15 textos sobre o caos político das últimas semanas

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal "O Tempo"

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal “O Tempo”

Os acontecimentos no país andam tão turbulentos que é difícil tecer qualquer comentário ou análise sobre tudo isso. Num dia, uma revista divulga vazamento de uma delação que ainda nem havia sido homologada, implicando, ainda que sem provas, Dilma e Lula em esquema de corrupção. No dia seguinte, o ex-presidente é levado à força para depor. Logo depois, milhares vão às ruas protestar contra o governo. Aí a delação é homologada e descobrimos que ela também implica, ainda sem provas, o presidente do maior partido de oposição, Aécio Neves, em transações suspeitas. Continuar lendo

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Azuis X Verdes: uma alegoria do fanatismo no Brasil de hoje

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O penúltimo livro que li foi o excelente “Doce Quinta-feira”, de um dos meus autores favoritos do universo, o John Steinbeck. O livro é continuação de “A Rua das Ilusões Perdidas”, de que já falei aqui no blog. A história se passa alguns anos depois, então alguns dos personagens já morreram ou não moram mais na Cannery Row, a rua na qual se desenrola a história, cheia de humor e drama. Mas os mais interessantes continuam lá: Mack e os rapazes e Doc, que agora se envolve em uma história de amor. Leitura recomendadíssima.

Assim como em outros livros de Steinbeck, como o clássico “As Vinhas da Ira“, o autor gosta de intercalar as histórias dos personagens principais com outras histórias paralelas, que muitas vezes vêm cheias de reflexões importantes. Uma das mais interessantes deste livro é a história dos verdes e azuis, contada no capítulo 8, “A Grande Guerra do Roque”. Acho que a alegoria pode ser transportada para este mundo de discussões polarizadas em que vivemos hoje — não só no campo político partidário, mas também em debates sobre feminismo, por exemplo.

Por isso, resolvi transcrever tudo aqui para o blog, e sugerir a leitura e a reflexão de todos nós sobre fanatismo, ódio e intolerância (não se preocupem: como todo texto do Steinbeck, este é delicioso de ler, fácil e cheio de momentos cômicos). Destaquei alguns trechos em negrito, que me lembraram o Brasil contemporâneo. Bom proveito:

“Certa vez, durante o curso de sua história, Pacific Grove passou por dificuldades, das mais graves. Olhe, quando a cidade foi fundada muitos velhos mudaram-se para lá, pessoas de quem nunca se pensou que tivessem motivos para ali se refugiarem. Esses velhos tornaram-se rabugentos após algum tempo e começaram a interferir em tudo, causando amolações, até que um filantropista chamado Deems deu à cidade duas quadras de roque.

O roque é uma espécie complicada de croquet com aros estreitos e malhos pequenos. Joga-se do lado de fora da quadra, como no jogo de bilhar. (…)

Num esporte local deve haver competições e prêmios. Em Pacific Grove, anualmente, o time vencedor das quadras de roque ganhava uma taça. Nunca se poderia imaginar que uma coisa dessas poderia dar tanta dor de cabeça, principalmente porque a maioria dos jogadores já passava dos setenta anos. Mas deu.

Um dos times tinha o nome de “Azuis” e o outro de “Verdes”. Os velhos usavam gorrinhos e blazers listrados com as cores do time.

Bem, não se transcorreram mais do que dois anos antes que se produzisse a catástrofe. Os Azuis poderiam treinar na mesma quadra junto aos Verdes, mas não trocariam com os mesmos uma simples palavra. E então o mesmo aconteceu com as famílias dos jogadores. Ou se era família Azul ou Verde. Finalmente este sentimento alastrou-se para fora do seio familiar. As pessoas eram partidárias dos Azuis ou dos Verdes. A coisa chegou a tal ponto, que os Verdes tentavam não encorajar o matrimônio com os Azuis e vice-versa. Logo, logo, este sentimento atingiu a política, e por isso um Verde nunca pensaria em votar num Azul. Isso dividiu até a Igreja em duas partes. Os Azuis e os Verdes nunca se sentariam na mesma ala. Planejaram então construir igrejas separadas.

Naturalmente, quando começou o torneio anual as coisas esquentaram. Tocando-se nas mesmas, elas estourariam. Esses velhos tinham tanta paixão por esse jogo que não se poderia acreditar. Ora, dois octogenários poderiam até dirigir-se para o meio do mato e quando fossem procurados seriam vistos empenhados em um combate mortal. Criaram até linguagens secretas para que assim uns não compreendessem o que os outros dissessem.

Bem, as coisas esquentaram tanto e todos os sentimentos ficaram tão alterados que até o condado teve que tomar conhecimento do caso. A casa de um Azul foi incendiada e logo após um Verde foi encontrado no mato com a cabeça macetada, quase morto por um malho de roque. Um malho de roque é pequeno e pesado e pode tornar-se uma arma fatal. Os velhos começaram a carregar malhos atados ao pulso por meio de correias, como se fossem machados de guerra. Não iam a lugar algum sem o levar. Não havia crime que uns não atribuíssem aos outros, incluindo-se enormidades que eles nunca poderiam realizar, mesmo se o quisessem. Os Azuis nunca compravam nos estabelecimentos comerciais dos Verdes. Toda a cidade ficou uma bagunça.

O benfeitor original, o sr. Deems, era um velho simpático e camarada. (…) Era um homem benevolente, mas era também um filósofo. Quando viu o que havia criado ao doar as quadras de roque ao retiro de Pacific Grove entristeceu-se e mais tarde ficou horrorizado. Dizia que sabia como Deus se sentiria.

O torneio [nota da Cris: troque “torneio” por “eleição” e também funciona] começaria a 30 de julho, e os ânimos estavam tão exaltados que todos carregavam pistolas. Garotos Azuis e Verdes tiveram sérios encontros. Após alguns anos, o sr. Deems imaginou finalmente que desde que ele se sentia como Deus poderia muito bem agir como Ele. Havia violências em demasia pela cidade.

Na noite de 29 de julho, o sr. Deems enviou uma escavadora ao local fatídico. Pela manhã, onde antes estavam as quadras de roque, havia apenas um buraco profundo e desigual. Se ele tivesse tido tempo teria continuado a aplicar a solução de Deus. Teria enchido o buraco de água.

Baniram o sr. Deems para fora de Pacific Grove. Tê-lo-iam alcatroado e enchido de penas se o tivessem apanhado, mas ele estava a salvo em Monterrey, cozinhando o seu yen shi [nota do tradutor do livro: ópio da melhor qualidade] num fogareiro de óleo de amendoim.

Desde então, todos os anos, no dia 30 de julho, toda a população de Pacific Grove se aglomera e queima a efígie do sr. Deems. Este é um dia de festa. Vestem um boneco do tamanho de um adulto e dependuram-no em um pinheiro. Mais tarde o queimam. Todos desfilam por debaixo do mesmo com tochas e a pobre figura indefesa do sr. Deems se esfumaça todos os anos.”

Qualquer semelhança com algumas discussões na internet e nas ruas, com alguns protestos, com justiçamentos agressivos e com pixulecos não são mera coincidência. O que me entristece, assistindo a tudo de fora, é que a História (recente, ainda por cima!) já mostrou que o fanatismo e a polarização de ideias costumam dar em merda. E é possível que eu ainda esteja viva para ver algum sr. Deems brasileiro queimando, literalmente, na fogueira.

Agora vejam o que achei no Youtube:

Sobre o livro:

Doce.Quinta-feira.John_.Steinbeck

“Doce Quinta-Feira”
John Steinbeck, com tradução de Avelino Correia
Ed. Mérito S.A. (edição de 1957)
304 páginas
Parece que a edição está esgotada no Brasil, mas é possível achá-lo usado, a partir de R$ 3,40, em sites como Estante Virtual.

 

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Lugar de menor é na cadeia?

O jornal “O Tempo” deste domingo trouxe uma reportagem bastante completa, assinada por Johnatan Castro, sobre o debate da maioridade penal, com um diferencial que a gente quase não tem visto nessa discussão: muitos números, muitos dados.

Um deles chama a atenção: apenas 20% dos adolescentes infratores que passaram pelo sistema socioeducativo de Minas reincidiram no crime. Enquanto isso, 70% dos detentos adultos no Estado voltam a cometer crimes depois que cumprem pena.

Será que podemos dizer que a cadeia é, então, um bom lugar para os criminosos serem colocados, sejam eles adolescentes ou adultos? E que o sistema socioeducativo previsto pela ECA não está funcionando nem um pouco? (Lembrando que crianças a partir de 12 anos já podem ir parar num centro de detenção, que não é nenhuma Disney.)

Você pode ver algumas outras informações interessantes no infográfico que veio com a reportagem:

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Clique para ver em tamanho real

Se você estiver com tempo e paciência para ler apenas uma reportagem neste domingão de feriado, recomendo que seja esta.

Deixo os links para reforçar:

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Mudei de ideia sobre a redução da maioridade penal

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Por que votar em Dilma, em Aécio ou nulo

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Ainda mantendo a linha do blog, de se posicionar fora da guerra das eleições, resolvi propor um debate sóbrio, com argumentos, sobre cada candidato. Para isso, pedi a quatro pessoas amigas, que considero inteligentes e esclarecidas, que não são fanáticas ou militantes de um partido específico, para escreverem sobre seu voto. Elas justificaram sua escolha de forma objetiva, ao longo de 2.500 caracteres em cada texto. Acredito que possa ser útil aos leitores que ainda, ao contrário delas, não estão convictos de seus votos.

Pedi à jornalista Sílvia Amélia de Araújo, 33, para falar sobre seu voto em Dilma Rousseff (PT). Ela é formada pela UFMG, onde deu aulas no curso de Comunicação Social, já trabalhou na editora Abril e, há poucos meses, trocou São Paulo por Goiás Velho, capital pelo interior. “Cresci numa família bem pobre, num bairro de casas populares em Patos de Minas, só frequentei escolas públicas, só me tratei pelo SUS até começar a trabalhar e ter plano de saúde de empresa. Vi a vida de muitas pessoas a minha volta melhorar e a minha também.”

Pedi ao meu primo Ulisses Castro para escrever sobre seu voto em Aécio Neves (PSDB). Ele é arquiteto, formado pela UFMG, também tem 33 anos de idade. Especialista em Construção Civil com ênfase em Tecnologia e Gerenciamento das Construções pela Escola de Engenharia da UFMG. Sempre foi leitor voraz e sempre o considerei muito inteligente. “Leio diversos pontos de vista sem medo nenhum de mudar de ideia. Acho que só assim vou conseguir ter uma visão mais crítica e mais coerente.” Hoje mora em Ipatinga (MG).

Roberto Takata e Alice Quintão defendem, em seus textos, o voto nulo. Ele não gosta muito de falar sobre si, mas é um rosto muito conhecido nas redes sociais e na blogosfera (era chamado de “blogbudsman” pela Ana Estela, nos tempos de Novo em Folha), usando essas plataformas para divulgar ciência. É formado em Ciências Biológicas, com doutorado em genética e biologia evolutiva pelo Instituto de Biociências da USP. Tem 38 anos, e um de seus livros pode ser baixado aqui na Biblioteca do Blog. Ela tem 29 anos, é graduada em Relações Internacionais pela PUC-MG, pós-graduada em Gerenciamento de Projetos pela Fundação Dom Cabral e atua como gerente de projetos sociais de geração de trabalho e renda em uma organização do terceiro setor. E é minha amiga desde os tempos de colégio 😉

Bom, apresentações feitas, vamos aos textos!


 

Por que vou votar em Dilma

Sílvia Amélia de Araújo

“Não é pelo bolsa família. Aécio não acabaria com o programa. O bolsa família (antes taxado por opositores de “bolsa esmola”!) foi tão eficiente em melhorar a vida das pessoas mais miseráveis que seria uma loucura destruí-lo. Hoje o Brasil está longe de ser um país rico, mas não é mais um país de famintos. E quem diz isso não é o PT, é a ONU.

“Não basta dar o peixe, é preciso ensinar a pescar”, dizem eleitores de Aécio que criticam o bolsa família. Aécio mesmo fala muito em “meritocracia”, apesar de garantir a continuidade do programa assistencialista. Olha, entendo que o “ensinar a pescar” só possa se referir a melhorar o acesso à capacitação profissional. E é aí que está o maior dos motivos que me impedem de votar em um projeto do PSDB.

É abissal a diferença entre o que os governos Lula e Dilma fizeram pela educação técnica e universitária e o quase nada feito por FHC. Aécio, em sua campanha, não demonstra a intenção de fugir do estilo de seu partido nesse quesito.

Bom, a primeira pessoa da minha família a cursar ensino superior foi minha irmã. Ela se mudou sem dinheiro para BH, trabalhava numa padaria e se preparava sozinha para o vestibular. Passou em Matemática na UFMG. Queria mesmo Arquitetura, mas sabia que não era curso pra pobre.

Quando concluí o ensino médio, em uma escola pública, minha irmã, já professora, pagou um ano de um ótimo cursinho pra mim. Passei em Comunicação Social, um curso também bastante concorrido e elitizado. Por causa da ajuda de minha irmã, escolhi a profissão que eu quis e não precisei de cotas (elas nem existiam), mas as considero uma medida paliativa importantíssima. Não imagino jamais uma politica de cotas sociais e raciais sendo aprovada num governo do PSDB, que buscou restringir e não expandir e democratizar o acesso à universidade.

Na última década tive a alegria de ver histórias como a minha e da minha irmã (pobres que ingressaram no ensino superior e ascenderam à classe média) deixarem aos poucos de ser exceções raríssimas. Nos governos de Lula e Dilma mais do que dobrou o número de universitários. Da janela da minha casa, por exemplo, vejo um campus do Instituto Federal de Goiás sendo construído neste momento.

Acredito que Aécio, se eleito, vai continuar dando o peixe. Mas pode dificultar bastante a escolha e o acesso aos arpões, varas e redes de pescar, ou mesmo taxar as águas. Aécio é um cara que fala em “mérito”, mas surgiu e cresceu como político na base da “peixada”. Só usei um pouco de metáfora. Quem não quer entender, não entenderá.”


Por que vou votar em Aécio

Ulisses Castro

“A minha prioridade para as eleições de 2014 é a alternância de poder. Parece bobo, mas ela é fundamental para toda e qualquer democracia, especialmente a brasileira, tão jovem e pouco madura. A alternância é importante por dois motivos: 1) nos faz lembrar a diferença entre Estado e governo; e 2) é um mecanismo eficiente para garantir a melhoria contínua de um país e de seu povo.

Quando um partido (ou pessoa) fica muito tempo no poder, ele começa a se sentir dono do posto ocupado. Como “dono”, ele acha um absurdo que outro partido (ou pessoa) tente tomar seu lugar. Sentindo-se ameaçado, ele é capaz de qualquer coisa para se manter no poder, esquecendo o que é melhor para o país. Muitas vezes, a ética também é deixada em segundo plano. E é aí que o perigo se esconde: os casos de corrupção começam a se suceder insistentemente.

Depois de 12 anos com um mesmo partido no Palácio do Planalto, Estado e governo me parecem bem misturados. Um exemplo disso no governo PT é o uso da Petrobras como mero balcão de barganha política e financeira. Cabe citar, também, a criação de 18 ministérios (muitos deles com áreas de atuação sobrepostas), igualmente objetivando barganha política para aliados – o famoso “cabide de empregos”.

Quanto ao segundo motivo, a alternância de poder é um mecanismo de melhorias para o país na medida em que o novo governo tende a aprender com os erros do seu antecessor e tende a melhorar as iniciativas que deram certo no governo anterior. Isso aconteceu com o próprio PT quando ampliou programas de transferência de renda criados por FHC.

As conquistas sociais foram grandes no governo PT e qualquer candidato eleito agora será irresponsável se ignorá-las. Aécio já sinalizou que não fará isso ao anunciar o programa Família Brasileira e melhorias no Minha Casa Minha Vida.

Mas não basta se contentar com esses dois benefícios trazidos pela alternância de poder. É desejável que o novo governo introduza algo novo, que faça diferença. No caso de Aécio, aposto na sua gestão pública mais moderna. Isso inclui a capacitação de servidores, otimização da máquina pública, potencialização das parcerias público-privadas, adoção de incentivos por qualidade e produtividade, e outros. Isso tem um custo, mas diante da inchada e intrincada gestão atual, me parece um preço justo a pagar.

Esse ano, meu voto é no Aécio. Se ele conseguir alavancar as conquistas do PT e reorganizar a gestão pública do país, já me darei por satisfeito. E daqui a quatro anos, que venha nova mudança.”


Por que vou anular meu voto

Roberto Takata

“Antes de tudo, quero dizer que considero FHC e Lula dois dos melhores presidentes da história do Brasil. Da estabilização econômica à redistribuição de renda, o país alcançou melhoras socioeconômicas extraordinárias. Verdade que nem todos os parâmetros mostram um quadro tão animador: a violência cresceu, sujou-se a matriz energética, a qualidade da educação no ensino médio encontra-se basicamente estagnada. Mas, entre espinhos e flores, o saldo é amplamente positivo.

Avalio que o governo Dilma Rousseff foi exitoso na manutenção do baixo nível de desemprego, na administração da inflação dentro das metas, na valorização do salário mínimo; nem tanto nos níveis de crescimento econômico – o grau de controle que o governo federal poderia ter sobre isso é discutível, mas não tirado de todo. Houve boas iniciativas: Ciências sem Fronteiras, Alfabetização na Idade Certa, Mais Médicos… Porém, três grandes pecados foram cometidos. Na área ambiental (permitiu-se que a bancada ruralista fizesse alterações no Código Florestal), no trato com minorias (foi surdo aos movimentos sociais, deixou que um homófobo se apossasse da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, refugou diante dos conservadores nas campanhas contra a homofobia nas escolas e de combate ao HIV/Aids entre as comunidades LGBTT e de prostitutas, e tratou a questão indígena basicamente como criminal, novamente a favor dos grandes produtores rurais) e o comprometimento da laicidade (com influência da bancada religiosa em vários temas como a inação na política de ofertamento do aborto legal pelo SUS, na paralisia pela criminalização da homofobia…). Já não me animava, assim, a votar pela reeleição da presidenta. A gota d’água foi sua fala em encontro com integrantes da Assembleia de Deus: “O Brasil é um Estado laico, mas feliz é a nação cujo Deus é o Senhor”.

O problema é que não vejo na candidatura de Aécio Neves uma alternativa a esses fatores que me indispuseram a votar em Rousseff. Os pastores Malafaia e Everaldo estão a seu lado. Durante os governos de Neves, MG foi o estado que mais derrubou a Mata Atlântica. Seu PSDB se pôs contrário aos conselhos populares. Em seu plano está a defesa da redução da maioridade penal. (O Mensalão Mineiro, o Trensalão, o aparelhamento da Sabesp não me fazem crer que os tucanos combateriam melhor a corrupção.)

Assim, anulo meu voto para não anular minha consciência de que não podemos, em nome de avanços sociais e econômicos, deixar de olhar para algumas das minorias mais expostas.”


Por que vou anular meu voto

Alice Quintão

“Não há como negar que PSBD e PT são mais parecidos em seus programas de governo do que os militantes gostariam de reconhecer. O Aécio não vai regredir as conquistas sociais, bem como a Dilma pouco as expandiu. O governo da Dilma não é o do Lula e o do Aécio não é o do FHC.

Além disso, a economia não vai sofrer milagre, quem quer que assuma vai ter problemas. As questões de corrupção, ineficiências econômica, alianças desagradáveis e necessidade do PMDB para governar ocorrem pros dois lados. Até financiamentos são compartilhados. Esquerda e direita no Brasil somente não se confundem na militância, que por si só apenas agridem o adversário (claramente confundido política com futebol). São petralhas x coxinhas, como se fosse o bem contra o mal. De repente um odeia nordestino e o outro quer fazer do Brasil uma Venezuela. De um lado dizem que a pobreza vai aumentar se o Aécio for eleito, de outro comparam os votos na Dilma com o mapa de beneficiários do bolsa família. Ambos os lados me agridem, porque não sou parte deles. E já me cansei de ser chamada de burra/insensível/elitista/socialista.

Pessoalmente gosto menos do Aécio, por razões muito mineiras, como a censura à imprensa, piso salarial dos professores estaduais, mensalão mineiro, helicóptero do Perrela, etc. Contudo, minha rejeição ao Aécio não é o suficiente para que isso justifique meu voto na Dilma. Não voto na Dilma porque não concordo com a vista grossa feita com relação aos problemas do partido e do próprio governo. No governo da Dilma o problema é sempre da crise, nunca de como se gere ela (se é que ela existe).

Odeio absolutamente essa campanha de destruir o outro. E por isso repudio completamente esse 2º turno. Conseguiram me dar mais certeza ainda do meu voto.

Eu voto nulo porque quero acreditar que o alto número de abstenções, brancos e nulos, além de um direito democrático, indica a crise de representatividade e a necessidade de reforma política que temos. Não estou aceitando apenas a maioria. A maioria vai predominar de qualquer maneira. “Falo mais” ao votar nulo do que o faria escolhendo um lado “porque sim”. Meu nulo é insatisfação com as opções que tenho.

Fico muito mais preocupada com nossos representantes no legislativo (fato agora já consumado) do que se teremos Dilma ou Aécio. Aliás, acredito que se ¼ dessa militância fosse usada disseminando propostas de candidatos a deputados, teríamos hoje representantes melhores. Um sonho? Menos ideologia e mais discussão real de planos de governo.”


Nesta próxima semana, publicarei meu texto sobre meu voto 🙂

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Todos os debates têm o mesmo script

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Foto: João Godinho / O Tempo

Não sei se a culpa é do engessamento das fórmulas propostas pelas emissoras de tevê ou se é do roteiro traçado pelos marqueteiros, também rígido, dentro de um figurino, com a construção clara de um personagem, mas o fato é que, sempre que vejo um debate, sinto uma sensação de dejá vù nauseante.

Por isso, a partir de agora, não vou mais chamá-los de debates. Ninguém debate nada ali, de verdade. Todos repetem um script decorado previamente, que tentam encaixar nos temas que presumem que serão abordados, de um jeito ou de outro. Vou chamar de filmete.

E, também neste post, não vou tratar dos filmetes entre candidatos à presidência. A existência de uma caricatura como Levy Fidelix entre os debatedores tira os filmetes do rumo fleumático, mas tampouco gera debate: vira zona. E este post será sobre os filmetes, não sobre as zonas.

Por isso, meu foco é o encontro de candidatos ao governo de Minas. Assisti a todos os “debates” entre Pimentel, Pimenta, Tarcísio e Fidelis — a bem da verdade, trabalhei cobrindo a maioria deles –, então posso dizer que praticamente os decorei. E não foi nada difícil: são todos idênticos.

Por isso, se você não pôde assistir a nenhum deles, não se preocupe. Segue, abaixo, o roteiro que escrevi, resumindo tudo o que foi dito (repetido) em todos eles, sem exceção. Espero que seja didático e útil a todos. Atenção: não se tratam de aspas literais, mas de uma sátira baseada em memórias reais:

BLOCO 1 – Cada um pergunta a quem quiser, sobre o tema que quiser.

— A quem você quer perguntar, Pimenta?

— A Pimentel. Pimentel, por que você disse que foi o melhor prefeito de Beagá? De onde tirou isso? (Observação do script: esta pergunta tem que ser repetida 10 vezes).

— Não cabe nesse debate esse tipo de juízo de valor sobre os candidatos. Estamos aqui para apresentar propostas. Etc.

— Pimentel mente, mente, mente, descaradamente. (Observação do script: usar tom exaltado) Etc.

(Observação do script de Pimentel: usar tom conciliador e meio desdenhoso)

(…)

— A quem você quer perguntar, Pimentel?

(Observação do script: a qualquer um, menos Pimenta)

BLOCO 2 – A pessoa escolhe o tema sobre o qual quer falar.

— Fidelis, qual o seu tema?

— Vamos falar de moradia. Hoje a política habitacional do Estado é levar policiais com cassetetes e bombas para desocupar ocupações legítimas. Qual a sua proposta para combater o déficit habitacional, candidato X?

Candidato X (pode ser qualquer um) tem que responder encaixando, de alguma forma, a importância do direito à propriedade.

(…)

Candidato X pergunta a Fidelis sobre segurança.

— Eu acho que temos que mudar o conceito de que segurança pública se faz com repressão. Segurança pública precisa ser garantia de direitos, não de repressão. Precisamos de polícia cidadã e desmilitarizada, não de mais armas  nas ruas. Etc.

Candidato X contesta e diz que precisa equipar, sim, as polícias. Etc.

(…)

— Tarcísio, qual o seu tema?

— Mineração. Meu tema predileto. É preciso aumentar os royalties da mineração. Todas as nossas riquezas estão sendo roubadas do Estado. Etc.

(Observação do script: Ou então falar dos altos impostos no Estado, que expulsam as empresas para outros Estados, tirando empregos de Minas. Etc.)

QUALQUER BLOCO / CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Pimentel culpa governo do Estado, que “em 12 anos não fez nada”. Diz que governo Dilma fez dever de casa e ganhou até estrelinha. E que Dilma é ótima, votem nela.

Pimenta culpa governo federal, que “cobra juros de agiota”, e diz que governo do Estado fez dever de casa e ganhou até estrelinha. Aproveita pra dizer que Pimentel mente, mente etc. E que Aécio é ótimo, votem nele.

Tarcísio diz que eleitor precisa votar numa terceira via, ver a história de quem nunca se envolveu em corrupção, diz que fez grandes maravilhas por Juiz de Fora. E que Marina Silva é ótima, votem nela.

Fidélis diz que ninguém presta, são todos iguais, o sujo falando do mal lavado, e seu partido não aceita financiamento privado, que é a base da corrupção. E que a frente de esquerda é ótima, votem nela para deputados.

E assim acaba o filmete, todos nós suando em bicas e exaustos, enquanto os candidatos devem se juntar para uma rodada de chopp.

Hoje à noite será o último “debate” presidencial na TV. Quem de vocês, caros leitores, pode escrever um script-resumão para eu colocar depois aqui no blog? 😉

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