O bacon e o brócolis: o que mata mais?

Foto: Dennis Brown e Quadell / Wikipédia

Foto: Dennis Brown e Quadell / Wikipédia

Começo o post com esta anedota/provocação de Roberto Takata:

“Você viu? Embutidos causam câncer.”
“Pois é.”
“Vou trocar bacon por brócolis.”
“Mas você viu? Brócolis está contaminado por agrotóxicos.”
“Hmmm. Vou comprar orgânico.”
“Mas você viu? Orgânicos desmatam mais.”
“Ok, bacon, você venceu.”

Para quem não pegou o espírito da coisa, vale a pena ler a explicação do próprio Takata, AQUI.

Ainda sobre esse assunto, o cientista Roberto Takata, que tem um livro disponível para download aqui na Biblioteca do Blog, fez um trabalho muito bacana, em seu blog Gene Repórter, de “traduzir” para os leigos o documento da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, ligada à OMS, por meio de perguntas e respostas. CLIQUE AQUI para ler, imperdível!

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Pelo direito de não levantar bandeira nenhuma

bandeira

Acho muito legal que as pessoas tenham bandeiras para levantar. Ou seja, uma causa em que acreditam e que defendem com unhas e dentes. Pode ser a luta contra o racismo, o casamento gay, a criminalização da homofobia, a legalização da maconha, os direitos dos animais, o feminismo, a liberação do aborto, a redução do número de cesarianas, os direitos dos guaranis-caiovás etc. Pode ser professores de melhor qualidade na escola do filho, a criação de um novo parque na cidade, o cumprimento de uma norma específica na universidade, o direito de usar biquíni na praça do bairro. Pode ser a redução da maioridade penal, o direito ao porte de arma e outras coisas assim. Pode ser o direito de os artistas de rua atuarem livremente, o direito de os jornalistas expressarem suas opiniões sem censura, a obrigatoriedade de diploma para exercer algumas profissões, o direito de os garçons receberem os 10% da gorjeta ou de os taxistas não terem a competição dos motoristas de Uber.

As pessoas devem poder ter suas convicções pessoais e argumentar para que elas sejam cumpridas, respeitadas, implementadas ou amplificadas. O ideal é que façam isso de maneira respeitosa, por meio de debates, audiências públicas, artigos, abaixo-assinados, petições ou projetos de lei. E, claro, por meio de protestos, manifestações, passeatas e afins. Com muitas bandeiras — de cores, símbolos e tamanhos diversos — empunhadas pelo grupo em questão.

duke2006

Existem causas mais consolidadas, que a maioria já entende como imprescindíveis, que são quase consensuais. As grandes causas dos direitos humanos caminham para esse rumo, lenta mas inexoravelmente. Outras causas são mais regionais, locais, específicas. Há ainda aquelas bandeiras que interessam principalmente a uma classe profissional, por exemplo. E há as bandeiras dos partidos políticos e das religiões (duas que nunca empunhei). Nem sempre a bandeira do vizinho vai coincidir com a sua.

Concordo com algumas, entendo outras, tolero outras, discordo de um tanto e já balancei umas poucas bandeiras. Aliás, já troquei de bandeiras ao longo da vida também. Em algum momento, defendi com mais afinco uma ideia, que hoje pode nem ser tão importante assim para mim. Em alguns casos, empunho de forma cautelosa minha bandeira, com medo de estar usurpando uma causa que é de outra pessoa. Por exemplo, apesar de ser descendente de negros e ter vários traços dos negros — sou morena, de cabelos cacheados etc –, não me considero negra e sei que não é como a população em geral me vê. Então, embora eu defenda veementemente a criminalização do racismo e o respeito às pessoas de todas as cores e etnias, eu tomo cuidado para não parecer que entendo completamente o que é ser vítima de preconceito racial — porque só posso imaginar a humilhação e sofrimento que esse comportamento pode causar à vítima. O mesmo em relação aos homossexuais: apoio a causa deles, apoio a criminalização da homofobia e os direitos civis iguais, mas não fico empunhando a bandeira como se eu pudesse imaginar o que eles passam, todos os dias, como vítimas de preconceito generalizado.

Por outro lado, é bem mais fácil eu me identificar, por exemplo, com a causa feminista. Sei que as mulheres sofrem determinados tipos de preconceito, mais ou menos graves, porque já os vivi (e relatei algumas vezes aqui no blog). No entanto, também é uma bandeira que empunho com cautela, porque gostaria que o mundo banisse os sexismos, todos eles, em vez de apenas trocar o machismo pelo feminismo.

Acho que minha bandeira favorita é pelo direito da livre expressão e da livre imprensa. Mas mesmo esta bandeira não é ilimitada: se o discurso propaga o ódio ou incentiva um crime, como defendê-lo? Defendo o direito de uma Raquel Sheherazade da vida (ela ainda existe?) poder emitir suas opiniões na TV, mas verei com preocupação se o argumento dela defender o linchamento de pessoas suspeitas de terem cometido um crime, já que linchamento é crime (muitas vezes mais grave que o cometido pelo suspeito em questão). Mesmo assim, defendo que ela possa dizê-lo. Se, ao expôr sua opinião, ela cometer um crime, terá de pagar por ele também, mas depois. Antes, vira censura. De qualquer forma, é difícil delimitar o que é censura e o que é uma proteção necessária (por exemplo, as imagens de adolescentes que cometeram um delito são preservadas por força do Estatuto da Criança e do Adolescente, e não acho que deixar de mostrá-las seja uma censura).

Enfim, hoje em dia ando tão ponderada que está difícil alguém me ver balançando uma bandeira qualquer — mesmo a do jornalismo, que anda me desanimando a cada dia mais. Eu me posiciono, eu apoio umas ideias e condeno outras, eu raramente fico em cima do muro, mas a veemência anda em falta por aqui. Talvez minha bandeirinha mais convicta seja a do bom-humor. “Por mais senso de humor no mundo!”, já escrevi por aqui. Mas o que é humor e o que é ofensa? Talvez fosse mais fácil eu balançar por mais bom senso no mundo…

Mais nova campanha do blog: por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! https://kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano/

Por mais bom humor e leveza no mundo! Por menos gente séria, ranzinza, politicamente correta e chata! kikacastro.com.br/2014/06/27/frase-do-ano

Por isso, embora eu admire os colegas e amigos que saem por aí carregando suas bandeiras, fico irritada quando eles me cobram que eu carregue as bandeiras deles. Já discuti com uma amiga que queria que eu virasse vegetariana de qualquer jeito, porque ela virou: “Adoro um bife”, encerrei. Já cortei logo outra amiga que queria que eu virasse mãe-ativista depois que engravidei, lutando pelo parto humanizado e coisa e tal. Pode ser que um dia eu vire, eu tenho procurado me informar e tudo o mais, mas hoje esta causa simplesmente não me comove. Eu adoro cachorrinhos, mas ainda gosto mais dos humanos e não me vejo adotando todo vira-lata que encontro na rua para evitar que ele passe frio ou fome. Mas respeito pacas quem faz disso tudo sua missão.

Enfim, esta longa divagação é para defender que as pessoas possam carregar as bandeiras que melhor lhes aprouver — mas que também tenhamos o direito de simplesmente não carregar bandeira alguma, se não quisermos. Sem olho torto, sem julgamento, sem pé no saco. Que tal esta bandeira nova que inventei? 😉

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O saudável que sai caro

saudavel

A moda dos tempos atuais é comer tudo “ligth”. Não só light: integral, orgânico, de soja, com grãos, de peito de peru, sem lactose e/ou com nome difícil. Já ouviu falar na lichia? Aposto que sim, mas na chia ou só fui ouvir falar na última sexta-feira, ao ler a matéria da minha colega Ana Paula Pedrosa. Isso pra não falar da quinoa, outro tipo de grão da moda, junto com a linhaça.

A ditadura do alimento saudável tem um grito de guerra: é preciso emagrecer! E ainda: há que se preservar o colesterol bom!, não podemos nos entupir de açúcar!, devemos perder gordura! Não são alternativas, são mandamentos. Todos com verbo no imperativo. Muitos dos quais ligados às opções vegetarianas, que somam as preocupações humanas com o bem-estar dos animais usados para fazer gordurosas salsichas e mortadelas.

Taria tudo muito bem, tudo muito bom, não fosse por outro tipo de peso: no bolso. Segundo a já citada matéria, que saiu hoje em “O Tempo”, comprar substitutos mais saudáveis para torresmos e danoninhos implica pagar quase o dobro. Os supermercados dizem que é porque a demanda é pequena. Bom, então 99% das pessoas que conheço não frequentam esses supermercados. Para mim, o alto custo está mais associado ao fato de essa moda ter pegado primeiro entre as pessoas de melhor poder aquisitivo, dispostas a pagar o quanto for por uma promessa de vida longa e feliz.

Confiram a tabela publicada junto com a reportagem. As diferenças são impressionantes:

Clique para ver em tamanho real.

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Para ficar num exemplo bisonho: suco de uva “normal” custa R$ 2,79, mas o “orgânico” sobe para R$ 16,98. Que uva é essa, meu deus!?

Eu já não era muito adepta dessa nova religião, por questões de ponto de vista. Gosto de queijo, amo queijo!, gosto de café, gosto de cerveja, adoro uma farofa amanteigada, e fico muito feliz quando me servem torresmo ou pão de alho num churrasco. Enfim, coisas que fariam um nutricionista moderno ter ânsia de vômito. Agora, ao ler a matéria, me convenci: prefiro morrer mais cedo e mais saciada do que mais tarde e mais pobre, além de comendo — literalmente — como um passarinho.

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Para uns, para outros e para mim

Laerte de 23/6/2013.

Laerte de 23/6/2013.

Para uns, a Terra nunca esteve tão quente e o ano de 2013 está entre os mais quentes da História. Para parte desses, é culpa direta dos homens o avanço da temperatura do planeta, que levará a desastres e catástrofes naturais já em curso. Para outros ainda, há, na verdade, um esfriamento da Terra e o aquecimento global é um terrorismo infundado, patrocinado por grandes interesses econômicos. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, é irrefutável a existência de um deus supremo, bondoso, piedoso, capaz de perdoar pecados gravíssimos cometidos na Terra, desde que devidamente penitenciados, e há a perspectiva de um paraíso após esta vida terrena. Para outros, não há vida eterna, mas um constante renascimento e morte, através de reencarnações, em que as pessoas atingem estágios espirituais em constante evolução. Para outros, existem múltiplos deuses, cada qual com seu poder específico diante da vida. Para outros ainda, não existe nenhum, e a vida é só esta, e, quando acabar, juntaremo-nos ao pó do restante do universo. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, comer carne é algo natural desde o início da humanidade, que foi se aprimorando com o tempo, com a melhoria das técnicas de caça e de cozimento, e, por serem muito mais ricas em nutrientes e calorias, o maior consumo de carnes tem proporção direta com a expansão evolutiva do cérebro humano ao longo dos milênios. Para outros, os animais sofrem e não devem ser abatidos para matar a fome dos humanos, porque isso é cruel. Para outros ainda, até as plantas têm sentimentos e algumas são capazes de crescer com mais vigor quando num ambiente cheio de música, por exemplo, portanto tampouco deveriam ser mortas para saciar a fome de alguém. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

E assim por diante.

Uma coisa eu aprendi nesses anos de vida. Que devemos respeitar os pontos de vista do outro, principalmente quando estamos tratando de assuntos ainda não consolidados pelo conhecimento humano. Assuntos que são embasados apenas por hipóteses refutáveis ou contestáveis, ou que passam pelo campo da fé. Eu respeito o vegetariano, o vegano, o evangélico, o ateu, o espírita, os acadêmicos de várias linhas. O que não respeito é quem se acha superior ao outro apenas por ter uma visão diferente dele.

Acho que a sabedoria não está em acumularmos certezas e convicções, mas em convivermos bem com nossas dúvidas. É muito legal ter convicções sobre algumas coisas, é um chão. Há assuntos sobre os quais chega a ser esperado que essas convicções existam. Espera-se que estejamos convictos de que é melhor procurar viver num estado de felicidade do que de depressão. Temos convicções de que não é razoável matar alguém, nem roubar sem qualquer necessidade. Algumas convicções ajudam a moldar nosso caráter, nossa personalidade. Mas é a dúvida que, na maioria das vezes, nos torna mais sábios. Porque o excesso de convicção é parente das certezas absolutas, que estão a um pulo do fanatismo. E o fanatismo, bem, o fanatismo é burro.

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Do que existe por trás de um hambúrguer

Para pegar na locadora: NAÇÃO FAST FOOD (Fast Food Nation)

Nota 8

fastfood

O que há por trás de um hambúrguer?

Segundo o filme, que foi baseado em um best-seller homônimo de 2001, muita coisa ruim. De imigrantes ilegais a abatedouros pouco higiênicos a sistemas de produção chaplianos em que pernas e braços são cortados a todo momento a uso indiscriminado de anfetaminas para conseguir suportar a jornada exaustiva a adolescentes despreparados e porcos trabalhando nas lanchonetes a milhões investidos em marketing pesado.

Tudo isso levando outros milhões de consumidores a comer, inadvertidamente, cocô de boi misturado à carne (e uma pitada de cuspe).

O relato, forte, tem o grande mérito de ser permeado por ótimos personagens, com histórias pessoais boas e interpretados por atores de qualidade. Do contrário, o filme teria virado um documentário chatíssimo, a que ninguém conseguiria assistir — exceto os ativistas do vegetarianismo e afins.

Mas lá existe o diretor de marketing, interpretado por Greg Kinnear, que, como nós, espectadores, vai se surpreendendo a cada instante com as revelações que descobre — e tem sérias dúvidas éticas sobre como proceder a partir dessas revelações. E lá está a adolescente (Ashley Johnson) que precisa ajudar a mãe nas contas e foi trabalhar em uma grande rede de fast food, na mesma fase da vida em que está desenvolvendo seu senso político e sua natural vontade de mudar o mundo. Por fim, lá estão o trio de mexicanos, que quase morreram de sede atravessando o deserto para ganhar mais dinheiro em uma vida com qualidade duvidosa. São interpretados pelos ótimos Ana Claudia Talancón, Catalina Moreno e Wilmer Valderrama. E, além desses, temos personagens secundários muito interessantes na pele de atores como Bruce Willis, Ethan Hawke, Kris Kristofferson e Patricia Arquette. Todos (eles e nós) acomodados em um sistema onde há mais culpados que vítimas.

Temos aí um enredo de documentário, supostamente real, construído a partir de belos personagens, sob a batuta do diretor Richard Linklater, de Escola de Rock. Um filme bom para fazer pensar e, ao mesmo tempo, divertir, como nas cenas da limpeza de ratos e do ativismo dos adolescentes. Se vou deixar de comer carne depois de assisti-lo? Acho difícil. Mas é, sem dúvida, um argumento a mais para quem estiver repensando a dieta carnívora.