Foi há exatos 20 anos que li “A Revolução dos Bichos”, em que George Orwell critica o regime soviético – o que passa a ser uma espécie de obsessão pessoal, depois que ele se juntou aos trotskistas na Guerra Civil Espanhola e passou a ser perseguido pelos comunistas, em meados de 1937, como ele conta em um prefácio que escreveu em 1947 para a edição ucraniana do livro.

Dois antes antes, em 2004, eu tinha lido “1984”, o último livro publicado em sua vida, em 1949, escrito entre 1946 e 1948, quando ele já estava gravemente doente com tuberculose avançada.

Embora em seus últimos anos Orwell detestasse o regime da URSS, é importante dizer que ele nunca foi de direita, como a turma da direita passou a alardear nos últimos anos. Pelo contrário. Ele tinha ido à Espanha para lutar ao lado de socialistas, comunistas, anarquistas e liberais, e contra o grupo fascista liderado pelo general Franco.

Ele só considerava que a União Soviética não traduzia o movimento socialista. Nesse texto de 1947, Orwell diz que a destruição do mito soviético era “essencial” para o “renascimento do movimento socialista”. Já em seu famoso ensaio “Por que eu escrevo“, de 1946, ele é categórico:

“Cada linha de trabalho sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, como eu o entendo.

Ou seja, ele sempre se definiu como socialista. O ponto é: além de ser de esquerda e pró-socialista, “por repulsa à forma como a camada mais pobre dos trabalhadores industriais era oprimida e negligenciada”, ele era absolutamente contra qualquer forma de totalitarismo. Aí incluído o totalitarismo do governo de Stalin.

Isso é o que aqueles dois livros, que li há mais de vinte anos, mais deixaram marcado em mim: o pavor que George Orwell tinha dos regimes ditatoriais e totalitários, da propaganda, da censura, do ódio, das deportações em massa, dos campos de concentração, das prisões sem julgamento (tudo isso citado nos textos que linkei acima). Fosse esse totalitarismo em nome da esquerda ou da direita.

Li este “Um pouco de ar, por favor!” agora em 2026, à luz de tudo o que vivemos, politicamente, nos últimos anos, em uma sociedade mundialmente fanática, polarizada e radicalizada. E, de novo, o que encontrei neste livro foi a preocupação do jornalista inglês com a incapacidade do povo de compreender o que estava acontecendo naquele momento.

Como ele escreveu naquele prefácio de 1947:

“Até 1939, e mesmo depois, a maioria dos ingleses era incapaz de avaliar a verdadeira natureza do regime nazista na Alemanha e, agora, com o regime soviético, ainda se encontra, em grande medida, sob o mesmo tipo de ilusão.”

Esse livro foi escrito justamente de 1938 a 1939 e publicado em junho de 1939. Em setembro daquele ano, a Segunda Guerra Mundial estourou.

Ou seja, o livro foi escrito num momento em que todos os europeus estavam sufocados (sem ar!) pela perspectiva de uma nova grande guerra, apenas duas décadas depois que a Primeira Guerra Mundial tinha terminado, causando prejuízos de toda ordem.

O narrador, George Bowling (não por acaso homônimo do autor), tece várias reflexões sobre a vida antes, durante e, principalmente, depois da guerra. Mostra como o pós-guerra pode ser ainda mais danoso para a sociedade do que as trincheiras propriamente ditas. E lembra com muita nostalgia da sua infância e adolescência, quando ele vivia na cidadezinha (fictícia) de Lower Binfield e podia pescar no rio Tâmisa.

Em dado momento, depois de colocar uma dentadura nova e receber 17 libras inesperadas, ele ganha coragem e autoconfiança suficientes para decidir retornar à terra natal, depois de 20 anos, na esperança de recuperar o fôlego diante de uma sensação de opressão e tensão constantes com a perspectiva de uma nova guerra. Na página 198 ele fala disso e chega a explicar o título do livro:

“Enfiei o pé no acelerador. O próprio pensamento de voltar a Lower Binfield já me fez bem. Você sabe a sensação que eu tive. Um pouco de ar, por favor! Como as grandes tartarugas marinhas quando chegam à superfície, elas enfiam o nariz para fora e enchem os pulmões com um grande gole antes de afundar novamente entre as algas e os polvos. Estamos todos sufocando no fundo de uma lata de lixo, mas eu encontrei o caminho para o topo. Voltar para Lower Binfield!”

Nesta altura já estamos no final da terceira parte do livro. Na quarta e última parte, ele vai contar o que encontrou em seu retorno (e não direi aqui, porque seria um baita spoiler).

Antes, passamos com ele por todas as doces lembranças dos tempos antes da guerra. É comum que as pessoas, quando se sentem sufocadas, olhem para trás com nostalgia. A vida antes da guerra, a vida antes da pandemia da Covid-19, a vida antes de Donald Trump e do bolsonarismo… Aiai, saudades.

Ele chega a pensar que era sempre verão em Lower Binfield. Ao menos em suas lembranças. Lembra também, com paixão, de seu hobby favorito, que era a pesca. Lembra do lago escondido que estava cheio de carpas gigantes. Lembra da primeira namorada, tão linda.

Ele vai escrevendo dessa forma nostálgica sobre o passado, sempre se dirigindo diretamente ao leitor, como numa conversa, com seu “você sabe” a cada par de linhas, como neste trecho:

“Já lhe contei algo sobre nossa antiga vida antes da guerra. Não estou fingindo que era perfeito. Ouso dizer que era um tipo de vida monótona, lenta e vegetal. Você pode dizer que éramos nabos, se quiser. Mas os nabos não vivem aterrorizados com o chefe, não ficam acordados à noite pensando na próxima queda e na próxima guerra. Tínhamos paz dentro de nós.” (página 197)

A guerra em si era um tédio:

“Imagine o tédio sem fim da guerra e a maneira como se agarra a quase qualquer tipo de diversão. Já vi duas pessoas em uma briga de abrigo de trincheira como demônios por meia revista de três centavos. Mas havia mais do que isso. Era o pensamento de escapar, talvez por um dia inteiro, da atmosfera de guerra. Estar sentado sob os choupos, pescando, longe da companhia, longe do barulho, do fedor, dos uniformes, dos oficiais, da saudação e da voz do sargento! A pesca é o oposto da guerra.” (página 98)

E, ao mesmo tempo, era assustadora, como ele descreve a um comunista que estava ansioso para entrar na nova guerra contra os nazistas:

“Em 1914, pensamos que seria um negócio glorioso. Bem, não foi. Foi apenas uma bagunça sangrenta. (…) Você não se sente um herói. Tudo que você sabe é que não dormiu por três dias e fede como uma doninha, está mijando de medo e suas mão estão tão frias que não conseguem segurar seu rifle. Mas isso também não importa. São as coisas que acontecem depois.”

A guerra também mexeu com a cabeça das pessoas:

“Uma espécie de onda de descrença estava se espalhando pela Inglaterra e chegou até o depósito de doze milhas. Seria um exagero dizer que a guerra transformou as pessoas em intelectuais, mas por ora as transformou em niilistas. Pessoas que de uma maneira normal teriam passado pela vida com tanta tendência a pensar por si mesmas quanto um pudim de sebo foram transformadas em bolcheviques apenas pela guerra. O que eu deveria ser agora se não fosse pela guerra? Não sei, mas algo diferente do que sou. Se a guerra não o matou, certamente o fez começar a pensar. Depois daquela confusão idiota indescritível, você não poderia continuar considerando a sociedade como algo eterno e inquestionável, como uma pirâmide. Você sabia que era apenas uma confusão.” (página 145)

Ainda sobre essa confusão, a “vida moderna”, que veio com o fim da primeira guerra, ganha ares sombrios na página 150:

“Eu estava entre as realidades da vida moderna. E quais são as realidades da vida moderna? Bem, a principal delas é uma luta frenética e eterna para vender coisas. Para a maioria das pessoas, ela assume a forma de vender a si mesma, isto é, conseguir um emprego e mantê-lo. Suponho que não haja um único mês desde a guerra, em qualquer profissão que você queira citar, na qual não havia mais homens do que empregos. Isso trouxe uma sensação horrível e peculiar à vida. É como em um navio afundando quando há dezenove sobreviventes e catorze coletes salva-vidas. Mas há algo moderno nisso, você diz? Tem algo a ver com a guerra? Bem, parece que sim. Aquela sensação de que você deve lutar e correr eternamente, de que nunca obterá nada, a menos que pegue de outra pessoa, de que sempre haverá alguém após o seu emprego, no próximo mês ou no mês seguinte à redução de pessoal. Juro que isso não existia na vida anterior à guerra.”

Parece que é assim até hoje, não?

O narrador, que está sufocado pela iminente chegada de uma nova guerra, tece muitas reflexões sobre como a sociedade mudou com a guerra anterior, como se vê. Mas o livro não é só sobre isso. Ele fala de coisas diversas. Sobre como as crianças eram criadas de forma violenta. Sobre sua gordura. Sobre os casamentos da época. Sobre os intelectuais cheios de ódio. Sobre a pesca.

Mas é o medo dos bombardeios de Hitler que permeia tudo. E a agonia que ele – George Bowling ou George Orwell? – sentia com as pessoas que não conseguiam perceber o que estava em jogo. Que viviam repetindo velhas ideias ou propagandas erradas (como a do regime stalinista, na visão do autor). Para ele, essas pessoas estavam mortas:

“Me ocorreu que talvez muitas pessoas que você vê andando estejam mortas. Dizemos que um homem está morto quando seu coração para e não antes. Parece um pouco arbitrário. Afinal, partes de seu corpo não param de funcionar. O cabelo continua crescendo por anos, por exemplo. Talvez um homem realmente morra quando seu cérebro para, quando perde o poder de absorver uma nova ideia. (…) Apenas diz as mesmas coisas e pensa os mesmos pensamentos repetidamente. Há muitas pessoas assim. Mentes mortas, pararam por dentro. Continuam andando para trás e para a frente na mesma pequena trilha, ficando mais fracas o tempo todo, como um fantasma.”

Por trechos como estes que selecionei acima, me parece óbvio que George Orwell se aproveitou de George Bowling para defender suas próprias ideias. O autor não era um gordo com dentes falsos nem era vendedor de seguros, mas suas divagações bem-humoradas tinham muito em comum com seu narrador-personagem. Por isso, este livro é visto como um misto de ensaio e romance.

Para quem previu a chegada da guerra e profetizou os problemas ainda mais sérios que o pós-guerra traria daquela vez, para quem descreveu com tanta maestria uma sociedade totalitária (seja de direita ou esquerda) em sua distopia “1984”, realmente devia ser muito frustrante ter de lidar com pessoas fanáticas e tacanhas, quase mortas por dentro.

Ele certamente se reviraria no túmulo se soubesse que tem gente dizendo que era defensor da direita de Mussolini ou Hitler. George Orwell foi um autodeclarado socialista democrático, uma voz firmemente contrária a qualquer forma de totalitarismo, de censura à imprensa, do cerceamento à expressão de opiniões.

Agora, em 2026, quando vemos uma ala de ultradireitistas fanáticos e reacionários tomar o poder em vários países, precisamos, mais do que nunca, de vozes do passado que nos lembrem da importância de pensar. Inclusive de recorrer ao passado como um refúgio de uma vida melhor e possível.

Este livro, que devorei em três dias, trouxe um pouco de ar. Por lembrar que nem tudo é bipolar, preto ou branco, X versus Y. Existem nuances na sociedade e na política. Nem tudo o que se declara de esquerda, por exemplo, é perfeito.

Mas é importante escolhermos um ponto de partida para fincar nossas convicções. E me parece que a luta contra o totalitarismo e a favor da democracia e da justiça social sejam bons pontos de partida, ainda hoje.

Assim é um clássico: uma obra escrita há 88 anos que ainda consegue trazer reflexões válidas para a sociedade de hoje. De vez em quando, precisamos recorrer aos clássicos em busca de um pouco de ar. Ainda mais nos turvos tempos de eleição.

 

Capa do livro Um pouco de ar, por favor!, de George OrwellUm pouco de ar, por favor!
George Orwell
Ed. Sétimo Selo
196 páginas
R$ 36 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)

 

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Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

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