‘A Favorita’: longe de ser meu favorito

Em cartaz nos cinemas: A FAVORITA (The Favourite)
Nota 7

Assisti ao filme “A Favorita” poucas horas depois de terminar de ver o belíssimo “Roma”. No filme que vi primeiro, e sobre o qual ainda vou escrever, temos fotografia em tons de cinza, muitos silêncios, muitas cenas estáticas, espaço de sobra para deixar as emoções fluírem. Já em “A Favorita”, temos excesso de tudo: cores, móveis, maquiagens, roupas. Todo aquele excesso exaustivo da monarquia inglesa, empoada e bolorenta, do início do século 18. Também há espaço para cenas estáticas, mas as emoções são duras. Ficamos com o rosto tenso durante as duas horas de filme, perplexos diante de tantas frivolidades e frugalidades que podem ter sido responsáveis por moldar a História naquele período. Há, sobretudo, um excesso de trilha sonora, uma trilha sonora incômoda, alta, irritante, às vezes repetitiva, como uma tecla de piano estragada.

Depois deste parágrafo, há quem possa pensar que detestei este filme, que concorre a 10 estatuetas do Oscar. Bom, ele está longe de ser meu favorito, e certamente não acho que mereça o prêmio de melhor filme, mas tem, sim, seus méritos. O mais interessante deles é mostrar como três mulheres – veja bem, mulheres – podem ter sido tão poderosas no ano de 1708. A rainha Ana, interpretada de forma impressionante por Olivia Colman, é retratada como uma mulher de temperamento explosivo, muito mimada e volúvel, mas também extremamente frágil e deprimida (inclusive pelo fato de ter perdido 17 bebês, que já nasciam mortos ou morriam pouco depois de nascer). A nobre Lady Sarah Churchill (parente do futuro premiê), que exercia influência sobre o governo e sobre as decisões da rainha. E Abigail Hill, que aparece para embolar a história.

Se a intenção era destacar a importância dessas mulheres, o filme consegue até com certo exagero, ao, por exemplo, ignorar completamente a figura do rei, que, segundo consta, ainda estava vivo quando Abigail apareceu, e cuja morte agravou a depressão da rainha Ana. Os outros homens, de resto, aparecem quase que como meros figurantes.

A gente sempre imagina as cortes daquela época cheias de intrigas, traições, mesquinharia etc (como, aliás, também acontece com as repúblicas). O filme retrata essa sordidez com requinte de detalhes, de forma até exaustiva. Talvez seu grande mérito seja despertar nossa curiosidade de querer saber mais sobre aquela época, sobre a rainha Ana, nem que seja lendo mais numa Wikipédia da vida.

Olivia Colman deu vida à rainha Ana e ficou até parecida fisicamente com ela.

“A Favorita” é o filme com mais indicações do ano (empatado com “Roma”), o que não quer dizer absolutamente nada. Em 2014, o filme “Trapaça” (ao qual também dei nota 7) liderava a lista, também com dez indicações – e não ganhou nada. Já em 2017, “Estrelas Além do Tempo” foi o segundo filme com mais indicações – oito! –, e também não levou nada. As três protagonistas de “A Favorita” (as outras são Emma Stone e Rachel Weisz) estão muito bem, mas acho que apenas Olivia Colman deve levar o prêmio de melhor atriz. O filme também deve emplacar com figurino e direção de arte. E acho que só. Quem viver, verá.

Assista ao trailer do filme:

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La La Land: um brinde aos que sonham!

Para ver no cinema: LA LA LAND: CANTANDO ESTAÇÕES
Nota 10

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“As pessoas amam o que as outras pessoas fazem com paixão.”

Esta frase, que aparece em um dos vários ótimos diálogos de “La La Land” me leva a crer que Damien Chazelle e seu precioso elenco e assistentes colocaram toda a paixão que tinham neste filme maravilhoso. Saí da sala do cinema sem fôlego.

“La La Land” é uma overdose de emoções em 128 minutos. Sorri, ri, chorei, fiquei arrepiada, pensei, segui os compassos das canções, praticamente dancei na poltrona, completamente esquecida de quaisquer outras pessoas sentadas ao redor. Tive uma verdadeira experiência cinematográfica, como há muito tempo não vivia.

Escrevo este texto logo depois de ver o filme, ainda em uma espécie de estupor. E ainda sem saber a quais categorias do Oscar ele será indicado, mas torcendo para que sejam todas, todas as principais, porque é o que este filme merece. Merecem Ryan Gosling e Emma Stone por suas atuações talentosas (com direito a sapatear, bailar, cantar), merece o diretor de fotografia Linus Sandgren (o mesmo de “Trapaça” e “Joy”), merece Justin Hurwitz pela linda trilha sonora e merece Damien Chazelle por este roteiro leve e maravilhoso, que ao mesmo tempo nos faz pensar tanto sobre as escolhas que tomamos e sobre as infinitas possibilidades que cabem em uma só vida.

(Parêntesis para destacar que “La La Land” bateu recorde no Globo de Ouro, levando sete prêmios. Nesta terça-feira conheceremos os indicados do Oscar 2017, finalmente! Atualização em 24/1: o filme foi indicado a 14 categorias do Oscar, u-hu!!)

Trata-se também de um filme para os amantes do cinema, um filme que presta uma homenagem a Hollywood, fazendo referências mil a clássicos como Casablanca, Cantando na Chuva, Cinderela em Paris, Os Guarda-Chuvas do Amor, Sinfonia de Paris, Meia-Noite em Paris, e tantos outros. Daí que, apesar de se passar nos dias de hoje, o longa guarde um clima de nostalgia, até pelo gênero escolhido, o bom e velho musical.

Por falar nisso, não posso deixar de destacar que boa parte da exuberância de “La La Land” se deve à sua trilha deliciosa, cheia de jazz. É um daqueles filmes a que podemos assistir de olhos fechados. O figurino é lindo, a paisagem do filme é sempre vibrante, ensolarada, colorida, é como se sempre fosse verão em Los Angeles (o que, dizem, não deixa de ser verdade). Mas é a música que dá o tom principal. A música iletrada do jazz e as belas canções de palavras doces, como nesta interpretada por Emma Stone:

“Here’s to the ones who dream / Foolish as they may seem. / Here’s to the hearts that ache. / Here’s to the mess we make.”

Um brinde, portanto, a todos esses que sonham e que bagunçam — e transformam — nossas vidas para sempre!

Ouça a trilha sonora do filme:

 

Assista ao trailer do filme:

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3º filme das férias*: as mudanças começam com um sussurro

Para ver no cinema: HISTÓRIAS CRUZADAS (The Help)

Nota 10

Anos 60, Mississippi, Estados Unidos. Ainda perduram naquele país as portas de entrada para “Colored Only”, hospitais só para negros, guetos na periferia para os negros viverem em comunidade, os bancos traseiros dos ônibus para que eles se sentem (quando não há brancos querendo se sentar onde estão) e, naquele Estado sulista, até uma Constituição racista. Ah sim, o Ku Klux Kan ainda tem força e a usa para cometer atos de violência e assassinatos, enquanto Martin Luther King desponta no contraponto.

Além disso, sobram aos negros e, especialmente, às mulheres negras, poucas oportunidades: basicamente, nascem para atuar como empregadas domésticas e babás para o resto de suas vidas. As crianças brancas são criadas principalmente por essas babás, desenvolvem um grande apego por elas, mas, quando crescem e se tornam as novas mães e patroas, não movem um só tijolo daquela muralha intransponível do mundo de castas tão consolidadas.

Skeeter, uma das protagonistas (na pele da atriz Emma Stone), volta para a terra natal, após concluir a faculdade, e encontra tudo como previsto: as amigas de infância, casadas e com filhos sendo criados pelas empregadas negras. As dondocas estão envolvidas em uma campanha para que seja obrigatória a construção de banheiros separados para os empregados negros.

“Eles têm doenças diferentes de nós”, diz a líder da turma, Hilly, interpretada pela excelente atriz Bryce Dallas Howard (protagonista de Manderlay, A Vila e A Dama na Água).

O sonho de Skeeter é ser jornalista e escrever sobre algo em que acredite. E ela passa a escrever sobre o racismo entranhado naquelas casas — a sua própria e a das amigas –, a partir do ponto de vista das próprias empregadas negras, que têm muita história para contar.

E aí conhecemos as duas melhores atrizes do filme, ambas com reais chances de ganhar o Oscar deste ano: Viola Davis (atriz principal) e Octavia Spencer (coadjuvante).

As histórias que as ouviremos contar são daquele tipo de embrulhar o estômago — mais ainda quando nos damos conta de que tudo aquilo aconteceu há tão pouco tempo atrás e deixa marcas até hoje.

Uma das coisas que particularmente me tocou nesse filme foi o papel de Skeeter. Ela bateu de frente com as melhores amigas, com o namorado e até com a própria mãe, para fazer valer uma luta pelos ideais que, àquela altura, já começavam a aflorar em vários cantos da sociedade americana, menos na pequena cidade de Jackson.

E me lembrou de um dos motivos pelos quais eu resolvi ser jornalista, muitos anos atrás: para poder ouvir as histórias impressionantes que tantos têm para contar e levá-las ao mundo. Skeeter e aquelas empregadas negras que entrevistou foram parte ativa da revolução de costumes que estava ocorrendo naquele período, com seus casos sussurrados, em segredo, e publicados, com estrondo.

Outra personagem fantástica é a interpretada por Jessica Chastain (A Árvore da Vida), que também concorre ao Oscar. Ela é branca, loira oxigenada, e traz à trama outros tipos de preconceito, também comuns até hoje.

Dos cinco filmes que vi nestas férias que hoje terminam, este trouxe as melhores histórias e as melhores atrizes (para não falar na trilha sonora da época…). Não é à toa que já ganhou ou foi indicado para tantos prêmios, apesar de ter sido dirigido por um cara em início de carreira.

É injusto não ter sido indicado também ao Oscar de melhor roteiro adaptado. A história, inspirada em fatos reais, foi adaptada de um best-seller chamado “The Help”, de Kathryn Stockett, também nascida em Jackson. Foi recusado 60 vezes antes de ser publicado — e aclamado em seguida.

Acho que todos deveriam assistir. Inclusive porque, até hoje, a sociedade brasileira é racista e o trabalho das empregadas domésticas ainda enfrenta preconceitos e abusos, inclusive legais. E não é incomum ver crianças sendo criadas por babás e, anos mais tarde, agindo como se fossem senhorinhas da escravidão. Imagino como deve ser no sul dos Estados Unidos ainda hoje…

* Na verdade, foi o quinto filme das férias, mas estou com preguiça de escrever sobre “J. Edgar” (nota 8) e “Sherlock Holmes” (nota 6).