O bacon e o brócolis: o que mata mais?

Foto: Dennis Brown e Quadell / Wikipédia

Foto: Dennis Brown e Quadell / Wikipédia

Começo o post com esta anedota/provocação de Roberto Takata:

“Você viu? Embutidos causam câncer.”
“Pois é.”
“Vou trocar bacon por brócolis.”
“Mas você viu? Brócolis está contaminado por agrotóxicos.”
“Hmmm. Vou comprar orgânico.”
“Mas você viu? Orgânicos desmatam mais.”
“Ok, bacon, você venceu.”

Para quem não pegou o espírito da coisa, vale a pena ler a explicação do próprio Takata, AQUI.

Ainda sobre esse assunto, o cientista Roberto Takata, que tem um livro disponível para download aqui na Biblioteca do Blog, fez um trabalho muito bacana, em seu blog Gene Repórter, de “traduzir” para os leigos o documento da Agência Internacional de Pesquisa do Câncer, ligada à OMS, por meio de perguntas e respostas. CLIQUE AQUI para ler, imperdível!

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Para uns, para outros e para mim

Laerte de 23/6/2013.

Laerte de 23/6/2013.

Para uns, a Terra nunca esteve tão quente e o ano de 2013 está entre os mais quentes da História. Para parte desses, é culpa direta dos homens o avanço da temperatura do planeta, que levará a desastres e catástrofes naturais já em curso. Para outros ainda, há, na verdade, um esfriamento da Terra e o aquecimento global é um terrorismo infundado, patrocinado por grandes interesses econômicos. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, é irrefutável a existência de um deus supremo, bondoso, piedoso, capaz de perdoar pecados gravíssimos cometidos na Terra, desde que devidamente penitenciados, e há a perspectiva de um paraíso após esta vida terrena. Para outros, não há vida eterna, mas um constante renascimento e morte, através de reencarnações, em que as pessoas atingem estágios espirituais em constante evolução. Para outros, existem múltiplos deuses, cada qual com seu poder específico diante da vida. Para outros ainda, não existe nenhum, e a vida é só esta, e, quando acabar, juntaremo-nos ao pó do restante do universo. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

Para uns, comer carne é algo natural desde o início da humanidade, que foi se aprimorando com o tempo, com a melhoria das técnicas de caça e de cozimento, e, por serem muito mais ricas em nutrientes e calorias, o maior consumo de carnes tem proporção direta com a expansão evolutiva do cérebro humano ao longo dos milênios. Para outros, os animais sofrem e não devem ser abatidos para matar a fome dos humanos, porque isso é cruel. Para outros ainda, até as plantas têm sentimentos e algumas são capazes de crescer com mais vigor quando num ambiente cheio de música, por exemplo, portanto tampouco deveriam ser mortas para saciar a fome de alguém. (E há os que não sabem no que acreditam, ou não acham nada).

E assim por diante.

Uma coisa eu aprendi nesses anos de vida. Que devemos respeitar os pontos de vista do outro, principalmente quando estamos tratando de assuntos ainda não consolidados pelo conhecimento humano. Assuntos que são embasados apenas por hipóteses refutáveis ou contestáveis, ou que passam pelo campo da fé. Eu respeito o vegetariano, o vegano, o evangélico, o ateu, o espírita, os acadêmicos de várias linhas. O que não respeito é quem se acha superior ao outro apenas por ter uma visão diferente dele.

Acho que a sabedoria não está em acumularmos certezas e convicções, mas em convivermos bem com nossas dúvidas. É muito legal ter convicções sobre algumas coisas, é um chão. Há assuntos sobre os quais chega a ser esperado que essas convicções existam. Espera-se que estejamos convictos de que é melhor procurar viver num estado de felicidade do que de depressão. Temos convicções de que não é razoável matar alguém, nem roubar sem qualquer necessidade. Algumas convicções ajudam a moldar nosso caráter, nossa personalidade. Mas é a dúvida que, na maioria das vezes, nos torna mais sábios. Porque o excesso de convicção é parente das certezas absolutas, que estão a um pulo do fanatismo. E o fanatismo, bem, o fanatismo é burro.

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Do que existe por trás de um hambúrguer

Para pegar na locadora: NAÇÃO FAST FOOD (Fast Food Nation)

Nota 8

fastfood

O que há por trás de um hambúrguer?

Segundo o filme, que foi baseado em um best-seller homônimo de 2001, muita coisa ruim. De imigrantes ilegais a abatedouros pouco higiênicos a sistemas de produção chaplianos em que pernas e braços são cortados a todo momento a uso indiscriminado de anfetaminas para conseguir suportar a jornada exaustiva a adolescentes despreparados e porcos trabalhando nas lanchonetes a milhões investidos em marketing pesado.

Tudo isso levando outros milhões de consumidores a comer, inadvertidamente, cocô de boi misturado à carne (e uma pitada de cuspe).

O relato, forte, tem o grande mérito de ser permeado por ótimos personagens, com histórias pessoais boas e interpretados por atores de qualidade. Do contrário, o filme teria virado um documentário chatíssimo, a que ninguém conseguiria assistir — exceto os ativistas do vegetarianismo e afins.

Mas lá existe o diretor de marketing, interpretado por Greg Kinnear, que, como nós, espectadores, vai se surpreendendo a cada instante com as revelações que descobre — e tem sérias dúvidas éticas sobre como proceder a partir dessas revelações. E lá está a adolescente (Ashley Johnson) que precisa ajudar a mãe nas contas e foi trabalhar em uma grande rede de fast food, na mesma fase da vida em que está desenvolvendo seu senso político e sua natural vontade de mudar o mundo. Por fim, lá estão o trio de mexicanos, que quase morreram de sede atravessando o deserto para ganhar mais dinheiro em uma vida com qualidade duvidosa. São interpretados pelos ótimos Ana Claudia Talancón, Catalina Moreno e Wilmer Valderrama. E, além desses, temos personagens secundários muito interessantes na pele de atores como Bruce Willis, Ethan Hawke, Kris Kristofferson e Patricia Arquette. Todos (eles e nós) acomodados em um sistema onde há mais culpados que vítimas.

Temos aí um enredo de documentário, supostamente real, construído a partir de belos personagens, sob a batuta do diretor Richard Linklater, de Escola de Rock. Um filme bom para fazer pensar e, ao mesmo tempo, divertir, como nas cenas da limpeza de ratos e do ativismo dos adolescentes. Se vou deixar de comer carne depois de assisti-lo? Acho difícil. Mas é, sem dúvida, um argumento a mais para quem estiver repensando a dieta carnívora.