- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Um dos motivos que me fizeram querer ler este livro “As Impacientes” foi ele ter sido escrito por uma autora africana. Afinal, até hoje, dos 848 livros que registrei ter lido desde os 12 anos de idade, só 13 eram de autores da África (mais especificamente, de Zâmbia, Moçambique, Angola, Marrocos, Egito, Zimbábue, Nigéria e África do Sul).
Quando vi no texto da orelha que Djaïli Amadou Amal nasceu em Camarões e que foi “a primeira autora camaronesa muçulmana a obter reconhecimento mundial”, logo fiquei curiosa. A curiosidade aumentou um pouco mais quando descobri que o reconhecimento se deu com o prêmio Goncourt, um dos mais prestigiosos do mundo da literatura.
Foi com essa alta expectativa que peguei o livro da biblioteca. E aí entra provavelmente o principal motivo da minha decepção, porque não gostei muito da escrita dessa autora. Achei a narrativa excessivamente cheia de expressões clichês, muitos adjetivos e, nossa!, muito mais pontos de exclamação do que eu costumo tolerar num texto.
Mas, fora a questão da narrativa, temos aqui três histórias que se somam a outras tantas, presentes na literatura, para ajudar a contar sobre os abusos e violências brutais que as mulheres vêm sofrendo ao longo dos séculos.
Então, este é um livro relevante.
Logo no início, a autora diz que leremos uma ficção, mas baseada em eventos reais. Ela não traz um contexto temporal, o que dá a entender que é algo possível ainda nos dias de hoje. E ali está uma sociedade patriarcal em seu ápice – como vimos, por exemplo, no livro “As alegrias da maternidade“, da nigeriana Buchi Emecheta.
Como neste outro livro, também temos que encarar a forma como os casamentos são arranjados para as filhas na puberdade, como transações comerciais entre as famílias, e sempre independente de suas vontades. E vemos muitas dessas meninas acabarem escravas de maridos violentos, agressivos, alcoólatras, estupradores.
Se pensarmos bem, não é tão diferente da realidade de muitas mulheres vítimas de violência doméstica no Brasil. Mas existem algumas especificidades próprias da cultura do povo fulani, que é o povo da autora Djaïli Amadou Amal. Principalmente no que diz respeito à religião muçulmana, à poligamia institucionalizada e à cultura arraigada da submissão, obediência e, principalmente, da paciência.
A palavra “paciência” (ou Munyal, na língua local) é quase como um mantra, que aparece em todo o livro, desde a abertura:

O livro conta a história de três mulheres (além de outras tantas que as circundam), narradas em primeira pessoa, que odiaram receber essa imposição de serem “pacientes” diante de seus infortúnios: Ramla e sua meia-irmã Hindou, cada qual indo parar em um casamento forçado, com destinos muito diversos. E, no fim, a terceira história de Safira, que passa a dividir o marido com Ramla e, por isso, tenta sabotá-la de todas as formas possíveis (algumas bem incríveis).
Este foi o ponto que achei mais interessante do livro, e que mais o diferenciou de outros livros com temática parecida: o fato de que as mulheres são completamente desunidas nessa cultura.
Simplesmente não existe o conceito de sororidade. O ódio e a competição acirrada que existe entre elas aparece em vários trechos do livro. Como, por exemplo, neste:
“Ver a filha infeliz e humilhada partia seu coração. Mas o pior para ela era saber que seu infortúnio seria o prazer de suas coesposas, que não hesitariam em aumentar os fatos, destruindo, assim, a imagem de esposa favorita que ela tinha construído com muito esforço.”
Ou este outro trecho impressionante, da página 107:
O que achei impressionante é que as mulheres não são só desunidas, elas se odeiam mesmo, se veem como inimigas declaradas.
E isso é algo muito forte e muito presente em todo o livro, o que me fez entender que é o natural na cultura daquele povo do norte de Camarões.
Penso que essa desunião e esse ódio foi algo construído pelos próprios homens, como forma de controlar ainda mais e melhor as mulheres de seu entorno.
Porque é inevitável, durante a leitura de “As Impacientes”, imaginar como seria se todas aquelas mulheres de repente se rebelassem juntas, unidas, concentrando seus esforços não em destruir umas às outras, mas em destruir seus opressores.
Mas elas são contidas, é claro, pela religião. Que prega que elas sejam pacientes. Que prega que elas podem receber socos na cara, ser estupradas, ser esfaqueadas, ser humilhadas, ser chicoteadas: tudo está bem, se o marido assim quiser, porque “esta é a vontade de Alá”.
Enfim, é sempre valioso conhecer outras culturas, e eu sinto falta de saber mais sobre a multiplicidade das culturas no vastíssimo continente africano, mas este não é um livro fácil de ler. A gente sempre tem a esperança de que o mundo esteja evoluindo, e é duro quando percebemos que algumas coisas se mantêm exatamente iguais ao que eram há mil anos.
No fim das contas, talvez o título do livro seja mais para nós, mulheres leitoras, diante de tantos absurdos e atrocidades, do que para aquelas personagens que pouco conseguem fazer além de chorar.
As impacientes
Djaïli Amadou Amal
Ed. Ímã
216 páginas
R$ 49 na Amazon (preço consultado na data do post, sujeito a alteração)
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