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Fiz 37 anos, e agora? (Ou e daí?) Reflexões, balanços e o sossego

Eu a poucos dias de fazer meus 37 anos. Quando resolvi pintar meu cabelo pela primeira vez e já escolhi uma cor vermelha pra mudar um tiquim.

 

Trinta e sete anos.

Quando criei este blog, eu tinha 12 a menos.

Morava em outro estado, estava ainda em meu segundo emprego (depois dele já passei por outros seis), ainda não tinha me casado, nem virado mãe, ainda me mudaria de casa mais umas cinco vezes.

Era bem mais sonhadora e cheia de energia que sou hoje.

Antes eu queria agito, revolução. Hoje não me canso de dizer que o que mais quero é paz, sossego.

Por outro lado, sou inquieta demais. Vira e mexe me dá vontade de jogar coisas já consolidadas para o alto e fazer coisas novas. Começar uma profissão do zero, por exemplo.

Antes eu achava o jornalismo a coisa mais importante do mundo. Achava uma ferramenta de transformação. Hoje acho que o jornalismo se submeteu ao marketing de conteúdo, aos trending topics, ao SEO, e suas transformações (quando existem) não alcançam nem um centésimo do que já alcançaram. Os virais duram poucas horas e quase sempre são abobrinha.

Já faz uns bons anos que eu me sinto extremamente cansada. Desde quando burnout ainda não tinha virado um diagnóstico conhecido de todos. O dia parece ter encurtado, são coisas demais para fazer em apenas 24 horas.

Por outro lado, parece que quanto mais cansada estou mais arranjo forças para fazer mais e mais. No trabalho, em casa, na criação do Luiz. Não consigo ficar parada muito tempo. “À toa” não consta no meu vocabulário.

Eu deveria saber ficar mais tempo à toa.

Eu deveria almoçar mais devagar, mastigando várias vezes antes de engolir.

Eu deveria me cansar menos, me cuidar mais.

É tanta coisa que a gente sempre está se dizendo que deveria fazer, já repararam? E o tanto que nos preocupamos com tudo? Sobretudo com os outros?

Passei boa parte dos meus 37 anos querendo agradar todo mundo. Acho que minha fase mais genuína foi lá pelos 17 anos, quando eu acreditava na filosofia do “carpe diem”, e “ligava o foda-se” para as amolações da vida. Depois a gente entra no rolo compressor e se enquadra.

Nunca fiz a revolução que eu disse, há vinte anos, que faria. Nunca fiz o livro de Prêmio Nobel. Nunca fui cobrir uma guerra (e olha que oportunidades não faltaram, né?). Minhas ambições se estreitaram, deixaram de ser planetárias, megalomaníacas, saíram da escala do Pulitzer, do Nobel, do Oscar, e passaram a ser coisas prosaicas como ler um bom livro sem interrupções, ter duas horinhas só para mim, escrever algo que está me perturbando a cabeça, fazer balanços imensos, lembrar.

Minha memória, a propósito, está cada dia mais fugidia. E eu não confio nadinha nela. Alguém me procura com seu “Oi Cris!” super íntimo e eu só sei que aquele nome não me é estranho, mas não faço ideia de onde conheço a pessoa. Já trabalhei com ela? Estudamos juntas?

Em compensação, me perguntam que dia a máscara passou a ser obrigatória durante a pandemia em BH e eu lembro de cor. Meu cérebro guarda detalhes irritantes que não quero guardar, mas se esquece, sobretudo, das pessoas. Muitas foram apagadas como se nunca tivessem existido. À minha revelia, eu juro.

Coisas que só o ócio faz a gente valorizar.

Talvez isso aconteça com todos algum dia. Não só a questão da memória, mas tudo: o cansaço constante, a troca do agito pelo sossego etc. Talvez com alguns aconteça mais cedo, talvez com outros só depois dos 50, dos 60. Comigo já está assim aos 37.

E eu adoro pensar sobre essas coisas todas (quando tenho esse luxo de tempo pra pensar e escrever!). Acho intrigante perceber como a vida nos prega peças, nos atormenta com coisas que depois achamos idiotas, nos vira de cabeça pra baixo e sacode, deixando escapar as aranhas dos bolsos.

Até os gostos mudam, né? Hoje acho Elis Regina e Clube da Esquina chatíssimos, por exemplo. (E uma das coisas que tenho menos tolerância é para ouvir música que acho ruim). Filmes que antes eu amava agora me dão sono. Releituras não causam o mesmo impacto de anos atrás. Algumas pessoas vão se tornando desinteressantes, outras desagradáveis mesmo, gente que era ídola, heróis, melhores amigos. Passei a evitar alguns assuntos. Gente que só sabe reclamar o tempo todo: tô fora! Já repararam que todo mundo tem problemas, mas algumas pessoas sentem necessidade de espirrar os próprios problemas sobre todos ao redor como se fossem uma nuvem de poeira? Ou um agrotóxico.

Acho que chego aos 37 com menos paciência. Não, corrigindo: com certeza chego aos 37 com menos paciência. Com menos vontade de agradar todo mundo.

A única coisa que eu quero, no meu novo ano que se inicia, é mais leveza, mais pessoas interessantes, mais notícias relevantes, menos abobrinhas, mais tempo, mais memória, menos cansaço. Ops, não falei uma única coisa. E, pensando bem, uma coisa não parece ser coerente com a outra. Então me corrijo de novo, porque aos 37 a gente mostra que erra o tempo todo, e foda-se. A única coisa que eu quero, cada vez mais, é sossego mesmo.

O sossego dos silêncios. Ou das boas músicas na hora certa. O sossego das tardes de sábado sem plantão. O sossego da ausência de discussões, de brigas ao meu redor. O sossego da calmaria no rosto, que não necessariamente precisa estar com o sorriso escancarado pra estar numa boa. O sossego de ninguém perguntando como você está se sentindo toda hora – ou, pior: gente atribuindo sentimentos a você que você não tem (tem coisa mais desrespeitosa que isso?). O sossego de sermos quem a gente é, com todas as nossas infinitas contradições, com nossos defeitos e qualidades, mas com aceitação tranquila.

Eu não me acho uma pessoa exatamente fácil, mas gosto de mim, gosto da minha própria companhia. Não minto, não finjo. Não me imagino fazendo plásticas, colocando filtros nas fotos, querendo ser outra pessoa. Talvez este seja, afinal, o mais importante de todos os sossegos.

(Que permaneça aqui comigo, para sempre, é só o que desejo ao soprar estas velinhas.)

 

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Cristina Moreno de Castro Ver tudo

Mineira de Beagá, jornalista, blogueira, poeta, blueseira, atleticana, otimista, aprendendo a ser mãe. Redes: www.facebook.com/blogdakikacastro, twitter.com/kikacastro www.goodreads.com/kikacastro. Mais blog: http://www.otempo.com.br/blogs/19.180341 e http://www.brasilpost.com.br/cristina-moreno-de-castro

3 comentários em “Fiz 37 anos, e agora? (Ou e daí?) Reflexões, balanços e o sossego Deixe um comentário

  1. É isso aí, Cris. Descreveu bem o burnout, palavrinha que só descobri por esses dias, num diagnóstico da Organização Mundial da Saúde. Espero que tenha muitos anos de vida para aprender a se livrar dele. Pode começar mastigando 30 vezes antes de engolir… qualquer coisa.

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