O fim do Ministério da Cultura no Teatro dos Vampiros

Montagem sobre foto do presidente interino Michel Temer, que circula na internet.

Montagem sobre foto do presidente interino Michel Temer, que circula na internet.

Texto escrito por Beto Trajano:

Em 2007, ano em que me formei em jornalismo, estava eu no meu primeiro dia de “folga” após decidir lagar um emprego, quando fui abordado no centro comercial do Estrela Dalva, em Belo Horizonte, pelo amigo Romeu Sabará, que me fez uma proposta de trabalho.  Seria responsável pela comunicação em um Ponto de Cultura do Ministério da Cultura, o MinC. Topei a empreitada, e na semana seguinte comecei a trabalhar.

Ponto de Cultura foi um projeto implantando enquanto Gilberto Gil era ministro da Cultura, durante o governo Lula. Existiam “pontos” espalhados por todo o país, cada qual com atividades relacionadas à difusão de cultura. Fui trabalhar com capacitação de professores de escolas públicas no Instituto Cidadania Educação e Cultura, sob a supervisão do Romeu.

Fiz site, organizei palestras, elaborei apresentações, apostilas e documentos – toda a comunicação e a logística tecnológica estavam sob minha responsabilidade. Mas a maior experiência que tive foi participar de um evento: o Teia 2007, realizado em Belo Horizonte, um encontro nacional dos Pontos de Cultura.

Foi uma semana intensa. Uma overdose de cultura, gente de todo o Brasil estava concentrada na minha cidade.

Já jornalista, tive a total liberdade para escolher a minha forma de trabalho durante o evento. Resolvi falar sobre a cultura de rua, urbana: grafite, música, artesanato, artes plásticas, ciganos e os movimentos sociais presentes.

Levei meus irmãos e amigos para participar do encontro, realizado em vários locais de Beagá, como a Casa do Conde, hoje Funarte, e o Palácio das Artes. Nesses dias do Teia, sob a tutela de grandes figuras, como o ministro Gil e Jorge Mautner, produzi este documentário:

Conheci pessoas fantásticas. Participei de oficinas de jornalismo digital, redes sociais, produção de conteúdo, festas, debates… Entrei em discussões calorosas, como, por exemplo, sobre as leis de incentivos, as quais questiono muito. Foi neste evento que criei o manifesto pelo direito de divergir, já divulgado aqui no blog. Muito atual nos dias de hoje.

Escrevi toda esta introdução para me manifestar contra a extinção de um ministério tão importante para o país, já no primeiro dia de um governo interino no Brasil. Um governo sem a legitimidade garantida pelo voto direto da população. Escolhido por deputados e senadores e que abriga representantes da mais conservadora e antiga política brasileira, nem preciso citar nomes aqui.

O Ministério da Cultura foi destruído por esse governo.

Já estava convicto do retrocesso que seria implantado em nosso país, mas nomear um cidadão que nada tem a ver com este tema tão fundamental, a cultura, para ser o responsável por isso é abominável. Um representante do DEM, antigo PFL. Colé?!

A resposta da classe artística e cultural foi rápida.

Carlinhos Brown mandou seu recado durante um show, Caetano Veloso se manifestou em um artigo de jornal. Em Beagá, a Funarte, citada no começo do texto, foi ocupada neste domingo (15). Nesta segunda-feira (16), cerca de 60 artistas se reuniram no Rio para planejar a resistência contra o fim do MinC, que incluirá atos diários no prédio da Funarte carioca. Até no tapete vermelho do Festival de Cannes teve protesto:

Este governo não sabe dialogar com o meio cultural e artístico – é muito antiquado, quadrado, ou quase sem forma. E também não quer conversa, não aceita questionamentos, não pensa em progresso.

O fim do Ministério da Cultura, pelas mãos desse governo interino, é uma porrada na cara do Brasil.

Na década de 80, Renato Russo descreveu em várias de suas músicas a situação de grande crise política e econômica do Brasil. Suas letras tão lúcidas valem ainda para hoje, pois aquela mesma turma voltou a governar. “Vamos sair, mas não temos mais dinheiro. Os meus amigos todos estão procurando emprego. Voltamos a viver como há dez anos atrás. E a cada hora que passa envelhecemos dez semanas”. As palavras dele são tão atuais!

Vivemos mesmo num teatro de vampiros.

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