
Diz o último Censo que São Paulo tem 11.244.369 filhos-de-deus espremidos.
Daí que a frota de carros é de 7.000.000 e um filho-de-deus não acha por bem dar carona ao outro, então vai um enfileiradinho atrás do outro, em ruas malplanejadas ou seguindo aqueles GPS’s burros que, em vez de serem úteis para criar alternativas nas ruazinhas dos bairros, enviam as pessoas para os mesmos corredores engarrafados de sempre.
Tem também que o transporte público é cheio de defeitos, as linhas do metrô ainda são muito restritas, especialmente nas periferias, e os bairros nobres protestam contra elas como o diabo contra a cruz, vai entender por quê.
(E os bairros não nobres deixam de protestar contra sua ausência, o que agrava o quadro caótico.)
Yes, São Paulo é caos. E olha que só abordei os fatores excesso de gente (sem contar os que moram em cidades próximas e flutuam nesta Terra Cinza ao longo do dia, por diversas razões), trânsito ruim e transporte público ruim. Deixa a enchente, a violência e afins para outro dia, que post bom é post curto (“como” este).
Mas eis que chega dezembro. 5 de dezembro, primeira segunda-feira do mês. E saio do busão interestadual, após as costumeiras oito horas e meia de olhos obstinada e inutilmente fechados. E ando por uma rodoviária estranhamento vazia. E sigo em direção à estação de metrô Tietê e vejo, com estes olhos que a terra há de comer, para trazer mais um clichê ao texto, apenas cinco — juro, CINCO! — pessoas na fila para carregar o cartão do metrô. Na fila para comprar bilhete, que é sempre maior naquela estação, onde chegam mais pessoas do Brasil inteiro a todo momento, não devia ter mais que 20.
Atualizo os seres que só frequentam aeroportos na vida: ali costumam ter, respectivamente, 50 e 80 pessoas nas filas, com boa vontade de minha contagem.
Continuo até o trem e, para minha surpresa, embora fossem 7h da manhã, horário de pico, na linha azul a caminho da Luz e da Sé, consigo entrar de primeira e RESPIRAR lá dentro! Dá até mesmo — pasmem! — para segurar naquelas traves de apoio. E elas FORAM necessárias, porque, se eu caísse, era possível que eu REALMENTE caísse em alguém, e não ficasse entalada praticamente flutuando entre os corpos como já me aconteceu várias vezes naquele horário e naquela estação.
Pego a linha vermelha na Sé, normalmente a mais cheia de todas, e um passageiro SE OFERECE para segurar minha sacola. Entrego a ele, mas ACABA NÃO PRECISANDO, porque na estação seguinte vaga um lugar ao seu lado e eu mesma passo a segurar meus pertences. No Anhangabaú!
Saio do metrô em direção à minha casa e a rua em que moro, que normalmente é barulhenta, movimentadíssima, cheia de carros e pessoas, está deserta. Sem pessoas, sem carros. Silenciosa, às 7h40.
A avenida São João, perto do trabalho, está sem trânsito às 11h. Na volta do trabalho, às 20h30, idem. Tudo menos movimentado, portanto mais silencioso, portanto mais escuro (é o psicológico, minha gente. Tipo eu escutando pior quando tiro os óculos). Mas mais sossegado. Talvez mais perigoso, porque gente é vida, mas também mais pacífico. Mais lento. Mais interiorano. Menos atribulado.
Ok, as crianças entraram de férias, os universitários de um modo geral também, até os alunos da USP devem ter parado. Muitos pais de crianças tiram férias juntos, para viajar com os filhos, sem contar as férias coletivas de empresas interessantes por aí. Mas que é mágico, é. 2 de dezembro: o inferno de sempre, um acidente que agrava tudo muito mais. 5 de dezembro: tcharam!, São Paulo se esvazia, não é mais aquela capital caótica e pulsante de mais de 11 milhões, é a cidadezinha da quermesse na igreja, do cara gritando “Curíntia!” na rua, provavelmente um incrédulo bêbado, do metrô cheio mas não insuportável, das ruas vazias até dos camelôs que vendem DVD pirata a R$ 2 de um filme que nem saiu de cartaz no cinema ainda (fora o que nem estreou).
É a cidade vazia, e ela é tão boa que dezembro merecia um ano inteiro!





Deixe uma resposta