Praça da Liberdade: agosto de 2015 X abril de 1985

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Foto: Mariela Guimarães / O Tempo. Clique para ver maior.

Texto escrito por José de Souza Castro:

Cheguei à Praça da Liberdade às 10h45 deste domingo, dia 16. Enquanto descia a rua da Bahia, comecei a contar. Pequenos grupos de pessoas vestindo a camisa da CBF se dirigiam evidentemente para a concentração contra o governo petista. Minha intenção era contar quantos negros estariam presentes. Não era possível contar o número total de manifestantes.

Vi no caminho vários grupos de policiais militares, muitos deles negros. Não os contei, pois estavam ali a trabalho, escalados pelas chefias, não para protestar. Dei a volta na Praça, em alguns momentos com dificuldade, por causa da aglomeração. Mais intensa diante do palco onde pessoas discursavam sobre um trio elétrico e eram ouvidos nos alto-falantes distribuídos pelos quatro cantos da praça. Discursos contra Dilma e contra o governador Fernando Pimentel, ambos do PT. Ao todo, 10 mil manifestantes na praça, segundo a PM, conforme divulgou “O Tempo” às 11h57.

Nesse mesmo portal, também li que Aécio Neves chegou à Praça às 11h32 e que ele discursou, dizendo: “Estou aqui como cidadão, não como líder partidário. Queremos um basta na corrupção”.

Soube também que outras figuras do PSDB foram aos protestos na praça da Liberdade. Foram vistos o deputado federal Marcus Pestana, o ex-candidato ao governo de Minas Pimenta da Veiga e o deputado estadual João Leite.

Não encontrei nenhum deles, já que deixei a praça às 11h15, para terminar minha caminhada em outro lugar. Estava mais atento, como disse no início, aos negros manifestantes. Contei nove, inclusive uma mulher sozinha, aparentando uns 60 anos. Vi também quatro negros que estavam no evento a trabalho, três com carrinhos cheios de latas de cervejas e refrigerantes para vender, um com um tabuleiro com narizes de palhaço vermelhos. Não sei quantos vendeu. Repórter de “O Tempo” entrevistou um ambulante, às 11h37, vendendo pulseirinhas de hippie e também com camisa contra Dilma. “Já passei fome no passado e votei na Dilma na última eleição. Não tenho do que reclamar desse governo. Não consigo entender isso aqui (protesto). Vim para ganhar dinheiro, mas vendi poucas camisas até agora”, disse ao repórter.

A Praça da Liberdade estava cheia de pessoas, mas elas não representavam de fato a população brasileira, como se vê pelo número minúsculo de negros, e sim um fração dos brasileiros: a classe média – que no passado foi muito importante para mudar regimes políticos sem o inconveniente das urnas.

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Arquivo pessoal. Clique na foto para ver maior

Já vi a Praça da Liberdade muito mais lotada. Mas nada, na minha experiência de expectador, se comparou à noite de 23 de abril de 1985. Tenho em mãos o “Jornal do Brasil” do dia seguinte. Na capa, uma foto de Delfim Vieira, tirada do alto do Edifício Niemeyer, com a legenda: “Cerca de 1 milhão 500 mil pessoas tomaram as ruas e forçaram a entrada no Palácio da Liberdade para o adeus a Tancredo”.

O avô de Aécio havia sido eleito presidente da República em eleições indiretas, depois de uma intensa campanha pelas “Diretas Já”, mas morreu antes de assumir, deixando a vaga para o vice, José Sarney, do PMDB. O neto tinha 25 anos e, por certo, não se esqueceu das lições de Tancredo.

Vi também aquela manifestação de abril de 1985. Não me passou pela cabeça contar quantos negros havia ali. Mas tenho certeza de que ninguém vestia a camisa da seleção brasileira e que quem se reunia na Praça da Liberdade, naquele trágico evento, representava muito bem o sentimento dos brasileiros. Como transparece na manchete do JB: “Minas sepulta Tancredo com a dor do país”.

Arquivo pessoal. Clique para ver maior

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13 comentários sobre “Praça da Liberdade: agosto de 2015 X abril de 1985

  1. Em minha opinião a situação de muitos que ali estavam era a mesma do ambulante.
    Alguns inclusive, pedindo impeachment do Lula. Do Lula??

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  2. Na verdade, contar o número de negros na manifestação não traria uma correlação direta com a classe social dos manifestantes, já que existem negros na classe média e na classe alta também. E esses negros ou mulatos são ainda mais cobrados de terem uma postura anti-PT, anti-Dilma, Anti-Lula do que os outros da classe média justamente para servirem de exemplos de como o atual governo é ruim. Eu sei porque sou mulato e classe média. Tipo: tá vendo, até ELES não gostam do atual governo. Um bom exemplo da “democracia racial” que vivemos, para citar Gilberto Freyre. Bem desse jeito: “Aturamos os negros, se eles fizerem o que nós (brancos) queremos.”
    Mas, eu entendi a intenção.
    Seria mais apurado contar quantos beneficiários do “minha casa, minha vida” foram protestar. Ou quantos estudaram pelo Prouni. Ou quantos entraram no ensino superior pelas quotas. Ou quantos que recebem “bolsa família”. Todos programas fortemente combatidos pela classe média e alta do Brasil. Só que isso seria inviável.
    Pelo significado econômico e pelos status que um automóvel representa, eu prefiro contar quantos carros pobres ou populares tem o adesivo “A culpa não é minha, eu votei no Aécio.”
    Não achei nenhum até agora. Só carro de luxo ou importado. Quando não os dois.

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    • Boa colocação, Lucas. Esta contagem dos carros que também já fiz. Acho que só vi um carro mais velhinho com adesivo pró-Aécio. Todos os outros eram de luxo. Acho que os institutos de pesquisa, como o Datafolha, deveriam mostrar serviço e perguntar quantos dos manifestantes são beneficiários dos programas que vc citou. E investigar a camada social em que estão, renda familiar etc. Afinal, isso é pauta, né? Se não me engano, fizeram isso no último ato, mas não vi ainda o noticiário de hoje. Um abraço

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    • Lucas, escolhi contar os negros por algumas razões. A primeira, porque imaginava desde o início que seria um número fácil de encontrar, pois negros e pardos certamente se destacariam numa multidão de brancos. Segundo, porque são, historicamente, uma classe sacrificada em nosso país e que só começou a se sentir valorizada nos últimos anos. Tanto que, segundo o IBGE, o número de pessoas que se declaram negros ou pardos vem aumentando e em 2013 chegou a 53% da população (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2014/09/18/ibge-n-de-autodeclarados-pretos-e-pardos-sobe-e-negros-sao-45-no-pais.htm). Ou seja, se tornaram maioria e deveriam estar em maior número na manifestação, para manter a proporcionalidade. Por não estarem é que digo que o protesto na Praça da Liberdade não era representativo da população. No meu entendimento, o governo Dilma ainda conta com apoio expressivo dos negros e pardos.
      Fiz referência a policiais militares negros. É com satisfação que sei que a PM mineira, que nasceu há 240 anos com o nome de Regimento Regular de Cavalaria de Minas, teve e continua tendo papel importante no avanço social dos negros mineiros. Na época de Tiradentes, o Regimento dos Dragões tinha corpos militares compostos por negros e pardos – os Henriques, uma homenagem ao capitão Henrique Dias que recebeu da Coroa Portuguesa o título de “governador dos crioulos, negros e mulatos”. Naquele tempo, as companhias auxiliares de infantaria dos negros e mestiços eram chamados de Terço. No século 19, o Terço recebeu a denominação de Regimento e seu comandante era chamado de coronel. Seus membros ingressavam como soldados e eram promovidos a alferes, tenentes, capitães, sargentos-mores e mestre de campo, até chegar a coronel. Em 1804, já havia 4.616 pretos e pardos na PM mineira, entre os quais quatro coronéis, seis sargentos-mores, 58 tenentes e 59 alferes.
      Bem, tudo isso, só para defender que a PMMG deveria adotar o sistema de quotas para o ingresso maior de negros na corporação, agora que seus salários se tornaram competitivos no mercado e os concursos públicos atraem muita gente. Não acho que essa seja uma ideia simpática aos brancos que foram neste domingo à Praça da Liberdade. Não me parece que sejam defensores da ideia de igualdade entre os brasileiros, a não ser para evitar o sistema de quotas que beneficia a parte mais sofrida da população (sim, sei que há muitos negros que não se incluem nessa parte, mas, pelo menos em Minas, são em número reduzido).

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      • Nossa. Que aula de história! Parabéns pelos conhecimentos.
        Concordo com o que você disse sobre as razões de contar os negros e pardos nas manifestações demonstra que ela não é um reflexo fiel da nossa sociedade.
        Só que todos já sabiam que as manifestações não são um espelho da sociedade. São espelho de um grupo que quer de volta a segurança e o poder que tinha.
        Símbolo disso é uma placa que vi em uma manifestação no começo desse ano: “Devolvam o Brasil”. Para quem, me perguntei. Para os portugueses? Para o PSDB? Ou para os ricos? É uma tal ideologia de que necessitamos, como país, voltar a ser como éramos há 20 anos, 40 anos atrás. Essa também deve ser a ideia de grupos que apoiam um golpe militar. Acabar com a farra do dinheiro público gasto em bolsas, quotas, programas sociais, casas para os mais pobres, etc.
        As manifestações atuais são de um grupo político-econômico, que busca apoio social em pessoas insatisfeitas com um governo que dá mais assistência às classes mais pobres.
        Escândalos de corrupção são rotineiros no país. Não são exclusividade de um governo ou de outro. São marcas de uma sociedade que nasceu e foi desenvolvida à margem da lei. Por isso, para tudo há um jeitinho. Como colônia, quando queríamos pensar em nós, devíamos fazer por fora da lei, porquanto dentro da lei o benefício era só dos estrangeiros: portugueses primeiro, depois os ingleses.

        No final das contas, você achou 9 pessoas no meio de 30 mil? Uau. Mais branco do que isso só propaganda de sabão em pó.

        Bom, quanto às quotas eu sou favorável a política de quotas em qualquer instituição pública com provimento por concurso público, porque sei, por experiência própria, que a maioria esmagadora (quase 70%) dos candidatos a um concurso são brancos. E quanto mais alto o salário e a qualificação, menos negros e pardos disputando.
        Isso porque o concurso é feito para quem tem tempo para estudar, dinheiro para cursinho e disposição de enfrentar diversos reveses até conseguir uma aprovação. Pessoas pobres não têm nenhum dos três; e, por razões históricas, a maioria dos pobres são negros ou pardos.

        Para sistematizar o que disse: A maioria dos pobres continua a ser negros e pardos. Uma política de quota os ajudaria muito a melhorar de vida por méritos estudantis.

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    • Lucas deu boas contribuições ao debate. Aos interessados, recomendo a leitura deste artigo:
      http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Datafolha-elite-branca-era-maioria-esmagadora-na-Paulista-/4/34267
      Três últimos parágrafos:
      “Por mais que “elite branca” tenha se tornado um bordão na boca da esquerda, de modo que alguns jornalistas e ativistas da direita já começam a ironizar, o que importa é que os de baixo percebem a existênca de uma elite branca e sabem que ela os odeia. Sabem porque, afinal, trata-se de um ódio que se manifesta diária e cotidianamente. Experientia docet.

      Nesse sentido, fotos e vídeos das manifestações são extremamente instrutivas. Sobretudo aquelas imagens nas quais o mal-disfarçado preconceito vêm à tona, ganhando contornos e voz em cartazes, faixas, estampas e declarações.

      Na Avenida Paulista, a elite branca mais uma vez destilou um veneno bastante conhecido dos pobres. Escancarando o submundo senhorial de nossas elites, as manifestações desde ano ao menos têm um mérito: tornar mais visível a herança de um passado que não cessa de persistir no presente. Essa é a maior de todas as heranças malditas.”

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  3. Vou ler o artigo e a pesquisa. À Kika e ao José, um obrigado pela chance de uma conversa civilizada neste reino da anarquia hobbesiana, a internet.

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  4. Aconteceu na Av. Paulista, neste 16 de agosto:
    View story at Medium.com

    Trecho:
    “Houve quem pensasse que era “conspiração comunista”. E quem afirmasse ter sido a chacina uma boa limpeza. “Em nenhum momento senti solidariedade naquelas pessoas”, conta Isis. Ao contrário, os manifestantes reagiram bradando, raivosos, “a nossa bandeira jamais será vermelha”.

    Aos gritos, manifestantes enxotaram os artistas, acusando-os de “petistas”, “sem trabalho”. Os mais moderados avisavam do papel vergonhoso que esse senhor protagonizou junto com uma senhora que insistia em querer borrar de verde e amarelo a testa negra do cadáver deitado na rua. Estava evidente que a principal pauta dos que lutam por justiça racial não se encaixava na manifestação verde e amarela. O genocídio dos jovens negros não faz parte das principais demandas de quem pede o impeachment da presidente.”

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