Concorrência na barbearia

Depois da minha crônica sobre Rondônia, esta experiência que aconteceu com o meu pai, a cinco quarteirões da nossa casa, em Beagá, mostra como existem justiceiros e loucos até nos lugares menos imaginados.

Divirtam-se:

Carlitos não acreditaria.

Texto de José de Souza Castro

Entro na barbearia do Gilberto, como tenho feito uma vez por mês, nos últimos 15 anos, e no lugar do barbeiro estava um rapaz que já havia trabalhado lá. Há pelo menos dois anos, Gilberto trabalhava sozinho. Não me parecia um negócio muito próspero, mas eu gostava do corte de cabelo dele.

— Cadê o Gilberto? – pergunto ao rapaz, que estava cortando o cabelo ralo de uma velha.

— Morreu. Na Semana Santa.

O Gilberto devia ter uns 35 anos. Era magro e um pouco pálido, mas não me pareceu doente, 30 dias atrás.

— Acidente?

Eu sabia que ele tinha um carro, mas era quase tudo o que sabia do Gilberto. Talvez fosse Atleticano. Quando ele queria puxar conversa, costumava perguntar o que eu tinha achado do jogo do Atlético. Eu respondia qualquer coisa, bastante evasiva, pois não tinha achado nada. Nem sabia que o Atlético havia jogado.

— Não. Tiros…

Esperei que o rapaz acrescentasse alguma coisa, enquanto absorvia aquela informação. Como continuasse calado, cortando o cabelo da velha, perguntei.

— Assalto?

— Não, foi o barbeiro ali do lado.

Havia há muitos anos outra barbearia, logo dobrando a esquina. Certa vez em que encontrei a do Gilberto fechada, quase fui lá, mas algo ali não me agradou e deixei o corte para outro dia.

Peguei o jornal e comecei a ler a notícia de que o Tribunal de Contas do Estado havia voltado atrás e autorizado o governo de Minas a alugar o prédio do Ipsemg, na Praça da Liberdade, para uma rede hoteleira, por R$ 13.330,00 por mês ou a venda por R$ 22,5 milhões. Quarenta dias antes, o Ministério Público Estadual tentou embargar a licitação, alegando que o prédio valia R$ 57,65 milhões ou aluguel de 208 mil reais por mês. Os vencedores da licitação prometiam investir 41 milhões na reforma do prédio de 12 mil metros quadrados de área construída e inaugurar o novo hotel antes da Copa do Mundo. Mais um bom negócio no futebol…

Quando a velha saiu, sentei na cadeira do barbeiro e voltei a puxar a língua do rapaz.

— Você vai continuar o negócio do Gilberto?

— Vou. Sou sobrinho dele…

— Ele era casado?

— Era.

— Tinha filhos?

— Não.

— Ele já tinha brigado com o barbeiro vizinho?

— Tinha. Uns tempos atrás, os dois se agarraram, e ele bateu muito no Gilberto.

— Qual o motivo?

— Ciumeira. Ele tinha raiva, porque o Gilberto tinha mais fregueses. Antigos fregueses dele passaram a cortar cabelo com o Gilberto, porque o cara não tinha hora para abrir o salão. Ele vivia drogado. Tomava chá do Santo Daime e ficava doidão. Já brigou com todos os barbeiros do bairro. Antes de vir aqui para matar o Gilberto, no Sábado de Aleluia, ele foi ao salão onde eu trabalhava. Ali, na esquina da rua. Éramos dois barbeiros lá, e ele queria matar nós dois. Mas estava fechado. Até perguntou a vizinhos se o salão ia abrir, e disseram que não. Então veio para cá. O Gilberto estava aproveitando o feriado para pintar o salão. Estava lá no fundo. O homem entrou e foi dando tiros. O Gilberto ainda tentou segurar o revólver, e levou mais três tiros na mão. Conseguiu correr para a porta. Foi levando tiros nas costas. Um dele acertou o coração, e o Gilberto caiu no passeio, morto. Vizinhos ouviram os tiros e viram o que aconteceu depois. O homem foi até à esquina da rua (no fim do quarteirão) e voltou. E deu mais dois tiros na nuca do tio, que já estava morto. Depois entrou aqui para os fundos e suicidou com dois tiros na boca.

Depois de uma breve pausa, continuou:

— Ele já estava planejando isso. Mas deu azar, pois queria matar os três… Em dezembro do ano passado, comprou a pistola semiautomática de 20 tiros. Descarregou a pistola no Gilberto e ainda recarregou para dar os dois tiros na boca. No sábado havia vencido o contrato de aluguel dele, e a imobiliária disse que ele não quis renovar. Estava tudo planejado na cabeça do homem…

Terminou aí o desabafo do sobrinho. Continuamos em silêncio, enquanto ele cortava meu cabelo. Eu lia o jornal, sem prestar muita atenção. Pensava naquele drama. O pobre homem queria monopolizar o negócio na região, matando os concorrentes. Tenho que reconhecer: não é isso o que prega o sistema capitalista. Mas não é a primeira vez que o drama é encenado no mundo.

— Sucesso no seu negócio – disse ao rapaz, depois de pagar os 20 reais costumeiros.

— Obrigado. Volte sempre.

Vou voltar. Sei que não tenho qualquer concorrente com motivos para me matar. Mas, não sei nem o nome do sobrinho do Gilberto… E o Gilberto, pensando bem, sabia o meu nome.

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