Vale ver nos cinemas: Refém por um Fio (Dead Man’s Wire)
2025 | 1h44 de duração | Classificação: 14 anos | nota 9

Terminei de ver “Refém por um fio” com dois sentimentos conflitantes.

De um lado, aquela sensação boa de ver um cidadão comum fazer sua voz ser ouvida depois de ter sido oprimido por um ricaço – por uma grande corporação que lida com hipotecas, no caso dessa história. Uma daquelas “pequenas revoluções” que a gente às vezes espera que aconteçam no mundo, para que a régua da desigualdade fique um pouco menos injusta.

Por outro lado, aquela sensação ruim de ver como a televisão e o rádio ajudaram a dar voz para um completo maluco, que queria muito aparecer. Que talvez nem tivesse chegado ao extremo de amarrar uma espingarda engatilhada no pescoço de um homem se não fosse por isso. Como todas as mídias fazem ainda hoje, amplificando a voz de lunáticos, extremistas, pessoas cheias de ódio, racistas, e por aí vai. (Mas na época as mídias ainda eram tocadas, supostamente, por profissionais.)

Só por aí vocês já podem ter uma ideia de como o filme é bom. Porque ele não trabalha com a ideia de mocinhos e bandidos, de heróis e vilões. Ele mostra um monte de gente que, em última instância, está agindo errado. Joga aquilo tudo num caldeirão de um roteiro super bem amarrado, cheio de suspense, e deixa pra gente, do lado de cá da tela, absorver e tentar chegar às próprias conclusões.

As imagens finais dos personagens reais (fotos e vídeos), que pelo visto foram amplamente televisionados no “horário nobre” na época, também nos ajudam em nossas reflexões dúbias.

Para contextualizar, o filme é baseado em uma história real, de um crime real, cometido por um sujeito chamado Tony Kiritsis, em fevereiro de 1977. Ele sequestrou Richard Hall, presidente da Meridian Mortgage Company, de um jeito muito perspicaz, que garantiu que os dois chegassem em segurança ao apartamento de Tony sem que ninguém fosse abatido no meio do caminho.

Depois disso temos as cenas de terror psicológico típicas de um sequestro, e outras menos típicas, como Tony dançando diante do rádio ao ouvir o programa de seu DJ favorito, Fred Temple (um personagem fictício inspirado no radialista Fred Heckman, que também colocou uma fala de Tony no ar).

A propósito, a trilha sonora deste filme é fenomenal, com muito soul, funk e rock dos anos 70. A música “The Revolution Will Not be Televised” (a revolução não será televisionada) encerra o filme brilhantemente, de novo nos fazendo pensar sobre a linha tênue entre tragédia e espetáculo, entre revolução e circo, entre causas mais nobres e a simples vontade de aparecer.

Pra completar a qualidade técnica do filme, temos as atuações impressionantes dos dois protagonistas – Bill Skarsgård, como Tony, e Dacre Montgomery, como o refém Richard Hall –, as participações não menos impactantes de Al Pacino e Colman Domingo, e a batuta do premiado diretor Gus Van Sant, que já foi indicado ao Oscar por Gênio Indomável e Milk.

É provável que leve mais alguns prêmios por esta pequena pérola de mais uma pseudo-revolução televisionada.

Assista ao trailer de Refém por um fio:

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