Revolução de costumes

Mais genialidades de Laerte aí: http://verbeat.org/laerte

Lembram quando o divórcio foi permitido no Brasil?

E quando os filhos “ilegítimos” passaram a ter os mesmos direitos dos filhos gerados em um casamento?

Lembram quando a mulher começou a ter filhos sem estar casada e isso deixou de ser “pecado”?

E quando as pessoas puderam optar por não se casar nem na igreja nem no cartório, mas apenas se juntar, e tiveram, mesmo assim, garantidos os direitos e os deveres consequentes daquela união estável?

Muitos de nós não se lembram de quando essas questões foram realmente questões um dia, levantadas pelo Congresso ou pelo Judiciário. Mas todos nós ainda acompanhamos os desdobramentos dessas pequenas revoluções, que ainda não se esgotaram. Afinal, ainda há aqueles que olham torto para mulher emancipada e com filhos “ilegítimos” e para casais “juntados”. Sempre haverá olhares tortos no mundo, creio eu.

A ideia é que esses rabugentos sabichões se tornem minoria e os direitos humanos, de liberdade e de dignidade da pessoa possam ser cada vez mais garantidos. Que todos possam ser, realmente, cada vez mais “iguais” perante a lei, como pede a Constituição.

Assim, o que vimos acontecer ontem, nesse dia histórico para a sociedade brasileira, foi uma pequena revolução de costumes a mais, para se juntar àquelas outras. Uma vitória para um grupo de pessoas que se via alijado juridicamente. Ela vai garantir a diminuição do preconceito que eles sofrem? Acho que, a curto prazo, não. Mas a médio e longo prazos, sim, porque, de forma simbólica, as pessoas passarão a entender que é normal dois caras adotarem uma criança, morarem juntos, dividirem os benefícios de um plano de saúde etc. Afinal, eles são um casal, formam uma família. E família não é só aquilo que as igrejas decidem que é.

A homofobia sempre vai existir, mas perderá força, porque já não encontra respaldo para seu discurso nem mesmo na letra da lei, que estava obsoleta. Logo o Congresso vai mudar também o Código Civil e será possível o casamento entre gays. E mais uma barreira terá sido quebrada.

E assim caminhamos para um mundo cada vez mais civilizado e respeitoso com os direitos universais. Mas va-ga-ro-sa-men-te… Não esperemos uma mudança radical. Não custa lembrar o que sempre digo aqui: já não é de hoje que o racismo é crime no Brasil, a abolição da escravidão se deu há décadas, mas ainda há preconceito racial evidente, embora com tendência de queda gradual. O mesmo passo de formiga toma conta de todas as outras questões impregnadas de moralismo, ou vítimas de disparates históricos.

É isso, palmas para os dez.

Da série Muriel, do Laerte: http://murieltotal.zip.net

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