Um dia de cão

Quando fazia só um mês e meio que eu estava na Terra Cinza, ainda longe de estar adaptada com as agruras e felicidades de morar sozinha e com as bizarrices de São Paulo, tive uma daquelas noites em que se pensa: é hoje.

Era uma quinta à noite e percebi que estava com taquicardia. Já tive taquicardia umas poucas vezes na vida, tipo depois de tomar 500 ml de café, mas era coisa de segundos ou pouquíssimos minutos, e logo passava. Minha saúde é boa, meus exames são sempre OK e não tenho problemas cardíacos.

Mas aquela taquicardia foi ficando mais rápida e não passava. E o que se faz nessas horas? Toma água? Um comprimido? Fica de ponta-cabeça? Simplesmente desconheço soluções mágicas. Como era 23h, eu não quis ligar para meus pais em Beagá, para não preocupá-los.

Liguei a TV e fui assistir a um seriado, para tentar distrair e relaxar. O seriado acabou, uma hora depois, e meu coração continuava disparado. Pensei: é hoje que eu morro. E imagina que horror é morrer sozinha, num quarto de hotel! Àquela altura eu já estava em pânico, chorando horrores, e, apesar da vergonha, bati na porta do quarto contíguo, da minha amiga Paty (então em processo de formação da amizade), pelo menos pra alguém saber que eu estava mal.

Não sei como ela me acalmou e acabei dormindo. No dia seguinte, já normal, fui ao médico ver o que aconteceu. Ele disse que foi o componente (fenilefrina) do remédio pra gripe que eu tinha tomado, Trimedal, que faz isso com algumas pessoas. Era um remédio “tiro e queda”, daqueles que curam a gripe em seis horas. Avisei a todos os conhecidos para ficarem espertos com ele.

***

Quando fiquei gripada de novo no começo deste ano, com garganta inchada etc, fui ao médico, depois de quatro horas na fila durante uma noite chuvosa de domingo, e avisei que não podia tomar nada com fenilefrina.

Ele me indicou um remédio com fenilefrina, como fui descobrir na farmácia.

Em outra ocasião, em que minha garganta estava soltando pus e ardendo feito o diabo, o médico que me atendeu (sempre horas de fila depois, e olha que é plano de saúde) disse que era uma faringite virótica e me receitou um paracetamol da vida.

A garganta piorou, piorou, virou um monstro, e tive que voltar a outro médico, que viu que era uma amigdalite causada por bactéria e me receitou o antibiótico que eu já deveria estar tomando dias antes.

Enfim, por aí vocês devem ter uma ideia de como tenho resistência a sair na chuva, numa quinta-feira cinza, enfrentar quatro horas de fila no hospital, após gastar grana com táxi, e correr o risco de cair nas mãos de um médico picareta, que vai me ferrar ainda mais a vida.

***

Dito isso tudo, ontem eu estava doente. Aliás, desde anteontem, mas ontem foi um dia de cão.

Tosse igual de um velho de 100 anos asmático, dor de cabeça, dor nas costas, corpo todo moído, como se tivesse sido atropelada por um caminhão, coriza interminável, febrinha (chegou só a 38,1ºC), diarreia (provavelmente por causa do próprio xarope).

Com ajuda da minha mãe, que manja muito mais de medicina que esses médicos picaretas, eu me automediquei com as munições que tinha disponíveis de gripes anteriores: xarope fitoterápico pra tosse, um troço pra gargarejar que ajuda a desinflamar a garganta, paracetamol + cafeína, um troço pra pingar no nariz, litros e litros de água.

Passei o dia de repouso,

(vi três filmes:

  1. “Água para Elefante”, que é legal, embora o livro seja mais;
  2. “Larry Crowe”, uma bosta;
  3. “A Árvore da Vida”, um parto lindo, mas um parto. E eu esperava tão mais dele…!),

embora tenha trabalhado por umas três horas escrevendo a especial, cobrando resposta de fonte e de órgão público, tentando achar alguém pra fazer uma análise etc, e sofri as lamúrias de uma gripe em recuperação:

  • uma caixa com 150 lenços duplos de papel gastos + papel higiênico à vontade;
  • nariz estourado;
  • suadeira durante a noite, acordando toda hora;
  • carência absoluta (o que me fez ligar pra mãe, pra um amigo, pedir à Cida de Cotidiano pra me ligar, postar no Facebook — ouvir de alguém que é “drama” –, postar aqui etc).

Por fim, acordei hoje bem melhor, com 36,8ºC de temperatura, nariz mais sossegado e tosses mais esporádicas. Ou seja, deu mais certo do que na última vez que fui ao médico, embora tenha sido um dia de cão.

***

Pra finalizar, uma descoberta (alerta: é nojenta):

Comprei o termômetro ontem, na farmácia (a única hora em que saí de casa).

Na bula, dizia que a temperatura pode ser medida pelas axilas, boca ou reto.

Reto!

Fiquei surpresa, eu não sabia que existiam pessoas que mediam a temperatura pelo reto. Por que fariam isso? Aliás, pra que fazer pela boca também, se é bem mais higiênico pôr debaixo do braço e pronto?

Não consegui evitar um pensamento nojento: alguém pegando emprestado meu termômetro pra medir pelo reto. Segundo pensamento nojento: alguém pegando emprestado pra medir pela boca depois 😯

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22 comentários sobre “Um dia de cão

  1. “Why do I need to check a rectal temperature?

    The rectal temperature is the most exact way to know if your child has a fever. A temperature taken in the rectum is the closest way to finding the body’s true temperature. Rectal temperatures run higher than those taken in the mouth or armpit (axilla) because the rectum is warmer. The normal rectal temperature of a child is between 97° and 100° F (36.0 to 37.7° C).”

    Fonte: http://www.drugs.com/cg/taking-a-rectal-temperature.html

    🙂

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  2. Hahahahaha imagina só! Você nunca teve cachorro? Os veterinários medem a temperatura dos cachorros pelo reto! Eu sempre achei isso uma judiação né, mas fazer oq…
    O que é o alerta nojento??? Aí vai uma dica! Meu irmão era assim que nem você, até que um belo dia ele encontrou um médico muito bom – japonês que briga com os pacientes… Ele receitou um pote de uma vitamina que chama levedo de cerveja (compra isso e toma, é barato e faz MUITO bem) e própolis! Fim, você pinga o própolis na água e faz gargarejo (quando estiver ruim né) e toma o levedo todos os dia, daí a vida muda e você não terá mais dias como esse… 🙂

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  3. Hahahahahahahahahahahahaha!
    Desculpe a gargalhada, Cris, mas esse foi o seu melhor post (leia-se: da “categoria mais engraçada”), embora a história tenha sido meio trágica.
    E se cuide mais, mulher! Please!
    Beijo! 🙂

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  4. Cris,

    quando for assim me liga e eu vou te socorrer. Sério! sou boa pra cuidar de gente gripada e talicoisa, são anos morando sozinha e algumas vez com gripe bem forte, entã aprendi alguns truquinhos com meu irmão e a minha tia que sempre me acudiram nessas horas.

    Eu sabia isso de medir a febre no reto, apesar de sempre sempre medir na axila mesmo, hehehe

    bjos

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  5. É fácil entender. O principal é ter uma boa medida da temperatura corporal central – da parte mais interna do corpo. Isso porque a temperatura cai do centro para a periferia: é intuitivo, já que na parte mais externa estamos perdendo calor para o ambiente o tempo todo (a menos, claro, q estejamos em um ambiente com temperatura maior do que a de nosso corpo).

    Não dá pra enfiar um termômetro caseiro, digamos, bem no meio do coração. A parte externa mais próxima da região central é o trato digestório – que tem duas entradas. (Há sondas que são engolidas para registrar, entre outras medidas, a temperatura corporal à medida que passa pelo tubo digestório.) O reto faz um contato menos ostensivo com o ambiente externo do que a boca. A boca está sempre sendo aberta e ainda tem a influência das vias aéreas, que acabam resfriando a cavidade oral. No caso de bebês, a temperatura axilar é cerca de 30% mais baixa do que a temperatura retal, sendo, assim, recomendado este último procedimento para a medição da temperatura corporal – risco de perfuração é considera suficientemente baixo – [1], felizmente, para os bebês, há também termômetros óticos e a temperatura do ouvido é tão acurada quanto [2].

    A parte complicada é que a temperatura corporal apresenta oscilação normal em um corpo sadio [3]. E, ao menos em ratos, sabe-se que a introdução de um termômetro anal afeta a temperatura central pelo menos cerca de uma hora [4].

    [1] http://adc.highwire.org/content/67/1/122.full.pdf
    [2] http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1046/j.1471-6712.2002.00069.x/full
    [3] http://epub.uni-regensburg.de/19866/1/zulley2.pdf
    [4] http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/0031938477901226

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      • Pro caso de bebês não. E mesmo adultos qdo se necessita de medida mais precisa. 0,2oC de imprecisão já são 10% de 2oC que vai da temperatura normal a uma febre perigosa, se somar com 30% piora o caso.

        Não dá pra só somar mais 30% porque isso é uma média com bastante variação.

        []s,

        Roberto Takata

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      • Ok, cientista, mas como 90% dos brasileiros medem temperatura pelas axilas, então ou a variação não é tão relevante assim pra se ter uma base, ou a gente considera temperaturas diferentes como parâmetro para o que é febre alta ou baixa, em relação aos que medem pelo reto… O importante é que as axilas COMUNICAM. bjs

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      • Se o que os brasileiros fazem fosse uma boa indicação do que deveria ser feito em saúde…

        Mas o caso que estou discutindo são mais os bebês. Neles é mais crítica a medição adequada da temperatura central. No caso de crianças e adultos, temos uma manifestação verbal e postural de febre. Bebês não podem dizer objetivamente se estão com dor de cabeça – eles têm o equivalente à janelinha das versões anteriores do Windows de “erro geral do sistema”, que não detalha qual exatamente o problema: o choro.

        Em adultos, se a pessoa sente que está com dor de cabeça e o termômetro na axila indica uma temperatura alta, o erro tende a ser menor – já que temos essa outra fonte de informação a complementar a leitura do termômetro. Se indica uma temperatura normal, mais tarde a pessoa vai voltar a medir a temperatura com a persistência da dor de cabeça, calafrio e outros sintomas associados à febre.

        []s,

        Roberto Takata

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  6. Cristina,
    Você escreve muito bem. Trata com seriedade os assuntos sérios e faz leves como pássaros os pesados como os do dia de cão. Lamento sua gripe e aconselho-a a seguir as mezinhas de sua mãe. Sobre a tomada de temperatura corporal, os veterinários usam constantemente a via anal por ser mais exata, por facilidade e por impossibilidade de outro meio. Os termômetros são apropriados. Para grandes e médios animais uns trazem até um anteparo, para não serem tragados.

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