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Os 7 de Chicago: ‘Se somos culpados, por que não nos julgar?’

Para ver na Netflix: OS 7 DE CHICAGO (The Trial of the Chicago 7)
Nota 10

Fazia tempo que eu não via um filme tão bom. Na verdade, fui olhar nas resenhas publicadas aqui no blog e a última vez que eu tinha dado nota 10 para um filme foi para “Green Book“, em janeiro de 2019. Ou seja, há mais de dois anos. (Diga-se de passagem, ele levou o Oscar de melhor filme daquele ano.)

É claro que esse negócio de nota é altamente subjetivo. E varia até para mim. Talvez, se eu tivesse visto este filme em outro momento, inclusive momento político do Brasil e do mundo, eu não teria achado tão incrível como achei. Mas vi exatamente nesta noite de quinta-feira, 18 de março, e as conjunturas me fizeram chorar de raiva do que estava se passando na tela diante de mim. E um filme que desperta tantas paixões e tantas reflexões assim na gente, em apenas duas horas, não é de se desprezar. É poderoso.

Estamos falando de um daqueles filmes de júri. Mas não é um julgamento qualquer: trata-se do julgamento de oito homens acusados de provocar tumulto e conspiração durante a Convenção Nacional Democrata de 1968. Eles eram líderes de movimentos diversos que tinham uma coisa em comum: queriam o fim da Guerra do Vietnã. O julgamento arrastou-se por meses. E, coincidência ou não com o que vimos acontecer aqui no Brasil, foi um julgamento muito mais político que qualquer outra coisa.

“Se somos culpados, por que não nos julgar? Se temos culpa, por que não nos julgar?”

Esta é uma das frases mais fortes do filme, num dos vários pontos de clímax que este longa nos proporciona. É dita por um dos réus e sintetiza o que vemos ao longo daquelas duas horas: um teatro, e não um julgamento. Um atentado à constituição democrática. Um atentado ao direito de defesa dos cidadãos. Qualquer coisa, menos um julgamento legítimo. A sensação de injustiça que este filme nos provoca é, como eu já disse antes, absolutamente poderosa.

Mas não pensem que este seja um daqueles filmes clássicos de júri. Graças a uma edição brilhante, que foi indicada ao Oscar, vemos a história do que aconteceu no sangrento agosto de 1968 sendo costurada ao que está acontecendo ali naquele momento, no julgamento dos caras apontados como culpados por um governo reacionário que, naquele momento, já era o do republicano Richard Nixon.

Essa costura começa de um jeito um pouco confuso para quem não está familiarizado com os personagens todos. Eu não conhecia Abbie Hoffman, Tom Hayden, David Dellinger, Rennie Davis, John Froines, Jerry Rubin, Lee Weiner e Bobby Seale. Eram muitos nomes sendo apresentados de uma vez só, e levei algum tempo para entender direito o papel e a personalidade de cada um deles, que eram bem distintos entre si. Mas aos poucos, graças a um roteiro também brilhante (e também indicado ao Oscar), tudo vai fluindo de um jeito muito natural, e passamos a conhecer muito bem cada um deles, além do excepcional advogado William Kunstler, e o juiz odioso Julius Hoffman.

As atuações, é claro, também são diretamente responsáveis por esse resultado. Temos monstros ali, cada um mais fera que o outro. Sacha Baron Cohen, que interpreta o genial e irreverente Abbie, representará todos eles com sua indicação ao Oscar (a primeira dele por atuação). Mas temos também gente do nível de Eddie Redmayne (que levou a estatueta em 2015), Mark Rylance (que levou em 2016), o veterano Frank Langella (indicado ao Oscar por Frost/Nixon, em 2008), o simpático Joseph Gordon-Levitt, e tem até uma ponta importante de Michael Keaton (indicado ao Oscar por Birmand, em 2015). John Carroll Lynch também está muito bem em sua cena principal, e me levou às lágrimas de novo.

Sacha Baron Cohen, que interpreta o ativista Abbie Hoffman.

E vocês devem ter reparado que, apesar de eu ter dito lá em cima que o filme é sobre o julgamento de oito pessoas, o título fala em “os sete de Chicago”. Não vou contar o que acontece com o oitavo réu, porque este é o primeiro clímax deste filme, que é cheio de reviravoltas e surpresas, cada uma mais forte e impactante que a outra.

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Enfim, trata-se de um filme memorável, ainda mais quando temos em mente que ele é baseado em fatos reais. Claro que nem tudo ali aconteceu exatamente daquela forma e houve alguns “retoques” ficcionais para aumentar a carga dramática (como a cena do fim, que infelizmente não ocorreu daquele jeito, segundo o IMDB). Embora algumas coisas tenham acontecido de forma até pior do que a que foi retratada.

Mas o principal da história está ali. E nos faz lembrar que a História, a com H maiúsculo, é cíclica, e estamos vivendo no mundo todo um retrocesso que nos leva de volta para mais de 50 anos atrás. Quando temos um George Floyd morto pela ação de uma polícia violenta, em pleno 2020, temos um pouco de 1968 de volta. “O mundo inteiro está vendo!”, gritavam os manifestantes naquela época. “Vidas negras importam!”, gritam hoje. Será que muita coisa mudou de lá pra cá? Quanto mais teremos de protestar para que coisas absurdas, como a violência de agentes do Estado, deixem de existir?

Não é à toa que “Os 7 de Chicago” está concorrendo a seis estatuetas do Oscar, inclusive a de melhor filme do ano. Ele é uma boa síntese deste ano que estamos vivendo – e de muitos outros antes dele, e provavelmente muitos depois. Durma-se com uma Justiça dessas!

 

Assista ao trailer do filme:

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

2 comentários em “Os 7 de Chicago: ‘Se somos culpados, por que não nos julgar?’ Deixe um comentário

  1. Aqui no Canadá, a gente recebe recomendações sobre filmes do blog da kikacastro! Esse filme é maravilhoso. Obrigado, Cristina!

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