Mais um ano de vida. E a mesma alma de anos atrás

À esquerda, eu aos 26 anos, em 2011. À direita, eu deitada na rede, olhando a paisagem, neste ano de 2019. Diferente, mas igual.

Sempre que chega meu aniversário, gosto de fazer um balanço da vida. Ver os rumos que estou tomando, as curvas ou atalhos que peguei no caminho, os destinos aos quais pretendo chegar algum dia. Desde que este blog foi criado, já fiz sete balanços do tipo (só pulei o de 2016, no auge da licença-maternidade, quando o blog teve que ficar meio abandonado).

Hoje chego aos 34 anos com um certo desânimo, mais ou menos inédito na minha vida. Provavelmente agravado pelo momento político absurdo, surreal, que estamos vivendo, com verdadeiros patetas nas três esferas do poder, fazendo pataquadas diárias, ou várias por dia – e depois tendo que recuar, numa rotina que deprime até os mais otimistas.

Depois de muitos percalços na minha vida, estou com o campo profissional e pessoal finalmente serenos. Ufa. Mas não dá pra dizer que eu esteja “de bem com a vida”. Como em outras ocasiões, resolvi fazer o que faço melhor: arregacei as mangas e tomei providências. Decidi cuidar mais de mim. No início do mês, fiz um check-up na saúde (está tudo bem), me inscrevi em uma atividade física, voltei a fazer reeducação alimentar. Comecei a cortar a internet no momentos de lazer, a trabalhar menos fora do expediente de trabalho. Agora estou batalhando para trabalhar minha cuca, para que se estresse menos, se deprima menos, se abale menos. Quero ser mais zen. Tão pilhada como sou? É tudo um caminho a se perseguir, enfim.

Falei, falei e não falei nada. É que o balanço deste ano está bem menos inspirado que nos outros sete anos. No ano passado, refleti sobre as tantas mudanças pelas quais passei na última década e sobre como é bom mudar para que, no processo, possamos jogar fora os caquinhos guardados inutilmente.

Em 2017, contei a história de uma velhinha que muito me inspirou, e sobre como eu queria poder ser eternamente jovem, como ela, esteja eu em qual idade estiver.

Em 2015, refleti sobre o suposto “divisor de águas” que é chegar aos 30 anos de idade: “Não sou a correspondente internacional, autora de best-sellers, viajante do mundo inteiro, como eu previa que ia ser, quando eu tinha apenas uns 15 anos. Mas aprendi a ser feliz com menos, a curtir minha própria companhia, a gostar de ficar em casa numa sexta à noite, só conversando com meu amor, a gostar de passar uma tarde de domingo com a família, em vez de num churrascão. São coisas prosaicas que, chegados os 30 anos, me parecem o maior dos luxos. E outros sonhos vão surgindo no lugar dos antigos.”

Em 2014, meu texto foi cheio de gratidão pelo caminho percorrido até os 29 anos e, principalmente, pelas pessoas (ou “poeiras cósmicas”) que cruzaram minha jornada.

Em 2013, eu parecia estar explodindo de felicidade. Certa de que todas as mudanças que tinha enfrentado antes tinham culminado no melhor dos mundos.

Em 2012, escrevi, após um período de grande melancolia que eu vivia naquele começo de ano: “A tristeza é útil, para nos fazer reconhecer a alegria. Assim como a morte existe para destacar e distinguir a vida.”

E em 2011, fiz um poema que tentava traduzir minha vida até aquele momento, aos 26 anos. Engraçado que, de todos esses balanços, é esse mais antigo, de quase uma década atrás, o que mais me trouxe identificação neste 2019. É por isso que decidi, nesta noite pouco inspirada, reproduzir o poema daquele ano aqui. Só tomando a liberdade de atualizar a conta de dias, horas e minutos vividos e de destacar meus trechos favoritos:

“Ri, sorri
(fotogenicamente)
Chorei
(de acordar com duas bolas nos olhos)
Quis morrer
(e fiz poema, instead)
Quis chegar aos cem
(como a Maude e a Luísa)
Fiz o bem
(ou o tentei, sempre)
Perdi amigos
(que viraram em outras curvas)
Dispensei outros
(que mostraram não valer o título)
Conquistei pessoas
(mas me conquistaram em cheio)
Amei
(sofri)
Trabalhei e venho trabalhando
(aventuras ou percalços)
Envelheci:

Já tenho cabelos brancos,
barriga de chopp,
linhas de rugas na testa,
olheiras,
mas ainda assim me dão a idade certa
(e há os que suspeitam que minha idade mental seja de criança).

A impressão que tenho é que nunca vou viver o bastante
para o tanto que quero fazer e tentar
(e, ao mesmo tempo, me canso de tanta vida.)

À beira dos 12.410 dias
Mais de 290 mil horas
E de 17 milhões de minutos
Que interferem, como estrelas,
em outras constelações paralelas.
De forma luminosa, pois sim,
mas absolutamente insignificante no todo.

A vida é isso:
um amontoado de insignificâncias,
de encontros e desencontros,
de apontamentos e desapontamentos,
de convivências certas e erradas,
de fugas e momentos de audácia,
de liberdade sempre contida
e felicidade sempre instável.

Seguirei sendo esse ser fundamentalmente bipolar
um poço de defeitos feios
mas de intenções sinceramente boas
(como as que povoam o inferno.)

Que o deus do bom humor me guie,
porque é só dele que precisamos
para que a dura vida dure sendo leve.”

É engraçado pensar que minha vida, hoje, nada tem a ver com aquela da Cris de 2011, de 26 anos, morando sozinha em São Paulo, vivendo exclusivamente para trabalhar, sem marido, sem filho, “foca” na profissão. E que, ao mesmo tempo, tenhamos tanto ainda em comum. Ou seja: a gente cresce, amadurece, vira uma profissional experiente, se casa, publica livros, vira mãe, muda de cidade, muda mil vezes de lar, muda mil vezes de emprego, leva calotes, contrai dívidas, engorda, emagrece, engorda de novo, muda de hábitos, volta a hábitos antigos, lê dezenas de livros, assiste a centenas de filmes. Mas, ainda assim, nossa alma dá um jeito de continuar a mesma.

Torço para que minha alma ainda conserve a alegria e entusiasmo da Cris menina, hoje e para sempre! Como dizia meu pai, “Peter Pana”. Lutando bravamente para transformar este mundo insano numa Terra do Nunca decente.

Leia também:

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Meu dia

vento

Há um ano eu tinha que ficar fazendo balanços para entender onde tinha ido parar, o que estava fazendo e o que queria fazer da minha vida.

Alternava momentos de melancolia com os de satisfação profissional.

Agora, tantos vôos depois, com muito vento na cara, cheguei num ponto em que está tudo, subitamente, resolvido. E não há mais espaços para melancolia, só para alegrias. E a satisfação não é só profissional, mas também pessoal.

Cheguei aos 28. E daqui vou adiante. Com a certeza de ter tomado grandes decisões e ter conquistado tudo o que eu sempre quis, nos momentos certos 🙂

***

PS. Reza a lenda que hoje vai ter uma tal de “monster moon”, que o mundo vai acabar, tragédias vão acontecer etc. Eu tou é esperando este céu abrir pra admirar a lua que foi reservada pro meu dia 😀 Beagá resolveu dar uma de “terra cinza” hoje, para me trazer lembranças de tudo o que vivi 😉

Balanço vazio

Ando altamente desinspirada ultimamente.

Para não repetir ESTE post, nem ter que apelar para os arquivos de poemas velhos ou críticas empoeiradas, nem — pior — para o selinho do Garfield, deixo vocês aqui com a dica de entrarem no meu outro blog, o Novo em Folha, este sim cheio de posts já agendados para os próximos dias. A dica vale para os jornalistas que me lêem, mas também para qualquer um interessado em jornalismo, especialmente os estudantes. Tem muita coisa boa por ali e me dá bastante trabalho pra atualizar, sempre nas horas vagas, já em casa.

Quando esses dias de tela em branco passarem, prometo compensá-los com posts tão bons quanto os que meu pai nos deixa aqui de presente, de vez em quando. Ou tipo as crônicas e contos que já arrisquei escrever, como aquela do Washington. Ou aquelas divagações de quando meu cérebro está muito fértil, agitadíssimo, rendendo pequenas pensatas sobre a insônia ou o excesso de culpas no mundo.

Até este belo dia que nunca mais vem, peço desculpas pelo balanço vazio, representando o fantasma que ocupa minha alma — esta longe, avoada, fora de rumo e de prumo. Sem ideias.

vinte-e-sete-anosei :)

Acabou o período de fechamento pra balanço!

Apesar dos momentos de melancolia e seriedade que vez por outra me cutucam, não dá pra escapar da conclusão de que, de um modo geral, sou muito feliz.

A tristeza é útil, para nos fazer reconhecer a alegria.

Assim como a morte existe para destacar e distinguir a vida.

Acho que, ao longo desses 27 anos, já tive alguns sobressaltos e sufocos, mas foi com eles que aprendi a ter um mínimo de serenidade apesar da minha natureza ansiosa e hiperativa, que aprendi a contemplar melhor a natureza, em vez de apenas fotografá-la, aprendi a perdoar mais os erros dos outros, em vez de brigar o tempo inteiro (embora haja os perdões mais demorados que outros), aprendi a escolher melhor os amores e me desprender mais rápido dos que não me valorizam, tenho aprendido a gerar valor para meu trabalho e já consegui aprender a administrar minha vida, incluindo todas as contas para pagar e perrengues para lidar. Consegui aprender, até mesmo, a gostar de São Paulo, embora Minas seja incomparavelmente melhor 😀

A vida ficou bem mais veloz de uns tempos para cá: praticamente não vi os últimos cinco anos passarem. Não vi quando um fio de cabelo branco surgiu bem em cima da minha testa. Nem quando a pele embaixo dos meus olhos ficou mais enrugadinha na hora do sorriso. E quando criei uma rotina, totalmente nova, quatro anos atrás.

Os emails semanais, que mando para a família e os amigos de Beagá desde que me mudei, deixaram de trazer mil dilemas e dúvidas e passaram, cada vez mais frequentemente, a trazer apenas o arroz-com-feijão da semana.

Vejo minha vida, até agora, como um filme de muitos lances emocionantes, que eu gostaria de assistir de novo. Estou feliz com esse balanço. Novas aventuras me aguardam até o capítulo final 😀

quatro anos

Ontem fiz quatro anos de Terra Cinza.

A cidade me homenageou à altura: acordei com o maior solão e logo depois o tempo fechou, tudo ficou cinza e começou a chover-chover-chover por várias horas.

Hoje é dia de fazer um balanço na vida. Se até o Econ 24 horas perto de casa, que nunca fecha, nem no Carnaval, fecha uma vez por ano para balanço, a gente também tem que fazer isso de vez em quando, né?

Estou fechada para balanço hoje.

Pensando nos prós e contras de ter mudado de cidade e Estado, ficado longe da família e de muitos dos amigos, tudo em nome da profissão que abracei para a vida.

Pensando no que progredi nessa profissão durante o período, já que venho me dedicando mais a ela que a todos os outros aspectos da minha vida — então se espera que a energia gasta nesse lado da vida tenha servido para algo.

Pensando também nos novos amigos que conheci aqui e mesmo nos amores, todos tão complicados.

E nos encargos, nas despesas, nas contas bancárias, nas rugas e nos fios de cabelo branco.

Completarei meu balanço no dia 27 deste mês, quando farei outro tipo de aniversário.

E aí iniciarei também outro tipo de balanço, aquele voltado para o futuro, fincado em planos e sonhos e expectativas novas.

Por enquanto, não tenho conclusões, ainda é cedo para elas. A única certeza que tenho é que foi bom mudar há quatro anos, pelo simples fato de mudar, e que talvez, em breve, seja hora de mudar de novo algum aspecto da minha vida. Mas ainda não sei qual, nem como, nem quando.

Enfim, estou falando demais para alguém fechada para balanço, né? Bom domingo para vocês.