Os “justiceiros” do Brasil, esta Terra de Ninguém

Eu estava no táxi, voltando da USP, e o taxista estava revoltado com a morte de Felipe Ramos de Paiva, estudante de ciências contábeis que morreu no campus na quinta passada.

Com sotaque forte do norte (que só hoje vim a descobrir como é), não parava de repetir: “É muito ruim uma família ver o filho morrer e não saber quem matou! Tinham que pegar aquele filho-da-puta que tirou a vida desse Felipe. É muito ruim pra família!”

Esperei. Eu sabia que ele queria contar uma história de família.

Não tardou, e lá veio ela. A história mais incrível que ouvi por aí:

— Meu cunhado tinha um bar lá em Porto Velho, Rondônia. Sabe onde fica Rondônia, né?

— Aham.

— Então. O cara que matou ele era colega dele. Tomava umas com ele, jogava sinuca lá no bar. Um dia, o cara levou um fazendeiro para jogar sinuca no bar porque queria matar o fazendeiro.

(Isso foi dito em um tom de voz corriqueiro, como se tivesse dito que queria jogar baralho com o fazendeiro.)

— Aí ele foi pro banheiro e meu cunhado falou com o fazendeiro: “Sai daqui porque ele quer te matar.” E o fazendeiro foi embora. Quando o cara voltou do banheiro, não viu o fazendeiro lá e pegou as bolas da sinuca e jogou na rua, com raiva. Meu cunhado, que tinha uns 64 anos, falou com ele: “Não faz isso. Você usa essas bolas pra jogar também, né?” Aí o cara pegou meu cunhado e levou pro quintal, fez assim com o pescoço dele (uma gravata) e deu um tiro na cabeça dele. Falou: “Vacilão dedo-duro não pode viver.” Matou meu cunhado no terreno dele. Até hoje não sei quem matou meu cunhado.

— Uai, mas o cara não era colega dele? Não era conhecido?

— Diz que era, mas ele sumiu e ninguém nunca pegou. Acho que ele era justiceiro.

— Justiceiro?

— É, gente paga pra matar. Acho que ele ficou com raiva que perdeu o dinheiro que ia ganhar com a morte do fazendeiro e descontou no meu cunhado. Lá tem muito disso, sabia? O povo mata por brincadeira lá. Mata por R$ 100, R$ 200.

— Nossa!

— É. Aqui também tem justiceiro. Quando matam um, dizem que foi traficante. Mas foi justiceiro. Só que aqui cobram mais caro.

(E assim aprendemos que existem justiças e justiças no Brasil.)

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