‘Ninguém é racista no Brasil’, por Graziele Martins

O texto escrito pela designer gráfico Graziele Martins merece ser lido e compartilhado por todos. Que este Mês da Consciência Negra desperte reflexões importantes como estas em toda a sociedade. Diga NÃO ao racismo!

Vamos ao texto dela. Os grifos em negrito são meus, só pra destacar as partes mais absurdas do que ela viveu:

 

“Ninguém é racista, mas aos 5 anos eu fui vítima de racismo sem nem saber do que se tratava. A mãe de uma garotinha (da mesma idade) a tirou de perto de mim na piscina que brincávamos no clube com os dizeres: ‘Não quero você brincando com essa neguinha’.

Ninguém é racista, mas, aos 13, um colega de escola que não ia com minha cara gritou aos berros: ‘Macaca preta!’ Aos 17 eu entrei na faculdade (através do ProUni) e minha vaga era de cotas para negros, já que na ficha de inscrição eu não me enquadrava nas categorias de cores que ali estavam: eu não era branca, nem amarela, nem parda, eu era negra. A faculdade exigiu que eu comprovasse minha cor, se nem na minha certidão de nascimento estava escrito: cor negra. Fui obrigada a escrever uma carta de próprio punho explicando que minha cor era negra e era assim que eu me considerava.

Ninguém é racista, mas aos 18, numa loja de departamentos, a vendedora (branca) me perseguia por achar que eu não tinha condições de comprar nada ali… Aos 25, uma mulher branca deixou de sentar ao meu lado, o único lugar vazio dentro de um ônibus lotado, com aquele olhar de superioridade, e disse em tom de voz baixo: ‘Não gosto de preto’. E, em seguida, sentou-se com medo de encostar em mim…

Ninguém é racista, mas no ano passado eu fui a uma festa (predominante de pessoas brancas) e eu era a única negra do local, quase um evento à parte. Perdi as contas de quantas pessoas ‘elogiaram’ minha cor, meu cabelo. Um rapaz (branco, claro) disse que nunca tinha ficado com uma mulher da minha cor (eu não seria a primeira, com certeza).

Ninguém é racista, mas olha com cara de desprezo quando um negro se aproxima, ou infelizmente com olhar de medo, já que os negros são sempre marginalizados na nossa sociedade…

Ninguém é racista, mas não dá credibilidade quando vê um negro em um cargo que ‘deveria ser de um branco’. Quantas vezes você duvidou da capacidade de um médico, advogado negro? Quantos profissionais dessas áreas, negros, você conhece? Quantos negros trabalhavam na mesma empresa que você?

Ninguém é racista, o Brasil não é racista, mas os números (infelizmente) não mentem, a maioria da população morta é de negros, a maioria dos feminicídios são com vítimas negras (sem contar os casos de solidão de mulheres negras), quantos casos de racismo acontecem todos os dias? Tem gente que se mata por causa da cor da pele, mas o nosso país não é racista, ‘somos um povo miscigenado, cheio de misturas’, mas as estatísticas de desigualdade racial são alarmantes….

Ninguém é racista, mas tem gente achando que o William Waack foi ‘pego de surpresa’, não cometeu racismo, afinal, quem nunca disse isso em tom de brincadeira quando se referia a um negro, não é mesmo? Tem gente achando que a Rede Globo cumpriu um papel democrático ao ‘retirar ele do ar’. Gente, a Globo é racista, tirar o âncora do jornal é só uma forma de a emissora ‘se preservar’, não um ato para combater o racismo.

Ninguém é racista, mas eu já fui racista com os brancos, já que a maioria das minhas referências infantis eram de pessoas brancas. Eu tinha que acreditar todo dia, e ainda tenho, que a cor da minha pele não determina o meu caráter, nem a minha capacidade, muito menos superioridade… Ser negro num país racista é um ato de coragem diário. Se reconhecer como negro é ainda mais corajoso. Talvez você diga que eu não sou negra (já que tenho pele clara), mas é assim que eu me considero, uma mulher negra. Reconheço que tenho privilégios que os outros negros não tem, o que muito me entristece, mas, ainda sim, sou negra, sem medo de ser.

Ninguém nasce racista, nenhuma criança é racista, ela vai aprender com os demais ao seu redor, portanto, eu ainda tenho esperanças nessa nova geração que vem por aí. Pais de crianças negras, eu tenho um orgulho imenso de vocês, ensine a elas o quanto são lindas e capazes!

Precisamos falar de racismo (não somente em casos como o vídeo vazado de um jornalista, não só quando algum ator/atriz é atacado em suas redes sociais…). Precisamos ler mais sobre racismo, racismo reverso (velado), colorismo, preterimento, objetificação dos negros… Existe um mundo de temas que precisam ser debatidos, em escolas, bares, onde for.

Racismo tem que ser pauta diária, as pessoas precisam reconhecer que têm preconceito para que assim (talvez) mude algo, mude o olhar. Se a gente começar a olhar de outra forma, talvez mude (de maneira bem singela) esse preconceito que mata, fere, denigre, dói, corrói.

Li uma vez que ‘se a coisa tá preta, a coisa tá é boa’. É assim que tem que ser, ser negro é lindo. A cor da minha pele jamais pode superar o ser humano que há por trás, jamais. #racismoécrime #racistasnãopassarão”

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3 comentários sobre “‘Ninguém é racista no Brasil’, por Graziele Martins

  1. Texto incrível é tristemente verdadeiro pera muita gente – sou branca em uma família miscigenada, nunca sofri preconceito mas na infância sofri bullying porque não entedia que meu colega da pré escola era negro e que como braba eu não podia ser amiga dele. Para mim ele era igual meu avô materno. Descoberto o racismo é descobrir o desamor.

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  2. O racismo não é um estado natural ele é aprendido é naturalizado. Aprendido na escola com a conivência dos adultos que achavam estranho a menina Lourinha ser amiga do garoto negro. Demorou muitos anos para eu pensar nesse ocorrido e entender os mecanismos em ação ali para me moldar e moldar a ele como se fôssemos de planetas diferentes por conta da cor da pele.

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    • Também acho que as crianças nascem sem qualquer noção de racismo. Mas ele é incutido bem cedo na cabeça delas. Um exemplo que a Grazi trouxe no texto dela: as bonecas, sempre brancas, loiras, de olhos azuis. Coisa mais difícil do mundo é achar bonecas negras nas lojas. Depois vêm os programas de TV, os anúncios, a ausência de negros na sala de aula, e por aí vai…

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