15 textos sobre o caos político das últimas semanas

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal "O Tempo"

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal “O Tempo”

Os acontecimentos no país andam tão turbulentos que é difícil tecer qualquer comentário ou análise sobre tudo isso. Num dia, uma revista divulga vazamento de uma delação que ainda nem havia sido homologada, implicando, ainda que sem provas, Dilma e Lula em esquema de corrupção. No dia seguinte, o ex-presidente é levado à força para depor. Logo depois, milhares vão às ruas protestar contra o governo. Aí a delação é homologada e descobrimos que ela também implica, ainda sem provas, o presidente do maior partido de oposição, Aécio Neves, em transações suspeitas. Continuar lendo

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“Algo muito grave vai acontecer”

caos

Como prometi no post de ontem, segue um trecho do discurso “Como comecei a escrever”, que Gabriel García Márquez fez em 1970, que contém, dentro de si, um romance inteiro em forma do seguinte conto:

Imaginem um povoado muito pequeno, onde existe uma senhora velha que tem dois filhos, um de dezessete e uma filha menor, de catorze…

A senhora está servindo o café da manhã para os filhos, e nota-se nela uma expressão de muita preocupação. Os filhos perguntam o que ela tem, ela responde: “Não sei, mas amanheci com o pensamento de que alguma coisa muito grave vai acontecer neste povoado.”

Os dois riem dela, dizem que são pressentimentos de velha e coisas desse tipo. O filho resolve ir jogar bilhar, e no momento em que vai fazer uma carambola simplíssima, o adversário diz a ele: “Aposto um peso como você não consegue”.

Todos riem, ele ri, mas tenta e de fato não consegue. Paga um peso e ouve a pergunta: “O que será que aconteceu, se era uma carambola tão simples?”

Diz: “É verdade, mas fiquei preocupado com o que minha mãe me disse esta manhã, sobre alguma coisa grave que vai acontecer neste povoado.”

Todos riem dele, e o que ganhou o peso volta para casa, onde está sua mãe com uma prima. Feliz com seu peso, diz: “Ganhei esse peso de Fulano, e da maneira mais simples, porque ele é um bobão.”

“Bobão por quê?”

Responde: “Ora, porque não conseguiu fazer uma carambola simplíssima, estorvado de preocupação porque a mãe dele amanheceu hoje com a ideia de que alguma coisa muito grave vai acontecer neste povoado.”

A mãe diz a ele: “Não deboche dos pressentimentos dos velhos, porque às vezes acontecem.”

A prima ouve tudo isso e sai para comprar carne. Ela diz ao açougueiro: “Quero meio quilo de carne, e no momento em que ele está cortando, ela acrescenta: “Ou melhor, me dê logo um quilo, porque estão dizendo por aí que alguma coisa grave vai acontecer, e é melhor estar preparada.”

O açougueiro entrega a carne e quando chega outra senhora para comprar meio quilo, diz a ela:”É melhor levar um quilo porque o pessoal está dizendo que alguma coisa grave vai acontecer, e está todo mundo se preparando, comprando coisas.”

A velha então compra dois quilos de carne, e meia hora depois o açougueiro vendeu todo seu estoque de carne. E o rumor de que “alguma coisa muito grave vai acontecer” foi se espalhando.

Até que chega o momento em que todo mundo no povoado está esperando que alguma coisa aconteça. Às duas da tarde faz o calor de sempre. Alguém diz: “Vocês estão percebendo o calor que está fazendo?”

“Mas aqui sempre fez muito calor.”

“Mesmo assim” – diz alguém – “Nunca fez tanto calor a esta hora.”

Na praça deserta, baixa de repente um passarinho, e alguém comenta: “Tem um passarinho na praça.” E todo mundo vai, espantado, ver o passarinho.

“Mas, meus senhores, sempre houve passarinhos que pousam na praça.”

“Pois é, mas nunca a essa hora.”

Chega um momento de tamanha tensão para os habitantes do povoado, que todos estão desesperados para ir embora mas ninguém tem coragem.

“Eu sim, sou muito macho”, grita um deles, e vai embora. Pega seus móveis, seus filhos, seus animais, mete tudo numa carreta e atravessa a rua principal.

Dezenas de pessoas reagem da mesma maneira: “Se ele se atreve a ir embora, nós também vamos”, e começam a desmontar o povoado.

Um dos últimos a abandonar o povoado diz: “Que não venha uma desgraça cair sobre o que sobra da nossa casa”, e então incendeia a casa e outros fazem o mesmo.

E o pânico se instala no povoado. No meio dele, vai a senhora que teve o presságio, gritando: “Eu falei que alguma coisa muito grave ia acontecer e disseram que eu estava louca.”

***

A parábola serve para nossa economia moderna, para muitas de nossas notícias, para muitas igrejas, para muitos pessimistas da saúde, para muitos hipocondríacos, enfim, dá pano pra tanto tipo de reflexão, que nem dá pra começar a pensar…

Cidade vazia

Um dia absolutamente normal, sem nada de espetacular, em São Paulo. (Foto: CMC)

Diz o último Censo que São Paulo tem 11.244.369 filhos-de-deus espremidos.

Daí que a frota de carros é de 7.000.000 e um filho-de-deus não acha por bem dar carona ao outro, então vai um enfileiradinho atrás do outro, em ruas malplanejadas ou seguindo aqueles GPS’s burros que, em vez de serem úteis para criar alternativas nas ruazinhas dos bairros, enviam as pessoas para os mesmos corredores engarrafados de sempre.

Tem também que o transporte público é cheio de defeitos, as linhas do metrô ainda são muito restritas, especialmente nas periferias, e os bairros nobres protestam contra elas como o diabo contra a cruz, vai entender por quê.

(E os bairros não nobres deixam de protestar contra sua ausência, o que agrava o quadro caótico.)

Yes, São Paulo é caos. E olha que só abordei os fatores excesso de gente (sem contar os que moram em cidades próximas e flutuam nesta Terra Cinza ao longo do dia, por diversas razões), trânsito ruim e transporte público ruim. Deixa a enchente, a violência e afins para outro dia, que post bom é post curto (“como” este).

Mas eis que chega dezembro. 5 de dezembro, primeira segunda-feira do mês. E saio do busão interestadual, após as costumeiras oito horas e meia de olhos obstinada e inutilmente fechados. E ando por uma rodoviária estranhamento vazia. E sigo em direção à estação de metrô Tietê e vejo, com estes olhos que a terra há de comer, para trazer mais um clichê ao texto, apenas cinco — juro, CINCO! — pessoas na fila para carregar o cartão do metrô. Na fila para comprar bilhete, que é sempre maior naquela estação, onde chegam mais pessoas do Brasil inteiro a todo momento, não devia ter mais que 20.

Atualizo os seres que só frequentam aeroportos na vida: ali costumam ter, respectivamente, 50 e 80 pessoas nas filas, com boa vontade de minha contagem.

Continuo até o trem e, para minha surpresa, embora fossem 7h da manhã, horário de pico, na linha azul a caminho da Luz e da Sé, consigo entrar de primeira e RESPIRAR lá dentro! Dá até mesmo — pasmem! — para segurar naquelas traves de apoio. E elas FORAM necessárias, porque, se eu caísse, era possível que eu REALMENTE caísse em alguém, e não ficasse entalada praticamente flutuando entre os corpos como já me aconteceu várias vezes naquele horário e naquela estação.

Pego a linha vermelha na Sé, normalmente a mais cheia de todas, e um passageiro SE OFERECE para segurar minha sacola. Entrego a ele, mas ACABA NÃO PRECISANDO, porque na estação seguinte vaga um lugar ao seu lado e eu mesma passo a segurar meus pertences. No Anhangabaú!

Saio do metrô em direção à minha casa e a rua em que moro, que normalmente é barulhenta, movimentadíssima, cheia de carros e pessoas, está deserta. Sem pessoas, sem carros. Silenciosa, às 7h40.

A avenida São João, perto do trabalho, está sem trânsito às 11h. Na volta do trabalho, às 20h30, idem. Tudo menos movimentado, portanto mais silencioso, portanto mais escuro (é o psicológico, minha gente. Tipo eu escutando pior quando tiro os óculos). Mas mais sossegado. Talvez mais perigoso, porque gente é vida, mas também mais pacífico. Mais lento. Mais interiorano. Menos atribulado.

Ok, as crianças entraram de férias, os universitários de um modo geral também, até os alunos da USP devem ter parado. Muitos pais de crianças tiram férias juntos, para viajar com os filhos, sem contar as férias coletivas de empresas interessantes por aí. Mas que é mágico, é. 2 de dezembro: o inferno de sempre, um acidente que agrava tudo muito mais. 5 de dezembro: tcharam!, São Paulo se esvazia, não é mais aquela capital caótica e pulsante de mais de 11 milhões, é a cidadezinha da quermesse na igreja, do cara gritando “Curíntia!” na rua, provavelmente um incrédulo bêbado, do metrô cheio mas não insuportável, das ruas vazias até dos camelôs que vendem DVD pirata a R$ 2 de um filme que nem saiu de cartaz no cinema ainda (fora o que nem estreou).

É a cidade vazia, e ela é tão boa que dezembro merecia um ano inteiro!

São Paulo sem Caos

A única coisa boa de ficar na Terra Cinza, a trabalho, em pleno Carnaval, é descobrir como seria esta cidade se tivesse seu caos organizado. Sem trânsito. Vazia. Silenciosa. Com um aspecto seguro. Com as pessoas desapressadas. Sem buzinas. Com o tempo correndo mais devagar. Com as sessões de cinema cheias. Com os parques e praças cheios. As pessoas mais bem-humoradas.