Jornalista Guilherme Roseguini relembra início da carreira em entrevista para o livro ‘A Vaga É Sua’

Guilherme Roseguini na cobertura da Copa de 2006. Foto: arquivo pessoal
Guilherme Roseguini na cobertura da Copa de 2006. Foto: arquivo pessoal

Continuando com o resgate que me propus a fazer neste mês dos jornalistas, hoje trago a entrevista que eu e a Ana Estela de Sousa Pinto fizemos com o jornalista Guilherme Roseguini para nosso livro A Vaga é Sua, publicado em 2010 pela Publifolha.

Entrevista com Guilherme Roseguini para o livro A Vaga É Sua (2010)

Conseguiu emprego logo que saiu da faculdade? 

Consegui o emprego na Folha ainda na faculdade. Estava iniciando o terceiro ano do curso de jornalismo na Metodista e trabalhava no jornal da faculdade, que circulava em alguns bairros de São Bernardo do Campo – o nome do periódico é “Rudge Ramos Jornal”.

Na época, o Júlio Veríssimo, um dos meus professores na faculdade e editor no Rudge Ramos Jornal, era também editor-adjunto de política da Folha. Ele me indicou para um processo seletivo na Folha que escolheria um repórter para um semanário de verão chamado “Folha Praia”. Passei pela seleção em 2001 e fiquei na Folha até o início de 2007.

Qual foi seu primeiro emprego?  

Meu primeiro emprego foi justamente o tal “Rudge Ramos Jornal”, semanário de 30 mil exemplares produzido por alunos da Metodista.

Como conseguiu a vaga? Havia processo seletivo?

Sim, existia um concorrido processo de seleção, pois a grana era boa – na época, R$ 540, o que significava uma fortuna pra um cara vindo de Araraquara que pagava a faculdade com auxílio de um financiamento federal.

Lembro bem das etapas e dos números. Éramos 50 candidatos pra três vagas. Primeiro encaramos uma prova de conhecimentos gerais. Acabei em quarto. Depois os dez melhores saíram para uma prova prática: tínhamos dois dias pra entregar uma reportagem sobre salário mínimo.

A esmagadora maioria correu atrás de dados econômicos, estatísticas, etc. Resolvi apostar em histórias humanas, relatar a vida de quem sobrevivia ganhando um mísero salário. Deu certo. Virei a disputa e fiquei com a primeira vaga.

Quais eram suas principais lacunas quando foca e o que fez para superá-las?

Acho que eu tinha todas as lacunas possíveis e imagináveis. Era super cru, tinha uma baita ansiedade e também um grande medo de fazer alguma bobagem em um jornal do porte da Folha. Mas o lado bom é que eu tinha muita vontade.

Minha primeira pauta na Folha, por exemplo, não tinha nada de glamorosa. Meu editor me pediu para rodar todas (sim, TODAS) as estradas do litoral sul de São Paulo para anotar onde existiam postos de combustível, oficinas mecânicas, restaurantes, etc. A ideia era fazer um megasserviço para os paulistanos que resolvessem descer para o litoral.

Claro, era algo super chato e modorrento. No primeiro dia, eu ficava me perguntando: “Será que é pra isso que eu estou estudando? Qualquer um pode contar postos de gasolina”. Só que percebi que ficar desfiando um rosário de lamentações não me levaria a lugar algum. Estabeleci uma meta: a cada cidade que cruzasse eu descobriria uma pauta pra oferecer pro meu editor. Terminei o giro em quatro dias e ofereci umas 10 sugestões de reportagem. O editor adorou.

Você sempre quis trabalhar com esporte? Fez algum tipo de especialização? Como fez para se preparar para atuar nessa área?

Não. Nunca desejei essa ou aquela área. Após o fim do “Folha Praia” me candidatei para uma vaga no caderno de “Esportes” pois era a única disponível naquele momento. Até hoje trabalho no setor. E, aliás, acho que não ser um especialista na área, um aficionado, contribuiu demais para que eu deslanchasse como repórter.

Parece contraditório, mas não é. Explico. No jornalismo do Brasil, “Esporte” é um segmento que costuma atrair apaixonados, gente que desde cedo cultiva o sonho de trabalhar com futebol, esporte que adoram como torcedores. Na esmagadora maioria dos casos, estes profissionais se interessam muito pelo que acontece dentro de campos ou quadras – como é a partida, quais são as regras, quem é quem em cada posição, quem ganhou, quem perdeu, qual a tática, o sistema de jogo, etc.

Nunca me interessei muito por essas coisas. E comecei a propor pautas onde o esporte não era o único assunto. Grosso modo, preferi observar o que ocorria fora de campo. O perfil sociológico das torcidas, a relação do futebol com a diplomacia internacional, o impacto dos grandes eventos esportivos na economia e na política dos países etc. Deu certo.

Sentiu muita diferença ao migrar do impresso para a TV? 

Muita. Mudar do jornal para a TV é algo bem drástico, e não são todos que conseguem se adaptar.

Quais as principais diferenças e o que fez para se adaptar a elas? 

O primeiro baque surge na própria concepção do que é uma reportagem. Em TV, imagem é tudo. Se eu não tenho imagens da história que quero contar, não posso contá-la.

Não adianta eu ter agrupado, por exemplo, pesquisas e estatísticas sensacionais sobre determinado tema. Na TV, eu preciso de um rosto por trás dessa estatística, algo que transforme os números em realidade para quem assiste. Além disso, precisei treinar habilidades específicas de televisão.

Quais lacunas sentiu que tinha para trabalhar com TV e como a experiência em impresso te ajudou lá?

Repórteres de TV precisam narrar suas reportagens, aparecer no vídeo, interpretar o próprio texto que escrevem. Para isso, fiz aulas de interpretação e cursos com uma fonoaudióloga.

A experiência do impresso me ajudou porque aprendi um conceito muito importante na Folha: repórter precisa perseguir as grandes histórias. É isso que faz a diferença. Assim, procurei seguir o mesmo conceito.

Minha narração não era das melhores. Eu não ficava tão bem no vídeo. Mas tudo isso perdia impacto porque a história que eu estava contando era boa. E é assim que sigo até hoje.

***

Amanhã volto com a entrevista que fizemos com José Hamilton Ribeiro 🙂

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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