De que adianta fazer 30 anos?

De que adianta fazer 30 anos?

Uma idade tão forte, redondinha, com cara de divisor de águas, será que divide algo mesmo?

Ouvi amigas dizendo que, ao fazer 30, finalmente se sentiram “adultas”. O peso da vida adulta chegou para elas com as três décadas.

Para mim, não. Eu já me sentia adulta desde que deixei de me sentir criança. Sempre penso que pulei a adolescência: fui criança até o mááááximo que pude (e ainda tento ser, sempre que posso) e aí já comecei a querer ser adulta, com todo o trabalho, a independência e a responsabilidade e disciplina inerentes.

Comecei a ser adulta quando conquistei meu primeiro emprego fixo, aos 19?

Ou quando fui morar sozinha, em outro Estado, tendo que fazer malabarismo para pagar as contas e administrar a casa, a partir dos 22?

Só sei que foi bem antes dos 30.

Então, de que adianta fazer 30? Que diferença esta idade faz?

Aos 30, já não sou mais tão “foca” na carreira e profissão, mas tampouco sou tão calejada a ponto de ter perdido o encanto e o entusiasmo pelo jornalismo (quase sempre).

Aos 30, não sou tão “verde” no amor, mas tampouco tão experiente a ponto de ter perdido a taquicardia e os sonhos e a alegria do casamento.

Aos 30, não sou tão dependente dos amigos e posso me afastar daqueles que já não me fazem sentir muito bem, mas tampouco perdi a graça e o prazer de compartilhar bons momentos com a turma que conhece tão bem meus defeitos e ainda sabe rir deles.

Aos 30, não tenho a mínima preocupação com a opinião alheia (nunca tive, mas agora isso se tornou uma característica quase irreversível da minha personalidade). Não ligo de parecer meio doida — nem no ambiente de trabalho –, não ligo de não agradar a todos, não tenho nenhuma pretensão de ser unanimidade.

Estou menos preocupada em vencer todos os debates, em ter sempre os melhores argumentos e, a cada dia que passa, mais encerro uma discussão com um “você tem razão, obrigada.” Rio-me de quem se leva a sério demais, de quem fica bravinho só porque pensa diferente de mim. Hahahahaha, sério mesmo?!

“Caguei”, tenho que responder, às vezes. (Ainda falo palavrão, mas são palavrões mais inocentes, ou engraçados.)

Aos 30, reforço o sentimento de que é bom fazer os outros rirem. O bom humor é uma arma e uma solução para quase tudo, e, aos 30, é minha meta diária alcançá-lo. (Que a rabugice só me chegue aos 90!)

Continuo pouco vaidosa, como sempre fui, sem usar maquiagem, sem neura com “boa forma”, sem nunca ter pintado os cabelos e mesclando estilos de roupas que nada têm a ver com a moda corrente, mas comecei a me esforçar para passar protetor solar antes de sair de casa. Isso é bem 30 anos, né? 😉

Não sou a correspondente internacional, autora de best-sellers, viajante do mundo inteiro, como eu previa que ia ser, quando eu tinha apenas uns 15 anos. Mas aprendi a ser feliz com menos, a curtir minha própria companhia, a gostar de ficar em casa numa sexta à noite, só conversando com meu amor, a gostar de passar uma tarde de domingo com a família, em vez de num churrascão. São IMG_20150326_115915coisas prosaicas que, chegados os 30 anos, me parecem o maior dos luxos. E outros sonhos vão surgindo no lugar dos antigos.

De que adianta fazer 30 anos, então?

Não é um divisor de águas de nada na minha vida, mas funciona como o pipocar de fogos no Réveillon: me faz pensar em todos os 10.957 dias vividos — 10 mil dos quais totalmente esquecidos — e constatar que a vida é um negócio muito esquisito, mas que sorte e privilégio que eu nasci! E que não morri aos 27, como meus ídolos do rock e do blues e alguns da literatura. Aos 30, quero viver outros 30, e depois outros 30, e morrer bem velhinha (mas menos enrugadinha, por causa do protetor solar) 😀

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O leite derramou, a memória limpou

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Imagine uma história contada por homem de mais de 100 anos, sofrendo de demência, no leito de um hospital.

Essa história vai depender única e exclusivamente da instável memória deste senhor, que eu apresento desde já como um dos vários Eulálio dentro de uma linhagem familiar que remonta à nobreza européia, passa pelo Senado na Velha República e chega até o tráfico nos dias mais recentes.

Imagine como é frágil a memória de Eulálio, formada por caquinhos amontoados, quanto mais antigos, mais nítidos. Há dias em que ele consegue lembrar até dos fios de cabelo do coque de sua mãe. Noutros, confunde sonho e realidade e pensa ainda estar na primeira infância.

É assim o “Leite Derramado” de Chico Buarque, genial desde a sacada que ele teve sobre como contar a história, sobre seu formato em caquinhos titubeantes, em caquinhos de realidade mesclados a ficção, que caberá a nós, leitores construir minimamente.

Assim como Eulálio tem grandes lapsos de lembranças concretas, ele de repente cai em desvarios. Por isso, o próprio formato do livro é cheio de suspense, da primeira à última linha. Ficamos nos perguntado o tempo todo: será verdade? Foi assim mesmo? Ou foi como ele lembrou da outra vez? O que vai acontecer? O que aconteceu DE VERDADE?

E é nesse emaranhado de fios de memória soltos que Eulálio nos apresenta o amor juvenil de sua vida, sua mulher, Matilde. Ela será a verdadeira protagonista da história. Tentaremos entender, durante todas aquelas 195 páginas, o que aconteceu com Matilde, segundo lembra Eulálio, décadas depois. O que, naquelas lembranças vagas de um Eulálio senil, é verdadeiro. Ou o que ele queria que fosse verdade. Ou como ele recontou a história para si mesmo, para suportar a dor. Como todos nós fazemos, com nossas próprias memórias: reconstruímos a todo momento, inventando a verdade que mais nos convém, para tornar a vida menos dolorosa. Até que essa verdade acaba se tornando verdade mesmo — porque, se lembro, eu vivi aquilo (como diz a frase deste blog).

Eulálio lembra, lembra muito. De muita coisa. E muitas outras permanecerão um mistério para nós, meros ouvintes, pacientes de expectativa de que ele retome a lucidez para voltar àquele caso do ponto onde parou.

Nunca imaginei que eu fosse gostar de um romance de Chico Buarque. Este foi o primeiro que li, e, na verdade, adorei. Ele constrói um Eulálio tão verossímil que parece que estamos vislumbrando nossos futuros — ou os passados de nossos antepassados. Sofremos com a ingenuidade dele, com a tristeza dele, com o que ele sofre. E penso: terá sido ele esta pessoa tão boa de coração, tão pura em seu amor, ou este é só o retrato que sua memória construiu para mantê-lo vivo por mais de 100 anos? Terá a verdade de Matilde sido muito mais cruel?

Jamais saberemos.

“Leite Derramado”
Chico Buarque
Companhia das Letras
195 páginas
De R$ 23 a R$ 39