Algo muito grave ESTÁ acontecendo

 

Só uma vez, que eu me lembre, repeti um post anteriormente publicado aqui no blog. Foi quando, passadas as eleições de 2014, o país continuava cheio de ódio e intolerância, numa polarização, até aquele momento, nunca vista (e hoje muito piorada). Republiquei, naquele outubro de 2014, o manifesto a favor do direito de divergir.

Mas ontem eu estava navegando nos arquivos do blog quando deparei com um post de 2013 que trazia um discurso do Nobel Gabriel García Márquez feito em 1970. Fiquei surpresa com a atualidade daquele texto, com o quão perfeitamente ele se aplica à atual crise — política, econômica e jornalística — que vivemos no Brasil. Surpresa com o tanto que aquela espécie de parábola, escrita há quase 50 anos, sintetiza bem este ano que mal começou e já promete ser um dos mais turbulentos da história.

Por isso, vou tomar a liberdade de repetir um post pela segunda vez nesses mais de cinco anos de blog. Agora alterando seu título: não é que “algo muito grave vai acontecer“, o fato é que “algo muito grave está acontecendo“. Ou já aconteceu, talvez num caminho sem volta.

Vamos às palavras do gênio colombiano:

gaboImaginem um povoado muito pequeno, onde existe uma senhora velha que tem dois filhos, um de dezessete e uma filha menor, de catorze…

A senhora está servindo o café da manhã para os filhos, e nota-se nela uma expressão de muita preocupação. Os filhos perguntam o que ela tem, ela responde: “Não sei, mas amanheci com o pensamento de que alguma coisa muito grave vai acontecer neste povoado.”

Os dois riem dela, dizem que são pressentimentos de velha e coisas desse tipo. O filho resolve ir jogar bilhar, e no momento em que vai fazer uma carambola simplíssima, o adversário diz a ele: “Aposto um peso como você não consegue”.

Todos riem, ele ri, mas tenta e de fato não consegue. Paga um peso e ouve a pergunta: “O que será que aconteceu, se era uma carambola tão simples?”

Diz: “É verdade, mas fiquei preocupado com o que minha mãe me disse esta manhã, sobre alguma coisa grave que vai acontecer neste povoado.”

Todos riem dele, e o que ganhou o peso volta para casa, onde está sua mãe com uma prima. Feliz com seu peso, diz: “Ganhei esse peso de Fulano, e da maneira mais simples, porque ele é um bobão.”

“Bobão por quê?”

Responde: “Ora, porque não conseguiu fazer uma carambola simplíssima, estorvado de preocupação porque a mãe dele amanheceu hoje com a ideia de que alguma coisa muito grave vai acontecer neste povoado.”

A mãe diz a ele: “Não deboche dos pressentimentos dos velhos, porque às vezes acontecem.”

A prima ouve tudo isso e sai para comprar carne. Ela diz ao açougueiro: “Quero meio quilo de carne, e no momento em que ele está cortando, ela acrescenta: “Ou melhor, me dê logo um quilo, porque estão dizendo por aí que alguma coisa grave vai acontecer, e é melhor estar preparada.”

O açougueiro entrega a carne e quando chega outra senhora para comprar meio quilo, diz a ela: ”É melhor levar um quilo porque o pessoal está dizendo que alguma coisa grave vai acontecer, e está todo mundo se preparando, comprando coisas.”

A velha então compra dois quilos de carne, e meia hora depois o açougueiro vendeu todo seu estoque de carne. E o rumor de que “alguma coisa muito grave vai acontecer” foi se espalhando.

Até que chega o momento em que todo mundo no povoado está esperando que alguma coisa aconteça. Às duas da tarde faz o calor de sempre. Alguém diz: “Vocês estão percebendo o calor que está fazendo?”

“Mas aqui sempre fez muito calor.”

“Mesmo assim” – diz alguém – “Nunca fez tanto calor a esta hora.”

Na praça deserta, baixa de repente um passarinho, e alguém comenta: “Tem um passarinho na praça.” E todo mundo vai, espantado, ver o passarinho.

“Mas, meus senhores, sempre houve passarinhos que pousam na praça.”

“Pois é, mas nunca a essa hora.”

Chega um momento de tamanha tensão para os habitantes do povoado, que todos estão desesperados para ir embora mas ninguém tem coragem.

“Eu sim, sou muito macho”, grita um deles, e vai embora. Pega seus móveis, seus filhos, seus animais, mete tudo numa carreta e atravessa a rua principal.

Dezenas de pessoas reagem da mesma maneira: “Se ele se atreve a ir embora, nós também vamos”, e começam a desmontar o povoado.

Um dos últimos a abandonar o povoado diz: “Que não venha uma desgraça cair sobre o que sobra da nossa casa”, e então incendeia a casa e outros fazem o mesmo.

E o pânico se instala no povoado. No meio dele, vai a senhora que teve o presságio, gritando: “Eu falei que alguma coisa muito grave ia acontecer e disseram que eu estava louca.”

O texto acima está no livro “Eu não vim fazer um discurso”, da editora Record. CLIQUE AQUI para ler minha resenha sobre esse livro. CLIQUE AQUI para comparar preços e adquirir um exemplar.

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