Já compartilhei aqui no blog o manual de redação antirracista para jornalistas e o guia para comunicadores sobre a violência contra a mulher. Hoje vou compartilhar outra iniciativa bem interessante, lançada na Câmara dos Deputados em agosto: o Manual de Redação do Jornalismo Indígena.

O lançamento foi divulgado pela Agência Brasil, que destacou: “Segundo a coordenadora geral da Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor), Luciene Kaxinawá, o manual é o resultado de um trabalho desenvolvido pela articulação entre mais de 40 povos indígenas.”

“No Brasil, somos 305 povos indígenas identificados, com 274 línguas2 indígenas diferentes, portanto, é fundamental compreender e reconhecer essa diversidade”, diz um trecho do manual.

Ele contém 124 páginas com várias informações interessantes sobre:

  1. Movimento Social e Povos Indígenas no Brasil (capítulo 1)
  2. A comunicação Indígena no Brasil (capítulo 2)
  3. Indígenas jornalistas e o jornalismo indígena (capítulo 3)
  4. Marcos da comunicação no Brasil (capítulo 4)
  5. Condutas: caminhos para o diálogo e respeito aos indígenas jornalistas, nossos povos, organizações e comunidades (capítulo 5)
  6. e Conceitos ultrapassados sobre povos indígenas no Brasil (capítulo 6)

Manual de redação do jornalismo indígena

A seguir, vou destacar três trechos do manual que mais me chamaram a atenção, que estão nos dois últimos capítulos.

4 gestos e expressões racistas contra povos indígenas que devem ser evitados

  1. “Gestos e sons pejorativos, como bater na boca;
  2. Expressões como “fazer a dança da chuva” ou “trocaram ouro por espelhos”;
  3. Associar as pessoas indígenas aos fenótipos “verdadeiramente indígenas”, como cabelo liso, tom de pele avermelhada, olhos puxados;
  4. Tratar o consumo como algo que é proibido aos povos indígenas, questionando identidades ao ver uma pessoa indígena utilizando determinados produtos. Por exemplo, é comum nas redes sociais comentários questionando indígenas terem iPhone, automóveis ou roupas de marca.”

5 passos fundamentais para uma cobertura ética e legal de pautas indígenas

  1. Conhecer a história, o contexto territorial e cultural de cada povo é de extrema importância e é uma prática jornalística, antes da realização do produto jornalístico;
  2. Garantir autorização da comunidade, organização indígena ou órgãos competentes;
  3. Buscar fontes representativas indígenas ao realizar entrevistas;
  4. Evitar generalizações: o respeito à especificidade de cada povo e elemento central da produção noticiosa;
  5. Revisar e avaliar para garantir que o texto não irá reforçar estereótipos negativos nem colocar em risco a integridade da fonte.

Conceitos ultrapassados sobre povos indígenas no Brasil

No capítulo 6, o manual traz uma série de verbetes com “expressões responsáveis pela desinformação sobre os povos indígenas e suas culturas“.

Acho que pode ser útil conhecer esses apontamentos tanto para quem trabalha com jornalismo e comunicação quanto para quem trabalha com educação, no ambiente escolar.

Selecionei alguns, que reproduzo a seguir.

Índio não! Indígena sim!

“Esses termos não são sinônimos e carregam significados históricos e políticos distintos. A palavra “índio”, foi usada de forma equivocada e pejorativa pelos invasores europeus. Baseando-se em seus próprios interesses e desconhecimento geográfico, acreditaram ter chegado às Índias ao realizarem contato com nossos parentes. Assim, passaram a nomear os povos originários das Américas com um termo que não os representava.

A raiz etimológica da palavra ‘índio’, vem do sânscrito, sindhu, referente ao Rio Indu, que corre pela Índia e Paquistão, países localizados no sudoeste asiático. No dicionário, ”índio” significa “natural ou habitante da Índia”. Já a palavra “índígena”, possui origem no latim indigĕna.ae, cujo significado é “aquele que é natural do lugar em que vive, gerado na terra que lhe é própria.”

Ao chamarem os povos originários das Américas de “índios”, os colonizadores impuseram um rótulo carregado de preconceitos. O termo passou a ser associado à ideia de povos primitivos, não civilizados, pagãos, indignos e sem cidadania. Essa designação reduziu uma enorme diversidade de línguas, culturas e modos de vida a uma única e estereotipada identidade: o “índio”. E essa visão distorcida ainda persiste em muitos contextos atuais.

Atualmente, a Constituição Federal brasileira e a Convenção 169 da OIT reconhecem o direito à autodeterminação dos povos indígenas, assegurando o uso correto do termo: somos “povos indígenas” — sujeitos coletivos, com culturas, línguas, sistemas de governança e formas de viver próprias.

(…) Em abordagens jornalísticas, institucionais e educativas, recomendamos priorizar o uso dos termos “indígena” ou “povos indígenas”, por serem conceitual e juridicamente adequados. O uso de “índio” deve ser evitado quando empregado de forma genérica, estereotipada ou descontextualizada. Excepcionalmente, quando pessoas indígenas utilizarem esse termo para se autodenominarem, essa escolha deve ser respeitada e devidamente contextualizada.”

Marcha de indígenas de todo país que participam do Acampamento Terra Livre - ATL 2026. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Marcha de indígenas de todo país que participam do Acampamento Terra Livre – ATL 2026. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil – 2026

Tribo

“Com o tempo, “tribo” passou a ser aplicado de forma genérica e pejorativa para classificar etnias indígenas – principalmente no continente africano e Oceania – como se fossem grupos homogêneos, atrasados ou primitivos. Essa generalização ignora a enorme diversidade de povos originários existentes no Brasil e no mundo, cada um com sua língua, história, território, organização social e cosmovisão singulares.

Até hoje, é comum escutar perguntas como: “de que tribo você é?”, evidenciando como esse termo ainda é usado para definir a identidade indígena de forma reducionista. Por isso, é fundamental substituí-lo por termos mais respeitosos e precisos, como “povo”, “etnia” (povo Tremembé, povo Kariri e etc) ou o próprio nome do povo em questão, reconhecendo a diversidade e a autodeterminação dos povos indígenas. Além disso, vale ressaltar que a categoria “povo” indica a pertença a um lugar/território, dotado de história, práticas socioculturais e línguas.”

Índios de antigamente

“A expressão que sempre vem colocada em contextos comparativos, como nas frases: “não se fazem índios como antigamente” ou “era um índio de verdade, como os índios de antigamente”, são usadas para se tentar diminuir os indígenas que se encontram em contexto urbano e que estão inseridos e participando na sociedade que os envolveu. A herança colonial criou no imaginário social a ideia de que os povos indígenas vivem em um tempo estático, e que viver na cidade, trabalhando em instituições e empresas, utilizando de ferramentas tecnológicas, invalida o modo de vida e a cultura ancestral.

A afirmação e identidade indígena não podem ser medidas por réguas coloniais, estáticas; também não necessitam de validação dos não-indígenas e herdeiros da colonização. Além disso, interagir e usar de ferramentas disponíveis a qualquer cidadão não torna uma pessoa indígena “menos indígena”, pois a adoção de ferramentas criadas em outras culturas não significa o abandono da nossa identidade.”

Silvícola

“O termo “silvícola” vem do latim silva (floresta) e cola (habitante), significando “aquele que habita a floresta”. No entanto, nem todos os povos indígenas vivem em florestas. Muitos habitam outros biomas, como o Cerrado, os Pampas e áreas costeiras, onde a vegetação é mais aberta. Há ainda comunidades indígenas vivendo em contextos urbanos. Reduzir os povos indígenas à condição de “habitantes da floresta” é ignorar a diversidade de seus modos de vida e territórios.”

Selvagem

“A palavra “selvagem”, também de origem latina (silvaticus), tinha originalmente o sentido de “do mato” ou “que vive na floresta”. Com o tempo, passou a ser usada de forma pejorativa para se referir a pessoas consideradas “não civilizadas”, sendo aplicada de forma racista aos povos indígenas.”

Bugre

“Já o termo “bugre” tem origem no francês bougre, que, na Europa medieval, era um insulto direcionado aos búlgaros hereges que resistiam à dominação católica. No Brasil, os colonizadores adotaram essa palavra para se referir aos indígenas de forma depreciativa. Até hoje, infelizmente, o termo ainda é usado em algumas regiões do Sul e Sudeste do país, carregando um forte conteúdo discriminatório e racista.

Essas três palavras têm em comum o fato de terem sido amplamente utilizadas durante o período colonial e no Império do Brasil para desumanizar os povos indígenas, tratando-os como inferiores, “atrasados” ou “selvagens”. O termo “silvícola”, inclusive, foi amplamente empregado em documentos oficiais, como os do antigo Serviço de Proteção aos Índios (SPI), como uma categoria administrativa que invisibilizava as identidades étnicas específicas.”

Descobrimento

“A expressão é comumente usada para se referir à chegada dos portugueses ao território hoje chamado Brasil. Trata-se, no entanto, de um termo ancorado em uma perspectiva eurocêntrica, segundo a qual a Europa seria o centro do “mundo desenvolvido”, protagonista da história, enquanto os demais povos e suas culturas eram consideradas atrasadas e supostamente necessitadas de serem apresentadas à “civilização”.

Dizer que o Brasil foi “descoberto” implica negar a presença, a história, o protagonismo e a autonomia dos povos indígenas, que habitavam e organizavam esse território muito antes da chegada europeia. Há evidências arqueológicas que indicam a presença dos povos originários no atual território brasileiro há pelo menos 12 mil anos, como demonstram registros encontrados em sítios arqueológicos do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI) e da Lagoa Santa (MG). Esses achados refutam a narrativa de que os colonizadores europeus “descobriram” um território vazio ou desconhecido.

O uso do termo “descobrimento”, portanto, reproduz uma lógica colonial, invisibiliza os povos originários e reforça uma leitura hierarquizada da história. Formas mais adequadas e respeitosas que consideram a história milenar dos povos originários na ocupação no Brasil são:

    • invasão europeia ou invasão portuguesa
    • início da colonização portuguesa
    • processo de colonização do Brasil
    • contato inicial entre povos indígenas e europeus
    • chegada dos europeus às terras indígenas

Essas formulações contribuem para uma narrativa histórica mais precisa, crítica e comprometida com o reconhecimento dos povos indígenas como sujeitos históricos.”

“Isolado”

“Os nossos parentes que vivem nas florestas sem contato com a sociedade envolvente não estão nesse isolamento por acaso. Em muitos casos, trata-se de uma escolha: esses povos podem até ter vivenciado contatos anteriores, mas decidiram manter-se em seus territórios com autonomia e soberania.

É dever do Estado brasileiro garantir a proteção desses povos. Por isso, a Abrinjor recomenda que se evite o uso do termo “isolados”, adotando em seu lugar a expressão “povos em isolamento voluntário”, que reflete de forma mais precisa a realidade e a decisão desses parentes. Também utilizamos a expressão “povos autônomos”, pois esses grupos constituem sociedades próprias, com línguas, organizações sociais, cosmologias e formas de vida que devem ser respeitadas.

Reconhecemos que o termo “isolado” ainda é utilizado oficialmente, como no caso da Coordenação-Geral de Povos Indígenas Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai. No entanto, reforçamos nossa recomendação pelo uso de “povos em isolamento voluntário”, por entendermos que esta é uma forma mais adequada e respeitosa de se referir a esses povos.”

Extintos

“Muitos povos indígenas, ao longo da história, foram considerados extintos – resultado da prática etnocida que buscava apagar nossos corpos e identidades para continuar o projeto colonial de invasão e usurpação dos nossos territórios. Porém, essas comunidades nunca se extinguiram, elas passaram por um processo de invisibilidade e silenciamento forçado, consequência das violências que sofreram ao longo da história. Foram declaradas extintas não porque deixaram de existir, mas porque foram empurradas à margem, negadas em sua existência. Hoje, muitos desses povos vivem processos de reafirmação identitária, emergindo em contextos de etnogênese, reconstruindo e fortalecendo suas práticas culturais e reivindicando os territórios ancestrais que lhes foram invadidos e tomados.”

Povos e comunidades tradicionais não são o mesmo que povos indígenas

“Todos os povos indígenas são povos e comunidades tradicionais, mas nem todos os povos e comunidades tradicionais são povos indígenas. Embora compartilhem traços em comum — como modos de vida próprios, relação ancestral com o território e organização sociocultural diferenciada — povos indígenas e comunidades tradicionais não são a mesma coisa e não devem ser confundidos.

Os povos indígenas são os habitantes originários das terras, antes da formação do Estado brasileiro. E, conforme o Governo Federal, Povos e Comunidades Tradicionais são grupos culturalmente diferenciados e que se reconhecem como tais. Atualmente são 28 segmentos ou grupos reconhecidos enquanto tradicionais, entre eles quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, ciganos, pescadores artesanais e também sendo comunidades indígenas ou não.

Reconhecer essa diferença é muito importante para garantir os direitos de cada grupo, respeitar suas identidades coletivas e evitar silenciamentos e apagamentos históricos.”

“Programa de índio”

“A expressão usada de maneira pejorativa para se referir ao modo de vida dos povos indígenas, que era nitidamente diferente da expectativa colonial e também católica que chegou em nossos territórios. No mundo não indígena a expressão é usada para se referir a alguma atividade nada atrativa, desorganizada, cansativa e sem graça. Nesse sentido, a expressão reforça estereótipos sobre nossas culturas e desrespeita o nosso modo de vida tradicional. Recomendamos, portanto, não usar o termo em qualquer contexto.”

Tupiniquim (enquanto sinônimo de “brasileiro”)

“A palavra “tupiniquim” tem sido utilizada no Brasil de forma genérica e pejorativa para designar algo considerado inferior, malfeito ou amador, como na expressão “versão tupiniquim” de algo estrangeiro, usada para se referir a uma suposta imitação barata ou de má qualidade.

No entanto, o termo tem origem no nome de um povo originário: os Tupinikim (com “k”), um dos primeiros a ter contato com os invasores europeus. Guerreiro e resistente, o povo Tupinikim vive até hoje, apesar das tentativas históricas de extermínio, assimilação forçada e escravização. Associar o nome desse povo à ideia de atraso ou cópia malfeita, é não apenas um erro, mas uma forma de reproduzir o racismo e a lógica colonial que buscou apagar suas identidades e modos de vida.

Respeitar os povos indígenas também passa por rever as palavras que usamos no cotidiano. Recomendamos não utilizar o termo nos contextos descritos acima.”

O presidente da Associação Indígena Tupinikim da Aldeia Irajá, Bruno Joaquim Siqueira após apresentação de abertura da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, no Sesc Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
O presidente da Associação Indígena Tupinikim da Aldeia Irajá, Bruno Joaquim Siqueira, no Sesc Aracruz (ES). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil – 2026

Cacique (uso inadequado do termo para referenciar líderes político-partidários)

“O cacicado é uma forma de organização social de alguns povos indígenas, outros são formados por um conselho de lideranças. As organizações sociais indígenas em nada se assemelham com as organizações político-partidárias para que essas posições sejam tratadas com equivalência. Por isso, a expressão cacique deve ser respeitada e evitada para associar-se a figuras político-partidárias, pois somente é possível se tornar cacique aquele indígena que na sua comunidade carrega a confiança para gerir uma comunidade e/ou aldeia.”

“Preguiçosos”: um estigma colonial

“A herança colonial ainda presente na sociedade está profundamente impregnada nos atuais sistemas de trabalho. Com a chegada dos colonizadores, foi imposto um regime exploratório que escravizou inicialmente os povos indígenas, marcando o início do sistema de escravização no Brasil. No entanto, as nossas próprias formas de organização social e cultural de trabalho, não se encaixavam às longas jornadas exploratórias e exaustivas dos não indígenas. Ademais, a exposição às doenças, que dizimou um grande número da população indígena no país, diminuiu a “produtividade” exigida pelos regimes coloniais.

A diferente noção de bem viver e de tempo para a realização do trabalho entre povos indígenas e os colonizadores gerou um estigma racista: a ideia de que “indígenas são preguiçosos”. Apesar de muitas vezes esse estereótipo aparecer de forma cômica, ele perpetua uma violência simbólica, desrespeita os modos de vida indígenas e reforça uma lógica colonial que nega outras formas de existência. Portanto, no contexto descrito acima, o termo deve ser evitado sob qualquer circunstância.”

Nativos? Prefira povos originários

“‘Nativo’ pode ser aplicado a qualquer pessoa natural de alguma localidade, portanto evitamos utilizá-la para se referir aos povos originários porque não reconhece a condição de povos originários, com história, línguas, culturas e direitos específicos. Por isso, ao se referirem aos nossos povos, é fundamental usar termos como “povos indígenas”, “povos originários” ou, quando possível, o nome de cada povo. A linguagem importa — e reconhecer os povos por sua identidade é parte do respeito, da justiça e da reparação histórica.”

Organizações Tabajara, do Casseta & Planeta
Organizações Tabajara, do Casseta & Planeta

Tabajara (uso do nome de povos para informar algo ruim)

“Na década de 80, surge o programa humorístico “Casseta e Planeta”, da Rede Globo, e em uma das suas esquetes, havia as “Organizações Tabajara”, uma empresa fictícia de produtos e serviços de má qualidade, absurdos e ineficientes.

No entanto, no Brasil há um povo indígena chamado Tabajara, que vive no Nordeste brasileiro, com cultura forte e viva. O uso relegou o nome Tabajara a coisas ruins, falsas e instrumentalizou de forma caricata o nome do povo indígena. Desde então seu nome vem sendo atrelado como sinônimo de algo ruim, falso ou de baixa qualidade.

O uso do nome de povos indígenas como metáfora para algo ruim, falso ou inferior reforça estereótipos racistas, promove o apagamento simbólico e naturaliza a desumanização desses povos.”


Existem muitos outros verbetes e também muitas outras informações úteis neste Manual de Redação do Jornalismo Indígena.

Recomendo que baixem gratuitamente e consultem na íntegra. Não deixem de compartilhar também entre outros colegas jornalistas e nas escolas ;)

Manual de redação do jornalismo indígena

 

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