A Forma da Água: uma fábula sobre o amor proibido

Para ver no cinema: A FORMA DA ÁGUA (The Shape of Water)
Nota 9

Um dos temas mais recorrentes no cinema e na literatura mundiais é o amor proibido. De “Romeu e Julieta” a “A Bela e a Fera”, passando por tantos outros que abordam o amor interracial, intergalático, interétnico, e assim por diante. Então não chega a ser tão original assim o amor entre a faxineira muda e o homem anfíbio, meio monstro-meio deus, preso no laboratório ultrassecreto onde ela trabalha.

É apenas por conta de alguns poucos clichês na narrativa em forma de conto de fadas sobre o amor proibido que resolvi tirar um pontinho desse filme tão belo. Porque, na hora mesmo em que eu estava assistindo, só consegui mergulhar a fundo na história, torcer, me extasiar com a beleza daquele amor, envolto em fotografia poética (que explorou tão bem a luz filtrada pela água) e em trilha sonora perfeita. No fim, sala de cinema abarrotada de gente, quase fui eu a puxar os aplausos, como só acontece ao final dos bons filmes.

A história é de um capricho tão bom de se ver, tão delicado, que fica óbvio perceber a importância desse projeto na vida do diretor mexicano Guilhermo del Toro. Continuar lendo

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‘Estrelas Além do Tempo’: barreiras sendo derrubadas, além do tempo

Para ver no cinema: ESTRELAS ALÉM DO TEMPO (Hidden Figures)
Nota 10

estrelaslamedotempo

Na década de 1960, auge da luta contra a segregação racial nos Estados Unidos, um grupo de mulheres negras quebra inúmeras barreiras dentro da NASA e se torna essencial para o sucesso dos Estados Unidos na corrida espacial que era travada com a União Soviética.

Mulheres. Negras. Em um ambiente majoritariamente masculino como é, ainda hoje, o universo da engenharia/física/matemática. Nos anos 60.

O último parágrafo foi repetitivo, eu sei, mas é que acho que valia a pena destacar com bastante ênfase esse contexto, que justifica, por si só, o entusiasmo que provoca a história contada em “Hidden Figures”. Quando o filme acabou, vi a sala de cinema explodir em palmas — algo que eu não presenciava há tempos.

O filme é sobre a história real de três mulheres geniais: Katherine G. Johnson (interpretada brilhantemente por Taraji P. Henson, que, injustamente, não foi indicada ao Oscar), Dorothy Vaughan (a sempre ótima Octavia Spencer, que levou o Oscar por “Histórias Cruzadas” e foi indicada de novo agora) e Mary Jackson (papel da cantora Janelle Monáe*).

Pergunta: se elas eram tão geniais e foram tão importantes na história do homem do espaço, por que nunca ouvimos seus nomes antes? Todos nós, superleigos, crescemos ouvindo falar de Yuri Gagarin, John Glenn, Alan Shepard, Neil Armstrong e até da cadelinha Laika. Mas nada de Katherines, Dorothys e Marys em nossos repertórios. Continuar lendo

Acertei 6 dos 14

Neste ano meu desempenho foi bem pior! Mas, como se diz, “azar no jogo…” 😀

Os acertos foram:

  1. Melhor filme: O Artista
  2. Melhor atriz: Meryl Streep
  3. Melhor atriz coadjuvante: a mais que merecida Octavia Spencer (foto acima)
  4. Melhor roteiro original: Meia-noite em Paris
  5. Melhor filme estrangeiro: A Separação
  6. Melhores efeitos visuais: A Invenção de Hugo Cabret

Mas foram bons acertos, eu achei, hehe.

Comentários:

  • Colin Firth é um dos sujeitos menos carismáticos do cinema. Por outro lado, viva Billy Crystal!
  • Não entendo mesmo como J.Edgar não concorreu por melhor ator e melhor maquiagem, pelo menos. E como Histórias Cruzadas ficou de fora de melhor roteiro adaptado.
  • Neste ano o páreo mais duro foi o das melhores atrizes. Putz, só fera!
  • Não é porque é brasileira, mas a música de Rio é bem melhor que a dos Muppets. Pena que não tinha a menor chance mesmo.
  • Embora o páreo também fosse duro, ainda acho que o Scorsese merecia levar neste ano. E, embora a Meryl seja mesmo uma das melhores atrizes de todos os tempos, ela já tinha duas estatuetas em casa e acho que este era o ano de Glenn Close, de novo injustiçada.
  • “O Artista” como melhor filme foi o prêmio mais previsível do século. E olha que nem assisti ao filme ainda.
  • Ver o Oscar, como sempre, me deixou doida pra assistir a vários filmes (fiz uma lista de sete urgentes). Claro que esse é um dos objetivos da transmissão, né 😉

3º filme das férias*: as mudanças começam com um sussurro

Para ver no cinema: HISTÓRIAS CRUZADAS (The Help)

Nota 10

Anos 60, Mississippi, Estados Unidos. Ainda perduram naquele país as portas de entrada para “Colored Only”, hospitais só para negros, guetos na periferia para os negros viverem em comunidade, os bancos traseiros dos ônibus para que eles se sentem (quando não há brancos querendo se sentar onde estão) e, naquele Estado sulista, até uma Constituição racista. Ah sim, o Ku Klux Kan ainda tem força e a usa para cometer atos de violência e assassinatos, enquanto Martin Luther King desponta no contraponto.

Além disso, sobram aos negros e, especialmente, às mulheres negras, poucas oportunidades: basicamente, nascem para atuar como empregadas domésticas e babás para o resto de suas vidas. As crianças brancas são criadas principalmente por essas babás, desenvolvem um grande apego por elas, mas, quando crescem e se tornam as novas mães e patroas, não movem um só tijolo daquela muralha intransponível do mundo de castas tão consolidadas.

Skeeter, uma das protagonistas (na pele da atriz Emma Stone), volta para a terra natal, após concluir a faculdade, e encontra tudo como previsto: as amigas de infância, casadas e com filhos sendo criados pelas empregadas negras. As dondocas estão envolvidas em uma campanha para que seja obrigatória a construção de banheiros separados para os empregados negros.

“Eles têm doenças diferentes de nós”, diz a líder da turma, Hilly, interpretada pela excelente atriz Bryce Dallas Howard (protagonista de Manderlay, A Vila e A Dama na Água).

O sonho de Skeeter é ser jornalista e escrever sobre algo em que acredite. E ela passa a escrever sobre o racismo entranhado naquelas casas — a sua própria e a das amigas –, a partir do ponto de vista das próprias empregadas negras, que têm muita história para contar.

E aí conhecemos as duas melhores atrizes do filme, ambas com reais chances de ganhar o Oscar deste ano: Viola Davis (atriz principal) e Octavia Spencer (coadjuvante).

As histórias que as ouviremos contar são daquele tipo de embrulhar o estômago — mais ainda quando nos damos conta de que tudo aquilo aconteceu há tão pouco tempo atrás e deixa marcas até hoje.

Uma das coisas que particularmente me tocou nesse filme foi o papel de Skeeter. Ela bateu de frente com as melhores amigas, com o namorado e até com a própria mãe, para fazer valer uma luta pelos ideais que, àquela altura, já começavam a aflorar em vários cantos da sociedade americana, menos na pequena cidade de Jackson.

E me lembrou de um dos motivos pelos quais eu resolvi ser jornalista, muitos anos atrás: para poder ouvir as histórias impressionantes que tantos têm para contar e levá-las ao mundo. Skeeter e aquelas empregadas negras que entrevistou foram parte ativa da revolução de costumes que estava ocorrendo naquele período, com seus casos sussurrados, em segredo, e publicados, com estrondo.

Outra personagem fantástica é a interpretada por Jessica Chastain (A Árvore da Vida), que também concorre ao Oscar. Ela é branca, loira oxigenada, e traz à trama outros tipos de preconceito, também comuns até hoje.

Dos cinco filmes que vi nestas férias que hoje terminam, este trouxe as melhores histórias e as melhores atrizes (para não falar na trilha sonora da época…). Não é à toa que já ganhou ou foi indicado para tantos prêmios, apesar de ter sido dirigido por um cara em início de carreira.

É injusto não ter sido indicado também ao Oscar de melhor roteiro adaptado. A história, inspirada em fatos reais, foi adaptada de um best-seller chamado “The Help”, de Kathryn Stockett, também nascida em Jackson. Foi recusado 60 vezes antes de ser publicado — e aclamado em seguida.

Acho que todos deveriam assistir. Inclusive porque, até hoje, a sociedade brasileira é racista e o trabalho das empregadas domésticas ainda enfrenta preconceitos e abusos, inclusive legais. E não é incomum ver crianças sendo criadas por babás e, anos mais tarde, agindo como se fossem senhorinhas da escravidão. Imagino como deve ser no sul dos Estados Unidos ainda hoje…

* Na verdade, foi o quinto filme das férias, mas estou com preguiça de escrever sobre “J. Edgar” (nota 8) e “Sherlock Holmes” (nota 6).