15 textos sobre o caos político das últimas semanas

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal "O Tempo"

País dividido. Foto de Lincon Zarbietti para o jornal “O Tempo”

Os acontecimentos no país andam tão turbulentos que é difícil tecer qualquer comentário ou análise sobre tudo isso. Num dia, uma revista divulga vazamento de uma delação que ainda nem havia sido homologada, implicando, ainda que sem provas, Dilma e Lula em esquema de corrupção. No dia seguinte, o ex-presidente é levado à força para depor. Logo depois, milhares vão às ruas protestar contra o governo. Aí a delação é homologada e descobrimos que ela também implica, ainda sem provas, o presidente do maior partido de oposição, Aécio Neves, em transações suspeitas. Continuar lendo

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10 textos para refletirmos sobre a importância de respeitar a OPINIÃO dos outros

duke2006

Charge do Duke

 

Na última terça-feira publiquei o texto em que eu dizia por que não pretendo fazer parte da marcha que vai acontecer no dia 15, próximo domingo (a propósito, também não vou na de hoje). Apesar de achar protestos legítimos e também uma maneira útil de demonstrar a insatisfação com o governante e cobrar respostas, o mote principal da marcha do dia 15 é o impeachment da presidente da República, que é um processo muito traumático para o país e que, na minha opinião, não faz sentido neste momento, já que nenhuma acusação prevista em lei paira sobre a mandatária reeleita. Por fim, registrei meu temor de ver este protesto sendo apropriado por um grupo que defende a intervenção militar no país, que é algo que vai totalmente de encontro às minhas convicções pessoais.

Bom, foi minha opinião. Tenho este blog para, entre outras coisas, escrever livremente minhas ideias, para quem quiser ler. A resposta foi impressionante. No momento em que escrevo este post (manhã de quinta), foram 663 comentários ao post, nos quatro endereços em que ele foi publicado (aqui, no jornal “O Tempo“, no Brasil Post e na revista Fórum) e na página do Facebook do blog. Pode-se dizer que 80% dos comentários eram para me xingar, muitos dizendo que sou petista ou que recebo dinheiro do governo para escrever no meu blog. Fico me perguntando se essas pessoas só vão para a passeata porque receberam dinheiro da oposição ou por serem filiadas a algum partido. Será que as pessoas só se posicionam porque foram compradas? Bom, eu não. Como respondi a um deles, minhas “asneiras” eu escrevo de graça mesmo 😉

(Por outro lado, aproximadamente 101.000 pessoas tinham compartilhado o post, pelas ferramentas das quatro páginas, até a manhã de ontem. Como 90% dos que compartilharam o fizeram porque gostaram do texto, posso dizer que aqueles que comentaram me xingando são uma minoria pequetitinha.)

O que me entristece é que já temos 30 anos consecutivos de democracia e liberdade de imprensa no Brasil e até hoje as pessoas não aprenderam a lidar com a divergência de ideias, opiniões e visões de mundo. Quer dizer, ainda não amadurecemos como democracia. Discordar, hoje em dia, significa brigar, agredir. Isso nas redes sociais e na internet como um todo é ainda mais visível. As pessoas, com raras exceções, não convivem bem com quem pensa diferente: se pensa diferente, é comprado, ou é petista fanático, ou tucano fanático. É preto ou branco: ninguém mais enxerga o cinza.

Como este é outro dos temas recorrentes aqui no blog, resolvi fazer uma compilação de posts, assim como fiz no Dia da Mulher. Textos que podem, quem sabe, ajudar na reflexão para esses dias de tamanha intolerância, de tamanho ódio, de tamanha arrogância, que vemos amplificados no mundo virtual. Talvez, ao fim desta leitura, as pessoas parem para pensar se vale a pena continuar xingando, agredindo ou gritando — alguém ainda vence algum debate no grito? — ou se não é muito melhor usar argumentos, fontes confiáveis de informação, troca de ideias educadas. Se ninguém se convencer do seu ponto de vista, pelo menos não terá deixado relacionamentos mortos ou feridos no meio do caminho, né 😉

Aí vai:

  1. Manifesto a favor do direito de divergir, em que defendemos a divergência de ideias em forma de um manifesto, escrito pelo jornalista Beto Trajano.
  2. Fanatismo é burro, mas perigoso, em que falamos da perigosa autoconfiança que o fanatismo proporciona às pessoas, que as leva a tomar as decisões mais estúpidas.
  3. O anarquista que enxerga, em que faço uma crônica sobre as pessoas, com visões de mundo diferentes e até antagônicas, que convivem todos os dias, o tempo todo, sem se darem conta disso.
  4. Para uns, para outros e para mim, em que reitero que devemos respeitar as opiniões diferentes e falo que nem sempre ter convicções de tudo é bom.
  5. Tem certeza absoluta? Que pena, em que compartilho uma frase que minha professora favorita da UFMG disse um dia e que me marcou para sempre.
  6. O vizinho que pensa diferente de você, em que uma charge do Duke vale mais que mil palavras.
  7. Post especial para quem se acha com o rei na barriga, em que trago uma reflexão do grande cientista e escritor Carl Sagan, que nos coloca em nosso lugar.
  8. Reflexão para as pessoas cheias de si, em que divido um texto da sabedoria chinesa sobre o assunto.
  9. A saudável loucura de cada um de nós, em que também relativizo a forma como olhamos para os defeitos dos outros.
  10. Qual é a sua opinião, cidadão?, em que mostro um jeito simples de os cidadãos opinarem sobre os assuntos mais importantes que estão sendo debatidos no Congresso e pressionarem os legisladores, mesmo sem precisar sair de casa.
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Charge do Laerte

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Em briga de marido e mulher, persiana de vizinho é colher

Minha ideia original era dormir. Tanto que apaguei a luz, fechei as persianas e abri a janela, pra entrar ar fresco. Ouvia apenas o tic-tic do relógio-vinil, na sala, marcando 0h50 de hoje.

Fechei os olhos.

Antes de poder revisitar os últimos acontecimentos do dia — aqueles que subsidiarão os sonhos, ainda mais se um deles for uma reportagem não terminada –, naqueles minutos sonolentos pré-exaustão, uma voz feminina, alta, me interrompeu:

— Vamos à Europa! Vamos à Argentina! Vamos viver!

Abri os olhos.

Chamou minha atenção a lógica da vizinha, que falava de uma janela no prédio ao lado, bem próxima da janela do meu quarto. Para viver, não bastava estar viva, acordar, trabalhar, pegar um cineminha de vez em quando e tomar cerveja com os amigos aos sábados. A ela, isso não basta. Viver é viajar. Ou estar bem longe daqui.

E certamente, pelo tom de voz, ela cobrava a vida do marido.

A suposição não demorou a se confirmar, quando ela disse, desta vez bem mais alto:

— Sai de perto de mim! SAI DE PERTO DE MIM!

A esta altura, eu já estava 100% alerta e esqueci de revisitar meu próprio dia boçal, que eu chamo de vida mesmo sem as viagens, para tentar entender aquela discussão despropositada.

Afinal, os dois deviam estar próximos, junto à janela, não há muito como um “sair de perto” do outro.

Mesmo sendo silencioso e discreto, sem deixar passar um murmúrio ante os gritos da mulher, o que o marido respondeu pôde ser adivinhado pela resposta que ela deu:

— Então, meu, acho que você devia comer outras pessoas.

Assustei. Lembrei daqueles sites que incentivam a trair, que estão na moda. Retomei o primeiro pensamento que passou pela minha cabeça quando a sombra da insônia a cruzou pela primeira vez por causa dessa mulher: que saco, por que casais sempre têm que brigar?

Porque uma das coisas que mais odeio nesse planeta é briga de casal. Ainda mais em público. Ainda mais alto. Não podem falar num tom de voz de gente, já que escolheram morar juntos, devem se gostar e tudo o mais? Se quiserem me torturar, coloquem-me de frente pra um desses por várias horas.

A mulher prosseguiu:

— Porque você já colocou que sou gorda e feia…

Hein? Ouvi direito? Levantei. Abri uma brecha da persiana. Pus os óculos para me certificar de que ela não era uma louca perdida num monólogo.

Mas vi duas sombras na janela iluminada. Fechei as persianas com estrondo e acendi as luzes para descarregar essas lembranças num papel e tranquilizar a cabeça para o sono voltar.

E eis que volto a ouvir apenas o tic-tic do relógio da sala, marcando a 1h.

Teria sido um sonho?

Ou será que os envergonhei quando perceberam que acordei por causa das gorduras e feiúras daquela briga, e resolveram falar em tom de voz de gente um com o outro?

Ou, ainda, teria um matado o outro, janela abaixo, para ter paz na vida de novo, como nem viagem à Europa faria?

Meu lado otimista descarta tudo isso e imagina que o marido calou a mulher com um carinhoso “Vem cá, minha gordinha” e ela imediatamente se arrependeu de tê-lo mandado comer outras, porque ele é só dela e ela é só dele e a vida ainda pode valer a pena em toda a sua boçalidade.