Voltei a São Paulo só pra espiar e confirmar: a Terra continua Cinza! :)

Adepta de ônibus como sou, sempre acho que avião parece máquina futurística de teletransporte: você sai de uma Beagá com céu maravilhoso, sem nenhuma nuvenzinha, sol nascendo alaranjado num monte de montanhas verdes, sobe para um céu sobre nuvens em flocos, com solão forte invadindo as janelinhas e espantando o sono do fim de madrugada e, de repente, ouve a voz metálica do comandante:

— Vamos aterrissar em São Paulo em instantes. A cidade está com uma leve garoa e temperatura de 13 graus.

Uát de-fâc?!?

É isso mesmo, não há engano, São Paulo não nos deixa enganar. Lá fui eu, resvalando nos prédios perigosamente altos ao redor de Congonhas, pra descer numa cidade gelada, com céu de concreto, sem nenhuma luz, cinza até não poder mais. Recepção malvada da cidade que me abrigou por quase cinco anos, aos exatos nove meses e um dia desde a última vez que tive que vir para cá (!). E continua engarrafada também, mesmo no mês “das férias”.

Pra não acharem que é conversa de mineiro, tirei até uma foto pra registrar o momento:

Foto0331E olha que nessa hora já tinha “aberto” um bocado, por volta de 11h30. Imaginem às 7h…

Assim, satisfeita pela constatação de que a Terra Cinza continua cinza, volto para minha Beagá do céu azul em… 18 minutos 😉

(Pena que foi tão corrido que nem deu tempo de matar as saudades dos amigos. Quem sabe um dia eu volte pra passear.)

***

P.S. Não podia deixar de registrar também a energia e o ânimo de todas aquelas pessoas às 5h15 DA MADRUGADA! Eu custando a me manter de pé, descabeladíssima, bocejando duas vezes a cada dez segundos, e olhando espantada pra todas aquelas moças, de salto altíssimo e maquiagem impecável, finalizando gráficos-pizza no laptop ultrafino. Definitivamente, não nasci pra ser executiva. E todos caras de gelzinho no cabelo e terno, conversando enfaticamente sobre metas da empresa e planilhas a fazer. E o senhor empertigado à minha frente, olhando um slide de fotos em seu notebook, de pessoas musculosas e… peladonas! Nessa hora eu ri alto 😀

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Por que aqui é Terra Cinza

Acordei hoje, no meio de um sonho bizarro que ficou sem fim, com aquele despertador cuja música já não aguento mais ouvir — e estava tudo escuro. Uai, horário de verão? Nada, já estamos em abril, lembrei. E já eram 7h10. Fui à janela da sala, onde bate mais luz. Eca, a mesma coisa. Aquela camada de cinza (sim, como se a cor fosse algo sólido) intransponível no céu de São Paulo, que não deixa ver nem contorno de nuvem nem raio de sol nem gota de chuva nem qualquer nuance que nos faça perceber um infinito ao redor. É como se houvesse um cenário de “O Show de Truman”, e não um cosmo. Se puser uma escadaria bem alta, ou subir num balão, toc-toc-toc com a mão na estrutura de concreto.

Bom, para não acharem que estou mentindo, ou que é meu exagero de sempre, seguem as fotos que eu fiz:

Hoje, às 7h15 DA MANHÃ! Fotos: CMC.

Depois me perguntam por que apelidei a Terra Cinza assim. Preciso responder? 😛

Nos primeiros meses aqui, quando eu ainda me sentia perdida, solitária e, muitas vezes, melancólica, esse tempo típico surreal quase me deprimiu.

O que posso dizer aos demais forasteiros desacostumados a céus tão opressivos é: acalmem-se, esse céu também passa! E também pode produzir, após uma noite de céu LARANJA (juro que existe), coisas assim:

Então, sejamos otimistas! Até a Terra Cinza tem salvação. E, depois de um dia cinza, sempre pode vir outro surpreendente (ou um mais cinza ainda, que traz junto a vantagem de reforçar nossa piada ;)).

quatro anos

Ontem fiz quatro anos de Terra Cinza.

A cidade me homenageou à altura: acordei com o maior solão e logo depois o tempo fechou, tudo ficou cinza e começou a chover-chover-chover por várias horas.

Hoje é dia de fazer um balanço na vida. Se até o Econ 24 horas perto de casa, que nunca fecha, nem no Carnaval, fecha uma vez por ano para balanço, a gente também tem que fazer isso de vez em quando, né?

Estou fechada para balanço hoje.

Pensando nos prós e contras de ter mudado de cidade e Estado, ficado longe da família e de muitos dos amigos, tudo em nome da profissão que abracei para a vida.

Pensando no que progredi nessa profissão durante o período, já que venho me dedicando mais a ela que a todos os outros aspectos da minha vida — então se espera que a energia gasta nesse lado da vida tenha servido para algo.

Pensando também nos novos amigos que conheci aqui e mesmo nos amores, todos tão complicados.

E nos encargos, nas despesas, nas contas bancárias, nas rugas e nos fios de cabelo branco.

Completarei meu balanço no dia 27 deste mês, quando farei outro tipo de aniversário.

E aí iniciarei também outro tipo de balanço, aquele voltado para o futuro, fincado em planos e sonhos e expectativas novas.

Por enquanto, não tenho conclusões, ainda é cedo para elas. A única certeza que tenho é que foi bom mudar há quatro anos, pelo simples fato de mudar, e que talvez, em breve, seja hora de mudar de novo algum aspecto da minha vida. Mas ainda não sei qual, nem como, nem quando.

Enfim, estou falando demais para alguém fechada para balanço, né? Bom domingo para vocês.

Cidade vazia

Um dia absolutamente normal, sem nada de espetacular, em São Paulo. (Foto: CMC)

Diz o último Censo que São Paulo tem 11.244.369 filhos-de-deus espremidos.

Daí que a frota de carros é de 7.000.000 e um filho-de-deus não acha por bem dar carona ao outro, então vai um enfileiradinho atrás do outro, em ruas malplanejadas ou seguindo aqueles GPS’s burros que, em vez de serem úteis para criar alternativas nas ruazinhas dos bairros, enviam as pessoas para os mesmos corredores engarrafados de sempre.

Tem também que o transporte público é cheio de defeitos, as linhas do metrô ainda são muito restritas, especialmente nas periferias, e os bairros nobres protestam contra elas como o diabo contra a cruz, vai entender por quê.

(E os bairros não nobres deixam de protestar contra sua ausência, o que agrava o quadro caótico.)

Yes, São Paulo é caos. E olha que só abordei os fatores excesso de gente (sem contar os que moram em cidades próximas e flutuam nesta Terra Cinza ao longo do dia, por diversas razões), trânsito ruim e transporte público ruim. Deixa a enchente, a violência e afins para outro dia, que post bom é post curto (“como” este).

Mas eis que chega dezembro. 5 de dezembro, primeira segunda-feira do mês. E saio do busão interestadual, após as costumeiras oito horas e meia de olhos obstinada e inutilmente fechados. E ando por uma rodoviária estranhamento vazia. E sigo em direção à estação de metrô Tietê e vejo, com estes olhos que a terra há de comer, para trazer mais um clichê ao texto, apenas cinco — juro, CINCO! — pessoas na fila para carregar o cartão do metrô. Na fila para comprar bilhete, que é sempre maior naquela estação, onde chegam mais pessoas do Brasil inteiro a todo momento, não devia ter mais que 20.

Atualizo os seres que só frequentam aeroportos na vida: ali costumam ter, respectivamente, 50 e 80 pessoas nas filas, com boa vontade de minha contagem.

Continuo até o trem e, para minha surpresa, embora fossem 7h da manhã, horário de pico, na linha azul a caminho da Luz e da Sé, consigo entrar de primeira e RESPIRAR lá dentro! Dá até mesmo — pasmem! — para segurar naquelas traves de apoio. E elas FORAM necessárias, porque, se eu caísse, era possível que eu REALMENTE caísse em alguém, e não ficasse entalada praticamente flutuando entre os corpos como já me aconteceu várias vezes naquele horário e naquela estação.

Pego a linha vermelha na Sé, normalmente a mais cheia de todas, e um passageiro SE OFERECE para segurar minha sacola. Entrego a ele, mas ACABA NÃO PRECISANDO, porque na estação seguinte vaga um lugar ao seu lado e eu mesma passo a segurar meus pertences. No Anhangabaú!

Saio do metrô em direção à minha casa e a rua em que moro, que normalmente é barulhenta, movimentadíssima, cheia de carros e pessoas, está deserta. Sem pessoas, sem carros. Silenciosa, às 7h40.

A avenida São João, perto do trabalho, está sem trânsito às 11h. Na volta do trabalho, às 20h30, idem. Tudo menos movimentado, portanto mais silencioso, portanto mais escuro (é o psicológico, minha gente. Tipo eu escutando pior quando tiro os óculos). Mas mais sossegado. Talvez mais perigoso, porque gente é vida, mas também mais pacífico. Mais lento. Mais interiorano. Menos atribulado.

Ok, as crianças entraram de férias, os universitários de um modo geral também, até os alunos da USP devem ter parado. Muitos pais de crianças tiram férias juntos, para viajar com os filhos, sem contar as férias coletivas de empresas interessantes por aí. Mas que é mágico, é. 2 de dezembro: o inferno de sempre, um acidente que agrava tudo muito mais. 5 de dezembro: tcharam!, São Paulo se esvazia, não é mais aquela capital caótica e pulsante de mais de 11 milhões, é a cidadezinha da quermesse na igreja, do cara gritando “Curíntia!” na rua, provavelmente um incrédulo bêbado, do metrô cheio mas não insuportável, das ruas vazias até dos camelôs que vendem DVD pirata a R$ 2 de um filme que nem saiu de cartaz no cinema ainda (fora o que nem estreou).

É a cidade vazia, e ela é tão boa que dezembro merecia um ano inteiro!