
Qual é a graça de ler uma novela da Agatha Christie já sabendo quem é o assassino? Pois foi o que me aconteceu certa vez. A culpa não foi de nenhum amigo linguarudo, mas do resumo minúsculo que estava na contracapa do livro, e dava uma pista substancial sobre quem estava por trás de todos aqueles crimes.
Fiquei tão revoltada com isso que, desde aquele livro — e já faz um bocado de tempo –, parei de ler até as contracapas dos livros, mesmo com os menores resumos. As orelhas, então, nem se fala. É muito raro eu permitir que elas estraguem meu prazer.
Mas acabei me esquecendo dessa regrinha de ouro na semana passada. Eu estava começando o clássico “O Fio da Navalha”, de Somerset Maugham, quando me perguntei se o romance seria meio autobiográfico, como era “Servidão Humana” (que adorei!). Pensei: deixa eu ler na orelha, para ver se eles falam disso. Qual não foi minha surpresa — e ódio — ao constatar que a orelha contava TODO o enredo do livro? Parei a tempo de ver o final, mas, antes disso, já tinha percorrido o que ainda ia ser lido centenas de páginas adiante.
QUAL É O PROBLEMA DESSES EDITORES?!
Acho que um dos maiores prazeres da leitura é se entregar à narrativa totalmente às cegas quanto ao seu conteúdo. Tudo bem, o conteúdo não é tudo: a forma como o autor descreve a história, seu estilo, também são essenciais. Mas acho que perde metade da graça quando eu sei demais sobre o que vai acontecer. Suspense não é pré-requisito apenas de romances policiais, afinal.
Por isso, toda vez que faço uma resenha, de livro ou filme, aqui no blog, sempre tenho o cuidado de não me aprofundar demais na história, abordando apenas os motivos mais periféricos que me levaram a gostar tanto dela. E acho O FIM DO MUNDO quando uma editora consegue, em cinco linhas, revelar o assassino de um livro de detetive ou descrever tudo o que vai acontecer com o protagonista de um livro de personagem.
Como não dá para confiar nas editoras, deixo aqui a dica aos leitores: se você, assim como eu, também detesta spoilers, evite ler orelhas e contracapas dos livros. É melhor prevenir, porque não há remédio — só, talvez, uma máquina que apaga seletivamente a memória da gente, ainda não disponível no mercado.
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