Uma viagem sentimental ao Vale do Jequitinhonha e ao sertão

Estrada mineira próxima ao parque nacional Grande Sertão Veredas. Foto: Wikimedia

Texto escrito por José de Souza Castro:

Quarenta e quatro anos depois de me casar, conheci finalmente Salinas, onde minha mulher, Ivona, viveu quando menina. Viajamos no carro de Josires, o irmão caçula dela. Dormimos uma noite em Teófilo Otoni, cidade em que minha mulher se formou professora e começou a lecionar. Conosco ia Márcia, prima dos dois.

A parte mais desagradável da viagem de cinco dias ocorreu em Teófilo Otoni, quando a Cris telefonou para comunicar que resolvera suspender a publicação deste blog no portal do jornal O Tempo, pois não queriam que escrevêssemos sobre política.

Já sabíamos, com Guimarães Rosa, que “viver é muito perigoso…”. Preferimos continuar vivendo assim, sem censura. “O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.” Obrigado, João.

Só me lembrei dele quatro dias depois daquele telefonema, quando passávamos sobre o Rio das Velhas, perto de Corinto, após uma noite dormida em Montes Claros. Nada a ver com palavras. O sentimento de perigo foi mais intenso durante as três horas e meia que foram gastas para percorrer pouco mais de 200 quilômetros entre Salinas e Montes Claros, numa rodovia atravancada por caminhões e carros dirigidos por suicidas.

Acho que o autor de “Grande Sertão: Veredas” não reconheceria o cenário de seus contos e romances escritos entre 1936 e 1967. O sertão que eu vi pareceu-me muito diferente daquele que conheci nos livros lidos na minha juventude. As veredas se tornaram escassas. Os eucaliptos dominam a paisagem, apesar das leis de proteção dos pequizeiros e outras árvores nativas. Vaqueiros tocando boiadas pelas estradas, nem pensar. Continuar lendo

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Santuário do Caraça, um paraíso a duas horas de BH

Como contei aqui na última sexta, passei o fim de semana em um lugar escondido na natureza, sem sinal de celular, tranquilo como quase nenhum outro lugar do planeta. Só não tinha dito que lugar era este. Mas hoje dedico o post inteiro a ele, o Santuário do Caraça.

Placas que nos recebem logo que chegamos à estradinha do santuário do Caraça :) Clique na imagem para ver em tamanho real. Todas as fotos: CMC ou Beto Trajano

Placas que nos recebem logo que chegamos ao Caraça 🙂 Clique para ver em tamanho real. Todas as fotos: CMC ou Beto Trajano

Estamos falando de um dos recantos mais históricos nos arredores de Belo Horizonte. Fundado em 1774, a quase 1.300 metros de altitude, encrustado no alto da serra do Espinhaço, o complexo arquitetônico é patrimônio cultural do Brasil e o terreno, de 12 mil hectares, é patrimônio natural da Unesco. É centro de peregrinação religiosa, de turismo, de educação (recebe trocentas excursões de estudantes) e de pesquisa ecológica. Batizado de uma das “7 Maravilhas da Estrada Real”, o santuário fica a apenas 120 km da capital mineira.

Feita toda essa apresentação preliminar, passo a falar da minha experiência por lá nesta minha primeira visita (de muitas, espero!).

Chegamos no fim da hora do almoço de sábado, às 14h, e fomos direto ao refeitório, que ainda conserva aquela cara dos internatos de antigamente, com mesões enormes e todos interagindo. As refeições são uma atração à parte do fim de semana no Caraça. A diária da hospedagem inclui café da manhã, almoço e jantar, e posso dizer que (principalmente o café) foram algumas das melhores refeições que já fiz na vida.

Clique na foto para ver maior.

O refeitório esvaziado, no fim do almoço. Clique na foto para ver maior.

Na tarde do sábado, passeamos pelas belas trilhas que levam ao bosque (onde até fiz qi gong), ao Banho do Imperador (poço onde Dom Pedro II foi se refrescar e em que, se não estivesse tão seco, poderíamos ter nadado também), ao calvário, ao mirante… Também exploramos o próprio complexo do santuário, onde há o claustro, a Casa das Sampaias (onde viviam as funcionárias do colégio de padres quando ele ainda era ativo), a igreja (fundada em 1883), as catacumbas… além de sala de jogos, biblioteca, jardins etc.

Existem trilhas maiores e mais difíceis (algumas parece que exigem até escaladas), que levam a pontos como a gruta de Lourdes, a capelinha que a gente avista bem de longe, a Pedra da Paciência e a cascatinha, mas não percorremos nenhuma delas neste primeiro fim de semana.

À noite, antes e depois do jantar, pudemos ver o visitante mais ilustre do santuário: o lobo guará, que aparece ao chamado do padre, surge tímido em meio à roda de turistas, come alguns ossos deixados para ele em um tabuleiro, e depois some de novo. Vai e volta, vai e volta, posa para cliques e flashes, e ficamos ali admirando aquele bicho esquisito, meio-cachorro-meio-raposa, ameaçado de extinção, e que, mesmo assim, não se importa de entrar num território cheio de humanos estranhos tomando taças de vinho e copos de cerveja. Enquanto isso, vamos ouvindo uma verdadeira aula do padre (infelizmente, esqueci de anotar o nome dele), sobre os hábitos desse animal.

O padre e o lobo

O padre e o lobo

Dizem que uma anta também aparece de vez em quando para comer com o lobo, mas não tivemos a sorte de vê-la.

A ala em que dormimos, que tem uma linda vista para a serra, é, assim como todo o complexo, uma construção bastante antiga, daquelas casas que parecem ter vida como seus habitantes. Que ecoam os passos, as vozes, e se silenciam de repente, no fim da noite, num breu total. Foi um sono profundo que eu dormi naquela noite, de 23h às 6h30, ininterruptamente, e acordei tão cedo assim (como não fazia há séculos) porque já estava revigorada. Saí andando de pijamas e de câmera em punho, fotografando o santuário, ainda dorminhoco, envolto em neblina. Os jacus agora comiam os restos dos ossos deixados pelo lobo-guará, só migalhas.

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Os jacus, bem cedinho.

No domingo, depois do café da manhã mais farto do mundo, fomos visitar o museu. Ali conhecemos a história do colégio interno, que já abrigou várias personalidades importantes das letras e da política, e cuja história foi interrompida por um incêndio, em 1968, que começou na oficina de restauração de livros e se propagou pelos dormitórios da criançada (ninguém se feriu, mas os bombeiros levaram mais de cinco horas para chegar, de Belo Horizonte, e começar a conter as chamas). O museu tem fotos, vistas bonitas de todo o santuário e um relato interessantíssimo escrito por Dom Pedro II em seu diário. Fiz questão de fotografar para reler mais vezes (clique para ver as imagens em tamanho real e ler também):

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Fomos embora perto da hora do almoço, passando agora pela estrada que leva a Ouro Preto, que tem paisagens deslumbrantes da Serra do Espinhaço e é muito mais bonita que a tenebrosa BR-381, embora seja um caminho mais longo para Belo Horizonte.

Foi um fim de semana mágico, encantado, mergulhado no passado, na natureza e no descanso, cercada por pessoas relaxadas, interessadas, sorridentes, de várias crianças e famílias, por passarinhos, jacus, lobos, araucárias e montanhas de cartão postal. Fiquei tão pouco, mas foi como se eu tivesse me distanciado uma semana desse caos barulhento e poluído onde moramos.

Quem quiser só passar o dia no santuário também pode! A visita começa às 8h e vai até as 17h, com taxa de R$ 10 por pessoa, se não me engano. Eles entregam um mapinha na entrada. O local para visitantes tem lanchonete, banheiros e uma lojinha para comprar souvenires (claro que comprei um ímã de geladeira!).

Abaixo, separei uma galeria de fotos, com 40 imagens, que ajudam a ilustrar o que já descrevi até agora. As legendas também contam bastante coisa:

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Veja nos links as informações sobre como chegar, preços das hospedagens e mais informações sobre o santuário.

Leia também:

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Itacaré: dicas de passeios e restaurantes bons e baratos

 

Como prometi lá na página do blog no Facebook, hoje vou agregar um post bem completo à nossa pastinha Viagens & Turismo, sobre a linda cidade de Itacaré, na Costa do Cacau, na Bahia. Ela tem várias qualidades que adoro: é pequena (27 mil habitantes), charmosa, tem a natureza preservadíssima, tem muitas opções de passeio, é barata e, de quebra, tem uma ótima infraestrutura para os turistas (bancos, Correios, vários restaurantes bons e pousadas etc). Pra melhorar ainda mais, é uma cidade de fácil acesso, com voos diretos de Belo Horizonte (e várias outras capitais) a Ilhéus, que fica a apenas uma hora de distância – a passagem de avião BH-Ilhéus ficou a apenas R$ 120.

Vejam as dicas que registrei a partir da minha experiência em Itacaré neste mês de maio:

TRANSPORTE

A forma mais fácil de ir do aeroporto de Ilhéus para Itacaré é de táxi. Existem vários serviços, mas aproveito para recomendar o que eu contratei, que foi excelente: Ramos Turismo (73- 99962595/98081598 e o email ramostour@yahoo.com.br, sempre respondido com agilidade). Na baixa temporada, eles cobram R$ 140 por trecho, que é o preço que todas as empresas pediram. Você pode pagar na hora, não precisa fazer adiantamentos.

Atenção: há vários transportes clandestinos na cidade, oferecidos a todo momento, seja de mototáxi ou de lanchas. Fique atento para evitar entrar em uma fria. Já ouviu falar no “barato que sai caro”? Desconfie se o preço estiver muuuuito abaixo da média.

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HOSPEDAGEM

Confira algumas opções de pousadas AQUI e em sites como o Booking.com, ficando atento às avaliações de outros hóspedes! Achamos diárias de pousadas para casais na faixa de R$ 70 (ficamos em uma de R$ 84, que era um flat, com café da manhã incluso). A principal rua para os turistas é a Pedro Longo, na região de Pituba, que fica bem perto da praia da Concha. Aquele pedaço é o ideal para se hospedar — de preferências nas ruas paralelas à Pedro Longo, para você ter sossego quando não quiser mais badalações. Fazendo uma pequena caminhada, sem muito esforço, é possível chegar às outras praias da cidade: Resende, Tiririca, Costa e Ribeira. Há muitas opções de pousadas, hostels, flats e casas para alugar. Esta é uma boa cidade para conhecer turistas de todos os lugares do país e do mundo 😉

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PRAIAS e PASSEIOS

  • Concha – A praia do Concha é a mais próxima de Pituba, a região turística de Itacaré. Tem várias pousadas lá na orla mesmo, mas recomendo ficar em algum lugar entre a praia e a rua Pedro Longo, para a caminhada não se estender demais à noite. O mar ali é supercalmo, sem ondas, ideal para a prática de stand up paddle e de caiaque, ambos esportes fáceis mesmo para quem não está muito acostumado (tudo bem que eu fui sentada na prancha, em vez de em pé, rs). Há várias barracas/cabanas/quiosques ao longo de toda a orla, além dos tradicionais ambulantes, que vendem de tudo um pouco: o queijinho coalho no espeto, frutos do mar, cocadas, acarajé, cangas, saídas de praia, óculos escuros, chapéus etc. A cabana Brisa do Mar foi a que escolhemos para ficar. Eles sempre tinham coco gelado, mesmo estando em falta em outros quiosques, cerveja gelada, além de terem uma porção deliciosa de bolinho de aipim. Atendimento muito bom.

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  • Mirante – em uma das pontas da praia do Concha, na ponta do Xaréu, há um mirante, de onde se vê um espetáculo de pôr do sol! Já na outra ponta da praia há o farol.

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  • Coroa – esta é a praia do porto, não é para banhistas. Ela fica no centro histórico de Itacaré e também rende belas fotos.

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  • Resende – seguindo para o outro lado de Itacaré, a partir da praça da Mangueira, há uma estrada linda, cercada de mata atlântica preservada (como, aliás, em toda a cidade), que leva às outras quatro praias urbanas, começando pela Resende. Ela não tem muita infraestrutura, mas é bem bonita, com muitos coqueiros.

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  • Tiririca – Esta praia é procurada por surfistas, porque tem ondas mais agitadas. Tem também uma pista de skate lá. Uma de suas atrações são as bicas de água doce natural, deliciosas!

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  • Costa – esta praia tem ondas bem fortes e fica praticamente deserta, sem qualquer infraestrutura, pelo menos nesta época do ano.

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  • Ribeira – minha praia favorita, muito bonita, com um riacho de águas claras cheio de peixinhos desaguando no mar, formando belas piscinas naturais. Há duas cabanas no local, com preços mais salgados de cervejas, coco e petiscos. O mar também é mais agitado, mas muito bom de nadar e de surfar. Procurada também por quem gosta de tirolesa (altíssima!) e é o ponto de partida para a Prainha (após 40 minutos de caminhada), cartão postal da cidade e tida como uma das praias mais bonitas do Brasil.

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REFEIÇÃO

A rua Pedro Longo, que já citei, está lotada de bares e restaurantes de ótima qualidade e para todos os gostos e bolsos. Também é lá que você vai encontrar as lojinhas para comprar souvenires 😉 Vou indicar os meus favoritos, todos nessa mesma rua:

  • No Boteco – almoçamos lá três vezes, sinal do quanto achamos gostosa a comida. Aviso: é MUITO farta! Um prato executivo que seria teoricamente para uma pessoa é, na verdade, uma refeição que dá, com folga, para dois. Uma refeição que pedimos era tão grande que pedimos para embalar uma parte e ainda comemos na pousada, no dia seguinte. E tudo a um preço muito bom, com ótimo atendimento do casal dono do lugar. Recomendo os três pratos que comi: a picanha com queijo coalho e aipim na manteiga, o filé à parmegiana e o executivo de frango grelhado. Eles também têm telão, onde passaram lutas de UFC e jogos de futebol. Funcionam todos os dias, no almoço e na janta.
  • Casa de Taipa – Outra boa opção para o almoço, que só descobrimos no último dia. É self-service e a comida é muito saborosa, com várias opções e a um preço muito bom. Também muitas opções de suco — como, aliás, em quase todos os restaurantes de Itacaré.
  • Tio Gu Creperia – há diversas opções de crepes maravilhosos e fartos, entregues no maior capricho, junto a um molho de pimenta verde que é delicioso. Recomendo os dois que comi: um de peito de peru com tomate, queijo e outras coisas, e outro de frango desfiado, ricota temperada e azeitonas. Fiz questão de ir lá na última noite, só para me despedir. Abre de 18h às 23h, menos na terça, quando fecharam, de folga.
  • Gelato Gula – sorvete artesanal delicioso. Arrisco dizer que o sorvete de chocolate branco, chocolate ao leite e pé-de-moleque que comi lá foi o melhor que já tomei na vida. Eles também têm vários sorvetes de frutas nativas, para quem prefere algo mais saudável. Pena que funcionam em horários meio irregulares.
  • Mediterrâneo – comemos um bom filé à parmegiana lá, mas também há muitas opções de massas e outras comidas. Boa carta de sucos naturais. Só vi eles abrirem à noite.
  • Favela Coffee Shop – este bar estava sempre relativamente cheio, mesmo na baixa temporada. O forte lá são os drinks e coquetéis (eu tive que tomar o primeiro coquetel sem álcool da minha vida — quase um iogurtinho, rs –, porque estou grávida), expostos bem na entrada, com várias frutas. Abrem à noite.

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LEMBRANCINHAS

Para quem gosta de voltar para casa com um souvenir, a melhor opção em Itacaré é o chocolate. Afinal, estamos na Costa do Cacau! O chocolate ali é totalmente diferente, desde a textura até o sabor, e o vendedor da Itacaré Cacau garantiu que ele não derrete. Outras boas opções de presente são as cocadas (vêm em caixinhas e com vários sabores, como cacau, maracujá, gengibre e coco queimado), os ímãs de geladeira, os balõezinhos e outras artes feitas com cabaça envernizada, as artes de palha e madeira, os quadros etc.

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Apesar de ser uma cidade cheia de esportes radicais e com prática intensa de surfe, além de muitos passeios com canoas, lanchas e afins, nestas minhas primeiras férias grávida eu preferi ficar sossegada, visitando só as seis praias urbanas, fáceis de acessar por uma pequena caminhada. Por isso, se você quiser mais informações sobre as ilhas, cachoeiras e outros passeios mais agitados de Itacaré, sugiro que confira as “aventuras” NESTE PORTAL.

Itacaré é, em resumo, uma cidade muito boa para passar as férias, especialmente em baixa temporada, quando os preços são justos e nada está muito cheio (dizem que ela LOTA no verão). Pra fechar, mais algumas fotos de beleza que encontrei por lá:

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Tem alguma curiosidade ou acha que deixei de abordar alguma coisa no post? Comente aí embaixo ou me envie um email com sua dúvida! 😉

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