quando um dos soldados, o protagonista do episódio, passa a enxergar as pessoas com rostos de verdade, em vez de baratas, ele passa a ter empatia e arrependimento, culpa e solidariedade. Torna-se incapaz de atirar – e um inútil para seus comandantes.

É fácil não ter empatia por baratas. São asquerosas, chafurdam no lixo e no esgoto (que nós produzimos), são feias, esquisitas, diferentes demais de nós. Mas deveria ser fácil termos empatia com aqueles da nossa mesma espécie, certo? Afinal, somos todos humanos, todos iguais.

Por exemplo, é muito mais fácil respeitarmos o motorista do carro ao lado, no trânsito, quando vemos seu rosto, já reparou? Se alguém abre a janela, dá um sorriso, e pede passagem, é difícil recusar. Se alguém faz barbeiragem e, ao vermos seu rosto, nos identificamos com aquela pessoa, é mais fácil sublimar. Afinal, é só gente como a gente, também capaz de cometer erros, ou estar com pressa, ou precisar atender uma ligação urgente no horário mais impróprio. O contrário também prevalece: é fácil disparar ofensas e palavrões contra o barbeiro escondido detrás de um vidro escuro. O cérebro demora a processar que você está xingando uma pessoa: você está xingando a máquina de aço, o carro de vidros fechados, outra espécie, não a sua.

E quando vemos pessoas de carne e osso como nós e não temos um pingo de empatia por elas, tampouco? São pessoas que nos parecem tão diferentes, mas tão diferentes, que quase de outra “espécie” também, como as baratas e os carros. Tornam-se invisíveis na sociedade. Moradores de rua, por exemplo, parecem pessoas com outro nível de resistência, com outra “casca” na pele. Como conseguem suportar o frio e o vento, como conseguem dormir ao relento? Pessoas com distúrbios psiquiátricos também podem ser invisíveis para nós. Como podem viver num mundo tão diferente, num plano de realidade tão diverso? E assim a lista vai crescendo, até chegar aos distanciamentos por conta de cor de pele, de religião, hoje em dia, até de pensamento político.

Como desenvolver essa empatia? Ter cultura e informação são duas coisas que contribuem muito para ampliar a mente e o olhar. Por exemplo, é muito mais fácil a pessoa que lê clássicos como “Vidas Secas” e “Vinhas da Ira” se apaixonar pelos mais pobres, por aqueles que vivem no substrato da pirâmide socioeconômica, entendê-los, enxergá-los quando identificados diante do nariz. Cumprimentá-los como os seres humanos iguais a nós que são. Querer ajudá-los em sua necessidade.

Só com essa sensibilidade para os outros é possível, por exemplo, entender a importância dos direitos humanos, porque a pessoa passa a enxergar os humanos, em primeiro lugar. Sem enxergá-los, como supor que tenham direitos?

Mas, independentemente do acesso a cultura e informação, acredito que qualquer um pode desenvolver o exercício de olhar para o outro. É um exercício, como fazer ginástica e alongamento. Basta ter um cérebro e um coração, para treinar o direcionamento do olhar para os outros.

Do contrário, você pode acabar enxergando baratas onde há apenas crianças. E a deformação, lembre-se disso, está em seu olhar turvo – não nos outros.

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Manifesto a favor do direito de divergir

Grafite de Leandro Larangeiras.

Grafite de Leandro Larangeiras.

Quando o jornalista Beto Trajano trabalhava em parceria com o Ministério da Cultura, em 2007, ele participou de uma edição da Teia, aqui em Beagá. Com a veia de agitador que ele sempre teve, começou a causar polêmica entre os participantes, ao defender mudanças no modelo das leis de incentivo à cultura, dentre outras questões.

Logo no primeiro dia, ao perceber que tinha virado, involuntariamente, um centro de discórdia, Beto transformou suas ideias num manifesto, ilustrado por seu amigo Leandro Larangeiras, e o distribui a todos.

Resultado: com um texto muito mais sóbrio, e com a temperança necessária, ele fez as pessoas refletirem sobre as diferenças de ideias e a falta que um pouco de tolerância faz. No final, aqueles que o tinham discriminado acabaram virando seus amigos.

O manifesto permanece atual ainda hoje:

Não sou igual a você

Topar de cara com realidades e ideologias diferentes da sua é algo estranho para qualquer pessoa. Nem sempre pode ser bom, mas sempre trará algum benefício. Crescer com as divergências, poder conhecer e aceitar diferentes formas de pensamento, ideologias e costumes é um grande desafio para o ser humano.

Saber que ao seu lado tem uma pessoa que pensa diferente de você e faz coisas que você não faz e vive outras realidades que nada tem a ver com a sua desperta emoções inesperadas em qualquer pessoa. Pode ser alegria, raiva, tristeza, amor etc. Não é possível prever como receberemos uma diferente forma de viver.

O que vale a pena quando o seu grupo entra em choque com outro grupo? Brigar, discutir, partir para a agressão – isso é fácil. Difícil mesmo é aceitar a ideia do outro e saber que, assim como você, o outro tem seus costumes, suas crenças e comportamentos e que ele vai defendê-los, assim como você defende os seus. Difícil é viver em paz com o vizinho totalmente diferente de você.

Se todos fossem iguais, a vida seria muito sem graça. Olhar para o lado e não ver nada diferente seria muito ruim. É um desafio para o ser humano conviver pacificamente com as diferentes formas de viver. Será que você consegue?”

Música para os casais que brigam muito

Enquanto minha inspiração não vem (ela sumiu desde quinta), deixo vocês com uma musiquinha muito divertida, que compara os sotaques americano e britânico e simboliza as pequenas diferenças entre casais, que podem levar à separação ou à adaptação…

Ela foi escrita por George Gershwin e a versão abaixo é do maravilhoso duo Ella Fitzgerald e Louis Armstrong:

A música foi composta para o filme “Shall We Dance”, de 1937, e foi cantada pelo casal Fred Astaire e Ginger Rogers, que, além de terem vozes maravilhosas, sabiam dançar sobre patins sem perder a elegância! Bons tempos do cinema.

Segue o trechinho em que cantam a música e patinam:

Que sirva de inspiração aos casais mundo afora. Eu sempre disse para minhas amigas aconselhadeiras: todo par é separado por diversas diferenças — e é bom que seja assim –, que não vão mudar com o tempo. Algumas nós consideramos defeitos, outras são qualidades. E o mesmo acontece com nossas características, as quais muitas são graves defeitos para o outro. Mas apenas quando os defeitos são intoleráveis é que devemos “call the whole thing off” (ou acabar com tudo isso). Os demais podem ser ajustados para o bem da convivência, “porque sabemos que precisamos um do outro” 😀

Intelectuais X Sábios

Algum sabichão decidiu, não sei quando ou por quê, que quem ouve pagode ou música sertaneja, usa roupa de loja de departamento, assiste a novelas e programas de auditório, gosta de filme blockbuster e lê a revista Veja ou a Superinteressante é menos inteligente, é brega, não sabe o que é bom etc.

São os chamados “intelectuais”, aquele pessoal que, por gostar de jazz, desprezar televisão e assistir a filmes iranianos, se sente melhor do que os outros.

“Tudo o que gostam, ouvem, vestem e falam está acima do bem e do mal”, disse um amigo meu, que está de “saco na lua” com esse tipo de gente.

Ao julgar o gosto e as atitudes dos outros, transparecem, sem perceber, um preconceito arraigado e uma arrogância indissimulada.

O intelectual sabe das coisas. Ele sabe da vida. Ele pode ensinar como se faz.

O intelectual sabe falar e escrever melhor que os outros.

Arrota conhecimentos que só ele tem.

(Isso, aliás, é muito comum no meio jornalístico, onde as pessoas se especializam em generalidades e acham que, por isso, sabem mais que a média. A maioria, na verdade, nem sequer lê um jornal por dia.)

O verdadeiro sábio, o gênio, é aquele que aprende com a cultura popular, que a respeita, porque se sabe parte desse povo. Ele pode até genuinamente detestar televisão, filme de vampiros, coleção do Harry Potter e Zeca Pagodinho — gosto é gosto. Mas ele sabe que não é melhor do que quem gosta dessas coisas, que é apenas diferente.

Sabe ter autocrítica na mesma medida da crítica e saber fazer essa crítica sem se perder na discriminação.

Um pouco do sábio Laerte para os sabichões pensarem: