Dicas culturais da semana: três livros, dois filmes e uma exposição

Três livros, dois filmes e uma exposição nas minhas dicas culturais da semana.
Três livros, dois filmes e uma exposição nas minhas dicas culturais da semana.

De novo, eu acabei me atropelando, com muitos filmes e livros sendo vistos por aqui, e sem tempo para transformar todos eles em posts mais aprofundados. Então, para não perder a chance de pelo menos indicá-los aos meus queridos leitores, trago para cá um breve resumo de cada um.

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Dica 1: livro A Insubmissa, de Cristina Peri Rossi

Vou começar por este livro que ganhei de presente de aniversário da minha amiga Carol Araújo, que sempre me aplica em boa literatura (foi ela que me apresentou, por exemplo, à Rosa Montero, à Gioconda Belli e à Trilogia dos Gêmeos).

Fiquei triste em saber que esta escritora uruguaia tenha sido tão apagada pela ditadura militar de seu país – que não só censurou seus livros como proibiu seu nome de ser mencionado em qualquer lugar –, que talvez isso tenha contribuído para ela também ter permanecido desconhecida aqui no Brasil.

Até 2017, ela só tinha tido um livro de contos traduzido por aqui, já esgotado. Foi só em 2025 que este “A Insubmissa” e outros dois livros da minha xará chegaram ao Brasil, pelas editoras Bazar do Tempo e 34. Não por acaso, eu nunca tinha ouvido falar em Cristina Peri Rossi até ganhar o presente da Carol.

Terminei de ler em seis dias, e gostei muito do estilo dela. Cada capítulo deste romance de formação autobiográfico funciona como uma crônica separada das outras. Temos ali Cristina ainda criança, descobrindo o mundo e se revoltando contra as injustiças, cheia de muita vida e paixão.

Lá ela fala sobre um abuso que sofreu ainda criança, sobre o exílio dos bisavós italianos, sobre o pai violento que a trancava no banheiro, sobre os tios que viviam na estação ferroviária, sobre o tio misógino que tinha uma vasta biblioteca e uma vitrola, sobre os “bichicomes” (moradores de rua), sobre suas paixões (vistas como “anomais”, por serem homossexuais), sobre seu primeiro amor (a mãe, com quem queria se casar e ficou indignada ao descobrir que não podia), sobre o orfanato que ela queria conhecer etc.

Vale a pena conhecer esta escritora uruguaia que ainda vive exilada na Espanha, vencedora do prestigiado Prêmio Cervantes, o mais importante da literatura em língua espanhola. Fiquei com vontade agora de ler sua antologia poética, “Nossa vingança é o amor”, e na torcida para que outras de suas obras cheguem ao nosso alcance.

A Insubmissa, de Cristina Peri RossiA Insubmissa
Cristina Peri Rossi
Editora Bazar do Tempo
208 páginas
R$ 56 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

Dica 2: livro As Alegrias da Maternidade, de Buchi Emecheta

Eu também nunca tinha ouvido falar de Buchi Emecheta, escritora nigeriana que só fui conhecer porque este livro será discutido (hoje!) no clube do livro de que participo.

Antes dela, acho que eu só tinha lido mais uma autora daquele país, a Chimamanda Ngozi Adichie, nascida mais de três décadas depois de Buchi.

Gostei muito deste “As alegrias da maternidade”. Conta a história de Nnu Ego, que é enviada de Ibuza, onde morava com o pai (um importante líder local), para a capital Laos, para se casar com um homem que trabalhava como doméstico de uma família de brancos.

Acompanhamos a vida precária que eles levam, desde 1934, quando a história começa de maneira bastante dramática, até o fim da vida de Nnu Ego. Com todas as estratégias de sobrevivência, os conflitos familiares e os vários nascimentos de bebês.

São vários os choques culturais que vêm ao longo da leitura. Para mim, um dos mais impressionantes foi a constatação de que as mulheres eram vistas como objetos ou produtos, compradas pelo dote do marido, e até podendo ser herdadas em caso de morte do “proprietário”.

Mas, no fim do livro, percebemos também que isso não era uma realidade em toda a Nigéria, que era um país bastante fragmentado, formado por povos de costumes e culturas bem diferentes entre si.

Aliás, junto com a história da família de Nnu Ego, também acompanhamos a própria história desse país, que ainda era colônia britânica no começo, se vê empurrado a contragosto para a Segunda Guerra Mundial e acaba ficando independente só em 1960, como fruto das negociações pós-guerra.

Para além da visão sobre as mulheres, outra coisa que chama a atenção é a visão sobre os filhos, que já nascem com uma dívida para com seus pais. Dos meninos, se espera que trabalhem pela família depois que adquirem autonomia, garantindo o sustento e a aposentadoria dos mais velhos.

Das meninas, espera-se que rendam bons dotes, de preferência se casando (com maridos sempre escolhidos pelo patriarca) logo que entram na puberdade, ou seja, quando não são muito mais que crianças.

E que eles próprios tenham muitos e muitos filhos, para continuar trazendo prosperidade à família.

O título do livro é abertamente irônico e o fim, que não vou contar para não dar spoiler, guarda um claro ressentimento da própria autora em relação a pelo menos uma de suas filhas.

Talvez já esteja passando da hora de mudar esta visão que os pais têm de seus filhos, não só na Nigéria do século 20, mas em toda parte do mundo, a qualquer tempo.

As alegrias da maternidade, de Buchi EmechetaAs Alegrias da Maternidade
Buchi Emecheta
Editora Dublinense
314 páginas
R$ 55 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

Dica 3: livro Canção de Ninar, de Leïla Slimani

A primeira frase do livro é “O bebê está morto”. É assim que ficamos sabendo sobre a tragédia, sem nenhum preparo: o bebê está morto, a irmãzinha dele está gravemente ferida e quem cometeu essas atrocidades foi a babá.

Esse começo com cara de fim foi uma opção bastante ousada da escritora marroquina Leïla Slimani, vencedora do prêmio literário Goncourt por este livro. E uma escolha acertada, porque parece nos OBRIGAR a continuar a leitura, presos e tensos, tentando descobrir que gatilhos ou explicações podem existir para que a babá Louise cometesse um crime tão brutal.

Louise é descrita como uma babá perfeita. Tão perfeita que vai se tornando imprescindível para a vida dos patrões. Insubstituível. Mas sua personalidade vai sendo construída pouco a pouco, mostrando pedaços desconcertantes pelo caminho.

Brechas de maldade, perturbação e loucura debaixo de uma aparência tranquila.

E, assim, este livro que aborda “as relações de poder, os preconceitos entre classes e culturas, o papel da mulher na sociedade e as cobranças envolvendo a maternidade”, como bem diz o texto da contracapa, acaba embrenhando também pelo campo da sanidade mental.

A pergunta que ficou para mim é: existe algo, qualquer coisa mesmo, que possa justificar o assassinato a sangue-frio de duas crianças? Qual é a linha que divide o mal do insano? O desesperado do sórdido?

Enfim, eis um thriller muito bem escrito, que nos puxa para a leitura, embora muitas vezes eu tenha tido que parar para respirar um pouco. Ah, sim, e terminei sem ter todas as minhas perguntas respondidas. Mas convencida de que é porque não há mesmo respostas para algumas coisas que existem no lado mais sombrio da mente humana.

P.S. Desde que li este livro, tenho olhado de um jeito diferente para todas as babás que encontro na rua 😦

Capa do livro Canção de Ninar, de Leïla SlimaniCanção de Ninar
Leïla Slimani
Editora Planeta
191 páginas
R$ 51 na Amazon (preço consultado na data do post; sujeito a alterações)

Dia 4: filme O Drama, em cartaz nos cinemas

Vale a pena assistir: O Drama (The Drama)
2026 | 1h45 de duração | Classificação: 16 anos | nota 8

Imagem de divulgação do filme O Drama
Imagem de divulgação do filme O Drama

Só vi críticas negativas sobre este filme, mas achei a história toda muito boa. Acho que o problema é que ficaram pedindo aprofundamento de um filme que se pretendia apenas uma comédia satírica. Pelo menos foi assim que vi “O Drama”: como uma história despretensiosa, até meio irônica, a começar pelo título.

É até difícil falar sobre este filme sem correr o risco imenso de estragar a experiência de quem assiste. Mas vou dar um resumo bem básico, livre de spoilers: Charlie (Robert Pattinson) se apaixona por Emma (Zendaya) e, depois de algum tempo de namoro, estão prestes a se casar.

Às vésperas da cerimônia, quando estão experimentando os vinhos da festa com o padrinho e a madrinha, resolvem fazer uma “brincadeira”. Cada um tem que compartilhar o que fez de pior na vida. Nessa hora, Emma conta algo que fez quando era adolescente e deixa todos abismados. E faz Charlie pensar se conhecia mesmo a mulher com quem estava prestes a viver “feliz para sempre”.

A partir desta premissa instigante, podemos sim tecer algumas reflexões sobre perdão, amor, sobre a capacidade de alguém de mudar, sobre o que significa um relacionamento a dois etc. Mas, como eu disse, não acho que o filme tivesse essa preocupação. Os minutos seguintes, até o fim (que é ótimo!), são um crescendo de desastres, como é típico das boas comédias. Mas esta não é uma comédia romântica clássica, é uma comédia romântica totalmente subvertida!

Sabem aqueles filmes em que tudo começa a degringolar, em que os remendos vão tornando o soneto cada vez mais complicado? E o legal deste “O Drama” é que ele é bastante imprevisível. Durante o filme eu pensei em uns cinco finais possíveis, e acho que todos funcionariam tão bem quanto o que realmente foi escolhido pelo diretor e roteirista Kristoffer Borgli.

Pra melhorar, os atores que interpretam o casal estão realmente entre os melhores de sua geração. Aliás, desde Mickey 17, virei fã declarada de Robert Pattinson. Ele realmente tem um diferencial pra fazer esse tipo de comédia satírica, e convence muito bem na autossabotagem.

Mal posso esperar para ver o próximo filme com este ator que é bem mais versátil que a saga Crepúsculo fazia crer.

Assista ao trailer de O Drama:

Dica 5: filme O Diabo Veste Prada 2, em cartaz nos cinemas

Vale a pena assistir: O Diabo Veste Prada 2 (The Devil Wears Prada 2)
2026 | 1h59 de duração | Classificação: 12 anos | nota 9

 

Imagem de divulgação de O Diabo Veste Prada 2
Imagem de divulgação de O Diabo Veste Prada 2

Tive que rever “O Diabo Veste Prada” de 20 anos atrás no Disney+, porque não me lembrava de mais quase nada. Foi bom, porque me diverti da mesma maneira como quando vi pela primeira vez, quando eu mesma era uma aspirante a jornalista, como a personagem Andy, vivida por Anne Hathaway.

Em 2006, aliás, eu ainda estava na faculdade de jornalismo, cheia de sonhos e planos incríveis para minha futura profissão, como viajar pelo mundo, ser correspondente de guerra, coisas assim (spoiler: não fiz nada disso).

O último lugar em que eu gostaria de estar é em uma revista de moda, porque, assim como a Andy, eu nunca liguei para o assunto. Mas foi interessante ver a garota se esforçando até conquistar o respeito e admiração da toda-poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep), e, mesmo depois disso, dar as costas para todo aquele “glamour” e ir atrás de seus sonhos verdadeiros. Poético.

Duas décadas depois, Andy é uma premiada jornalista e, no mesmo dia em que recebe um troféu por uma reportagem, descobre que ela e todos os colegas foram demitidos do jornal em um passaralho. Pior: demitidos por WhatsApp.

Já perdi as contas de quantos passaralhos já presenciei na minha vida de jornalista. Não cheguei a ser vítima de nenhum (até porque nunca tive os maiores salários das redações), mas sempre foram tristes de ver. No filme, é essa demissão inesperada que leva Andy de volta à revista “Runway”.

“O Diabo Veste Prada 2” acaba pincelando um pouco a crise pela qual o jornalismo vem passando, com os cortes em orçamentos, demissões em massa e, principalmente, na própria raiz da profissão, que agora se preocupa muito menos em encontrar histórias de interesse público e muito mais em publicar conteúdos de interesse do público (fofocas, virais e afins).

É divertido de ver, porque, como boa comédia hollywoodiana, tem aquele final feliz típico. Otimista, ingênuo, em que tudo acaba se encaixando. E, vamos falar a verdade: precisamos ver histórias assim de tempos em tempos, do contrário a gente nem aguenta a dureza da vida.

Pra quem gosta do universo da moda, ele continua todo lá também: aquele mundo de mulheres anoréxicas vestindo roupas incompreensíveis, quartos luxuosos de hotel, passarelas, flashes, tapetes vermelhos. Mas agora com uma Miranda que precisa pendurar os próprios ternos em vez de jogar em cima da assistente, porque os tempos são outros, e o RH reclamou.

Por fim, como em todo revival, este Diabo 2 tem a graça da nostalgia (como vivemos recentemente com Sexta-Feira Muito Louca). De ver que atores brilhantes, como Meryl Streep (uma das melhores da história), Emily Blunt, Stanley Tucci e Anne Hathaway ficam cada vez melhores com o passar do tempo. Aliás, são um verdadeiro cala-boca para os etaristas.

Sim, a experiência e a passagem dos anos é essencial para qualquer profissional. Para atores, para fashionistas e até para jornalistas.

Assista ao trailer de O Diabo Veste Prada 2:

* Assisti ao filme a convite da Karsten.

Dica 6: Renoir na Casa Fiat de Cultura

Trata-se de uma exposição gratuita, em cartaz na Casa Fiat de Cultura só até o dia 10 de maio. Tá acabando e é imperdível, hein! 😀

Exposição de obras de Pierre-Auguste Renoir, na Casa Fiat de Cultura, em BH. Foto: blog da kikacastro

São 11 pinturas e uma escultura de Renoir, pertencentes ao acervo do Masp, e apresentados pela primeira vez fora de São Paulo.

Tem ainda uma sala imersiva, projetada exclusivamente pela Casa Fiat de Cultura, dedicada à pintura Rosa e Azul (1881), que é uma das mais famosas do artista francês impressionista.

Tenho uma réplica dela aqui em casa, comprada na própria lojinha do Masp, e acho que já vou olhar para as irmãs Alice (5 anos) e Elisabeth (6) de um jeito diferente, depois de ter visto aquele filmete ❤

Filme da Casa Fiat de Cultura sobre a obra Rosa e Azul, de Pierre-Auguste Renoir. Foto: blog da kikacastro

Veja algumas fotos da exposição Renoir:

Clique sobre qualquer foto para ver todas em tamanho maior. Crédito de todas as fotos: CMC / blog da kikacastro

  • Exposição Renoir
  • Em cartaz até 10 de maio de 2026
  • Classificação Livre
  • Local: Casa Fiat de Cultura
  • Endereço: Praça da Liberdade, nº10, Funcionários – Belo Horizonte/MG
  • Contato: (31) 3289-8900
  • Funcionamento: terça a sexta-feira, das 10h às 21h; sábados, domingos e feriados, das 10h às 18h
  • Preço: gratuito
  • Mais informações

Como comprar o livro de crônicas (Con)vivências, de Cristina Moreno de Castro, do blog da kikacastro.

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Por Cristina Moreno de Castro (kikacastro)

Mineira de Beagá, escritora, jornalista (passagem por Folha de S.Paulo, g1, TV Globo, O Tempo etc), blogueira há mais de 20 anos, amante dos livros, cinéfila, blueseira, atleticana, politizada, otimista, aprendendo desde 2015 a ser a melhor mãe do mundo para o Luiz. Autora dos livros A Vaga é Sua (Publifolha, 2010) e (Con)vivências (edição de autor, 2025). Antirracista e antifascista.

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