Algumas coisas que aprendi com o Pi

pi

Texto escrito por José de Souza Castro:

Já ouvi praticamente tantas bobagens sobre os zoológicos quanto sobre Deus e a religião. Pessoas bem-intencionadas, mas desinformadas, acham que, na natureza, os bichos são “felizes” porque vivem “livres”. Em geral, essa gente tem em mente algum desses belos e grandes predadores, como um leão ou um guepardo (raramente se exalta a vida de um gnu ou de um aardvark). Todos imaginam o animal selvagem vagando pela savana em passeios digestivos, depois de devorar uma presa que aceita contrita a sua sina, ou fazendo os seus exercícios de corrida para manter a linha depois de exagerar na refeição. Imaginam esse animal de olho na própria cria, orgulhoso e carinhoso, e a família inteira fitando o pôr do sol lá dos galhos das árvores, suspirando de prazer. A seu ver, a vida dos animais selvagens é simples, nobre e significativa. Então, ele é capturado por homens malvados que o atiram em jaulas minúsculas. Acabou-se a tal “felicidade”. Com todas as forças, o bicho deseja recuperar a “liberdade” e faz tudo o que pode para escapar. Depois de um longo tempo privado da sua “liberdade”, torna-se uma sombra de si mesmo, fica literalmente aniquilado. É isso que certas pessoas imaginam.

Mas as coisas não são bem assim.

Na natureza, os bichos levam uma vida de compulsão e necessidade, dentro de uma hierarquia social impiedosa, num habitat em que o medo existe em altíssima escala e a comida é escassa, o território precisa ser constantemente defendido e os parasitas eternamente suportados. Qual o significado da liberdade num contexto como esse? Na prática, os animais não são livres no espaço nem no tempo, e tampouco nas suas relações pessoais. Em teoria – ou seja, como mera possibilidade física –, um animal pode perfeitamente pegar as suas coisas e ir embora, desacatando todas as convenções sociais e os limites da própria espécie. Isso, porém, é muito mais improvável de acontecer que para um membro da nossa espécie.

Se um homem, a mais ousada e inteligente das criaturas, não vai ficar vagando de um lugar a outro, sem conhecer ninguém, sem se ligar a ninguém, por que um animal, que é, por temperamento, muito mais conservador, faria isso? Porque é isso que eles são: conservadores, poderíamos até dizer que são reacionários. A mais ínfima das mudanças é capaz de deixá-los aborrecidos. Na verdade, querem que tudo seja do mesmo jeito, dia após dia, mês após mês. Para eles, surpresas são algo extremamente desagradável. Dá para perceber isso nas suas relações espaciais. Um animal habita o seu espaço, seja num zoológico ou na natureza, do mesmo jeito que as peças de xadrez se movem pelo tabuleiro – de forma significativa. Não existe mais acaso, ou mais “liberdade” no local de moradia de um lagarto, de um urso ou de um veado que na localização de um cavalo no tabuleiro de xadrez. Ambos falam de padrões e de propósitos.

Nem preciso dizer: quem escreveu isso aí em cima não fui eu. O autor chama-se Yann Martel, um espanhol de 52 anos formado em filosofia e residente no Canadá, como Pi. Pode ser lido nas páginas 29 e 30 do livro “As aventuras de Pi”, tal como publicado pela Nova Fronteira em 2012, com tradução de Maria Helena Rouanet do livro “Life of Pi”, lançado em 2001 e que, no ano seguinte, ganhou o prêmio Man Booker. Antes de chegar ao Brasil, o livro já havia sido traduzido em 40 idiomas e vendido mais de 7 milhões de exemplares.

Antes de ler o livro, tomei conhecimento da história, no filme de mesmo nome lançado em 2012. Vencedor de quatro Oscars, inclusive o de Melhor Diretor, para Ang Lee, um taiwanês radicado nos Estados Unidos.

O livro não tem nada da pieguice do filme que custou 100 milhões de dólares e  encantou outros milhões mundo afora. O que falta em pieguice no livro, sobra em filosofia, a condimentar uma história dramática, mas com saborosas pitadas de humor. Se o filme ostenta quatro Oscars, o livro integrou merecidamente, por mais de um ano, a lista dos mais vendidos do New York Times. Mais um trechinho, para quem ainda não leu:

“Num verão, tive a sorte de poder estudar as preguiças-de-três dedos in loco, nas florestas tropicais do Brasil. Trata-se de uma criatura extremamente intrigante. O seu único hábito efetivo é a indolência. Ela dorme ou descansa em média vinte horas por dia.”

Já selecionaram o tucano como símbolo de um partido político por aqui. Espero que ninguém escolha a preguiça-de-três dedos como símbolo do Brasil. Definitivamente, não é!

Espero ainda que o leitor do livro passe a respeitar mais os zoológicos. Para que eles não venham a desaparecer como aquele em que nasceu e viveu Piscine Molitor Patel, o Pi. O Zoológico de Pondicherry, na Índia, foi fundado por Santosh Patel, o pai do Pi. Era um zoológico imenso que se estendia por vários acres e que empregava 53 pessoas. Mas a prefeitura, que havia cedido gratuitamente o terreno na década de 1950, pediu-o de volta logo após Indira Gandhi decretar estado de emergência e passar a governar o país de forma quase ditatorial. Santosh não concordava com essa política e resolveu emigrar para o Canadá. Embarcou com a mulher e os dois filhos num velho cargueiro japonês com bandeira do Panamá, levando junto seus animais. O navio afundou numa noite tempestuosa. Só escaparam, num barco salva-vidas, uma orangotango, uma hiena, um tigre de Bengala e Pi. Amontoados, os quatro trataram, a seu modo, de sobreviver no Oceano Pacífico. Metade conseguiu.

Segundo a Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil, o país conta com 124 zoológicos, mais da metade deles na Região Sudeste. No Norte, onde fica a Amazônia com sua rica fauna extremamente ameaçada, são apenas 11. Um número pequeno, 124, para um país tão grande. Yann Martel que se apresse a voltar ao Brasil, se quiser ver mais uma vez, in loco, outras preguiças-de-três dedos.

As Aventuras de Pi (Original: Life of Pi, de 2001)
Yann Martel
Ed. Nova Fronteira
424 páginas
De R$ 9,90 a R$ 34,90

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