Contribuição de leitor: ‘A Morte do Escritor’

O conto a seguir foi enviado pelo escritor Junior Salvador, que acaba de lançar o livro Vidas Breves. Se você curtir o texto abaixo, que está presente no livro, pode ler mais do mesmo autor, clicando AQUI. Você também escreve contos, crônicas, poemas, resenhas, análises…? Envie para meu e-mail e seu texto poderá ser publicado aqui no blog, na seção de textos enviados pelos leitores 😉

 

“Nesta madrugada fui acometido do pior dos males: solidão. No quarto escuro, sentado diante de meu laptop, ouvia apenas o soprar do vento, lentamente chocando-se contra as paredes frias. Na tela resplandecia a ausência completa de tudo, estava vazia como os cômodos da casa. O ar gélido que entrava por debaixo da porta fazia com que meus pés congelassem. Sentei-me para escrever por volta das vinte e três horas. A tela continuava em branco às cinco e meia. Após iniciar, apagar e reescrever várias histórias, saí do meu estado de transe quando o sol da manhã apontou no horizonte e sua luz bateu contra a janela entreaberta, refletindo nas arestas da persiana.

A luz teimava em entrar pelas frestas e pequenos feixes cortavam a escuridão da madrugada solitária que se esvaía. Era possível ver a poeira dispersa no ar. Quando respirava, acontecia uma revolução no espaço. As partículas moviam-se desvairadas, uma ao encontro das outras, depois tudo se acalmava. Passei algum tempo brincando com a poeira, passando meus dedos pelo feixe de luz, apenas para ver como os grãos reagiriam ao movimento do ar. Na minha cabeça, a lembrança dela começava a ficar ainda mais forte.

Não se podia ouvir nenhum barulho. Do chão emanava tristeza. O pequeno cão na entrada não latia mais. O som abafado das minhas lamentações não era suficiente para quebrar o silêncio. As lamúrias de minha vida triste incomodavam. Senti-me um idiota. Meu coração só alcançava alento ao me recordar dela. Depois vinha a tristeza, e a lembrança de que, a mim, ela só pertencia agora no mundo da fantasia.

Ao passo que as horas foram progredindo, o sentimento de isolamento aumentou. Eu me sentia cada vez mais distante da vida de escritor. A vida solitária em um casa de três cômodos pode ser bastante interessante, no entanto, não ter alguém para confessar suas tristezas, seus medos, e principalmente seus amores, pode causar muito mal. Eu não tinha certeza dos sentimentos dela para comigo, mas sabia que ela conhecia o quanto eu a apreciava. Agora, que ela se foi, imagino se poderia ter feito algo diferente para mantê-la por perto. Mas todos estes pensamentos agora são inócuos. Estamos eternamente separados. Ainda a amo, mas é tarde. Naquela manhã solitária, diante da tela sem letras, adormeci com os braços sobre o teclado, entre rascunhos espalhados e roupas amarrotadas.

Meu sono foi conturbado durante aquele cochilo. Sonhei com um lindo caminho circundado de rosas brancas. Lembrei-me do significado que elas tinham em muitas culturas e senti a morte se aproximando. Antes que pudesse pensar em outra coisa, ela saiu dentre as rosas; seu rosto tinha uma cor branca, pálida, artificial como a pintura do circo. Sua beleza optava por esconder-se sob as vestes circenses, mas a máscara era insuficiente. Mesmo sob a tinta, seus olhos demonstravam a alegria de seu íntimo; seu sorriso era luz; seu andar era poesia. Um ente de puro júbilo encenando um drama pueril. A lágrima desenhada sutilmente em sua face não era suficiente para ocultar aquele encanto latente. O brilho de seus olhos iluminava tudo. Em minha direção, o fogo da vida saltava dos olhos da morte. O mundo era, naquele momento, muito mais belo. Ela correu pelo caminho e, em um salto, lançou-se novamente entre as rosas. Acordei.

Na manhã seguinte, após o ritual matinal de alimentação, pus-me a caminhar. Necessitava de ar. Com passos curtos cheguei ao jardim das rosas, localizado na entrada do parque ecológico, ao lado de uma macieira que nunca produziu um único fruto. Lembrei-me de meu sonho; por um instante, quis que a morte saísse dentre os arbustos com aquela roupa circense e deixasse que o fogo de seus olhos consumisse aquela minha indolência de viver.  Ela não saiu. Por um instante pensei que pudesse estar sendo infiel à minha amada. No entanto ela me abandonara na última noite sem dizer qualquer coisa. Deixara-me sozinho naquele quarto escuro, sem demonstrar qualquer preocupação com meu bem estar. Pensei nela; na morte; na vida.

Continuei o caminho, observando as folhas que caíam das árvores e dançavam suavemente sob a força do vento frio, bailando de um lado para outro, em um ritmo ameno. O outono tinha ares de inverno e, por mais que o chão estivesse coberto de folhas vermelhas, sentia que poderia nevar a qualquer momento. Cheguei ao rio que atravessava o parque, aonde minha amada sempre vinha me visitar. Suas águas estavam agitadas. Subi até a ponte que servia de passagem de uma margem à outra. Parei por um momento bem no meio do caminho. O medo percorreu meu corpo quando experimentei o receio da morte olhando para aquelas águas. Por um instante acreditei ter visto, dentro da água, uma bela jovem de pele branca e sorriso encantador. Era ilusão. Apesar da decepção, senti que, naquele rio, estava o destino do sentimento que me asfixiava.

Permaneci naquele local por vários minutos, observando os pequenos animais a saciar sua sede à margem. Um cão de cor amarelada enfiava o rosto na água com uma aparência delirante, voltava-se para trás e caía-se até que o corpo estivesse completamente submerso, num estranho movimento repetido por várias vezes. Em uma delas, ele submergiu e não retornou mais. Fixei meus olhos até onde minha vista alcançava, buscando uma manifestação daquele pequeno animal. Nada encontrei. Já estava cansado de aguardar algum sinal de vida naquelas águas, então seu corpo imergiu e pairou sobre a água. A correnteza o levou rapidamente. Pude perceber, apenas, que estava morto. No mesmo momento corri para casa.

Pus-me diante do laptop acreditando que pudesse ter achado graça aos olhos dela. Ainda que não a tivesse visto, aquele cão poderia ter sido uma mensagem. A fragilidade da vida daquele animal poderia demonstrar o que se pode aprender durante a vida e como tudo é efêmero. Haveria outra ideia. Poderia narrar uma tragédia sem fim, a qual culminaria em um afogamento do herói, lutando por amor; ou ainda, um naufrágio poderia dar início à uma grande aventura pautada na redenção. Permaneci por vários minutos ali, mas a tela continuou em branco. Desisti de escrever qualquer coisa.

Durante toda minha vida, aprendi que sempre podia encontrá-la naquele parque. Muitas vezes a vi durante as tardes, passeando em torno da água e sentando-se sobre as pedras. Faltava pouco para o meio dia, era necessário apressar-me, pois ela sempre chegava quando ao sol estava prestes a se por. Separei duas pequenas cadernetas, daquelas bem simples, que servem para anotações diversas. As melhores ideias costumam surgir quando a gente menos imagina, por isso é importante estar sempre preparado para anotar todos os detalhes, em todos os momentos.

Era a hora do almoço, mas não tinha fome, só um sentimento me impulsionava: a falta que sentia dela. No meu estômago revirado uma íntima excitação de poder encontrá-la novamente. Já havíamos nos separado algumas vezes, mas em nenhuma delas eu tinha a sensação de que seria definitivo, como agora. Era preciso que nosso reencontro fosse melhor do que nas vezes anteriores. Tinha de ser especial. Nos últimos tempos agimos de forma praticamente protocolar em todas as vezes que nos encontramos. Era preciso que algo diferente acontecesse. Eu não sabia o que seria da minha vida sem ela. Na verdade, ainda não sei o que farei.

Os pensamentos fervilhavam na minha mente e, para tentar acalmar-me um pouco, resolvi tomar um banho demorado. A ducha de água morna não me incomodou tanto, apesar do frio. Na verdade, aquele pequeno sofrimento que me submetia, enquanto a água fria descia pelas costas, servia-me como combustível para não deixar a coragem ruir. Mantê-la junto de mim nunca fora uma tarefa fácil. Recuperar seu afeto seria algo muito mais difícil.

Enquanto a água batia no meu rosto, lembrei-me de todas as vezes que me aproximara dela, que com um ar superior me olhava e sorria. Às vezes, quando lhe enviava um cumprimento, acenava simpaticamente. Eu ria e sentia-me bobo. Por um momento acreditava ser um rei, mas logo ela seguia seu caminho, deixando-me só com os sentimentos de grandeza. Não que me ignorasse, mas quando eu estava com ela, faltavam-me as palavras. Era a pior coisa que podia acontecer com um escritor. Não havia maneira de me fazer agir normalmente frente à dona do meu coração. Como poderia falar de coisas banais quando ela estava por perto?  Como poderia dizer qualquer coisa, sendo minha mente habitada pelo medo de que ela me achasse demasiado tolo? Eu permanecia inerte. Eu apenas a amava. Mas esse amor não era suficiente, nem resultava em grandes textos em homenagem a sua beleza. Meu amor era inócuo; vazio de sentimentos como o manual de instruções de uma máquina de lavar louças; insípido como o solado de um chinelo; insosso.

Saí apressado do banho e dirigi-me ao guarda-roupa. O que vestir? O que usar na presença dela? Não me senti bem com as escolhas, então optei por um conjunto de roupas pretas. Sapato, calça, camisa, todos sem vida, como meu coração sem ela. O tempo em frente ao espelho não foi mais proveitoso, fiz diversas expressões buscando uma que pudesse agradá-la. Não encontrei. Nada em mim poderia agradar-lhe se ela não quisesse permanecer comigo. Após anos de relação fria, não poderia querer muito mais dela. Até mesmo porque, eu carecia de sua presença, mas era completamente desnecessário para ela.

Pensei por um momento que, talvez, ela pudesse ter encontrado alguém mais talentoso. Um novo amor que soubesse valorizá-la como ela merecia. Sei que durante muito tempo ela apostou em mim, entretanto, eu não podia negar que nossa relação se esfriara de tal maneira nos últimos tempos, que não havia como se ter certeza de nada. Penteei o cabelo tentando parecer charmoso. Vi que longos fios brancos deslizavam pelas laterais da cabeça. Sorri pensando nos bons anos que vivemos juntos, ela e eu, e em como a vida seria diferente se tudo caminhasse mal.

No caminho para o parque senti como se minha coragem estivesse sumindo, esvaziando meu peito. Mas não. Desta vez não permiti que aquela dúvida infame me fizesse desistir. Corri desesperadamente imaginando o momento do encontro, o momento de dizer o quanto a amava, pelo que vivia e quanto valorizava sua presença todos os dias. Era a hora certa para dizer que não viveria sem ela. Aquela ansiedade começou a me consumir de tal maneira que a saliva da boca secou, os olhos passaram a lacrimejar e um nó imaginário formou-se na garganta, engasgando a ponta dos dedos e a tinta da caneta.

Cheguei ao rio. Ela estava sobre as pedras olhando para a água, pensando em alguma coisa que eu não podia sequer imaginar o que era. Como minha posição era privilegiada, podia visualizá-la sem ser visto, artimanha que aprendi após algum tempo de observação. Vi seu rosto, mesmo ao longe, e ele era maravilhosamente belo. Nem mesmo se eu utilizasse todas as palavras do mundo, não poderia lhe fazer jus. Mais uma vez peco aqui, por não ter as palavras. Atormentava-me a ideia de que isso se repetiria daqui para frente. Ter os sentimentos, conhecer as ideias, imaginar o começo, o meio e o fim, entretanto, não ter as palavras necessárias para transmitir tudo. Um escritor sem as palavras é como um músico sem o instrumento ou um pintor sem a tinta. As outras coisas de nada me adiantavam. Eu precisava das palavras, dos vocábulos, versos, letras e expressões que só ela poderia me dar.

Quando finalmente consegui chegar bem perto, ela estranhamente não demonstrou surpresa. Parecia esperar por mim. Minha coragem ruiu ante aquele sorriso escorpiano. Minhas pernas paralisaram, meu coração batia pouco, o mundo acontecia em câmera lenta. Meu Deus, por que eu tinha de amá-la tanto? E por qual motivo necessitava tanto de seu apoio? Com gotas de suor transparecendo meu nervosismo, acenei com a cabeça de modo afirmativo, recebendo apenas um sorriso enigmático como resposta. Fiquei ainda mais nervoso.

Durante algum tempo permaneci em silêncio. Depois de alguns minutos calados, começamos um diálogo mudo envolvendo coisas supérfluas. O tempo, trabalho, vida, tudo me parecia extremamente banal, mas por se tratar dela, cada ideia jogada ao vento, cada palavra boba e desnecessária, assumia uma incrível importância. Seus olhos brilhavam como nos meus sonhos. Contemplei aquela maravilhosa visão por vários minutos em silêncio. Ela me olhava e ria. Estava diferente das outras vezes.

Calados, observamos um ao outro, analisamos nossas posturas. Comecei a atirar pedras no rio. Quando dei por mim, estava com uma das cadernetas na mão, escrevendo coisas sem sentido, poesias sem ritmo e contos sem razão. Um ar estranho cobriu todo o local e a caneta deslizava cada vez com mais dificuldade no papel. Não sabia o que escrever. Meu coração estava angustiado, mas permaneci quieto. A tinta não expressava nada. Ela estava ali, diante de meus olhos, mas a única coisa que eu sentia era que minha coragem se esvaia com o passar do tempo.

Imaginei que ela tinha uma voz doce e, em tom sublime, contava-me sobre seu passado. A respeito de uma vida em um lugar muito maior que aquele no qual vivo hoje; mais desenvolvido; mais alegre; mais real. Disse-me que adorava teatro. Lembrei-me que ela parecia ter algo que meus amigos diziam ser indispensável a uma mulher: tinha o tempo certo para a comédia. Infelizmente, não pude mais assistir àquele espetáculo por muito mais tempo.

Lembrei-me dos companheiros e seus conselhos, de todas as vezes que incentivaram para me entregar por completo a ela. No entanto eu, definitivamente, não tinha este dom. Sempre vinha cheio de ímpeto, confiante de que tudo sairia como eu planejava, mas, com o passar do tempo, esmorecia. Eu só saberia que não era um dia como os outros algum tempo depois. Aos poucos, comecei a escrever novamente, enquanto olhava para ela. Escrevi sobre o porquê de estar completamente vestido com roupas pretas, tentando criar motivos, justificativas e nuances artísticos. Consegui apenas arrancar a folha de papel e amassá-la entre os dedos.

Ela me olhou com certa surpresa e imaginei que pudesse estar sendo demasiadamente rude. Todavia, acostumei-me com o fato de não conseguir dizer o que sentia. Como diria que a roupa foi escolhida a dedo para a possibilidade de encontrá-la? E como diria que a vestimenta nada importava, pois só ela tinha importância? Sentia-me mal, na presença dela. Senti que ela desprezava minha falta de carinho e tinha asco de minha cobardia imberbe. Mais ainda, percebi o quanto estava sendo vazio no que tentava dizer, o que, para um escritor, era um pecado sem volta.

Já era tarde quando ela começou a cantar. Uma melodia tão graciosa que fez com que todos os rouxinóis se calassem para ouvi-la. Algo tão belo que até mesmo o vento parou de soprar, deixando que aquele som tomasse conta de todo o ambiente. A canção era tão avassaladora que o rio diminuiu sua marcha, para não atrapalhar quem desejava ouvir a canção com seu fluxo modorrento. Não havia nada além daquele timbre angelical. Foi a última vez que nos sentimos conectados.

Aquela música tocou fundo em minha alma e senti que meus pés saíam do chão. Não que estivesse a voar, mas a sensação era tão libertadora, que fechei meus olhos e abri meus braços, buscando sentir o ar por debaixo das axilas. Era como se a gravidade houvesse deixado de existir. Ela alcançou uma nota mais alta, de modo que pude sentir meus ossos tremendo. A canção do adeus era tão intensa que todas as lembranças foram arrastadas para um canto desleixado da memória. Aquilo tinha de permanecer na minha mente o máximo de tempo possível.

Estava perdido em meio aquele momento indescritível quando, de repente, comecei a ouvir o som da água do rio batendo nas pedras. A luz do sol poente bateu em meu rosto e, mesmo com os olhos fechados, pude ver a luz. Os rouxinóis bateram asas e saíram voando por entre as árvores. O canto dos pássaros podia ser ouvido novamente. Demorei alguns segundos para me dar conta de que a voz dela havia desaparecido. Quando abri os olhos, ela não estava mais ali.

A luz do sol poente batia contra a água, dando-lhe uma cor avermelhada. Meu rosto sem expressão procurava por ela em todos os lugares. Não havia mais nada. Demorei em entender que ela tinha me abandonado por completo. Amaldiçoei o momento em que aquilo ocorreu. Havia um futuro para mim, mas era um destino sem versos, palavras, letras ou expressões.  O acaso me levara à arte da escrita, uma casualidade pôs fim a toda uma vida dedicada à caneta e ao papel.

Apesar de toda a tristeza, entretanto, não consegui me mover. Minha vontade era de correr para casa e começar a escrever da mesma forma que fizera no início da minha carreira, mas algo ainda me prendia naquele lugar. Peguei novamente a caderneta e comecei a rabiscar algumas coisas. Fiz o desenho do pôr-do-sol e pintei o céu com a caneta azul. Escrevi três versos de amor e um pedido de desculpas. Fiz um bilhete para um amigo; escrevi um poema com três linhas.

Permaneci durante toda a noite olhando em direção ao rio. As águas límpidas tornaram-se escuras como carvão e o som dos rouxinóis deu lugar ao coaxar dos sapos. Durante a noite, o vento frio batia contra meu rosto e o orvalho caia do céu de forma tão veemente que meus cabelos ficaram úmidos. O céu estava limpo como nunca e a lua brilhava intensa entre as estrelas. Sentei-me naquela pedra, aquela na qual ela sempre ficava, e continuei olhando o rio. Durante a noite, às vezes abria a boca lentamente e assoprava devagar, para que o ar aquecido de meus pulmões pudesse entrar em contato com o ar frio e as partículas pudessem flutuar com espaço, formando aquele vapor condensado tão bonito de se ver.

Na manhã seguinte, continuava parado olhando para o rio quando os primeiros raios de sol atingiram minha nuca e eu finalmente entendi o que se passara. Acordei daquele sonho sem sono e corri para casa, pegando as primeiras folhas de papel que encontrei. Comecei a escrever desesperadamente, com medo de perder o último presente que ela ainda me deixara. Não comi; não bebi. Apenas comecei a escrever até que meus dedos criassem calos e que o papel ficasse totalmente desforme. Enquanto escrevo as últimas linhas desta página, sinto que a pele entre o indicador e o dedo médio já se fora, e a carne viva luta para me impedir de chegar ao fim.

Não importa! Nada pode me impedir de lhes contar o que aconteceu. Vivi um amor que nunca esquecerei. Algo que, de tão incrível, achei que duraria para sempre. Foram muitos livros escritos, alguns romances, uma infinidade de contos e algumas pobres poesias, as quais eu escrevia, quase sempre, sem a presença dela. Dizem que o trabalho de um escritor é dez por cento inspiração e noventa por cento transpiração. Que me perdoem os trabalhadores da caneta e do papel, mas nesse caso, como em muitos outros, como diz Antoine de Saint Exupery, o essencial é invisível aos olhos.

Ninguém diga, entretanto, que desperdicei aquela paixão. Fiz o que pude para que ficássemos juntos para todo o sempre. Quando ela me deixou senti um vazio profundo. Um vácuo infinito que consumia toda a luz ao derredor, com uma fome tão feroz quanto a de um buraco negro, engolindo a luz de uma supernova. Mas a decisão não cabia a mim. Fiz o que pude para engrandecer nossa relação e valorizar a presença dela, com o melhor trabalho possível.

Ficam aqui, então, minhas últimas palavras. O último relato de uma vida dedicada ao texto e ao subtexto; ao contexto, ao argumento e à escrita. Essa é a história do último dia em que a vi e do meu último impulso para escrever. O conto mais intermitente a respeito do dia em que ela visitou-me pela derradeira vez, com suas roupas bonitas, seu rosto marcante e sua voz encantadora. A história perfeita, do dia em que fechei os olhos acreditando que estava em puro êxtase, e deixei que as águas do rio levassem-na de mim. O dia em que a inspiração me deixou. O dia em que o escritor dentro de mim morreu.”

 

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