Contribuição de leitor: ‘Santiago Fumegante’

Hoje publico aqui no blog um segundo conto enviado pelo escritor pernambucano Nuno Kembali, 55. Ele é autor das novelas “O Matagal ou o vão combate é mais embaixo” e “Rota 12: sobre jaguaretês e outros bichos no diadema do tempo”, com playlists disponíveis no Spotify. Quem quiser saber mais sobre o Nuno pode encontrá-lo no Facebook e no Wattpad. O outro conto que postei no blog, “Eu Vi”, é sensacional, CLIQUE AQUI para ler de novo. Agora trago o conto “Santiago Fumegante”:

 

Livro de contos de Kembali

“Era verão em Santiago. Fazia sol até quase as dez da noite. Ou seria da tarde? Durante todo o dia as pessoas paravam com freqüência nas sorveterias dispostas nas ruas. Helados, helados e mais helados. Café quente só se fosse depois das dez. Apareceu repentinamente uma fumaça que se espalhou por todo o Chile e gerou especulações sobre a sua origem. A cordilheira, ali perto, não teria permitido que o humo se dissipasse, o que aumentava a sensação de calor. Para um país que tem temperaturas mais para amenas que calorentas durante a maior parte do ano era duro conviver com aquele clima.

– Está decidido…

– Que?

– É que tu me matas de calor por dentro.

– Depois de um mês? Isso é novidade para mim nesses tempos líquidos.

Javier olhou outra vez para Miguel com cara de desconsolo, mas a verdade é que ele já se acostumava ao humor daquele rapaz que a cada dia golpeava o seu coração. Ainda hão de descobrir o que provocou tanto incêndio.

– Está decidido. Vou me casar contigo na escadaria do cerro Santa Lucía, com os convidados se espremendo pelas ruas ao lado. Depois nos mudamos para Valparaíso.

– A escadaria está aprovada, mas para que casar? E eu não saio de Santiago por nada.

Javier franziu a testa e os olhos diante da contradição embutida no pensamento de Miguel, mas se fez de desentendido, balançou os cabelos e seguiu de mãos dadas com o novio pelo caminho dos cafés da avenida Libertador.

 

O som no bar do térreo da galeria Radicales tocava o Nirvana com come as you are. Bloody Mary e cerveja, miradas maliciosas, os dedos das mãos se tocando vez por outra por cima e por baixo da mesa. O dono da lojinha que vende sementes de maconha para coleção passou apressado e saudou os rapazes que com alguma freqüência compareciam ao seu estabelecimento, situado logo na entrada da galeria. Desde que a maconha foi legalizada no país para fins terapêuticos e recreativos, em quantidades razoáveis, era possível adquirir sementes e plantar em casa. Duas ou três plantinhas, no pasaba nada de nada, nadinha… As meninas davam uma alegria especial aos lares chilenos naquele verão. E além do mais, tinha que ser muito bebum para se embriagar com uma maconhinha consumida de vez em quando.

 

Mercedes havia chegado recentemente de umas curtas férias no Brasil. Sim, ela sabia por cierto que o Brasil era bem maior que o Rio e São Paulo, mas foi para o Rio de Janeiro que ela arrumou as malas no final do ano. Adorou ver todas aquelas pessoas vestidas de branco para o reveillon nas areias da praia de Copacabana e ouvir o português melodioso dos cariocas.

– Copa… é assim que dizem e eu repito con gusto.

Adorou também passar um par de horas virando de um lado e do outro, como se fosse uma sardinha na brasa, para dourar a pele diante do Atlântico.

– Ah, el Atlántico. Me senti como uma negrita brasileira, daquelas lindas que passavam a todo momento me causando envidia. Como eu queria ter uma pele daquelas? Dios mio.

– Eu já me contentava em levar um negrito para o quarto do hotel – disse Carmen, a amiga que lhe visitava naquele fim de tarde.

Com a ajuda da amiga, Mercedes fazia uma salada e um prato que levava zapallo e carne para comerem com pão italiano e vinho. Na sala do apartamento com uma cozinha americana no meio entrava um raio de sol que se recusava a lhes deixar.

– Me muerro com este calor, mas adoro. Como no Rio, mas já já baixa um pouco a temperatura e isso também me gusta.

Numa das janelas da sala tomavam sol três plantinhas que estavam se sentindo cariocas na praia, felizes como só elas. As marias-joanas precisavam de luz para crescer e por isso na casa de Mercedes todos se preocupavam em lhes dar a melhor posição para receberem o sol. Equivalia a uma virada de corpo para o bronzeamento nas praias brasileiras.

– Cachai?

O anglicismo cachai é dito por um chileno com mais freqüência que bom dia, boa tarde e boa noite.

– Cachai?

– Cachai?

– Cachai?

Cachai com zapallo, pizza, ricas empanadas solo hechas en Chile, com ou sem pimenta. Cachai no cinema, na biblioteca, na escola, no conserto do notebook. Nos concertos de rock, então… Percebe, não. Te entendo ou não te entendo, não. Cachai?

– Os brasileiros não dizem facebook como todo mundo no universo, eles dizem facebooki? E também bluetoothi. Que risa! – falou Mercedes, rindo.

– Também quero dizer facebooki e bluetoothi com um negrito em minha cama.

– Quero voltar lá em breve. Se queres vamos juntas.

A porta se abriu e entraram efusivos Miguel e Javier para os beijos e abraços nas duas mulheres. Mamá Mercedes deu um abraço carinhoso no genro, como costumam fazer as mães com os genros  e as noras quando desejam que seus filhos sejam felizes.

– E qual é a dúvida? Por que não se casam? – perguntou Carmen.

– Miguel acha que sou apressado, temos mais o que fazer antes, carreira para estabilizar, etc etc.

– E eu que sou doidinho.

– Um apressado e um doidinho que até trocam as escovas de dentes, que eu vi. Ah, eu vi.

– Teu filho quer se casar comigo na escadaria do cerro Santa Lucía.

Ao ouvir aquelas palavras Mercedes encheu os olhos de alegria e se colocou à disposição para ajudar nos preparativos para o matrimônio. Aquela mulher alta de cabelos que começavam a grisalhar e que a mantinham cada vez mais bela pareceu dançar ao fazer movimentos com o corpo para descrever o que via diante da ideia de um matrimonio na escadaria do cerro Santa Lucía. Tinha que ser algo espetacular como ela gostava.

– Não se preocupem com a decoração. Se estiverem de acordo, confecciono um arco monumental para a subida da escadaria. Sabe aqueles arcos imensos que se colocam em cerimônias matrimonais? É deles mesmo. Com flores nas cores branca, vermelha, amarela, rosa, lilás, nas cores que vocês quiserem. Até mando pintar as flores que por acaso não encontremos.

– Pronto, ganhastes uma aliada.

– Quando queiram cheguem na floricultura para escolher o que mais vão querer, mas o arco monumental deixem comigo. Imaginem os carros passando nos dois lados do cerro Santa Lucía e os partidários de Pinochet, que ainda existem e são muitos, escandalizados com o que vêem. Essa boda vai ser épica em Santiago. Vocês não perdem por esperar. E trate de falar com seu pai para lhe dar um presente bom, como uma lua-de-mel no Caribe. Lembre a ele que a nossa foi na Riviera Francesa. Veja se aquele sovina se coça.

– Podíamos também contratar uma charanga para tocar na entrada – falou Miguel entre a broma e o desejo.

– Ele aceitou! – aproveitou Javier, jogando-se no pescoço de Miguel e lhe enchendo de beijos e carícias até que o nubente caísse do banquinho em que sentava, com cócegas.

– Comam este zapallo que está uma delicia. Amanhã tem mais. Saio para o La Vega temprano.

– Javier fica dormindo e vamos juntos, mas só se for depois das nove.

– Mi amor, às nove eu quero estar de volta.

 

No mercado La Vega Mercedes fez a feira de frutas e verduras e partiu para as especiarias, onde os cheiros são um convite à permanência.

– Vou levar um pouco de merkén para colocar no… não sei bem o que vou fazer amanhã, mas certamente vou usar merkén.

 Enquanto o vendedor pesava o condimento apimentado que servia para colocar em quase todo prato chileno, Miguel lembrou de convidar a sogra para uma saída ao museu.

– Eu acertei de visitar a mãe de Carmen, que está muito velhinha e enferma. É o nosso destino, querido, quando chegar minha vez, não deixem de me visitar.

Combinaram de se encontrar no restô Cañamo no fim da tarde. Ali onde serviam pequenos lanches, cerveja gelada e docinhos a base de marijuana.

– Te envio uma mensagem por celular quando chegarmos por lá.

 

Naquela tarde Miguel e Javier foram ver a exposição de José Pedro Godoy no museu de Belas Artes. Historia violenta y luminosa. Estava linda e provocadora, concordaram. Detiveram-se diante de uma pintura em que dois homens se encaravam, um parecia ser um padre, o outro um jovem noviço. Parecia clara a situação de  subordinação do segundo, mas ficava a dúvida sobre se seria apenas uma reprimenda ou um namoro. Por que a reprimenda? Se fosse um namoro, o que o nutria naquelas condições? Que época estaria ali retratada?

– Século XX, certamente, disse Javier, resoluto.

– Transpassa o tempo, opinou Miguel.

– Seguirá assim?

Em outras peças a abertura à interpretação parecia ser o desejo do artista, para que quem as visse participasse da história narrada. Era de fato bela e violentamente luminosa a história contada por Godoy com tantos homens e mulheres nus, situações de aprisionamento e libertação, subjugação e rebeldia, elementos com os quais se tem feito a história do Chile e da América Latina.

Absortos na tela principal, colocada à entrada da exposição, os rapazes encontraram Mariana, Igor e Renato. Pareciam perscrutar cada pedaço de fogo e água, céu e trevas, ouro e barro.

– Não sei se gostei mais do claro-escuro ou da ousadia do artista –  disse Igor.

– Eu gostei mesmo foi do engaiolado, brincou Mariana.

– Há dois engaiolados e duas gaiolas.

– Os dois, então.

Sentados a uma mesa no café do museu, os amigos ficaram por ali divagando enquanto Mariana aproveitava para paquerar com o dono da cafeteria. Vez por outra lançava-lhe uns olhares irresolutos.

– Eu estou fodida andando com vocês. O cara deve achar que sou da turma e ni me mira.

– Ele vai olhar para mim, quer ver?

– Deixa ele para mim.

– Não briguem que nem começamos a viagem – interrompeu Renato.

Mariana, Igor e Renato estavam com viagem marcada para La Habana, onde passariam duas semanas apreciando as belezas da ilha.

– E que foi feito daquele rapaz por quem você estava apaixonada?

– Virgilio? Eu o dispensei.

– E por que?

– Vou a Cuba, assim eu fico livre e ele também, melhor para os dois. Vemos como fica na volta.

– Vemos como fica na volta, Miguel.

– Aí não tem matrimonio, meu amor, muito menos na escadaria do cerro.

Mariana olhou para os rapazes como quem não entendia aquele foguetório de casamento.

– Por que casar, chicos? Se podem viver juntos pelo tempo que quiserem, sem as amarras do matrimonio.

– Tu não te casas e deixas que quem quiser o faça – respondeu Miguel.

Mais que com o sexo ardente, com aquela resposta Javier percebeu o que lhe incendiava o coração. Os rapazes só saíram dali quando soou o alerta com a mensagem de Mercedes informando que havia chegado ao Cañamo, na Libertador.

 

Enquanto os meninos se sentavam à mesa do restô Cañamo, Mercedes olhou para a escadaria do cerro Santa Lucía e imaginou, sonhou mesmo como ficará aquele ambiente todo iluminado num cair de tarde, a escadaria cheia de flores, o arco monumental a dar o toque de bom gosto, para o casamento do seu filho com Miguel. Será num momento como aquele que ela estará por ali bem nervosa esperando que tudo saia como planejou. Despertou ao receber o alerta de mensagem no celular. Sorriu. Semana que vem receberá em Santiago um negrito brasileiro.”

CLIQUE AQUI para ler a versão ampliada do conto!


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