Algum sabichão decidiu, não sei quando ou por quê, que quem ouve pagode ou música sertaneja, usa roupa de loja de departamento, assiste a novelas e programas de auditório, gosta de filme blockbuster e lê a revista Veja ou a Superinteressante é menos inteligente, é brega, não sabe o que é bom etc.
São os chamados “intelectuais”, aquele pessoal que, por gostar de jazz, desprezar televisão e assistir a filmes iranianos, se sente melhor do que os outros.
“Tudo o que gostam, ouvem, vestem e falam está acima do bem e do mal”, disse um amigo meu, que está de “saco na lua” com esse tipo de gente.
Ao julgar o gosto e as atitudes dos outros, transparecem, sem perceber, um preconceito arraigado e uma arrogância indissimulada.
O intelectual sabe das coisas. Ele sabe da vida. Ele pode ensinar como se faz.
O intelectual sabe falar e escrever melhor que os outros.
Arrota conhecimentos que só ele tem.
(Isso, aliás, é muito comum no meio jornalístico, onde as pessoas se especializam em generalidades e acham que, por isso, sabem mais que a média. A maioria, na verdade, nem sequer lê um jornal por dia.)
O verdadeiro sábio, o gênio, é aquele que aprende com a cultura popular, que a respeita, porque se sabe parte desse povo. Ele pode até genuinamente detestar televisão, filme de vampiros, coleção do Harry Potter e Zeca Pagodinho — gosto é gosto. Mas ele sabe que não é melhor do que quem gosta dessas coisas, que é apenas diferente.
Sabe ter autocrítica na mesma medida da crítica e saber fazer essa crítica sem se perder na discriminação.






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