‘The Post’, filme sobre jornalismo que já não se pratica mais, merecia 8 em vez de 2 indicações

Para ver no cinema: THE POST: A GUERRA SECRETA (The Post)
Nota 9

A partir de agora, todos os estudantes de jornalismo passarão a assistir a este filme em seus cursos de graduação, assim como já deviam ver Spotlight, Todos os Homens do Presidente, e tantos outros filmes clássicos nostálgicos sobre um jornalismo que já não se pratica mais. Mas não se iludam, caros aspirantes a repórteres e editores: vocês não encontrarão mais, em nenhuma Redação, esse nível de comprometimento com a notícia e descomprometimento com o governante da vez.

Talvez por isso mesmo, cheguei a chorar em determinado ponto do filme, saudosista de um jornalismo que nunca cheguei a viver, fora do meu sonho e da minha imaginação. Que me fez mergulhar nesta profissão tão cheia de altos e baixos, em constante montanha-russa. Saudosista ainda de um tempo em que as pessoas faziam manifestações nas ruas em defesa da liberdade de imprensa, em que os jornais se preocupavam em ter uma equipe de repórteres de grande qualidade, que ganharia salários decentes e teria até três meses para mergulhar numa história de forma aprofundada, para realmente soltar uma manchete de impacto. E que ocuparia até seis páginas de jornal, que depois seria lido e relido por todos, em todos os lugares.

Hoje temos Redações sucateadas, pequenas, jornalistas pouco preparados, com tempo corrido demais para fazer qualquer coisa realmente aprofundada, e leitores pouco interessados nessa leitura mais árdua, em tempos de tweets e zaps curtíssimos.

Enfim. Já estou mudando de assunto.

Voltando ao “The Post”, ficou claro que um dos motivos pelos quais adorei o filme Continuar lendo

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‘Florence’: a história da dama supérflua que vive numa bolha

Para ver se tiver tempo: FLORENCE: QUEM É ESSA MULHER? (Florence Foster Jenkins)
Nota 6

florence

Perto dos outros filmes do Oscar deste ano (especialmente aqueles baseados em fatos reais), que retratam conflitos muito mais profundos, este “Florence” é rasinho como um pires. Talvez porque tenha sido pensado como uma comédia, mas, como tampouco guarda muito humor, eu penso mais que é um drama supérfluo, como era supérflua a protagonista retratada.

Estrelas Além do Tempo” nos faz pensar sobre o absurdo do racismo e do machismo, sobre a grandeza daquelas mulheres da Nasa, que ajudaram a mudar o curso da história. “Lion” nos faz pensar sobre o sentido de família, de pertencimento, sobre a vulnerabilidade das crianças de rua, sobre choques culturais. “Até o Último Homem” nos faz pensar sobre a importância (ou não) de nos fiarmos em nossas convicções pessoais, sobre dignidade e lealdade. “Sully” nos faz pensar sobre injustiças, sobre como os heróis são construídos na mídia. Isso só para citar os filmes baseados em fatos reais, porque “Moonlight”, “La La Land“, “A Chegada” e “Manchester à Beira-Mar” também trazem reflexões importantes.

Sobre o que “Florence” nos faz pensar? No máximo, sobre como deve ser péssimo viver dentro de uma bolha de ilusão.

O filme retrata a história real de Florence Foster Jenkins, que tinha o sonho de cantar em uma ópera no Carnegie Hall, mas era dona de uma voz agudíssima, desafinadíssima, talvez uma das piores vozes do mundo (que aos seus ouvidos parecia maravilhosa, porque era o que escutava de todos, o tempo todo). Só que ela era ricaça e influente. E vivia protegida, numa bolha de afeto, mais ou menos forçado. Digna de pena.

O que torna este filme mais interessante é Continuar lendo

Como seria se o mundo fosse assim?

Para ver no cinema: O DOADOR DE MEMÓRIAS (The Giver)
Nota 7

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O mais legal deste filme é a premissa. Trata-se de uma ficção científica caprichada, com elementos de “1984” e de romances do Philip K. Dick. O que me fez querer saber imediatamente quem foi responsável pelo roteiro do filme.

Descobri só agora que é baseado no livro da havaiana Lois Lowry, com roteiro do experiente Robert B. Weide e do novato Michael Mitnick. Fiquei na mesma: não conheço nenhum dos três. Já o diretor, Phillip Noyce, eu conheço pelos bons filmes “O Americano Tranquilo” e “O Colecionador de Ossos“.

O fato é que, mesmo contando com dois atores brilhantes — Meryl Streep e Jeff Bridges –, não é a atuação de ninguém que torna este filme bom. Os protagonistas são jovens atores desconhecidos, que fazem só o arroz com feijão, sem provocar grandes emoções no expectador. E mesmo o roteiro peca pela solução final encontrada para o problema (que, obviamente, não vou revelar aqui), que é digna de Sessão da Tarde.

Ficamos, então, com a premissa, esta sim, excelente. Trata-se de um mundo muito diferente, que foi criado por “anciãos”, e é totalmente blindado. Esse mundo é pautado pela mesmice completa, pela igualdade absoluta, com o nobre objetivo de evitar conflitos. Assim, não há cores — para que não se notem diferenças entre negros e brancos –, não há emoções — para evitar aquelas negativas, como a inveja ou a raiva, que culminam em atos de violência –, tudo é vigiado e hermético para que as regras sejam cumpridas e não haja possibilidade de atos de rebeldia. Os bebês são entregues a núcleos familiares aleatórios, os velhos são “mandados para outro lugar” (não há o conceito de morte), os bebês fracos ou doentes são também “mandados para outro lugar”. Não há dor, nem sofrimento, mas tampouco conceitos como amor, lar, beijo. E toda essa bolha é protegida por tecnologias de altíssimo nível.

A partir dessa premissa, milhares de filmes poderiam ser desenvolvidos, mas nasceu este, que é bom, tem emoção, aventura, um toque de poesia, belas fotografias, e faz pensar, mesmo não sendo esta sua principal pretensão. No mínimo, temos 97 minutos de vivência em um mundo incrível — no bom e no mau sentido –, que nos faz perguntar a todo momento: “Imagina se fosse assim? Seria melhor ou pior do que a vida como ela é, com todas as guerras, injustiças, dores, sofrimentos, e também festas, amores, paixões arrebatadoras, competições…?”

Assista e decida-se 😉

Leia também:

Um casal como muitos que conhecemos

Para ver no cinema: UM DIVÃ PARA DOIS (Hope Springs)

Nota 7

Todos os casais em crise deveriam assistir a este filme — de preferência juntos –, especialmente os que já passaram dos 60 anos de idade e mais de 30 de casados.

Meryl Streep, como sempre, está maravilhosa no papel de Kay — uma daquelas muitas esposas submissas que a gente já viu no mundo. E Tommy Lee Jones é um brilhante e rabugento Arnold, daqueles que envelhecem sem parar de reclamar de tudo e de todos.

Enfim, um casal como muitos que a gente conhece, numa daquelas crises causadas pelo excesso de rotina e de estabilidade e falta de esforço mútuo para melhorar a relação.

Até que decidem fazer terapia a dois…

O filme é bom, mas eu fui ao cinema com clima de assistir a uma comédia e me deparei com um drama tristíssimo (porque não acho nada mais triste no mundo do que essa situação). Portanto, assistam com o clima certo.

Talvez devessem até ouvir um pouco de For No One, a música mais triste do mundo, na versão do Caetano, que é mais adequadamente triste que a original dos Beatles, para se entranharem no espírito do filme.

O bom é que também há alguns momentos de alegria, como vocês verão. Talvez até os casamentos perdidos tenham solução, no fim das contas.

Acertei 6 dos 14

Neste ano meu desempenho foi bem pior! Mas, como se diz, “azar no jogo…” 😀

Os acertos foram:

  1. Melhor filme: O Artista
  2. Melhor atriz: Meryl Streep
  3. Melhor atriz coadjuvante: a mais que merecida Octavia Spencer (foto acima)
  4. Melhor roteiro original: Meia-noite em Paris
  5. Melhor filme estrangeiro: A Separação
  6. Melhores efeitos visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Mas foram bons acertos, eu achei, hehe.

Comentários:

  • Colin Firth é um dos sujeitos menos carismáticos do cinema. Por outro lado, viva Billy Crystal!
  • Não entendo mesmo como J.Edgar não concorreu por melhor ator e melhor maquiagem, pelo menos. E como Histórias Cruzadas ficou de fora de melhor roteiro adaptado.
  • Neste ano o páreo mais duro foi o das melhores atrizes. Putz, só fera!
  • Não é porque é brasileira, mas a música de Rio é bem melhor que a dos Muppets. Pena que não tinha a menor chance mesmo.
  • Embora o páreo também fosse duro, ainda acho que o Scorsese merecia levar neste ano. E, embora a Meryl seja mesmo uma das melhores atrizes de todos os tempos, ela já tinha duas estatuetas em casa e acho que este era o ano de Glenn Close, de novo injustiçada.
  • “O Artista” como melhor filme foi o prêmio mais previsível do século. E olha que nem assisti ao filme ainda.
  • Ver o Oscar, como sempre, me deixou doida pra assistir a vários filmes (fiz uma lista de sete urgentes). Claro que esse é um dos objetivos da transmissão, né 😉