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O caso do delegado torturador

Texto de José de Souza Castro:

Leio no jornal “O Tempo” que um delegado da Polícia Civil de Minas Gerais acusado de torturar presos para arrancar confissões vai cumprir pena em cela individual na Penitenciária Dutra Ladeira. Ele teme ser assassinado se ficar junto de outros presos.

É o delegado Marco Túlio Fadel Andrade, que trabalhou em Igarapé, São Joaquim de Bicas, Betim e Santa Bárbara. Da primeira vez que ele foi condenado – pela juíza Andréa Fonseca, de São Joaquim de Bicas –, começou a cumprir a pena no Deoesp (antigo Dops), em Belo Horizonte, de onde fugiu pela porta da frente.

Antes disso, conforme noticiamos em 2004, no “Hoje em Dia” – eu era então editor do caderno Minas – o preso telefonara para o então corregedor da Justiça no Tribunal de Justiça de Minas Gerais, seu ex-professor e atual desembargador. O grampo feito pela Polícia Federal, a que tivemos acesso, mostrou o corregedor dando sugestões ao ex-aluno de como se defender.

E Fadel tinha muito do que se defender. Segundo o repórter Raphael Ramos, de “O Tempo”, nos 13 anos em que atuou na Polícia Civil, o delegado respondeu a 35 processos administrativos na corregedoria, por abuso de autoridade, ameaças, torturas e tentativas de homicídio, além de sete processos nas comarcas de Santa Bárbara, quatro e Igarapé e 11 em Betim, pelos mesmos crimes.

Algo que jamais teria afetado a carreira de um inspetor Maigret, que tinha outros métodos de investigação de crimes…

Depois de ficar por um tempo desaparecido, Fadel foi esquecido pela imprensa. A versão agora, de acordo com o jornal, é que ele não fugiu. Saiu do Deoesp depois de conseguir liberdade provisória. São os mistérios da justiça (e da imprensa, por que não?)

Da pena original de 17 anos e quatro meses de prisão, imposta em maio de 2004 pela corajosa juíza Andrea Fonseca (será que um dia ela será desembargadora?) por tortura de cinco presos e por falsidade ideológica – continuo lendo no “O Tempo” – Fadel já conseguiu por duas vezes redução da pena no Tribunal de Justiça. Da última, passou para 12 anos e cinco meses. Os policiais que como ele foram também condenados pela juíza já estavam livres, enquanto Fadel cumpria o resto de sua pena na Penitenciária Dutra Ladeira, em regime semiaberto.

E ficaria assim, se não houvesse sido condenado novamente, num dos outros processos a que Fadel responde. O jornal não conseguiu descobrir qual processo e nem a pena a que foi sentenciado desta vez. Mas já fez muito, pois foi o único a dar a notícia. Um furo, como o nosso no “Hoje em Dia”, em 2004. “O Tempo” descobriu também que Fadel e seu advogado procuraram o juiz da Vara de Execuções Criminais de Belo Horizonte, Guilherme de Azevedo Passos, que concordou que ele não fosse transferido para São Joaquim de Bicas, para cumprir ali a pena em regime fechado. Seu argumento era forte: podia ser assassinado por um preso torturado por ele, quando delegado.    

O importante nessa história é que a polícia mineira ficou livre de um torturador. Mas não acho que se livrou ainda, totalmente, dos métodos de investigação de Fadel. Nossos policiais precisam ler Georges Simenon, para aprenderem com Maigret como encontrar criminosos sem o uso da violência e da tortura.

Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

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