Veja trechos e assista à íntegra da participação da ministra do STF na Flip, em que ela dá recado importante sobre a democracia aos ocupantes do poder e aos eleitores
- Texto escrito por Cristina Moreno de Castro
Já me conformei que nunca vou conseguir ir à Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty. Cada edição fica mais cara, mais cheia e mais complicada.
Segundo o balanção que a “Folha de S.Paulo” fez da edição deste ano, rolou até tumulto na mesa com a escritora Conceição Evaristo, a ministra do STF Cármen Lúcia e a jornalista Míriam Leitão.
Eu amo literatura, livros e debates com pessoas inteligentes, mas detesto fila, obras inflacionadas e bagunça, na mesma proporção.
Dito tudo isso, só me resta acompanhar a efervescência da Flip por outros meios. No YouTube, por exemplo, consegui ver uma mesa imperdível com Cármen Lúcia. Vou trazer alguns pontos de sua fala neste post.
‘Cidadã como outra qualquer’
A ministra (e escritora) já começa despertando simpatia desde sua primeira fala: “Vamos lá. AINDA ESTAMOS AQUI!” – em clara referência ao filme que conta uma das histórias da brutalidade da ditadura militar brasileira.
E assim ela segue, ao longo de uma hora, contando causos, fazendo rir, citando Drummond, Guimarães Rosa, Gilberto Gil e despertando chuvas de aplausos em vários momentos.
A mineira de 72 anos, natural de Montes Claros, uma das três únicas mulheres a ocupar o cargo de ministra do Supremo Tribunal Federal no Brasil (atualmente a única), mostra que tem a mente afiada, é bem-humorada, culta e uma jurista brilhante.
Quando a mediadora Paula Miraglia começa pedindo uma reflexão sobre como a trajetória pessoal influenciou na carreira jurídica de Cármen, ela conta que sua família sempre incentivou os estudos e que ela chegou a cogitar estudar Literatura ou Jornalismo, mas acabou optando pelo Direito.
Foi procuradora de Estado em Minas por 26 anos, além de professora, até ser, em 2006, nomeada ministra do Supremo por Lula.
Apesar de tantas proezas, ela diz que tem uma “vidinha” comum, de uma “cidadã como outra qualquer”:
“Se fosse o Drummond, ele diria: ‘Eta, vida besta!” (…) Não sei o que esperam. Resolvi ser o que sou mesmo, uma cidadã brasileira, trabalhadora como outra qualquer, que reclama na hora que o despertador toca todo dia, às 5h15 da manhã, e aí eu penso: ‘Mas dona Maria que também sai de casa pra trabalhar, ela também não gosta de jeito nenhum’. Como eu, uma trabalhadora.”

Servidores públicos
Uma dos momentos em que arranca aplausos entusiasmados do públicos é quando diz que quem ocupa cargos no Poder deve servir ao povo:
“Nós somos e temos mais e mais de sermos servidores públicos, servidoras públicas, que estão na ocupação de um cargo público, a servir o povo e não a se servir do povo, que o povo não foi feito pra ser servido.”
Defesa da imprensa
Ainda nessa toada de que os servidores devem satisfação ao povo, ela faz uma defesa do papel da imprensa:
“Como disse uma vez dom Pedro II pra um dos seus ministros de gabinete, que dizia: ‘A imprensa tá falando muito mal da gente, não era melhor calar a imprensa?’. Ele disse: ‘E quem vai me contar o que está de errado que a gente faz aqui?’ É preciso não calar mesmo, somos servidores, e é isso.”
Inteligência artificial
Sobre o que dizem dela, tanto na imprensa quanto em outros meios, ela brinca:
“A gente escuta de tudo, ainda mais nesses tempos de inteligência artificial. Eu escuto certas coisas sobre a tal da Cármen Lucia que eu fico hor-ro-ri-za-da com ela. Tem que prender essa mulher, eu falo, não é possível.”
E arranca mais aplausos ao dizer que não tem medo da inteligência artificial, mas sim da “desinteligência natural”: “Essa me preocupa”.
Ainda sobre a visão que o povo tem dela, a ministra conta o causo de quando estava saindo de um supermercado em BH, carregando sacolas, e uma senhora a chamou: “Ô moça, vem cá, posso tirar uma foto com você? Parece a Cármen Lucia, já te falaram isso?”
“Já gostei do ‘moça’, eu com 100 anos de idade”, riu a ministra, dizendo que ficou sem reação. “Eu disse: ‘E se eu fosse ela?’ ‘Cê ela acha que ela ia sair de um supermercado carregando sacolinha de tomate?’”
“Em 5 minutos eu ‘fiquei sabendo’ que eu tenho Instagram – que eu não tenho, não tenho nada disso –, que eu era rabugenta, de cara fechada, e que eu não gostava de tomate. Ao vivo! Atualmente o mundo não está pra brincadeira“, diz a ministra, arrancando muitas risadas.

Defesa da educação
Diante do que chamou de “desinteligência natural”, ela faz um aparte defendendo a importância da educação:
“Eu acho uma professora de grupo escolar muito muito mais importante do que a função de juiz, por uma razão simples. Ela ensina, alfabetiza, ajuda na educação. Se a gente tivesse mais grandes e ótimos professores no Brasil, pra todas as crianças brasileiras, não precisaria de tantos juízes. Nem delegados. Nós precisamos de levar letras pra nossa meninada [novos aplausos]”.
Defesa da democracia
Mas ela estava lá para lançar seu mais novo livro, “Pela mão do povo: Voto e democracia no Brasil“, e, muito por isso, o tema da democracia ocupou boa parte de sua apresentação.

Ela abre o assunto dando o exemplo de professores, escolas ou pais que podem ser considerados mais autoritários ou mais democráticos, dependendo do jeito. E explica: “Eu acho que a democracia é uma forma de viver, é uma escolha de viver.”
Ainda sobre isso, vou destacar a seguir algumas falas dela que me marcaram:
“Democracia é uma forma que a gente escolhe pra viver com o outro, garantindo as liberdades. Quanto mais ampla for a liberdade, mais democrática é a relação que a gente estabelece com a família, com o amigos…”
*
“Não é fácil. Primeiro porque a tendência de todo mundo é ampliar a sua liberdade até um ponto que interfere no espaço do outro. Mas é o amadurecimento de humanidades no sentido das liberdades.”
*
“A democracia como regime político é que depende da nossa condição de democratas no espaço político, no espaço cívico, para que a gente construa, reconstrua, invente e reinvente as instituições que nós queremos a partir de uma sociedade democrática.”
*
“O voto é um instrumento que foi entregue a cada um, a cada eleitora e cada eleitor, pra que possa manifestar de maneira livre, segura, sigilosa, pra que você não tenha que dar satisfação a ninguém, e é importantíssimo, portanto, pra que a gente construa instituições verdadeiramente democráticas.”

Etarismo e voto facultativo
Sobre a questão do voto, ela faz um comentário importante a respeito do voto facultativo, que ocorre para jovens de 16 e 17 anos e para adultos acima dos 70 anos.
Nas últimas eleições, em que ela presidiu o Tribunal Superior Eleitoral (ela foi a primeira mulher a presidir o TSE, diga-se de passagem), apenas 43% de eleitores com mais de 70 anos compareceram às urnas. “É muito pouco”, diz ela, para quem o problema não é só a facultatividade do voto, mas também o etarismo, ou preconceito contra a idade.
Mais grave ainda, continua ela, é o fato de esses “velhos e velhas” já terem passado por “experiências ditatoriais trágicas”:
“Porque quem viveu uma ditadura sabe bem o que é ser amordaçado na sua palavra, até no seu pensamento, porque você desacostuma de poder pensar. É terrível a experiência.”
Defesa da Constituição
Ela lembra também que, no passado, analfabeto não podia votar, ou seja, não era um cidadão completo. Funcionava como as eleições em estados ditatoriais – que existem, mas não são livres nem seguras e “são seletivas no eleitorado”.
A Constituição atual trouxe direitos importantes, que, mais que garantir nossa liberdade, garante que a sociedade vá ampliando seus espaços de liberdade:
“A vida é um processo libertador. E, quanto mais democrática é uma sociedade, tanto quanto ela garante esse espaço de libertação permanente.”

‘Parem de nos matar, porque nós não vamos morrer’
Aqui ela também arranca muitos aplausos ao lembrar da forma como as mulheres são tratadas:
“As instituições democráticas do Estado traçam isso e garantem isso, de nós nos libertarmos de um passado de muitas indignidades, de muitas crueldades, uma sociedade escravocrata, como nós tivemos, uma sociedade em que nós mulheres fomos e continuamos sendo objeto (não sujeito) de preconceitos. Estamos vivendo uma matança de mulheres, como se fosse algo razoável, algo possível. E agora eu tenho dito: parem de nos matar, porque nós não vamos morrer. Não entenderam, não? Mata uma, vêm três atrás!“
Nesse ponto, ela reforça a importância das instituições democráticas e sua diferença para uma sociedade ditatorial:
“São as instituições que nos garantem que a gente continue lutando pra chegar a uma democracia verdadeira na sociedade. Isso importa em ter o direito à palavra (por isso eu luto tanto por escolas, por bibliotecas), ter o direito a falar, a dizer, a pensar livremente, aprender a pensar e raciocinar, e aprender de si. Aprender não apenas a estar no mundo, mas a estar com o mundo, com o outro neste mundo, e reconstruir este mundo. E é isso que o espaço democrático garante e que numa ditadura não se garante.”
Tentativa de golpe de Estado
Sobre o ataque às urnas eletrônicas, que a extrema-direita vem insistentemente promovendo nos últimos anos, ela diz: “Pra quem a urna não é boa? Pra quem não tem voto!” E também: “Democrata é quem sabe perder, não é quem sabe ganhar.”
E ela destaca que houve uma tentativa de golpe de Estado, que não deu certo, foi contida, não só pela ação do STF, mas também de várias outras instituições democráticas e do povo, que se posicionaram a favor da democracia.
“Compete a nós mantermos a democracia na sociedade e no Estado, pra que as meninas e meninos de hoje não precisem de viver permanentemente em luta pela democracia.“
Recado aos jovens que não viveram a ditadura
E aqui ela volta a enfatizar a importância de comparecer às urnas para garantir um direito democrático que foi conquistado a duas penas por nossos antepassados:
“Vocês que são jovens não sabem o que é não ter a liberdade. (…) Quando faltou a democracia, nós vivíamos correndo de polícia, e lutando pra ter o direito de votar para o diretório acadêmico da faculdade. Hoje fico vendo muita gente que resolve justificar a ausência pra ir à praia no domingo. Não justifiquem: façam. Façam acontecer por uma razão simples: não se renuncia à sua condição política, porque quem delega fica sempre subordinado em grande parte àquele ou a quem se delega alguma coisa.”
E ainda sobre isso:
“Ninguém deve delegar a sua condição pessoal, cívica, de cidadão ou cidadã, porque isso é irrenunciável. E esta renúncia não é só por você, nem pra você. É pra quem veio antes e lutou pra você poder escolher e pra quem vier depois e que vai se lembrar.”
Recado final: não podemos desanimar na luta pela democracia
A fala dela continua e ainda pode ser vista no vídeo que coloquei logo abaixo. Mas vou encerrar agora com um trecho que me pegou de jeito, porque eu mesma tenho sentido esse desânimo e essa letargia generalizados desde as eleições passadas, desde o horror que vimos em nosso país e em nossas famílias, que acamparam em frente a quartéis do Exército, e que culminou no dia 8 de janeiro.

Desde aquele janeiro, tenho me fechado em uma concha e evitado ler, falar e escrever sobre política. Os leitores mais antigos aqui do blog devem ter percebido que os posts mais politizados deram lugar cada vez mais a resenhas de livros e filmes (que muitas vezes também são politizadas, mas de um jeito mais suave).
Pois bem, fecho este post com um recado que a ministra Cármen Lúcia, única mulher entre os 11 membros atuais do Supremo Tribunal Federal, deu ao público que a assistia e que reverberou aqui em mim:
“Vejo com muita frequência pessoas dizendo ‘mas a gente desanima’. Desanima não, gente. Porque o seu desânimo é a garantia de que o mais atrevido ganha. É preciso que a gente garanta que nós não desanimamos, que nós insistimos, que nós resistimos e que nós vamos continuar democraticamente na luta pelo Brasil que nós merecemos.”
Quem dera tivéssemos mais Cármens Lúcias neste Brasil – não só no Judiciário, mas em todas as esferas de poder e de política (e, como bem lembrou ela, também nas salas de aula). Acho que, talvez assim, pudéssemos nos aproximar do Brasil democrático, lúcido e bem-humorado que nós merecemos.
***
Assista na íntegra à participação de Cármen Lúcia na Flip de 2026:
Leia outros posts sobre ministros do STF:
- Rosa Weber: o voto sobre aborto e um legado no STF
- O voto de Barroso pela descriminalização do aborto no Brasil: leia na íntegra
- Gilmar Mendes ataca Lava Jato e o Judiciário ‘mais caro do mundo’
- Corrupção da Odebrecht e o que falta na lista de Fachin
- Um censor no Supremo: ‘Kassio com K’
- Prisão de Lula foi ‘armação’ na Lava Jato; leia decisão de Toffoli na íntegra
Quer reproduzir este ou outro conteúdo do meu blog em seu site? Tudo bem!, desde que cite a fonte (texto de Cristina Moreno de Castro, publicado no blog kikacastro.com.br) e coloque um link para o post original, combinado? Se quiser reproduzir o texto em algum livro didático ou outra publicação impressa, por favor, entre em contato para combinar.
Quer receber os novos posts por email? É gratuito! Veja como é simples ASSINAR o blog! Saiba também como ANUNCIAR no blog e como CONTRIBUIR conosco! E, sempre que quiser, ENTRE EM CONTATO 😉










Deixe uma resposta