Um tempo para profecias (ou a terceira guerra mundial)

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Texto escrito por José de Souza Castro:

É tempo de desejar feliz Natal e próspero Ano Novo aos meus poucos leitores. É o que lhes desejo. Apesar disso, é tempo também de pensar um pouco sobre o que o futuro nos reserva, moradores do mundo.

Não entram nas minhas preocupações as dificuldades que a presidente Dilma Rousseff terá pela frente, ao iniciar-se seu segundo mandato. E nem as escaramuças dela com os oposicionistas e, principalmente, com os aliados do próprio governo no Congresso Nacional. Isso é fichinha diante do que preocupa, por exemplo, o ilustre sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: a terceira guerra mundial.

Em artigo recente, ele adverte que “tudo leva a crer que está em preparação a terceira guerra mundial”. Quem a prepara são os Estados Unidos e seus aliados na Europa, tendo como pretexto a Ucrânia. Os alvos são a Rússia, principalmente, e a China. “A escalada da provocação à Rússia tem vários componentes que, no conjunto, constituem a segunda guerra fria”, afirma Boaventura.

Nesta guerra fria, ao contrário da primeira, a Europa é um participante ativo, ainda que subordinado aos EUA, e assume-se agora a possibilidade de guerra total e, portanto, de guerra nuclear, diz o sociólogo português. “Várias agências de segurança fazem planos já para o Day After de um confronto nuclear”, acrescenta.

Eu não tento fazer planos sobre o futuro de meus netos. Haverá por perto alguma caverna suficientemente profunda para que possam se esconder?

Norte-americanos e europeus estão a provocar os russos de três formas, explica Boaventura:

1. Sanções para debilitar a Rússia, como a redução do preço do petróleo, uma das mais importantes fontes de financiamento do país. E que prejudicarão também outros países considerados hostis aos norte-americanos, como Venezuela, Irã e Equador.

2. Instalação de um governo satélite em Kiev, começando por nomear uma ex-funcionária do Departamento de Estado, Natalie Jaresko, como nova ministra das finanças da Ucrânia. Cidadã americana, presidente de várias empresas financiadas pelo governo dos EUA e criadas para atuar na Ucrânia, Natalie obteve cidadania ucraniana dias antes de assumir o cargo de ministra.

3. A guerra de propaganda, com a grande imprensa sendo pressionada a difundir tudo o que legitime a provocação ocidental e ocultar tudo o que a questione. Boaventura cita o jornalista australiano John Pilger, conhecido mundialmente. Ele afirmou recentemente que, se os jornalistas tivessem resistido à guerra de propaganda, talvez se tivesse evitado a guerra do Iraque em que morreram, até recentemente, 1.455.590 iraquianos e 4.801 soldados norte-americanos. “Quantos ucranianos morrerão na guerra que está a ser preparada? E quantos não-ucranianos?”, indaga Boaventura.

De qualquer forma, tudo será feito em nome da defesa da democracia, como sempre. Não foi assim em 1964, aqui no Brasil, na preparação do golpe militar? Mas, questiona o sociólogo português que viveu sob a ditadura de Salazar, em seu país:

“Estamos em democracia quando 67% dos norte-americanos são contra a entrega de armas à Ucrânia e 98% dos seus representantes votam a favor? Estamos em democracia na Europa quando países da UE membros da NATO (Otan) podem estar a ser conduzidos, à revelia dos cidadãos, a travar uma guerra contra a Rússia em benefício dos EUA, ou quando o parlamento europeu segue nas suas rotinas de conforto enquanto a Europa está a ser preparada para ser o próximo teatro de guerra, e a Ucrânia, a próxima Líbia?”

Dois fatos, na opinião de Boaventura, explicam o que se passa: o declínio dos EUA enquanto país hegemônico; e o negócio altamente lucrativo da guerra. “Transformar os sinais óbvios de declínio em previsões de agressão visa justificar a guerra como defesa. Ora a guerra é altamente lucrativa devido à superioridade dos EUA na condução da guerra, no fornecimento de equipamentos e nos trabalhos de reconstrução”, afirma o autor.

Boaventura lembra que há pouco mais de dois meses o “New York Times” divulgou relatório da CIA sobre o fornecimento clandestino e ilegal de armas e financiamento de guerras nos últimos 67 anos em muitos países, entre eles, Cuba, Angola e Nicarágua. Esta notícia, acrescentou, serviu para que Noam Chomsky dissesse que aquele só podia ter o seguinte título: “Yes, we declare ourselves to be the world´s leading terrorist state. We are proud of it” (“Sim, declaramos que somos o maior estado terrorista do mundo. E temos orgulho nisso”).

Não é só Boaventura que critica a política dos Estados Unidos. Veja-se Immanuel Wallerstein, pesquisador senior da Universidade de Yale e autor do livro “The Decline of American Power: The U.S. in a Chaotic World”. Vale ler o artigo em inglês, AQUI. Trecho citado por Boaventura:

“Os EUA se transformaram num canhão descontrolado (a loose canon), um poder cujas ações são imprevisíveis, incontroláveis e perigosas para ele próprio e para os outros. A consequência mais dramática é que esta irracionalidade se repercute e intensifica na política dos seus aliados. Ao deixar-se envolver na nova guerra fria, a Europa não só atua contra os seus interesses econômicos, como perde a relativa autonomia que tinha construído no plano internacional depois de 1945”.

Fim de ano é propício a profecias para o ano seguinte. Alguém aí se anima?

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3 comentários sobre “Um tempo para profecias (ou a terceira guerra mundial)

  1. Gosto de ler seu blog, ainda que tenho preferência pelos temas sobre política, gosto também dos temas sobre cultura e outros do seu blog.

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