- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com o jornalista José Hamilton Ribeiro para nosso livro “A Vaga é Sua“, publicado em 2010 pela Publifolha.
Entrevista com José Hamilton Ribeiro para o livro A Vaga É Sua (2010)
Quando o sr. decidiu ser jornalista, a partir de qual momento?
No meu caso é uma coisa que vem desde a primeira infância. Eu sou de uma cidadezinha pequena do interior, cidade de 3 mil habitantes, quase uma vila rural. E tinha uma pequena livraria que era de uma tia minha, que era muito próxima. E ela me estimulou a ler logo no começo.
Ela assinava um jornal dos padres de Minas, da região de Manhumirim, chamado “Lar Católico”, era até bonitinho, jornal mensal bem feitinho pra época. Esse jornal promovia um concurso de redação entre os leitores. Minha tia pediu pra eu escrever uma coisa lá e, sem que eu soubesse, mandou pro jornal e o jornal acabou publicando. Ver meu nome publicado no jornal ficou na minha cabeça.
Eu tinha menos de dez anos. Já sabia escrever porque tinha entrado na escola com seis ou sete anos. Aí, quando terminei o científico (ensino médio), escolhi a escola de jornalismo de Cásper Líbero, a única que havia no Brasil, eu acho.
Nessa época o diploma não era necessário, não era obrigatório. Mas a escola me ajudou muito porque era um lugar onde se conversava de jornalismo, de jornal, de jornalista.
E, quando eu estava no segundo ano da escola, já surgiu a possibilidade de cobrir umas férias no departamento de jornalismo da rádio Bandeirantes, no período da meia-noite às 6h. Um período horroroso – mas eu era estudante, embalado, ia ganhar um dinheirinho, e fui pra lá. Depois acabou se prolongando, não foi só um mês.
Pra entrar na rádio Bandeirantes teve que fazer algum processo seletivo? Como era o trabalho lá?
Alguém conhecia alguém da rádio Bandeirantes, ficou sabendo que tinha aquela vaga, circulou lá e fui atrás. O trabalho era ficar a noite toda acordado. Ler o material que chegava de telex naquela época, e ver um fato importante pra dar o noticiário de hora em hora que tinha durante a madrugada.
E depois da rádio, o sr. foi trabalhar onde?
A Folha na época publicava um anúncio assim: “Você quer ser jornalista?”, com um telefone pra fazer um teste. Liguei, fiz o teste na Folha e, quando terminou, o cara pegou o material escrito, fez uma entrevistinha, e falou: “Nós estamos com seu nome, seu telefone, qualquer coisa a gente te avisa.” Imaginei: isso é aquela conversa de sempre.
Mas, pra minha surpresa, alguns dias depois chegou um telegrama em casa pra comparecer à Folha determinada hora. Eu fui, uma pessoa me recebeu e disse: “Se você quiser trabalhar, pode começar amanhã”.
Tinha uma função na Folha que chamava preparador de textos. O repórter escrevia o que tinha e entregava aquele material bruto. Alguém lia e entregava o texto pra um preparador de texto, que dava uma ajustada no texto. Era fazer uma edição de texto. Fiquei pouco tempo nesse negócio, aí surgiu uma vaga de repórter, me puseram e fui repórter da Folha durante seis anos.
Quando fez a entrevista pra trabalhar na Folha, o sr. achava que ia passar naquele momento?
Tinha primeiro uma prova escrita. Davam um tema na hora e você fazia uma redação ali na hora. Davam um tempinho, depois faziam uma entrevista. “O que você é? De onde vem? Que você lê? O que não lê? O que gosta, o que não gosta?” Essa entrevista era determinante se chamavam ou não. Terminavam com aquela clássica: “No momento não tem vaga, se tiver a gente te avisa”. A leitura que a gente fazia era: “Bom, nunca vai ter, pode esquecer”. Mas, pra surpresa minha, logo em seguida me chamaram.
Quais as principais dificuldades que o sr. sentiu quando começou?
Como não comecei a escrever direto, comecei a ver o texto dos outros repórteres, de certa forma aquilo me deu uma certa segurança porque eu pegava o texto de um repórter necessariamente com mais experiência do que eu. E alguém lia aquilo, via defeitos e passava pra eu corrigir.
Então, eu vendo o material feito errado e com a orientação pra corrigir pra determinada maneira, aquilo já deu a dica de como que era pra fazer. E, como fiz esse trabalho durante uns dois ou três meses, quando eu saí pra escrever já tinha esse mínimo de segurança.
Eu me lembro que logo depois que comecei a escrever matéria, uma pessoa da Folha que acompanhava os textos me falou: “Poxa, você tem um jeito de escrever como a gente fala, tão bom de ler, de um modo simples”. Eu me lembro dessa observação que me foi feita logo no começo.
Tem um detalhe: quando entrei na Folha, em 1956, a Folha estava passando por uma mudança muito grande. Até um pouco antes ela chamava Folha da Manhã e era um jornal muito paulista e muito voltado pra agropecuária. E coincidiu que quando cheguei na Folha estava na reforma que tinham mudado de nome e passou a ser um jornal com uma missão nacional, de âmbito nacional. Então a Folha estimulou muito a reportagem nesta época.
Criavam duplas de repórteres e fotógrafos e mandavam fazer reportagens especiais, a gente viajava pra todo lado, foi uma fase de incremento da reportagem na Folha. O que me facilitou, que pude ser testado logo no começo.
O sr. fazia muito trabalho em dupla, com colega que era mais experiente?
A dupla geralmente era com fotógrafo. Geralmente mais experiente, porque os fotógrafos da Folha quando eu cheguei já eram pessoas mais maduras. E eu cheguei com 20 anos. Eles tinham mais prática de jornal.
Por que o sr. acha que foi selecionado naquela época?
Eu tinha facilidade de escrever. De maneira simples, com português correto, porque sempre tive boa formação de português. E também porque era jovem e era estudante de jornalismo. “Ó, o cara tem jeito pra escrever, é jovem, tá na universidade estudando jornalismo, quer dizer, é um cara que está inclinado”. Acho que isso contou.
O sr. sentiu alguma dificuldade nessa migração do impresso pra TV depois de tantos anos de impresso?
Do ponto de vista da forma, cada veículo tem os seus macetes. O jornal tem seus macetes, a revista tem seus macetes, a televisão tem seus macetes. Uma parte técnica que você assimila rapidamente.
Do ponto de vista de conteúdo, a função é a mesma do repórter. A diferença fundamental é que na TV é mais difícil de enganar. Na escrita é mais fácil. Eu lembro o caso do repórter do NYT que trabalhou um ano e tanto forjando entrevistas e o jornal acabava publicando. Demorou um ano e meio pra ser descoberto que ele era um cara maluco que inventava as coisas. Na TV ele não duraria uma semana porque ele não podia inventar uma situação. Na TV a imagem cobra muito diretamente.
Quais características um jovem inexperiente tem que ter para compensar sua inexperiência?
Primeiro lugar a vocação. Tem um perfil psicológico muito determinante da profissão de jornalista que é a necessidade que você tem de compartilhar a informação. No mundo capitalista, a informação é capital, é dinheiro, vale ouro.
A pessoa do mercado financeiro usa a informação a seu favor, não dá pra ninguém. O jornalista não, ele tem informação e quer distribuir, quer passar pros outros.
Tem esse lado psicológico magnânimo que é uma coisa fundamental. O jornalista fica sabendo uma coisa e imediatamente quer que os outros saibam também. Não é um sujeito que se apodera da informação pra fazer dinheiro e poder com ela. Tem que ter essa vocação de passar informação pros outros.
***
Amanhã volto com a entrevista que fizemos com Juca Kfouri
Você também vai gostar destes posts:
- Livro Sucursal das Incertezas, de José de Souza Castro, ganha versão impressa e nova cara digital
- A entrevista mais difícil que o jornalista James Cimino já fez
- Um manual de redação antirracista para jornalistas
- O jornalismo mudou. Para melhor ou pior?
- O jornalismo como conheci está com os dias contados
- Um estudo sobre a sobrevivência do jornalismo
- Reflexão aos leitores e fazedores de jornais
- Jornalistas agora têm que lutar contra fake news, coronavírus e o fascismo
- As dicas de 37 grandes jornalistas para quem está começando na profissão
- Uma homenagem às mulheres que fizeram a diferença na minha carreira
Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO
Descubra mais sobre blog da kikacastro
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.




