Ensaio sobre o cemitério do Bonfim e a imortalidade

Recebi o texto abaixo do leitor Régis Clemente Quintão, de 26 anos, belo-horizontino que estuda mestrado em história pela UFMG. Achei muito interessantes as informações que ele trouxe sobre um dos mais tradicionais cemitérios de Belo Horizonte — que é um verdadeiro “museu a céu aberto”. Nunca parei pra pensar sobre o tanto de coisas interessantes que podem ser contadas a partir da história de um cemitério… Me lembrou uma reportagem que fiz, tempos atrás, em outro cemitério histórico, este em São Paulo.

Espero que gostem do texto do Régis também! Boa leitura:

Foto: PBH / Divulgação

Foto: PBH / Divulgação

“Inaugurado há 118 anos, o Cemitério do Bonfim de Belo Horizonte é, hoje, um verdadeiro “museu a céu aberto”. Suas obras arquitetônicas e artísticas são verdadeiros monumentos. Monumentos que, desde a Antiguidade, têm um “sentido funerário destinado a perpetuar a recordação de uma pessoa no domínio em que a memória é particularmente valorizada: a morte”, afirmou o famoso historiador francês Le Goff.

Assim, pode-se notar que o ser humano, além de render culto aos seus mortos, deseja imortalizar, por meio do monumento e da memória, aquele ser que não está mais entre o mundo dos vivos. É interessante observar que esse anseio, respeitante à morte e ao morrer, torna-se patente a partir do século XIX. Não por acaso, o Cemitério do Bonfim fora construído em fins dos Oitocentos.

O século XIX foi considerado o século do culto aos mortos. A morte, a sepultura, o destino da alma, a relação entre os vivos e os mortos eram questões das quais muito se falavam. Nesse contexto, com o desenvolvimento da ciência, da medicalização e das medidas sanitárias, as relações do homem diante da morte tiveram de mudar. Os sepultamentos, que até então eram feitos nas igrejas ou nas suas adjacências, passaram a serem feitos em cemitérios fora do perímetro urbano. E essas questões e mudanças também refletiriam na cidade de Belo Horizonte, que estava sendo construída na última década do sobredito século.

No caso de Belo Horizonte, com a proibição das inumações no adro da Matriz da Boa Viagem, construiu-se um cemitério provisório, em 1894, que se localizava no que hoje corresponde ao cruzamento das ruas Rio de Janeiro, Tupis, Tamoios e São Paulo. E nele se fizeram os enterros até que o cemitério definitivo estivesse pronto. Não demorou muito: o Cemitério Nosso Senhor do Bonfim foi inaugurado no dia 8 de fevereiro de 1897, construído num local conhecido com alto dos “Menezes”, fora do limite urbano e de acordo com as tendências higienistas da época.

Projetado e construído pelos técnicos e engenheiros da Comissão Construtora da Nova Capital, ocupando uma área de aproximadamente 170.036 metros quadrados, o traçado do cemitério combina “com o traçado em tabuleiro de xadrez da capital mineira”, escreveu Marcelina Almeida, que faz visitas guiadas no “campo santo”. E não é somente o traçado que se repetia: as 54 quadras dispostas em alamedas e ruas também reproduziam as hierarquias sociais da cidade. A representação das desigualdades revela-se perante aos grandes e suntuosos túmulos que costumam ficar nas principais quadras, enquanto os túmulos mais simples, de pessoas pobres, ficam nas ruas secundárias e nos limites do cemitério, junto aos muros. É um cemitério que, pode-se dizer, identifica e distingue seus “moradores”.

PBH / Divulgação

PBH / Divulgação

Atualmente, os jazigos monumentais do Cemitério do Bonfim são considerados verdadeiras obras de arte. São obras de arte que têm um sentido: a busca da imortalidade terrena. A esse respeito o historiador português Fernando Catroga nos diz que os cemitérios oitocentistas “acentuaram a monumentalidade funerária ao enfatizarem a memória como um segundo imortalizador”. Desse modo, a monumentalidade, que é muito presente no Cemitério do Bonfim, principalmente nos túmulos de personalidades e de ilustres políticos como Raul Soares e Olegário Maciel, tem esse sentido de memorar e, de certa forma, de imortalizar o falecido.

O surgimento dessa nova afetividade com relação aos mortos está ligado ao que Catroga chamou de o “aumento da incerteza na imortalidade transcendente”, ou seja, na descrença escatológica, que faz com que a atitude do homem mude frente à morte. Com isso, este homem passa a buscar uma imortalidade terrena, materializada nos jazigos, mausoléus, estátuas, fotografias e nas lápides poéticas, que têm um objetivo, por assim dizer, terapêutico, visando, por meio da memória e dos monumentos, superar a perda e imortalizar o ente querido. E, como um alguém que mora longe, vamos ao cemitério visitá-lo.

Sobre a construção de uma “segunda casa”, pode-se ler em Hannah Arendt que os mortais sempre se preocuparam em produzir coisas, sejam obras, feitos ou palavras, que mereciam pertencer à eternidade, de sorte que “os mortais possam encontrar o seu lugar num cosmo onde tudo é imortal, exceto eles próprios”. E seria assim que os homens deixariam seus vestígios “imorredouros”, demonstrando, dessa forma, sua imortalidade, sua natureza divina.

Nesse sentido, a construção de uma “segunda casa” no cemitério pode ser entendida como apenas uma das facetas do ser humano no que diz respeito à produção de obras e feitos. Contudo, Arendt afirma que depois da “queda” do Império Romano ficou claro que nenhuma obra feita por mortais poderia ser imortal. Além disso, com o advento do evangelho cristão, o qual se pautava na eternidade individual, tornou-se “fútil e desnecessária qualquer busca de imortalidade terrena”. Ao contrário do que afirmou a autora, pode-se notar, pelo menos no Cemitério do Bonfim, que a procura da imortalidade ainda está no centro da vita activa, e os túmulos suntuosos não são outra coisa senão essa busca pela imortalidade terrena.

Assim, o Cemitério do Bonfim de Belo Horizonte que quando da sua inauguração representava os anseios modernizantes da cidade e as medidas higienistas da época, tornou-se, como o passar dos anos, um lugar de memória, principalmente em função dos admiráveis túmulos, que visam imortalizar o finado, de modo a apaziguar sua angústia diante do reconhecimento da finitude humana e do insondável desconhecido.”

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