Falta muito mais que um Ministério da Cultura no Brasil

Texto escrito por José de Souza Castro:

O Brasil era um dos 59 países relacionados pela Wikipédia que têm um Ministério da Cultura. Agora, com o governo interino de Michel Temer, se juntou à maioria dos que não os tem – entre eles, os Estados Unidos.

Os franceses, ao contrário dos estadunidenses, não devem estar entendendo a estratégia de Temer. Os artistas brasileiros que escolheram o Festival de Cannes para protestar contra o golpe não poderiam ter escolhido um local mais receptivo.

André Malraux e Charles de Gaulle. Foto: Foundation André Malraux

André Malraux e Charles de Gaulle. Foto: Foundation André Malraux

O Ministério da Cultura da França foi criado em 1959 pelo general Charles de Gaulle, que convidou um amigo, o escritor e militante da resistência ao nazismo André Malraux, para ser o primeiro ministro. O presidente francês tinha a estatura de um estadista; e o ministro da Cultura, o bastante para tornar o novo ministério respeitável. Continuar lendo

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O fim do Ministério da Cultura no Teatro dos Vampiros

Montagem sobre foto do presidente interino Michel Temer, que circula na internet.

Montagem sobre foto do presidente interino Michel Temer, que circula na internet.

Texto escrito por Beto Trajano:

Em 2007, ano em que me formei em jornalismo, estava eu no meu primeiro dia de “folga” após decidir lagar um emprego, quando fui abordado no centro comercial do Estrela Dalva, em Belo Horizonte, pelo amigo Romeu Sabará, que me fez uma proposta de trabalho.  Seria responsável pela comunicação em um Ponto de Cultura do Ministério da Cultura, o MinC. Topei a empreitada, e na semana seguinte comecei a trabalhar.

Ponto de Cultura foi um projeto implantando enquanto Gilberto Gil era ministro da Cultura, durante o governo Lula. Existiam “pontos” espalhados por todo o país, cada qual com atividades relacionadas à difusão de cultura. Fui trabalhar com capacitação de professores de escolas públicas no Instituto Cidadania Educação e Cultura, sob a supervisão do Romeu.

Fiz site, organizei palestras, elaborei apresentações, apostilas e documentos – toda a comunicação e a logística tecnológica estavam sob minha responsabilidade. Mas a maior experiência que tive foi participar de um evento: o Teia 2007, realizado em Belo Horizonte, um encontro nacional dos Pontos de Cultura.

Foi uma semana intensa. Uma overdose de cultura, gente de todo o Brasil estava concentrada na minha cidade.

Já jornalista, tive a total liberdade para escolher a minha forma de trabalho durante o evento. Resolvi falar sobre a cultura de rua, urbana: grafite, música, artesanato, artes plásticas, ciganos e os movimentos sociais presentes.

Levei meus irmãos e amigos para participar do encontro, realizado em vários locais de Beagá, como a Casa do Conde, hoje Funarte, e o Palácio das Artes. Nesses dias do Teia, sob a tutela de grandes figuras, como o ministro Gil e Jorge Mautner, produzi este documentário: Continuar lendo

Manifesto a favor do direito de divergir

Grafite de Leandro Larangeiras.

Grafite de Leandro Larangeiras.

Quando o jornalista Beto Trajano trabalhava em parceria com o Ministério da Cultura, em 2007, ele participou de uma edição da Teia, aqui em Beagá. Com a veia de agitador que ele sempre teve, começou a causar polêmica entre os participantes, ao defender mudanças no modelo das leis de incentivo à cultura, dentre outras questões.

Logo no primeiro dia, ao perceber que tinha virado, involuntariamente, um centro de discórdia, Beto transformou suas ideias num manifesto, ilustrado por seu amigo Leandro Larangeiras, e o distribui a todos.

Resultado: com um texto muito mais sóbrio, e com a temperança necessária, ele fez as pessoas refletirem sobre as diferenças de ideias e a falta que um pouco de tolerância faz. No final, aqueles que o tinham discriminado acabaram virando seus amigos.

O manifesto permanece atual ainda hoje:

Não sou igual a você

Topar de cara com realidades e ideologias diferentes da sua é algo estranho para qualquer pessoa. Nem sempre pode ser bom, mas sempre trará algum benefício. Crescer com as divergências, poder conhecer e aceitar diferentes formas de pensamento, ideologias e costumes é um grande desafio para o ser humano.

Saber que ao seu lado tem uma pessoa que pensa diferente de você e faz coisas que você não faz e vive outras realidades que nada tem a ver com a sua desperta emoções inesperadas em qualquer pessoa. Pode ser alegria, raiva, tristeza, amor etc. Não é possível prever como receberemos uma diferente forma de viver.

O que vale a pena quando o seu grupo entra em choque com outro grupo? Brigar, discutir, partir para a agressão – isso é fácil. Difícil mesmo é aceitar a ideia do outro e saber que, assim como você, o outro tem seus costumes, suas crenças e comportamentos e que ele vai defendê-los, assim como você defende os seus. Difícil é viver em paz com o vizinho totalmente diferente de você.

Se todos fossem iguais, a vida seria muito sem graça. Olhar para o lado e não ver nada diferente seria muito ruim. É um desafio para o ser humano conviver pacificamente com as diferentes formas de viver. Será que você consegue?”